O Leopardo
Capítulo 76
REDEFINIÇÃO
– O que está me dizendo? — disse Harry e apertou o telefone com mais força junto ao ouvido, como se a falha fosse do aparelho.
— Estou dizendo que o corpo embaixo da motoneve não é de Tony Leike — repetiu Krongli.
— De quem é então?
— Odd Utmo. Um guia local recluso. Ele sempre usava a mesma camisa de flanela vermelha. E a motoneve é dele. Mas foram os dentes que me fizeram resolver a charada. Um único dente podre. Deus sabe onde foram parar o resto dos dentes e o aparelho ortodôntico.
Utmo. Aparelho ortodôntico. Harry lembrou-se de Kaja contando sobre o guia local que a havia levado de motoneve para a cabana de Håvass.
— Mas e os dedos — disse Harry. — Não estão retorcidos?
— Estão, sim. Utmo sofria muito de artrite, coitado. Foi Bellman quem pediu para eu ligar e informar a você diretamente. Não foi exatamente o que esperava, Hole?
Harry afastou a cadeira da mesa.
— Não era o que eu previa. Pode ter sido um acidente, Krongli?
Mas ele sabia da resposta antes de ouvi-la. Aquela noite estava clara; mesmo sem luz seria impossível não ver aquele despenhadeiro. Especialmente para um guia local. Especialmente quando andava tão devagar que ele, de uma queda perpendicular de 70 metros, só caiu a 3 metros da encosta.
— Deixa para lá, Krongli. Conte sobre as queimaduras.
Ele ficou quieto um momento antes de responder.
— Os braços e as costas. A pele dos braços estava arrebentada, com a carne exposta. Partes das costas estão chamuscadas. E na queimadura entre as escápulas ficou gravada uma marca…
Harry fechou os olhos. Pensou na marca do fogão na cabana. Os pedaços de gordura fumegando.
— Parece um veado. Mais alguma coisa, Hole? Temos que começar a remover…
— Não, é só, Krongli. Obrigado.
Harry desligou. Ficou um tempinho ruminando. Não era Tony Leike. Claro, isso alterava os detalhes, mas não a história geral. Utmo foi possivelmente uma vítima da vingança de Altman, alguém que de alguma forma tinha ficado em seu caminho. Eles tinham o dedo de Tony Leike, mas onde estava o resto do corpo? Uma ideia ocorreu a Harry. Se ele estivesse morto. Teoricamente, Tony Leike podia estar sendo mantido preso em algum lugar. Um lugar que só Sigurd Altman conhecia.
Harry digitou o número de Skai.
— Ele se nega a falar — respondeu Skai, que estava mastigando alguma coisa. — A não ser com o advogado.
— E quem é?
— Johan Krohn. Conhece o cara? Parece um moleque e…
— Conheço Johan Krohn muito bem.
Harry ligou para o escritório do advogado. A voz de Krohn era gentil e reservada, adequada para um advogado de defesa profissional ao atender uma autoridade pública. Ele ouviu Harry. Então respondeu.
— Infelizmente, a não ser que você tenha uma prova concreta que evidencie a probabilidade de meu cliente estar mantendo uma pessoa presa ou colocando alguém em risco por não informar seu paradeiro, não posso permitir que fale com Sigurd Altman neste momento, Hole. Você alega ter acusações graves contra ele, e não preciso dizer que é meu trabalho proteger os interesses do meu cliente da melhor forma possível.
— De acordo — respondeu Harry. — Não precisava me dizer.
Desligaram.
Harry olhou para o centro da cidade pela janela da sua sala. A cadeira era confortável, sem dúvida. Mas seu olhar se deteve na familiar casa de vidro em Grønland.
Então digitou outro número.
Katrine Bratt estava alegre como um pássaro e trinava como um.
— Vou ter alta em poucos dias — contou ela.
— Pensei que estivesse aí por vontade própria.
— Estou, mas agora preciso receber alta oficialmente. E estou feliz por isso. Já me ofereceram um trabalho burocrático na delegacia quando terminar a licença médica.
— Ótimo.
— Queria alguma coisa em especial?
Harry explicou.
— Então você precisa encontrar Tony Leike sem a ajuda de Altman? — disse Katrine.
— Exato.
— Alguma ideia de onde devo começar a procurar?
— Só uma. Logo depois que Tony desapareceu, verificamos que ele não tinha reserva de hotel em Ustaoset ou nos arredores. Mas eu chequei os últimos anos mais detalhadamente, e ele não foi registrado em nenhuma acomodação na região, só um ou outro pernoite numa cabana de turistas. E isso é estranho, já que ele passava tanto tempo por lá.
— Talvez ele ficasse nas cabanas de turistas sem se registrar, para não ter que pagar.
— Ele não é desse tipo — disse Harry. — Eu me pergunto se Tony não tem alguma cabana na montanha que ninguém conheça.
— Ok. Mais alguma coisa?
— Não. Sim, claro, e ver o que pode encontrar sobre as atividades de Odd Utmo nos últimos dias de vida dele.
— Ainda está solteiro, Harry?
— Que pergunta é essa?
— Sua voz está soando menos solteira.
— É mesmo?
— É. Mas fica bem em você.
— É mesmo?
— Já que você perguntou, não.
Aslak Krongli endireitou as costas doloridas e olhou para o alto do penhasco.
Um dos caras do grupo de busca havia chamado e agora gritava de novo. Parecia agitado.
— Aqui!
Aslak praguejou baixinho. Os policiais haviam terminado de trabalhar na cena do crime, e tinham conseguido içar a motoneve e o corpo de Odd Utmo para fora do despenhadeiro. Havia sido um trabalho complexo e demorado, já que a única maneira de descer até ali era com corda, o que, por si só, já era bastante difícil.
No intervalo do almoço, um dos caras tinha contado o que uma das empregadas do hotel havia sussurrado em seu ouvido: que os lençóis no quarto de Rasmus Olsen, o marido da parlamentar morta, estavam vermelhos de sangue quando ele fez o check-out. Primeiro, ela pensou que fosse sangue de menstruação, mas depois ficou sabendo que Rasmus Olsen havia ficado ali sozinho e que a mulher estava na cabana de Håvass.
Krongli havia respondido que Rasmus podia ter levado uma outra mulher para o quarto, ou encontrado a esposa na manhã em que ela foi a Ustaoset e feito as pazes na cama. O cara havia murmurado que podia não ser sangue de menstruação.
— Aqui!
Que chatice. Aslak Krongli queria ir para casa. Jantar, tomar café, dormir. Deixar todo esse maldito caso para trás. A dívida que tinha em Oslo já havia sido paga, e ele nunca mais iria para lá. Nunca mais iria para aquele lamaçal. Desta vez cumpriria a promessa.
Eles haviam usado um cão farejador para ter certeza de encontrar todos os pedaços de Utmo na neve, e o animal de repente subiu e ficou latindo cem metros acima. Cem metros íngremes. Aslak avaliou a subida.
— Algo importante? — perguntou, gritando, e uma sinfonia de ecos ressoou entre as rochas.
Ele obteve a resposta, e dez minutos depois estava olhando para aquilo que o cão havia deixado à mostra após cavar na neve. Estava prensado entre as rochas, impossível de ser visto da beira do penhasco.
— Que horror — comentou Aslak. — Quem pode ter sido?
— Com certeza não é Tony Leike — disse o dono do cão. — Teria que ficar muito tempo nesse despenhadeiro gelado para se tornar um esqueleto tão limpo. Vários anos.
— Dezoito anos. — Foi Roy Stille. O assistente do delegado tinha ido atrás deles e parecia ofegante. — Ela esteve aqui por dezoito anos — continuou Roy, agachando-se.
— Ela? — perguntou Aslak.
O policial apontou para os quadris do esqueleto.
— A pélvis das mulheres é maior. Nunca conseguimos achar o corpo quando ela desapareceu. É Karen Utmo.
Krongli percebeu algo que ele nunca tinha ouvido na voz de Roy Stille. Um tremor. O tremor de um homem transtornado. De pesar. Mas seu rosto de granito estava como sempre, impassível, fechado.
— Jesus, então é verdade — disse o dono do cão. — Ela se jogou do despenhadeiro, inconsolável pela perda do filho.
— Pouco provável — rebateu Krongli. Os outros dois olharam para ele. Ele havia enfiado o mindinho dentro de um buraco redondo na testa do crânio.
— É… o buraco de uma bala? — perguntou o dono do cão.
— Exato — respondeu Stille, e tocou a parte de trás do crânio. — E não tem um buraco de saída, então aposto que podemos encontrar a bala dentro do crânio.
— E vamos apostar que a bala vinha da espingarda de Utmo? — disse Krongli.
— Jesus — repetiu o dono do cão. — Quer dizer que ele matou a mulher? Como é possível? Matar uma pessoa que já amou? Porque você acha que ela e seu filho… que inferno.
— Dezoito anos — falou o policial Stille e se endireitou, gemendo. — Faltavam sete anos até o assassinato ser considerado prescrito. É isso que chamo de ironia. Você fica sempre na espera com medo de ser descoberto. E os anos passam. E então, quando se aproxima da liberdade, bang! Você morre e acaba no mesmo despenhadeiro.
Krongli voltou a fechar os olhos e pensou que sim, é possível matar alguém que se amou. Sem problema. Mas, não, você nunca fica livre. Nunca. Ele nunca mais voltaria àquele lugar.
Johan Krohn gostava dos holofotes. Não é possível se tornar o advogado de defesa mais requisitado do país sem gostar deles. E quando ele, sem hesitar um segundo sequer, aceitou fazer a defesa de Sigurd Altman, o “Cavalheiro”, ele sabia que haveria mais holofotes do que nunca na sua até então notável carreira. Ele já havia alcançado a meta de superar seu pai em ser o advogado mais novo a aparecer diante da Suprema Corte. Como advogado de defesa, aos 20 e poucos anos ele foi proclamado uma nova estrela, o menino prodígio. Mas isso pode ter subido um pouco à cabeça; ele não estava acostumado com tanta atenção durante os tempos de escola. Tinha sido o CDF irritante que sempre erguia a mão na sala de aula um pouco avidamente demais, que socialmente sempre forçava um pouco a barra, e mesmo assim era sempre o último a saber onde seria a festa de sábado à noite — isso quando a informação chegava até ele. Mas agora, jovens assistentes e trainees davam risadinhas quando ele as elogiava ou sugeria um jantar depois do expediente. E choviam convites, tanto para dar palestras quanto para participar de debates no rádio e na TV, além de uma e outra première, que sua mulher tanto apreciava. Talvez esses eventos houvessem tomado demais sua atenção nos últimos anos. Pelo menos, ele havia notado certa redução no número de casos ganhos, casos grandes na mídia e clientes novos. Não tanto a ponto de ter começado a afetar sua reputação, mas o suficiente para ele saber que precisava de Sigurd Altman. Estava precisando de algo bastante notório para se colocar de volta onde devia estar: no topo.
Por isso, Johan Krohn ficou bem quieto ao ouvir o homem magro de óculos redondos. Ouviu Sigurd Altman contar uma história que não só era a menos provável que Krohn já tinha ouvido, mas também na qual acreditava. Johan Krohn já se via na sala do tribunal, o brilhante retórico, o agitador, o manipulador que, todavia, nunca perdia a justiça de vista, um deleite tanto para o leigo quanto para o juiz. Por isso, sua primeira reação foi de desapontamento quando Sigurd Altman revelou seus planos. Mas depois de lembrar o conselho tão repetido por seu pai, de que o advogado estava lá para ajudar o cliente, e não o contrário, ele aceitou o caso. Porque no fundo Johan Krohn não era má pessoa.
E quando Krohn deixou a prisão distrital de Oslo, para onde Sigurd Altman havia sido transferido no mesmo dia, ele viu novo potencial no caso, que de certa forma, apesar de tudo, era excepcional. A primeira coisa que fez quando voltou ao escritório foi entrar em contato com Mikael Bellman. Eles só haviam se encontrado uma vez antes — num caso de homicídio, claro —, mas Johan Krohn tinha entendido de imediato como lidar com Bellman. Um gavião reconhece o outro. Por isso sabia mais ou menos como Bellman estava se sentindo depois da manchete nos jornais sobre a detenção realizada pelo delegado de Ytre Enebakk.
— Bellman.
— Johan Krohn. É um prazer falar com você de novo.
— Bom dia, Krohn. — A voz parecia formal, mas não hostil.
— É? Imagino o que está sentindo por ter sido ultrapassado na reta final.
Pausa breve.
— Do que se trata, Krohn? — Dentes trincando. Furioso.
Johan Krohn sabia que ia conseguir.
Harry e Søs estavam quietos ao lado da cama do pai no Hospital Central. Na mesa de cabeceira e em duas outras mesas no quarto havia vasos com flores que tinham aparecido de repente nos últimos dias. Harry tinha dado uma volta, lendo os cartões dos remetentes. Em um deles estava escrito “Meu querido, querido Olav”, assinado “sua Lise”. Harry nunca tinha ouvido falar em Lise, muito menos passou pela sua cabeça que poderia haver outras mulheres na vida do pai além da mãe. Os outros cartões eram de amigos e vizinhos. Eles devem ter ouvido que o fim estava próximo. E apesar de saberem que Olav não podia lê-los, haviam enviado essas flores com cheiro adocicado para compensar o fato de não terem tido tempo de visitá-lo. Harry viu as flores que circundavam a cama como abutres rondando o moribundo. Cabeças dobradas e pesadas em finos pescoços de talos. Bicos vermelhos e amarelos.
— Não é permitido deixar o celular ligado aqui, Harry! — murmurou a irmã, severa.
Harry tirou o celular e olhou a tela.
— Sinto muito, Søs. É importante.
Katrine Bratt foi direto ao assunto.
— Sem dúvida, Leike esteve muitas vezes em Ustaoset e arredores — começou ela. — No último ano, ele comprou passagens de trem, pagou gasolina com cartão de crédito no posto de Geilo. O mesmo com mantimentos, a maior parte em Ustaoset. O que se destaca é uma fatura de material de construção, também em Geilo.
— Material de construção?
— Exato. Dei uma espiada na lista de faturas da loja. Tábuas, pregos, ferramentas, cabo de aço, blocos de concreto, cimento. Mais de 30 mil coroas. Mas foi há quatro anos.
— Está pensando o mesmo que eu?
— Que ele construiu um pequeno anexo ou algo parecido ali no alto?
— Ele não tinha cabana registrada no nome dele para construir um anexo, já verificamos. Mas você não compra comida se vai ficar em um hotel ou nas cabanas de turistas. Acho que Tony construiu ilegalmente um abrigo pequeno dentro da área do parque nacional, exatamente como era seu sonho, segundo me contou. Bem escondido na paisagem, claro. Um lugar onde podia ficar sozinho, sem ser incomodado por ninguém. Mas onde? — Harry percebeu que havia se levantado e estava andando de um lado a outro do quarto.
— Pois é, quem sabe — disse Katrine Bratt.
— Espere! Em que época do ano ele fez as compras?
— Deixe-me ver… A fatura é do dia seis de julho.
— Se a cabana tem que ficar escondida, deve estar longe das trilhas comuns. Algum lugar ermo sem estradas. Você mencionou cabo de aço?
— É. E posso imaginar para quê. Nos anos 1960, quando o pessoal de Bergen construía cabanas em Ustaoset nos lugares com muita ventania, eles usavam cabos de aço para ancorá-las.
— Então, a cabana de Leike estaria num lugar com muito vento, deserto, e ele tem que levar material de construção no valor de 30 mil coroas para lá. Pelo menos pesando umas duas toneladas. Como se faz isso no verão, quando não há neve e não se pode usar a motoneve?
— Cavalo? Jipe?
— Sobre rios, pântanos, subindo a montanha? Resposta errada.
— Não faço ideia.
— Mas eu faço. Já vi fotos. A gente se fala.
— Espere.
— Sim?
— Você pediu para eu verificar as atividades de Utmo durante os últimos dias da sua vida. Não há muitos registros dele no mundo eletrônico, mas ele deu alguns telefonemas. Uma das últimas coisas que fez foi ligar para Aslak Krongli. Parece que só conseguiu a caixa postal. A última conversa ao celular foi com a SAS. Chequei o sistema de reserva deles. Ele reservou uma passagem para Copenhagen.
— Hum. Ele não parece ser do tipo que viaja muito.
— Com certeza. De fato há um passaporte emitido no nome dele, mas ele não tem registro em um único sistema de compra de passagens. E estamos falando dos últimos 25 anos.
— Quer dizer que um homem que nunca sai do seu distrito de repente inventa de ir para Copenhagen. Aliás, quando era para ele ir?
— Ontem.
— Ok. Obrigado.
Harry desligou, pegou o casaco. Virou-se na porta e olhou para ela. A mulher atraente, sua irmã. Ia perguntar se ela ficaria bem sozinha, sem ele. Mas se absteve de fazer uma pergunta tão idiota. Quando foi que ela não havia conseguido?
— Se cuida — pediu ele.
Jens Rath estava na área de recepção do escritório compartilhado. Debaixo da jaqueta e da camisa, suas costas estavam ensopadas de suor. Porque tinha uma visita da polícia. Ele havia tido um episódio com a Divisão Antifraude alguns anos antes, mas o caso fora arquivado. Mesmo assim, ele sempre começava a suar frio só de ver um carro da polícia. E agora, Jens Rath sentia os poros de suor se escancararem. Ele era um homem baixinho e teve de erguer os olhos para o policial que havia acabado de se levantar. E continuou a se levantar. Até pairar uns 25 centímetros acima de Jens, dando a ele um aperto de mão firme e breve.
— Harry Hole, Homi… Kripos. É sobre Tony Leike.
— Alguma novidade?
— Vamos nos sentar, Rath?
Eles se sentaram em cadeiras Le Corbusier, e Rath sinalizou discretamente para Wenche na recepção que não servisse café, o que era a política-padrão quando recebiam visitas de investidores.
— Quero que me acompanhe para mostrar onde fica a cabana dele — disse o policial.
— Cabana?
— Vi que não pediu café, Rath, e tudo bem, tenho tão pouco tempo quanto você. Também sei que seu caso com a Divisão Antifraude foi arquivado, mas só preciso fazer uma única ligação para reabri-lo. Pode ser que também não encontrem nada dessa vez, mas prometo que a documentação que irão exigir que você apresente…
Rath fechou os olhos.
— Meu Deus…
— … irá mantê-lo ocupado por mais tempo do que levou para construir a cabana do seu colega, amigo e parceiro Tony Leike. O que você acha?
O único talento de Jens Rath era saber calcular riscos vantajosos com mais rapidez e eficiência do que ninguém. Desse modo, ele levou cerca de um segundo para responder ao cálculo que acabava de ser apresentado.
— Está bem.
— A gente parte amanhã às nove da manhã.
— Como…?
— Da mesma maneira que vocês levaram o material para lá. Helicóptero. — O policial se levantou.
— Só uma pergunta. Tony sempre se preocupou muito com que ninguém ficasse sabendo daquela cabana. Acho que nem Lene, a noiva dele, sabe. Então, como…?
— Uma fatura de material de construção de Geilo, além da foto de vocês três de macacão sentados numa pilha de tábuas em frente a um helicóptero.
Jens Rath fez que sim.
— Claro, a foto.
— Aliás, quem a tirou?
— O piloto. Antes de decolarmos de Geilo. E foi ideia de Andreas enviá-la com um comunicado à imprensa quando abrimos o escritório. Ele achou mais bacana a foto da gente de macacão do que de terno e gravata. E Tony concordou por achar que fazia a gente parecer dono daquele helicóptero. De qualquer maneira, os jornais que tratam de economia usam aquela foto o tempo todo.
— Por que você e Andreas não disseram nada sobre a cabana quando Tony desapareceu?
Jens Rath deu de ombros.
— Não entenda mal, estamos tão interessados quanto vocês no reaparecimento de Tony. Temos um projeto no Congo que vai para o espaço se ele não aparecer logo com 10 milhões em espécie. Mas quando Tony some, é sempre porque ele mesmo quer. Ele sabe se cuidar. Não esqueça que ele era mercenário. Aposto que agora mesmo está sentado em algum lugar com um drinque na mão, uma mulher selvagem, exótica e muito gata nos braços e um largo sorriso por ter encontrado a solução.
— Humm — disse Harry. — Suponho que tenha sido essa gata que arrancou o dedo do meio dele, então. Aeroporto de Fornebu, às nove amanhã.
Jens Rath ficou parado, olhando o policial. Ele suava em bicas, encharcado.
Quando Harry voltou ao Hospital Central, Søs ainda estava lá. Ela folheava uma revista e comia uma maçã. Ele olhou para a revoada de abutres. Haviam chegado mais flores.
— Você está com cara de cansado, Harry. Devia ir para casa.
Ele riu.
— Vai você. Você já ficou tempo demais aqui sozinha.
— Não estive sozinha. — Ela sorriu para ele. — Adivinha quem esteve aqui?
Harry soltou um suspiro.
— Lamento, Søs, mas estou fazendo adivinhações demais no meu trabalho.
— Øystein!
— Øystein Eikeland?
— É! Ele trouxe chocolate ao leite. Não para o papai, mas para mim. Sinto muito, mas não sobrou nada. — Ela riu tanto que os olhos se tornaram apenas dois risquinhos.
Quando ela se levantou para dar uma volta, Harry olhou seu celular. Duas ligações perdidas de Kaja. Ele empurrou a cadeira para perto da parede e encostou a cabeça.