O Leopardo
Capítulo 57
TROVÃO
Bjørn Holm e Beate Lønn estavam ao lado da bancada de aço no laboratório, olhando as calças azul-marinho diante deles.
— É sem dúvida uma mancha de sêmen — declarou Beate.
— Ou um traço de sêmen — completou Bjørn Holm. — Repare no formato.
— Muito pouco para uma ejaculação. Parece que um pênis ereto e molhado foi empurrado sobre as nádegas da pessoa que estava vestindo as calças. Você disse que Bruun provavelmente é homossexual?
— Sim, mas ele diz que não usou mais as calças desde que as emprestou a Adele.
— Então eu diria que temos manchas de sêmen típicas de estupro. É só mandar para uma análise de DNA.
— De acordo. O que acha disso? — Holm apontou para a calça de hospital azul-clara, com duas manchas esfregadas embaixo dos bolsos de trás.
— O que é?
— Algo que não sai lavando. É um material à base de nonilfenol chamado vidro de fosfossilicato, ou PSG. É usado, entre outras coisas, em produtos de lavar carros.
— Ela deve ter sentado em cima.
— Não só sentado, está penetrado nas fibras, deve ter esfregado. Com força. Assim. — Ele balançou os quadris.
— Certo. Alguma teoria sobre o motivo?
Ela tirou os óculos e olhou para Holm, vendo sua boca se distorcer de várias formas para articular expressões que seu cérebro formou e rejeitou no mesmo instante.
— Estavam se roçando? — perguntou Beate.
— É — disse Holm, aliviado.
— Está bem. E onde e quando uma mulher, que não trabalha no hospital, veste uma roupa de enfermeira e fica se roçando com alguém em cima de PSG?
— Simples — disse Bjørn Holm. — Num encontro noturno numa fábrica de PSG abandonada.
As nuvens se dissiparam, e eles estavam de novo banhados pela mágica luz azul onde tudo, até as sombras, ficou fosforescente, congelado como num quadro de natureza-morta.
Kolkka já havia se deitado, mas Harry supunha que o finlandês estivesse no quarto de olhos abertos e os outros sentidos em alerta máximo.
Kaja estava sentada à janela apoiando o queixo na mão e olhando para fora. Ela vestia o pulôver branco, pois só estavam com os aquecedores elétricos acesos. Acharam que podia parecer suspeito se saísse fumaça da chaminé dia e noite, só com duas pessoas no lugar.
— Se alguma vez sentiu falta do céu estrelado de Hong Kong, então olhe para fora agora — disse Kaja.
— Não me lembro do céu estrelado — comentou Harry e acendeu um cigarro.
— Não sente falta de nada de Hong Kong?
— O macarrão celofane de Li Yuan — respondeu Harry. — Todo dia.
— Você está apaixonado por mim? — Ela havia baixado a voz só um pouco e olhou atentamente para ele enquanto prendia o cabelo com um elástico.
Harry examinou seus sentimentos.
— Nesse instante, não.
Ela riu com uma expressão de surpresa.
— Nesse instante, não? O que você quer dizer com isso?
— Que aquela parte de mim está desligada enquanto estivermos aqui.
Kaja balançou a cabeça.
— Você tem problemas, Harry.
— Sobre isso — comentou Harry, esboçando um sorriso — não há dúvida alguma.
— E quando esse trabalho terminar, daqui a… — Ela olhou o relógio. — Dez horas?
— Então, talvez me apaixone por você de novo — disse Harry e pôs a mão na mesa ao lado da mão dela. — Se não antes.
Kaja olhou para as mãos, a de Harry e a sua. Viu como a dele era tão maior. Como a sua era muito mais delicada. Como a dele era mais pálida e nodosa, com veias grossas serpenteando sobre as costas da mão.
— Quer dizer que poderia se apaixonar antes de terminarmos esse trabalho? — Ela pôs a mão por cima da dele.
— Eu quis dizer que o trabalho pode ter terminado antes…
Ela retirou a mão.
Harry olhou para Kaja, surpreso.
— Só quis dizer…
— Escute!
Harry prendeu a respiração e prestou atenção. Mas não ouviu nada.
— O que foi?
— Parecia um carro — disse Kaja e espreitou o exterior. — O que acha?
— Acho improvável — respondeu Harry. — Estamos a 10 quilômetros longe da estrada mais próxima. Que tal um helicóptero? Ou uma motoneve?
— Ou talvez minha própria cabeça hiperativa? — Kaja suspirou. — O som desapareceu. E, pensando bem, talvez nunca tivesse existido. Sinto muito, mas é fácil ficar um pouco hipersensível quando se está levemente apreensiva e…
— Não — disse Harry e sacou o revólver do coldre. — Devidamente apreensiva, devidamente sensível. Descreva o que você ouviu. — Harry se levantou e foi até a outra janela.
— Nada, já te disse!
Harry entreabriu a janela.
— Seu ouvido é melhor que o meu. Ouça por nós dois.
Ficaram ouvindo o silêncio. Os minutos passaram.
— Harry…
— Shhh.
— Venha e sente aqui de novo, Harry.
— Ele está aqui — Harry, declarou baixinho como se falasse consigo mesmo. — Ele está aqui agora.
— Harry, agora é você que está hipersens…
Houve um estrondo abafado. O som era baixo, profundo, meio lento, sem vibração, como um trovão distante. Mas Harry sabia que trovões raramente ocorrem com céu limpo e sete graus negativos.
Ele prendeu a respiração.
E então ouviu. Outro estrondo, diferente do primeiro mas também em baixa frequência, como ondas sonoras de uma caixa amplificadora, ondas sonoras que movem o ar, que se sente no estômago. Harry só ouvira esse som uma vez antes, mas sabia que iria se lembrar dele pelo resto da vida.
— Avalanche! — gritou Harry e correu para a porta do quarto de Kolkka, que virava para o lado da encosta. — Avalanche!
A porta do quarto se abriu e lá estava Kolkka, bem desperto.
Sentiram o chão tremer. Era uma avalanche grande. Porém, mesmo que a cabana tivesse um porão, Harry sabia que nunca iam ter tempo de chegar lá. Porque atrás de Kolkka cacos do que costumava ser uma janela voavam sobre eles, pressionados pelo ar que grandes avalanches empurram em sua frente.
— Segurem as minhas mãos! — gritou Harry por cima do estrondo e as estendeu, uma para Kaja e outra para Kolkka. Ele viu os dois correrem em sua direção no momento em que o ar foi puxado para fora da cabana, como se a avalanche respirasse, primeiro para fora e agora para dentro. Sentiu a mão de Kolkka agarrar a sua com força e esperou a de Kaja. Então a parede de neve caiu sobre a cabana.