O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 28 de 96

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O Leopardo

Capítulo 28

DRAMMEN

 

– Então foi você que registrou o desaparecimento de Adele Vetlesen — disse Kaja.

— Foi — respondeu o rapaz que estava sentado na frente deles no People & Coffee. — A gente morava junto. Ela não foi para casa. Achei que tinha que avisar.

— Claro — disse Kaja, olhando para Harry. Eram oito e meia da manhã. Haviam levado meia hora de carro de Oslo a Drammen, logo depois da reunião matinal do trio, que terminou com Harry dispensando Bjørn Holm. Ele não tinha dito muita coisa, havia apenas soltado um suspiro profundo, lavado sua xícara de café e voltado para a Perícia Criminal em Bryn para retomar seu trabalho.

— Já tiveram notícias de Adele? — perguntou o rapaz e olhou de Kaja a Harry.

— Não, e você?

O rapaz fez que não e olhou por cima do ombro, para o balcão, para se assegurar de que não houvesse clientes à espera. Estavam sentados em bancos de bar na frente da janela virada para uma das muitas praças de Drammen — isto é, para uma praça aberta que funcionava como estacionamento. A People & Coffee vendia café e bolos a preços de aeroporto, tentando parecer que pertencesse a uma cadeia americana, e, quem sabe, pertencia mesmo. O rapaz que morava com Adele Vetlesen, Geir Bruun, parecia estar com 30 e poucos anos, era excepcionalmente branco, com uma testa que suava com facilidade sobre olhos azuis constantemente em movimento. Ele trabalhava no local como “barista”, título que nos anos 1990 inspirava sério respeito quando os cafés invadiram Oslo. Mas consistia-se em preparar café, uma arte que — do ponto de vista de Harry — se tratava acima de tudo de evitar cometer falhas evidentes. Como policial, Harry usava a entonação, a dicção, a escolha de palavras e os erros gramaticais das pessoas para classificá-las. Geir Bruun não se vestia, se penteava ou se portava de modo a fazer alguém pensar que era gay, mas assim que abria a boca, era impossível pensar que não. Havia algo no final das vogais, as pequenas redundâncias léxicas, o ceceio que quase parecia fingido. Harry sabia que o cara podia ser absolutamente heterossexual, mas já concluía que Katrine havia se precipitado ao deduzir que Adele Vetlesen e Geir Bruun estavam morando juntos como namorados. Eram apenas duas pessoas que por motivos econômicos dividiam um apartamento no centro de Drammen.

— Lembro que ela foi para uma dessas cabanas nas montanhas no outono. — Passou a informação como se fosse um conceito estranho para ele. — Mas não foi lá que ela desapareceu.

— Estamos sabendo — disse Kaja. — Ela foi para lá em companhia de alguém? Se for esse o caso, de quem?

— Não faço ideia. A gente não falava sobre essas coisas, bastava dividir o banheiro, se entendem o que estou dizendo. Ela tinha a vida privada dela, eu a minha. Mas duvido que ela tenha ido sozinha às montanhas, por assim dizer.

— Como assim?

— Adele fazia o mínimo possível sozinha. Não consigo imaginar ela numa cabana sem um cara. Mas quem foi é impossível dizer. Ela era, para ser direto, um tanto promíscua. Não tinha nenhuma amiga, mas, em compensação, tinha um número considerável de amigos homens. E os mantinha separados. Adele não vivia uma vida dupla, mas uma vida quádrupla. Ou algo assim.

— Então ela era desonesta?

— Não necessariamente. Uma vez, me deu uma dica sobre maneiras honestas de terminar um relacionamento. Ela contou que uma vez, enquanto um cara a pegava por trás, ela tirou uma foto com o celular sobre o ombro, digitou o nome do cara com quem estava saindo, mandou a foto e apagou o nome. Tudo em uma operação. — Geir Bruun olhou para eles, o rosto inexpressivo.

— Impressionante — disse Harry. — Sabemos que ela pagou por duas pessoas lá na montanha. Poderia dar o nome de algum amigo dela, para termos por onde começar?

— Acredito que não — disse Geir. — Mas quando notifiquei o desaparecimento dela, vocês checaram com quem ela havia falado pelo telefone nas últimas semanas, não?

— Quem foi que checou?

— Não me lembro do nome. Polícia local.

— Está bem, temos uma reunião na delegacia agora — disse Harry, que olhou para o relógio e se levantou.

— Por que... — perguntou Kaja, ainda sentada — … a polícia parou de investigar o caso? Nem lembro de ter lido sobre ele nos jornais.

— Vocês não sabem? — comentou o rapaz e sinalizou para as duas mulheres com carrinho de bebê na frente do balcão que ele já ia atender. — Ela mandou um cartão-postal.

— Cartão-postal? — disse Harry.

— Sim. Da Ruanda. Lá na África.

— O que ela escreveu?

— Muito pouco. Tinha encontrado o homem dos seus sonhos, e eu tinha que pagar o aluguel sozinho até ela voltar em março. Aquela vadia.

 

Caminharam até a delegacia. Um inspetor com a cabeça larga como uma abóbora e um nome que Harry esqueceu assim que ouviu os recebeu numa sala fedendo a cigarro, serviu café em copos de plástico que queimaram seus dedos e lançou olhares a Kaja sempre que achava que ela não o via.

Ele começou fazendo uma palestra sobre haver sempre de quinhentas a mil pessoas desaparecidas na Noruega, que quase todos, cedo ou tarde, reapareceriam, e, se a polícia fosse investigar todos os casos de desaparecimentos sem suspeita de crime ou acidente, não ia ter tempo para mais nada. Harry abafou um bocejo.

No caso de Adele Vetlesen, eles até receberam um sinal de vida; devia estar por aí em algum lugar. O inspetor se levantou e enfiou a cabeça de abóbora numa gaveta de arquivos e voltou com um cartão-postal que pôs na frente deles. Era uma foto de uma montanha em forma de cone com uma nuvem ao redor do pico, mas sem texto explicando o nome da montanha ou onde ficava no mapa. A caligrafia era feia e angulosa. Harry mal podia decifrar a assinatura. Adele. Tinha selo de Ruanda e carimbo de Kigali, que Harry achou ser a capital.

— A mãe confirmou que era a caligrafia da filha — disse o inspetor e explicou que, pelos insistentes pedidos da mãe, haviam verificado e encontrado Adele Vetlesen na lista de passageiros de um voo da Brussels Airlines a Kigali, via Entebbe em Uganda, dia 25 de novembro.

Além disso, já haviam feito uma busca em hotéis por intermédio da Interpol, e um hotel em Kigali — o inspetor procurou nas anotações: Hotel Gorilla! — havia de fato tido uma hóspede com aquele nome na mesma noite em que o avião dela chegou. O único motivo para Adele ainda constar na lista de pessoas desaparecidas era por não saberem exatamente o paradeiro dela no momento, e porque, tecnicamente, um cartão-postal não bastava para alterar o status de desaparecida.

— Além do mais, não estamos exatamente falando da parte civilizada do mundo aqui — disse o inspetor e abriu os braços. — Huti, Tutsu, ou seja lá como se chamam. Machetes. Dois milhões de mortos. Entendem?

Harry viu Kaja fechar os olhos enquanto o inspetor, com voz de professor e muitas sentenças subordinadas, explicava o valor ínfimo da vida na África, onde o tráfego humano não era um fenômeno desconhecido, e que, teoricamente, Adele podia ter sido sequestrada e forçada a escrever o cartão, já que os negros pagariam um salário anual para cravar os dentes numa garota norueguesa loura, não é?

Harry estudou o cartão, tentando bloquear a voz do homem cabeça de abóbora. Uma montanha cônica com uma nuvem ao redor do pico. Ele levantou os olhos quando o inspetor com o nome esquecível pigarreou.

— Pois é, às vezes dá até para entender os caras, não é? — disse com um sorriso cúmplice dirigido a Harry.

Harry se levantou e disse que tinha trabalho esperando em Oslo. Mas se Drammen podia fazer o favor de escanear e enviar o cartão para eles?

— Para um perito em caligrafia? — perguntou o inspetor, visivelmente desapontado, olhando o endereço que Kaja escreveu para ele.

— Perito em vulcões — disse Harry. — Quero que envie a foto, perguntando se ele pode identificar a montanha.

— Identificar a montanha?

— Ele é especialista no assunto. Viaja o mundo todo estudando vulcões.

O inspetor deu de ombros, mas anuiu com um gesto de cabeça. Em seguida, acompanhou-os até a saída. Harry perguntou se haviam verificado as ligações do celular de Adele desde que ela tinha viajado.

— Sabemos como fazer nosso trabalho, Hole — disse o inspetor. — Nenhuma ligação para fora. Mas você pode imaginar a rede de celular num país como Ruanda…

— Na verdade, não — disse Harry. — Mas também nunca estive lá.

 

— Um cartão-postal! — exclamou Kaja quando chegaram à praça onde estava o carro civil que eles solicitaram da sede da Polícia. — Passagem de avião e pernoitada em Ruanda! Porque essa nerd sua em Bergen não encontrou isso, para a gente não ter que jogar fora metade do dia nessa droga de cidade chamada Drammen?

— Pensei que isso te deixaria de bom humor — disse Harry, abrindo a porta. — Você ganhou um amiguinho, e talvez Adele não esteja morta.

— E você está de bom humor? — perguntou Kaja.

Harry olhou para as chaves do carro.

— Quer dirigir?

— Quero!

Por mais estranho que parecesse, conseguiram passar sem problemas pelos detectores de velocidade e ainda voltar a Oslo em pouco mais de vinte minutos.

 

Concordaram em começar levando as coisas menos pesadas, as coisas do escritório e as gavetas da mesa até a sede da Polícia, e deixar as pesadas para o dia seguinte. Colocaram tudo no mesmo carrinho que Harry havia usado quando montaram o escritório.

— Já tem sua sala? — perguntou Kaja quando estavam no meio da galeria subterrânea, e sua voz produziu ecos demorados.

Harry fez que não.

— Vamos pôr tudo na sua sala.

— Já pediu uma sala? — perguntou ela, e parou.

Harry continuou andando.

— Harry!

Ele parou.

— Você perguntou sobre meu pai — disse ele.

— Eu não quis…

— Claro que não. Mas ele tem pouco tempo de vida. Ok? Depois, vou embora de novo. Eu só queria…

— Só queria?

— Já ouviu falar na Sociedade dos Policiais Mortos?

— O que é?

— Pessoas que trabalharam na Divisão de Homicídios. Pessoas queridas para mim. Não sei se é porque devo algo a ela, mas é a tribo.

— O quê?

— Não é muito, mas é tudo o que tenho, Kaja. São os únicos por quem tenho motivo de sentir lealdade.

— Uma divisão policial?

Harry começou a andar.

— Eu sei, e deve passar. O mundo continua.

É só uma reorganização, certo? As histórias estão nas paredes, e agora as paredes irão ruir. Você e os seus vão ter que fazer histórias novas, Kaja.

— Está bêbado?

Harry riu.

— Apenas derrotado. Acabado. E está bem assim. Muito bem.

Seu telefone tocou. Era Bjørn.

— Deixei a biografia de Hank na minha mesa — disse.

— Estou com ela aqui — respondeu Harry.

— Está ressoando, está numa igreja?

— No aqueduto.

— Caraca, tem cobertura aí?

— Parece que temos uma rede de telefonia melhor do que em Ruanda. Vou deixar o livro na recepção.

— É a segunda vez hoje que escuto alguém falar de Ruanda e celulares na mesma frase. Pode avisar que vou pegar o livro amanhã?

— O que ouviu sobre Ruanda?

— Nada, só algo que Beate mencionou. Sobre coltan, sabe, aqueles resíduos de metal que encontramos nos dentes das duas mulheres que tinham marcas de furos na boca.

— O Exterminador do Futuro.

— Como?

— Nada. O que isso tem a ver com Ruanda?

— Coltan é usado em telefones celulares. É um metal raro e quase todo o coltan do mundo vem do Congo. Só que os depósitos ficam na zona de guerra, onde ninguém tem controle da coisa, e, nesse caos todo, espertalhões de negócios estão roubando tudo e enviando para Ruanda.

— Humm.

— A gente se fala.

Harry ia guardar o celular quando viu que tinha um SMS ainda não lido. Ele abriu.

 

Monte Nyiragongo. Última erupção 2002. Um dos poucos vulcões com lago de lava na cratera. Fica no Congo perto da cidade de Goma. Felix.

 

Goma. Harry ficou parado olhando as gotas pingando de um cano no teto. Era de lá que vieram os instrumentos de tortura de Kluit.

— O que foi? — perguntou Kaja.

— Ustaoset — disse Harry. — E Congo.

— E isso quer dizer o quê?

— Não sei — disse Harry. — Mas não acredito muito em coincidências. — Ele pegou o carrinho e deu meia-volta.

— O que está fazendo? — perguntou Kaja.

— Voltando — disse Harry. — Ainda temos mais de vinte e quatro horas.