O Leopardo
Capítulo 42
BEAVIS
Foi uma reação automática; Harry simplesmente não conseguiu detê-la.
Quando o rosto rechonchudo do perito técnico Bjørn Holm surgiu no vão da porta de Tony Leike e Harry viu outros peritos em plena atividade de busca por trás dele, ele entendeu numa fração de segundo o que tinha acontecido e tudo ficou preto.
Ele só sentiu a punhalada suplantar-se pelo braço e pelo ombro e a dor nos ossos da mão. Quando reabriu os olhos, Bjørn Holm estava de joelhos no corredor, com sangue jorrando do nariz, entrando na boca e pingando do queixo.
Os dois policiais da Delta haviam pulado para a frente, apontando suas armas para Holm, mas estavam claramente confusos. Eles provavelmente reconheceram seu gorro rastafári, entendendo que os outros em trajes brancos faziam parte do grupo de peritos na cena do crime.
— Avise que a situação está sob controle — disse Harry ao homem com o número 3 no peito. — E que o suspeito foi preso. Por Mikael Bellman.
Harry estava afundado na cadeira, com as pernas esticadas, quase alcançando a mesa de Gunnar Hagen.
— E bem simples, chefe. Bellman ficou sabendo que a gente estava prestes a prender Tony Leike. Droga, a sala da promotoria fica logo do outro lado da rua da Kripos, no mesmo prédio que a Perícia Técnica. Era só dar uns passinhos para o outro lado e conseguir um mandado de um dos promotores de lá, provavelmente resolvido em dois minutos, enquanto eu tive que esperar durante duas malditas horas!
— Não precisa gritar — disse Hagen.
— Você não precisa, mas eu preciso! — gritou Harry e deu um soco no braço da cadeira. — Merda! Merda! Merda!
— Seja grato que Holm não quer dar queixa contra você. Aliás, por que bateu nele? Foi ele que vazou a informação?
— Algo mais, chefe?
Hagen olhou para seu inspetor. Balançou a cabeça.
— Tire uns dias de folga, Harry.
Truls Berntsen tinha sido chamado de muitas coisas durante sua juventude. A maioria dos apelidos já estava esquecida. Mas depois do ensino médio, nos anos de 1990, um ficou: Beavis.
Aquele idiota do desenho animado da TV. Tinha cabelo loiro, maxilar inferior protuberante e ria soltando grunhidos. Ok, talvez sua risada fosse assim. Era assim desde a escola primária, especialmente quando alguém apanhava. Ele tinha lido num gibi que o cara que havia criado Beavis and Butt-Head se chamava Judge; não se lembrava do primeiro nome. Mas, então, esse Judge disse que imaginava que o pai de Beavis fosse um bêbado que batia no filho. Truls Berntsen lembrou-se de ter jogado o gibi no chão da loja e sair rindo daquela maneira mesma, soltando grunhidos.
Ele tinha dois tios que eram policiais, e conseguira satisfazer os requisitos da Academia de Polícia por um triz e com duas recomendações. Ele passou na prova com a ajuda de pelo menos uma mãozinha do cara ao lado dele. Era o mínimo que podia fazer, afinal eram amigões desde a infância. Bem, talvez amigões não fosse o termo correto. Para ser franco, Mikael Bellman tinha sido seu chefe desde que tinham 12 anos e costumavam se encontrar no terreno baldio que estava sendo dinamitado lá em Manglerud. Bellman o tinha pegado em flagrante quando tentava botar fogo num rato morto. E Bellman lhe havia mostrado que era muito mais divertido enfiar uma banana de dinamite pela boca do rato. Ele havia até deixado Truls acender. E desde aquele dia, ele tinha seguido Mikael Bellman aonde quer que fosse. Quando era permitido. Mikael era craque em tudo o que Truls não sabia fazer. Na escola, nas aulas de educação física, no modo de falar para que ninguém o perturbasse. Ele tinha até garotas, uma delas tinha um ano a mais que ele e peitos que Mikael podia apalpar à vontade. Só numa coisa Truls era melhor: apanhar. Mikael sempre recuava quando alguns garotos maiores ficavam de saco cheio das suas provocações e vinham atrás dele, de punhos cerrados. Então, ele empurrava Truls na sua frente. Porque Truls sabia apanhar. Ele tinha sido treinado em casa. Podiam surrá-lo até o sangue escorrer, mas ele continuava em pé, com seu riso de grunhidos que só fazia aumentar a raiva deles. Mas não conseguia se controlar, tinha de rir. Sabia que Mikael lhe daria um tapinha no ombro de reconhecimento, e, se fosse domingo, Mikael podia dizer que Julle e Te-Ve iam apostar corrida de novo. Então iam até a ponte em baixo do cruzamento de Ryen, sentindo o cheiro de asfalto queimado pelo sol enquanto ouviam os motores das Kawasaki 1000 acelerarem, as líderes de torcidas gritando. Depois, as motos de Julle e Te-Ve viriam descendo como jatos a autoestrada de domingo, sem trânsito, passariam por baixo deles e continuariam para o túnel e Bryn, e às vezes — se Mikael estivesse de bom humor e a mãe de Truls estivesse de plantão no hospital de Aker — iam almoçar na casa de D. Bellman.
Uma vez, quando Mikael tocou a campainha na sua casa, seu pai gritou a Truls que Jesus havia chegado para buscar seu discípulo.
Nunca brigavam. Quer dizer, Truls nunca revidava se Mikael estivesse de mau humor e o ofendia. Nem na festa em que Mikael o chamou de Beavis e todos haviam caído na gargalhada, quando Truls instintivamente entendeu que o apelido ia pegar. Truls só revidou uma única vez. Foi quando Mikael chamou seu pai de um dos bebuns da fábrica da Kadok. Truls se levantou e foi até Mikael com os punhos em riste. Mikael se encolheu com uma mão por cima da cabeça, pedindo com um riso para ele relaxar, que era só brincadeira e pedia desculpas. Mas depois foi Truls que se sentiu mal e se arrependeu.
Um dia, Mikael e Truls entraram num posto de gasolina onde sabiam que Julle e Te-Ve roubavam gasolina. Julle e Te-Ve só enchiam os tanques das Kawasakis nas bombas de autoatendimento com as namoradas sentadas atrás, suas jaquetas jeans casualmente amarradas na cintura cobrindo o número das placas. Então os garotos subiam nas motos pisando no acelerador.
Mikael deu ao dono do posto o nome e endereço de Julle e Te-Ve, mas só de uma das garotas, a namorada de Te-Ve. O dono do posto parecia desconfiado, achando que talvez tivesse visto Truls numa das câmeras de segurança, pelo menos parecia o rapaz que tinha roubado um galão de gasolina pouco antes do incêndio do alojamento dos operários do terreno em Manglerud. Mikael disse que ele não queria nenhuma recompensa pelas informações, só queria que os culpados respondessem pelo que haviam feito. Ele também supunha que o dono do posto estivesse ciente da sua responsabilidade cívica. O homem fez que sim, um tanto perplexo. Mikael sabia persuadir as pessoas. Quando foram embora, Mikael disse que depois do ensino médio queria entrar para a Academia de Polícia e que Beavis devia pensar em fazer o mesmo — ele até tinha parentes na instituição.
Pouco tempo depois, Mikael começou a namorar Ulla, e eles se viram menos. Mas depois da escola e da Academia de Polícia, os dois conseguiram empregos na mesma delegacia em Stovner, bem no subúrbio leste de Oslo, com gangues criminais, assaltos e até um e outro assassinato. Depois de um ano, Mikael casou com Ulla e se tornou chefe de Truls, ou Beavis, como foi chamado desde o terceiro dia, e o futuro parecia bom para Truls e brilhante para Mikael. Até que um babaca, um civil que estava como temporário no departamento financeiro, acusou Bellman de ter quebrado seu queixo depois da festa de Natal. Ele não tinha nenhuma prova, e Truls sabia que Mikael não tinha feito aquilo. Mas no meio do rebuliço Mikael pediu transferência para o exterior e conseguiu um emprego na Europol, mudou-se para a sede em Haia, onde não demorou a se tornar uma estrela.
Quando Mikael voltou à Noruega e à Kripos, a segunda coisa que fez foi ligar para Truls e dizer:
— Beavis, está pronto para voltar a detonar ratos?
A primeira coisa foi empregar Jussi.
Jussi Kolkka era especialista em meia dúzia de técnicas de luta cujos nomes você esquece antes de serem totalmente pronunciados. Ele tinha trabalhado para a Europol durante quatro anos, e antes disso fora policial em Helsinki. Jussi Kolkka teve que sair da Europol porque havia extrapolado durante a investigação de uma série de estupros de meninas adolescentes no sul da Europa. Diziam que Kolkka havia surrado tanto um molestador que até o advogado do acusado teve problemas em reconhecê-lo. Mas não em ameaçar a Europol com um processo. Truls havia tentado fazer Jussi contar os detalhes mais interessantes, mas ele só o tinha encarado sem dizer nada. Certo, Truls também não era do tipo de falar muito. E ele havia percebido que falar pouco aumentava as chances das pessoas te subestimarem. O que nem sempre caía tão mal. Não importa. Esta noite tinham motivo para festejar. Mikael, ele mesmo, Jussi e a Kripos haviam vencido. E na ausência de Mikael, quem ficava no comando eram eles.
— Cale a boca! — gritou Truls e apontou para a TV na parede sobre o bar no café Justisen. E ouviu os grunhidos da própria risada nervosa quando os colegas de fato obedeceram ao que ele havia mandado. Fez-se um silêncio em volta das mesas e no balcão do bar. Todos estavam concentrados no âncora do noticiário que olhava diretamente para a câmera, anunciando o que estavam esperando:
— Hoje, a Kripos prendeu um homem suspeito de cinco assassinatos, entre eles o de Marit Olsen.
O júbilo foi geral, as canecas de chope foram erguidas e brindes feitos, abafando o resto do noticiário, até uma voz grave com sotaque finlandês-sueco trovar:
— Fecha a matraca, porra!
O pessoal da Kripos obedeceu e dirigiu a atenção a Mikael Bellman, que estava na frente do prédio deles em Bryn com um microfone enfiado na cara.
— A pessoa em questão é suspeita, será interrogado pela Kripos e depois detida preventivamente — disse Mikael Bellman.
— Isso quer dizer que a polícia já solucionou esse caso?
— Encontrar o culpado e condená-lo são duas coisas diferentes — rebateu Bellman com um leve sorriso nos cantos da boca. — Mas nossa investigação aqui na Kripos já revelou tantos indícios e tantas coincidências que achamos apropriado fazer a prisão de imediato, já que havia risco de outros crimes e adulteração das provas.
— O detido tem 30 e poucos anos. Pode dizer mais sobre ele?
— Ele já tem uma condenação por agressão violenta, é só o que posso dizer.
— Na internet há rumores sobre a identidade dele. Sugerem que seja um investidor conhecido que, entre outras coisas, é noivo da filha de um famoso armador da marinha mercante. Pode confirmar esses rumores, Bellman?
— Acho que não preciso confirmar ou negar nada além de que nós da Kripos estamos confiantes em conseguir um desfecho do caso em breve.
O repórter virou-se para a câmera para concluir, mas foi abafado pelos aplausos no Justisen.
Truls pediu mais um chope, e um dos investigadores subiu numa cadeira e proclamou que a Divisão de Homicídios podia chupar seu pau, pelo menos a cabeça, se pedisse de joelhos. As gargalhadas trovejaram no balcão abarrotado fedendo a suor.
Nesse instante, a porta se abriu e, no espelho, Truls viu uma figura preencher o vão da porta.
A visão deu-lhe uma estranha excitação, uma certeza trêmula de que algo estava para acontecer, e que alguém ia se machucar.
Era Harry Hole.
Alto, ombros largos, rosto magro, os olhos injetados fundo nas órbitas. Ele não se mexeu. E mesmo assim — sem alguém ter que gritar para se calarem — o silêncio espalhou-se por todo o Justisen, até ouvirem um último “shhh” a dois peritos técnicos tagarelas. Quando o silêncio por fim se fez total, Hole falou:
— Então estão festejando que conseguiram roubar o trabalho que já fizemos?
As palavras vieram baixinho, quase sussurradas, mas cada sílaba ressoou no balcão.
— Estão festejando por ter um chefe que está disposto a passar por cima de cadáveres, tanto aqueles que já estão empilhados lá fora quanto aqueles que logo serão carregados para fora do sexto andar da sede da polícia, só para poder ser o Rei-Sol da porra de Bryn. Bacana. Então tomem uma nota de 100.
Truls viu Hole segurar uma nota.
— Não vão precisar roubar esta. Tomem, comprem chope, perdão, um vibrador para o trio de Bellman…
Ele amassou a nota e jogou-a no chão. No canto do olho, Truls viu que Jussi já estava entrando em ação.
— ...Ou outro dedo-duro.
Hole deu um passo de lado para se equilibrar e só então Truls entendeu que o cara — apesar de falar com a clareza de um padre — estava de porre.
No instante seguinte, Harry deu uma meia pirueta quando o gancho de direita de Jussi Kolkka o acertou no queixo esquerdo, e depois, uma reverência profunda, quase galante, quando o punho esquerdo do finlandês enterrou-se no seu plexo solar. Truls anteviu que Hole em poucos segundos — assim que tivesse recuperado um pouco de ar nos pulmões — ia vomitar. Ali dentro. E pelo visto, Jussi teve o mesmo pensamento, que seria melhor se isso acontecesse lá fora. Foi impressionante ver aquele rechonchudo finlandês troncudo erguer o pé com a elasticidade de uma bailarina, encostá-lo no ombro de Harry e empurrar com cuidado, alavancando o policial encolhido para trás e para fora pela mesma porta por onde havia entrado.
Os mais bêbados e jovens gritavam de tanta gargalhada, mas Truls grunhiu. Dois dos mais velhos levantaram a voz, e um gritou que Kolkka, porra, devia se comportar. Mas ninguém fez nada. Truls sabia por quê. Todos ali presentes se lembravam da história. Harry havia levado o uniforme para a sarjeta, feito merda das grandes, ao matar um dos seus melhores homens.
Jussi marchou solenemente até o balcão, como se tivesse levado o lixo para fora. Truls relinchou e grunhiu. Ele nunca compreenderia os finlandeses ou lapões e esquimós ou seja lá quem fossem.
No fundo do recinto, um cara se levantou e foi até a porta da saída. Truls não tinha visto ele na Kripos antes, mas tinha pinta de policial por baixo do escuro cabelo encaracolado.
— Me avise se precisar de alguma ajuda com ele, delegado — gritou alguém da sua mesa.
Três minutos mais tarde, quando Celine Dion novamente soava pelos alto-falantes e o papo fluía como antes, Truls aventurou-se para a frente, pisou na nota de cem e levou-a até o balcão.
Harry recuperou o ar. E vomitou. Uma, duas vezes. Depois esmaeceu de novo. O asfalto estava tão gelado que queimava o corpo através da camisa, e ao mesmo tempo tão pesado que parecia que era ele que o suportava e não o contrário. No interior das pálpebras dançavam manchas vermelhas e vermes sinuosos e pretos.
— Hole?
Harry ouviu a voz, mas sabia que se ele mostrasse que estava consciente, o caminho estaria livre para ser chutado. Por isso ficou de olhos fechados.
— Hole? — A voz já estava mais perto e ele sentiu a mão no ombro.
Harry também sabia que o álcool ia reduzir a rapidez, a precisão do ataque e a percepção da distância, mas ele agiu mesmo assim. Ele abriu os olhos, girou e desferiu um golpe mirando a garganta. Depois caiu outra vez.
Ele tinha errado em meio metro.
— Vou chamar um táxi — disse a voz.
— Vai se foder — gemeu Harry. — Se manda, maldito rato.
— Não sou da Kripos — explicou a voz. — Meu nome é Krongli. Delegado de Ustaoset.
Harry se virou e olhou para ele.
— Só bebi um pouco demais — disse Harry com voz rouca, tentando respirar com calma para que as dores no estômago não o fizessem vomitar de novo. — Nada grave.
— Também estou um pouco bêbado — disse Krongli, sorrindo, e pôs um braço em volta do ombro de Harry. — E para ser franco, não faço ideia de onde arrumar um táxi. Consegue ficar em pé?
Harry se apoiou com um pé, depois com o outro, piscou algumas vezes e constatou que pelo menos estava novamente na vertical. E meio abraçado a um delegado de Ustaoset.
— Onde vai dormir esta noite? — perguntou Krongli.
Harry olhou-o de soslaio:
— Em casa. E de preferência sozinho, se tudo bem para você.
Naquele momento, um carro da polícia parou na frente deles, e o vidro lateral desceu. Harry ouviu o final de uma gargalhada e depois uma voz calma:
— Harry Hole, Homicídios?
— Eu — suspirou Harry.
— Acabamos de receber uma ligação de um investigador da Kripos mandando levar você para casa.
— Abre a porta, então!
Harry sentou-se no banco de trás, pôs a cabeça no encosto, fechou os olhos, sentindo tudo começar a girar, mas preferiu isso a ter que ver os dois homens nos bancos da frente olhando para ele. Krongli pediu para ligarem para um número quando “Harry” estivesse são e salvo em casa. Que porre fez aquele cara pensar que fosse seu amigão? Harry ouviu o zunido do vidro levantar, e depois a voz agradável do assento na frente perguntar:
— Onde mora, Hole?
Quando Harry sentiu o carro começar a andar, abriu os olhos, virou-se e viu Aslak Krongli ainda na calçada da Møllergata.