O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 3 de 96

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O Leopardo

Capítulo 3

H ONG KONG

 

A chuva não iria parar tão cedo. Nem tão tarde. Simplesmente não iria parar. O clima permanecia úmido e ameno, semanas a fio. A terra encontrava-se encharcada, as estradas europeias estavam desmoronando, as aves migratórias deixavam de migrar, e havia reportagens sobre insetos nunca antes vistos na região norte. O calendário constatava que era inverno, mas os parques de Oslo não só não tinham neve como não estavam nem amarelados. Estavam tão verdes e acolhedores quanto o gramado artificial em Sogn, onde os fãs de atividades físicas corriam com trajes justos de esqui, esperando em vão por condições climáticas mais apropriadas para esquiar em volta do lago Sognsvann. No Réveillon, a neblina estava tão densa que, mesmo que se pudesse ouvir o som dos fogos do centro de Oslo até o subúrbio de Asker, não se conseguia ver nada, nem mesmo se você os lançasse do gramado no próprio jardim. Contudo, naquela noite, os noruegueses acenderam fogos de artifício no valor de seiscentas coroas por família, de acordo com uma pesquisa de mercado, que revelou também que o número de noruegueses realizando o sonho de passar um Natal branco na areia branca das praias da Tailândia havia dobrado em apenas três anos. Mas também no sudeste da Ásia, o clima parecia ter endoidado; nuvens agourentas que normalmente apareciam apenas nos gráficos meteorológicos na época de tufões estavam agora enfileiradas sobre o Mar da China. Em Hong Kong, onde fevereiro em geral é um dos meses mais secos, a chuva caía torrencialmente naquela manhã, e a precária visibilidade fez com que o voo 731 da Cathay Pacific Airways, que partira de Londres, tivesse de fazer mais uma volta no ar antes de aterrissar no aeroporto Chek Lap Kok.

— Fique feliz por não termos que aterrissar no aeroporto antigo — disse o passageiro com aparência chinesa ao lado de Kaja Solness, que apertava os braços do assento com tanta força que os nós dos dedos se empalideceram. — Ficava no centro da cidade. A gente teria se chocado contra um dos arranha-céus.

Estas foram as primeiras palavras que o homem pronunciou desde que haviam decolado, doze horas antes. Kaja aceitou a chance de se concentrar em outra coisa além do fato de estarem temporariamente passando por uma turbulência.

— Obrigada, senhor, isso é muito tranquilizador. O senhor é inglês?

Ele recuou como se tivesse levado um tabefe, e ela percebeu que o tinha ofendido gravemente ao sugerir que fazia parte dos antigos colonizadores.

— Eh... chinês, talvez?

Ele balançou a cabeça negativamente, com firmeza.

— Chinês de Hong Kong. E a senhorita?

Kaja Solness se perguntou por um instante se iria responder que era norueguesa de Hokksund, mas limitou-se a dizer “norueguesa”, e o chinês de Hong Kong pensou algum tempo antes de soltar um triunfante “Ahn!” antes de continuar com um “escandinava” e perguntar o que a trazia a Hong Kong.

— Estou procurando um homem — respondeu ela, fitando as nuvens azul-acinzentadas na esperança de que a terra firme logo se revelasse.

— Ahn! — repetiu o chinês de Hong Kong. — A senhorita é muito bonita. E não dê ouvidos para o que se diz sobre chineses só se casarem com outros chineses.

Ela esboçou um sorriso cansado.

— Chineses de Hong Kong, quer dizer?

— Especialmente chineses de Hong Kong — afirmou ele com entusiasmo e mostrou uma mão sem aliança. — Estou no ramo de microchips, minha família tem fábricas na China e na Coreia do Sul. O que a senhorita vai fazer esta noite?

— Dormir, espero — respondeu Kaja.

— E amanhã à noite?

— Espero que tenha encontrado o homem e esteja voltando para casa.

O homem franziu a testa.

— Está com tanta pressa assim, senhorita?

 

***

 

Kaja recusou a oferta de carona do homem e pegou um ônibus de dois andares para o centro. Uma hora mais tarde, estava sozinha num corredor do hotel Empire Kowloon, e deu um suspiro profundo. Tinha encaixado a chave magnética na porta do quarto onde estava hospedada e agora só faltava abrir. Ela se forçou a baixar o trinco. Então, empurrou a porta e olhou no interior do quarto.

Não havia ninguém.

Claro que não.

Ela entrou, deixou a mala ao lado da cama, foi à janela e olhou para fora. Primeiro para a multidão de pessoas na rua, dezessete andares abaixo, depois para os arranha-céus que em nada lembravam os edifícios suntuosos, ou ao menos pomposos, de Manhattan, Kuala Lumpur ou Tóquio. Estes pareciam grandes formigueiros, aterrorizantes e imponentes ao mesmo tempo, como testemunhos caricatos da capacidade do ser humano se adaptar quando sete milhões de pessoas precisam ocupar um espaço de pouco mais de 100 quilômetros quadrados. Kaja sentiu o cansaço se aproximando, tirou os sapatos, chutou-os longe e se deixou cair na cama. Mesmo o quarto sendo duplo, e o hotel, de padrão quatro estrelas, a cama de 120 centímetros de largura ocupava todo o espaço. E ela pensou que dentre todos estes formigueiros, tinha de encontrar uma única pessoa, um homem que, ao que tudo indicava, não estava muito interessado em ser encontrado.

Por algum tempo ficou avaliando as opções: cair no sono ou entrar em ação. Então, recuperou as forças e pôs-se de pé. Tirou a roupa e entrou no chuveiro. Depois ficou em frente ao espelho e constatou sem um pingo de vaidade que o chinês de Hong Kong tinha razão: ela era bonita. Isso não era mera opinião; estava tão próximo de um fato quanto é possível ser quando se trata de beleza. O rosto com as maçãs acentuadas, as sobrancelhas negras finamente delineadas sobre os olhos grandes, quase infantis, com íris verdes que brilhavam intensamente com a maturidade de uma mulher jovem. O cabelo cor de mel, os lábios carnudos, que pareciam se beijar, na boca um tanto larga. O pescoço longo e fino, o corpo igualmente delgado com os seios pequenos que não eram mais que pequenas ondas num mar de pele perfeita, porém pálida como inverno. A curva delicada dos quadris. As pernas compridas que persuadiram duas agências de modelos em Oslo a mandar representantes até a escola onde estudava em Hokksund só para que tivessem de aceitar a recusa de sua proposta com um pesaroso balanço de cabeça. E o que mais a havia agradado foi quando um deles disse ao se despedir:

— Está bem, mas lembre-se, meu bem: você não é uma beldade perfeita. Seus dentes são pequenos e pontudos. Você não devia sorrir tanto.

De ali em diante, ela se sentia mais leve sempre que sorria.

Kaja vestiu calças cáqui, um casaco impermeável e caminhou, ligeira e silenciosamente, até o saguão.

— Chungking Mansion? — perguntou a recepcionista, sem conseguir impedir uma sobrancelha de se erguer, e apontou: — Kimberley Road até Nathan Road e depois à esquerda.

Todos os hotéis e as pousadas nos países-membros da Interpol eram obrigados a registrar a chegada de hóspedes estrangeiros, mas quando Kaja havia ligado para o secretário da embaixada norueguesa para verificar o último local onde o homem que procurava estava registrado, o secretário havia explicado que Chungking Mansion não era um hotel ou uma mansão, não no sentido de residência de ricos. Era um conjunto de lojas, restaurantes, lanchonetes e provavelmente mais de cem pousadas com ou sem alvará, com dois a vinte quartos distribuídos em quatro grandes torres de apartamentos. Os quartos disponíveis para aluguel variavam entre simples, limpos e aconchegantes a buracos de rato, e os hotéis de uma estrela tinham quartos que mais pareciam celas de prisão. E o mais importante de tudo: em Chungking Mansion, um homem não muito exigente podia dormir, comer, morar, trabalhar e procriar sem nunca sair do formigueiro.

Kaja encontrou a entrada para Chungking na Nathan Road, uma rua comercial movimentada com marcas de grife exibidas em vitrines altas. Ela entrou num misto de fumaça de restaurantes fast-food, marteladas de sapateiros, radiotransmissões de preces muçulmanas e olhares cansados nas lojas de roupas usadas. Sorriu de leve para um mochileiro confuso segurando um guia de turismo, cujas pernas brancas congeladas despontavam de sua superotimista bermuda de estampa militar.

Um guarda uniformizado olhou o papel que Kaja mostrou a ele, disse “elevador C” e apontou para um corredor.

A fila em frente ao elevador era tão comprida que ela só conseguiu entrar na terceira vez, com passageiros espremidos num baú de ferro caindo aos pedaços, o que fez Kaja pensar nos ciganos, que enterravam seus mortos verticalmente.

O dono do albergue era um muçulmano de turbante que, de imediato, e com grande entusiasmo, mostrou a ela um quarto minúsculo e quadrado onde eles milagrosamente conseguiram colocar na parede uma TV ao pé da cama e um trepidante ar-condicionado em cima da cabeceira. O entusiasmo do dono minguou quando ela interrompeu seu discurso de vendas mostrando uma foto de um homem, com o nome como estaria no seu passaporte, e perguntou onde ela poderia encontrá-lo naquele momento.

Quando Kaja viu a reação dele, apressou-se em informar que era a esposa desse homem. O secretário da embaixada havia explicado que seria, abre aspas, contraprodutivo, fecha aspas, sair mostrando uma carteira de identidade oficial em Chungking. E quando, para se assegurar, Kaja acrescentou que ela e o homem na foto tinham cinco filhos, o dono mudou radicalmente de atitude. Uma jovem ocidental herege que já havia trazido tantos filhos ao mundo era merecedora de seu respeito. Ele suspirou fundo, balançou a cabeça e disse em inglês pesaroso e entrecortado:

— Triste, triste, senhora. Eles vir e pegar seu passaporte.

— Quem veio?

— Quem? A Tríade, senhora. Sempre a Tríade.

— A Tríade? — exclamou Kaja.

Naturalmente, ela conhecia a organização, mas tinha uma vaga impressão de que a máfia chinesa pertencia em sua maior parte ao mundo de desenhos animados e filmes de kung fu.

— Senhora, sentar-se. — Depressa, ele pegou uma cadeira em que ela se deixou cair. — Eles procuraram por ele, ele não está, pegar passaporte.

— O passaporte? Por quê?

Ele hesitou.

— Por favor, eu preciso saber.

— Seu marido apostava em cavalos, sinto dizer.

— Cavalos?

— Happy Valley. Hipódromo. É um lugar repugnante.

— Ele está devendo dinheiro? À Tríade?

Ele fez que sim e balançou a cabeça repetidamente para ao mesmo tempo confirmar e lamentar esse fato.

— E eles levaram o passaporte dele?

— Ele precisa pagar a dívida se ele quiser sair de Hong Kong.

— Ele só pode receber um novo passaporte se for no consulado norueguês.

O turbante balançou de lado a lado.

— Claro. E você pode mandar fazer um passaporte falso por oitenta dólares americanos aqui em Chungking. Mas o problema não é esse. O problema é que Hong Kong é uma ilha, senhora. Como você chegou aqui?

— De avião.

— E como vai voltar?

— De avião.

— Um aeroporto. Passagens. Todos os nomes no computador. Muitos pontos de controle. Muitos no aeroporto pagos pela Tríade para reconhecer rostos. Entende?

Ela fez que sim.

— É difícil fugir.

O dono balançou a cabeça, rindo.

— Não, senhora. É impossível fugir. Mas pode se esconder em Hong Kong. Sete milhões de pessoas. Fácil se esconder.

O sono estava começando a se manifestar em Kaja, que fechou os olhos. O dono deve ter entendido errado, porque ele pôs uma mão reconfortante no seu ombro e murmurou:

— Calma, calma.

Ele hesitou, depois inclinou-se para a frente e sussurrou:

— Eu acho que ele ainda estar aqui, senhora.

— Sim, sei que está.

— Não, quero dizer aqui em Chungking. Eu o vi.

Ela levantou a cabeça.

— Duas vezes — disse ele. — Em Li Yan. Ele comer ali. Arroz barato. Não conte a ninguém que eu dizer isso. Seu marido homem bom. Mas encrenca. — Ele revirou os olhos com tanta veemência que eles quase sumiram por baixo do turbante. — Muita encrenca.

 

Li Yuan consistia em um balcão, quatro mesas de plástico e um chinês sorrindo encorajadoramente para ela quando, depois de seis horas, duas porções de arroz frito, três cafés e dois litros d’água, ela acordou sobressaltada, levantou a cabeça da mesa toda suja e engordurada e olhou para ele.

— Cansada? — perguntou ele rindo e revelando uma fileira incompleta de dentes da frente.

Kaja bocejou, pediu sua quarta xícara de café e continuou a esperar. Dois chineses se sentaram no balcão, sem falar ou pedir qualquer coisa. Não olharam na direção dela, nem de relance, e ela achou bom assim. Seu corpo estava tão tenso por ter ficado sentada desde o início da viagem que sentia dores independente da posição que ficava. Ela moveu a cabeça para cada lado tentando ativar um pouco a circulação. E para trás. Seu pescoço estalou. Olhou para os tubos branco-azulados de luz fluorescente no teto antes de baixar a cabeça. E seu olhar caiu sobre um rosto pálido e assustado. Ele havia parado no corredor em frente às venezianas de aço, observando o pequeno estabelecimento de Li Yuan. Seu olhar deteve-se nos dois chineses ao balcão. E continou a andar apressado.

Kaja saltou da cadeira, mas uma das pernas estava dormente e cedeu. Ela catou sua bolsa e mancou atrás do homem o mais depressa que podia.

— Volte logo — ouviu Li Yuan gritar em inglês atrás de si.

Como estava magro. Nas fotos aparecia forte e muito alto, e no talk show na TV, ele fizera a cadeira em que estava sentado parecer feita para pigmeus. Porém ela não tinha dúvidas de que era ele: o crânio amassado e raspado, o nariz proeminente, os olhos injetados de sangue e as íris azul-claras características de um alcoólico. O queixo bem definido com a boca surpreendentemente suave e quase bonita.

Ela cambaleou para a Nathan Road. No brilho da luz neon ela vislumbrou o dorso de uma jaqueta de couro erguendo-se sobre a multidão. Ele não parecia estar andando depressa, mas Kaja teve que acelerar o passo para acompanhá-lo. Ele deixou a rua movimentada e ela aumentou a distância entre os dois nas ruas mais estreitas e com menos pessoas. Ela notou uma placa de rua que dizia Melden Row. Era tentador abordá-lo e se apresentar; resolver logo a situação. Mas decidiu seguir com o plano: primeiro descobrir onde ele estava morando. A chuva havia parado e, de repente, um resquício de nuvens descortinou um céu alto e preto-aveludado com estrelas brilhantes do tamanho de cabeças de alfinete.

Depois de andar uns vinte minutos, ele parou subitamente numa esquina, e Kaja temia que a houvesse descoberto. Mas ele não se virou, apenas tirou algo do bolso da jaqueta. Ela olhou estarrecida. Uma mamadeira?

Ele virou a esquina e desapareceu.

Kaja o seguiu até chegarem a uma praça grande, cheia de gente. No final da praça, por cima de portas de vidro amplas, reluzia uma placa escrita em inglês e chinês. Kaja reconheceu o título de alguns dos filmes recentes que nunca teria tempo de assistir. Seus olhos encontraram a jaqueta de couro, e conseguiu vê-lo colocando a mamadeira no pedestal baixo da escultura de bronze que representava uma forca com um nó corredio. Ele continuou, passando por dois bancos ocupados e sentou-se no terceiro, então pegou um jornal. Depois de vinte segundos, levantou-se de novo, voltou à escultura, pegou a mamadeira ao passar, enfiou-a no bolso da jaqueta e voltou pelo mesmo caminho por onde viera.

Havia voltado a chover quando ela o viu entrar em Chungking Mansion. Ela começou a esboçar o que diria. Não havia mais fila para o elevador, mas ele subiu as escadas, virou à direita e sumiu por uma porta, que logo se fechou. Apressou-se atrás dele e, de repente, encontrou-se numa escadaria malconservada, deserta, emanando um cheiro penetrante de xixi de gato e cimento úmido. Prendeu a respiração, mas não escutou nada exceto ruídos de pingos. Quando ia continuar subindo, ouviu uma porta bater abaixo dela. Correu escada abaixo e encontrou a única coisa que podia ter feito aquele barulho: uma porta de metal amassada. Ela pôs a mão na maçaneta, sentindo as mãos tremerem, fechou os olhos e xingou a si mesma. Então, abriu a porta com um empurrão e entrou na escuridão. Ou melhor: saiu para a escuridão.

Alguma coisa passou correndo por cima dos seus pés, mas ela não gritou, nem se mexeu.

Primeiro pensou que havia chegado a um poço de elevador. Mas, olhando para cima, vislumbrou paredes enegrecidas, cobertas por um emaranhado de canos d’água, fios elétricos, pedaços de metal retorcido e andaimes enferrujados e desmoronados. Não era um quintal, apenas alguns metros quadrados entre dois arranha-céus. A única luz vinha de um retalho de estrelas bem lá no alto.

Apesar do céu limpo, chovia no asfalto e no seu rosto, e ela percebeu que era água condensada vindo dos pequenos e enferrujados aparelhos de ar-condicionado sobressaindo das fachadas. Ela deu um passo para trás e se encostou à porta de ferro.

Esperou.

E, por fim, ouviu do escuro uma pergunta em inglês:

— O que você quer?

Ela nunca tinha ouvido a voz dele antes. Bem, já havia ouvido no talk show quando conversaram sobre serial killers, mas escutá-la na vida real era totalmente diferente. Tinha uma rouquidão gasta que o fazia parecer mais velho do que seus 40 anos. Mas ao mesmo tempo havia uma calma segura e confiante que desmentiu o rosto atormentado que ela tinha visto em frente ao restaurante de Li Yuan. Intenso, caloroso.

— Sou norueguesa — respondeu ela.

Não houve resposta. Ela engoliu em seco. Sabia que as primeiras palavras seriam as mais importantes.

— Meu nome é Kaja Solness. Fui encarregada de procurar por você. Por Gunnar Hagen.

Nenhuma reação ao nome do chefe da Divisão de Homicídios para quem ele trabalhava. Será que havia ido embora?

— Eu trabalho como detetive de investigação de homicídios para Hagen — disse ela para a escuridão.

— Parabéns.

— Não há por que me parabenizar. Não se você vem acompanhando os jornais da Noruega ultimamente. — Ela podia ter ficado quieta. Estava tentando ser engraçada? Devia ser porque estava cansada. Ou nervosa.

— Quis dizer parabéns por ter cumprido a sua missão — disse a voz. — Você me encontrou. Agora pode voltar.

— Espere! — pediu ela. — Você não quer ouvir o que eu tenho a dizer?

— Prefiro não saber.

Mas as palavras que ela havia anotado e memorizado já estavam saltando de sua boca.

— Duas mulheres foram assassinadas. As provas forenses indicam que o assassino seja o mesmo. Fora isso, não temos pista alguma. Mesmo que a imprensa tenha recebido o mínimo de informação possível, já estão gritando aos quatro ventos faz tempo que um novo serial killer está à solta. Alguns repórteres escreveram que ele talvez esteja se inspirando no Boneco de Neve. Estamos recebendo ajuda de peritos da Interpol, mas elas não conseguiram avançar. A pressão da mídia e das autoridades…

— A resposta é não — rebateu a voz.

Uma porta bateu.

— Oi? Oi? Está aí?

Ela tateou no escuro até achar uma porta. Abriu antes que o medo se instalasse e encontrou-se em outra escadaria escura. Ela vislumbrou luz mais acima e subiu a escada de três em três degraus. A luz vinha pela janela de uma porta basculante, e ela a empurrou. Entrou num corredor simples e malconservado, onde haviam desistido de tentar remendar o emboço descascado, e a umidade emanava das paredes como mau hálito. Dois homens com cigarros pendendo do canto da boca estavam enconstados à parede, e um fedor doce flutuava na direção dela. Eles a avaliaram de maneira preguiçosa. Preguiçosa demais para se mexer, ela esperou. O mais baixo era negro, de origem africana, ela supôs. O mais alto era branco e tinha uma cicatriz em forma de pirâmide na testa, parecendo uma placa de trânsito. Ela tinha lido na revista A polícia que Hong Kong tinha quase trinta mil policiais nas ruas e era considerada a metrópole mais segura do mundo. Por outro lado, ela não estava nas ruas.

— Está procurando haxixe, dona? — perguntou, em inglês, um dos homens.

Ela sinalizou que não e esboçou um sorriso confiante, tentando se comportar do modo que tinha aconselhado jovens garotas a agir na época em que visitava escolas: parecer alguém que sabe aonde está indo, e não alguém que perdeu o rebanho, como uma presa.

Eles retribuíram o sorriso. A única outra porta no corredor havia sido tapada com tijolos. Eles tiraram as mãos dos bolsos e os cigarros da boca.

— Procurando diversão, então?

— Só errei a porta — disse ela e deu meia-volta para sair. A mão de alguém agarrou-a pelo punho. O pavor que sentiu tinha gosto de papel-alumínio na boca. Em teoria, ela sabia como sair dessa situação. Tinha praticado num tapete de borracha numa sala de ginástica com um instrutor e os colegas em volta.

— Porta certa, dona. Porta certa. A diversão é aqui mesmo. — Seu hálito fedia a peixe, cebola e maconha. Na sala de ginástica só havia um adversário.

— Não, obrigada — retrucou ela, tentando manter a voz firme.

O negro se pôs ao seu lado, agarrou-a pelo outro punho e disse em voz esganiçada:

— A gente mostra o caminho.

— Mas não há muita coisa para ver, não é?

Os três se viraram para a porta basculante.

Ela sabia pelo passaporte que ele media 1,94m, mas ali no vão da porta, construída para os padrões de Hong Kong, parecia medir no mínimo 2,10m. E com o dobro da largura que tinha apenas há uma hora. Seus braços pendiam do lado do corpo, um pouco afastados, mas ele não se mexeu, não encarou ninguém, não rosnou, apenas olhou calmamente o homem branco e repetiu, misturando inglês com o dialeto local:

— Não é, jau-ye?

Ela sentiu os dedos do homem branco tensionarem e relaxarem no seu punho, notou que o negro mudava seu equilíbrio de um pé para o outro.

— Ng-goy — disse o homem na porta.

Ela sentiu as mãos hesitarem antes de soltá-la.

— Vem — ordenou ele, pegando de leve no braço dela.

Ela sentiu o rosto enrubescer quando eles saíram pela porta. Estava ansiosa e envergonhada. Envergonhada por se encontrar tão aliviada, por demorar tanto para reagir naquela situação, por ter deixado de bom grado que ele cuidasse de dois traficantes de haxixe inofensivos que só queriam assustá-la um pouco.

Ele a acompanhou dois andares para cima e por uma porta basculante, onde a colocou em frente a um elevador e apertou o botão de descer. Ficou ao seu lado, focado no número onze que estava aceso em cima da porta do elevador.

— Trabalhadores estrangeiros — disse ele. — Estão sozinhos e entediados.

— Eu sei — respondeu ela, desafiadoramente.

— Aperte T de térreo, vire à direita e siga em frente até chegar à Nathan Road.

— Me escute, por favor. Você é o único na Divisão de Homicídios que tem competência para pegar um serial killer. Afinal, foi você que prendeu o Boneco de Neve.

— Verdade — respondeu ele. Notou que ele desviou o olhar, e ele passou um dedo pelo queixo embaixo da orelha direita. — E depois me demiti.

— Se demitiu? Tirou férias, quer dizer.

— Me demiti. Tipo “fui embora”.

Só agora ela notou a saliência estranha no lado direito do queixo dele.

— Gunnar Hagen diz que, quando você deixou Oslo há seis meses, ele concordou em te dar uma licença até nova ordem.

O homem sorriu, e Kaja viu como isso mudava por completo o rosto dele.

— Foi só porque Hagen não consegue botar na cabeça que… — Ele se calou, e o sorriso sumiu. Ele voltou a se concentrar na luz acima do elevador que agora mostrava “5”. — Seja como for, não trabalho mais para a polícia.

— Estamos precisando de você… — Ela prendeu a respiração. Sabia que estava se expondo a um grande risco, mas tinha que fazer algo antes que ele sumisse de novo. — E você está precisando da gente.

Ele voltou seu olhar para ela.

— De onde tirou essa ideia?

— Você está devendo dinheiro à Tríade. Você está comprando drogas na rua numa mamadeira. Você mora… — Ela fez uma careta — … aqui. E não tem passaporte.

— Estou bem aqui, para que preciso de passaporte?

O elevador chegou com um zunido, a porta se abriu rangendo e um ar quente e fétido emanou das pessoas que estavam no interior.

— Não vou! — disse Kaja, mais alto do que queria, e notou os rostos olhando para ela com um misto de impaciência e curiosidade visível.

— Vai, sim — rebateu ele, colocando a mão em suas costas, empurrando-a de modo gentil porém firme para dentro. Então ela foi imediatamente cercada por corpos que a impossibilitaram de se mexer ou mesmo de se virar. Ela virou a cabeça a tempo de ver as portas se fecharem.

— Harry! — gritou ela.

Mas ele já havia sumido.