O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 49 de 96

Páginas do PDF

O Leopardo

Capítulo 49

BOMBAY GARDEN

 

Bombay Garden era o tipo de restaurante que parecia não ter o direito de existir, mas que, ao contrário dos seus concorrentes da moda, resistia ano após ano. A localização no meio da zona leste era péssima, uma ruazinha entre um antigo armazém de madeira e uma fábrica fechada que agora servia de teatro. A licença para servir bebidas alcoólicas tinha sido alternadamente concedida e revogada por inúmeras violações de normas; o mesmo acontecia em relação à comida que servia. Numa ocasião, a Vigilância Sanitária encontrou uma espécie de roedor que não conseguiram identificar, além de declarar que possuía certa semelhança ao Rattus norvegicus. Nos comentários do relatório, o representante da Vigilância havia soltado o verbo, descrevendo a cozinha como uma “cena de crime” onde sem sombra de dúvida “as matanças mais horrendas ocorreram”. Os caça-níqueis ao longo da parede davam algum lucro, mas eram regularmente objetos de roubo. Os proprietários vietnamitas não usavam o lugar para lavar dinheiro do narcotráfico, como alguns suspeitavam. O motivo de Bombay Garden conseguir se manter aberto encontrava-se nos fundos, atrás de duas portas fechadas. Lá havia o que se chamava de um clube privado, e para se permitir a entrada, era preciso fazer um pedido de filiação. Na prática, isso significava assinar um documento no bar do restaurante, receber o cartão de associado e pagar a anuidade de 100 coroas. Em seguida, era levado para dentro, e a porta era trancada as suas costas.

Então, encontrava-se num recinto fumacento — a lei antifumo não se aplica a clubes privados — e na sua frente havia uma pista de corrida de cavalos em miniatura, 4 por 2 metros. O circuito todo era coberto por feltro verde e tinha sete pistas. E sete cavalos de metal avançavam, cada um preso a uma haste. A velocidade de cada cavalo era decidida por um computador que zunia por baixo da mesa, e funcionava — até onde se podia determinar — de modo totalmente arbitrário e justo. Ou seja, o programa dava a alguns cavalos maiores chances de velocidade maior, o que se refletia nas apostas e, portanto, no eventual pagamento. Ao redor da pista ficavam os membros do clube, alguns assíduos, outros recém-chegados, instalados em confortáveis cadeiras giratórias de couro, fumando, bebendo o chope local a preços especiais para sócios torcendo pelo cavalo ou pela combinação escolhida.

Uma vez que o clube funcionava numa situação jurídica pouco definida em relação à lei de jogos de azar, as regras diziam que, com 12 ou mais sócios presentes, a aposta era limitada a 100 coroas por corrida para cada um. Se tivesse menos de 12 sócios presentes, os estatutos do clube estipulavam que se tratava de uma reunião particular, e não havia como impedir pessoas adultas de fazerem apostas entre si. As quantias apostadas eram decididas pelas pessoas presentes. Por esse motivo, havia com notável frequência exatamente 11 presentes na sala dos fundos do Bombay Garden. Onde o garden entrava na história, ninguém sabia.

Às duas e dez da tarde, o sócio mais recente do clube, inscrito quarenta segundos antes, foi levado ao aposento, onde logo constatou que os únicos presentes, além dele, eram um sentado de costas para ele numa das cadeiras giratórias e um homem de provável origem vietnamita que aparentemente administrava as corridas e as apostas; pelo menos vestia um colete parecido com o que era usado pelos crupiês.

As costas do homem na cadeira giratória eram largas e enchiam a camisa de flanela. Cachos escuros caíam sobre a gola.

— Está ganhando, Krongli? — perguntou Harry ao se sentar na cadeira ao lado do delegado.

A cabeça cacheada se virou de lado.

— Harry! — exclamou, com sincera felicidade na voz e na expressão. — Como conseguiu me encontrar?

— Por que acha que estou à sua procura? Talvez eu também seja um freguês.

Krongli riu e olhou para os cavalos que avançavam na reta, cada um com seu jóquei de chumbo nas costas.

— Não é mesmo. Sempre venho aqui quando estou em Oslo e nunca te vi.

— Ok. Alguém me disse que era possível te encontrar aqui.

— Merda, será que tenho uma reputação? Talvez não fique bem para um policial frequentar esse lugar, mesmo que esteja tudo dentro da legalidade.

— A propósito de estar dentro da legalidade — comentou Harry e fez um gesto negativo para o crupiê que apontava para a torneira de chope. — Era sobre isso mesmo que eu queria falar com você.

— Vai falando — disse Krongli, concentrado na corrida; um cavalo azul na pista lateral estava na frente, mas tinha a grande curva ainda a percorrer.

— Iska Peller, a mulher australiana para quem você deu uma carona até a cabana de Håvass, diz que você assediou a amiga dela. Charlotte Lolles.

Harry não detectou nenhuma alteração na expressão concentrada de Krongli. Harry esperou. Por fim, Krongli ergueu o olhar.

— Você quer que eu reaja a isso?

— Só se você quiser — disse Harry.

— Vou interpretar como um “sim”. “Assediar” é a palavra errada. Flertamos um pouco. Nos beijamos. Eu queria ir adiante. Ela achou que bastava. Tentei convencê-la de forma construtiva, como as mulheres muitas vezes esperam de um homem. Afinal, faz parte do jogo entre os sexos. Mas, além disso, nada.

— Não confere totalmente com o que Iska Peller diz que Charlotte contou a ela. Você acha que Peller está mentindo?

— Não.

— Não?

— Mas acho que Charlotte bem queria dar outra versão a sua amiga. As moças católicas gostam de parecer mais castas do que são.

— Elas decidiram pernoitar em Geilo em vez de ficar na sua casa. Mesmo com Peller doente.

— Foi a australiana que insistiu em ir embora. Não sei que tipo de relação havia entre as duas; amizade entre mulheres é sempre algo bastante complexo. Aliás, imagino que aquela Peller nem tenha um namorado. — Ele ergueu o copo de chope. — Onde está querendo chegar, Harry?

— É um pouco estranho você não ter dito nada a Kaja Solness sobre o encontro com Charlotte Lolles quando Kaja esteve em Ustaoset.

— E é um pouco estranho que você ainda esteja trabalhando nesse caso. Pensei que fosse da Kripos, especialmente depois das manchetes nos jornais de hoje. — Krongli voltou a se concentrar nos cavalos. Saindo da curva, o cavalo amarelo na faixa três ganhava distância dos outros.

— É — disse Harry. — Mas casos de estupro ainda cabem à Divisão de Homicídios.

— Estupro? Ainda não ficou sóbrio, Harry?

— Bem. — Harry retirou o maço de cigarros do bolso da calça. — Estou mais sóbrio do que espero que você estivesse, Krongli. — Ele enfiou um cigarro torto entre os lábios — Todas as vezes que surrava e estuprava sua ex lá em Ustaoset.

Krongli se virou para Harry e derrubou o copo de chope com o cotovelo. A cerveja penetrou no feltro verde, e a mancha de umidade se espalhou como o Wehrmacht num mapa da Europa.

— Estou vindo da escola onde ela trabalha — continuou Harry e acendeu um cigarro. — Foi ela que me disse que era provável encontrar você aqui. Ela também disse que, quando te deixou em Ustaoset, foi mais por fugir do que por se mudar. Que você…

Harry não conseguiu continuar. Krongli era rápido. Ele girou sua cadeira com o pé e segurou Harry por trás antes que ele pudesse reagir. Harry sentiu o aperto em seu pulso e sabia o que estava por vir; sabia, porque era algo que praticavam desde o primeiro ano na Academia: a chave de braço policial. Mesmo assim, reagiu com o atraso de um segundo, com a lentidão de quem bebeu, com a burrice de um quarentão. Krongli torceu seu punho e braço para trás das costas e pressionou sua têmpora contra o feltro. Na lateral do queixo machucado. Harry gritou de dor e perdeu os sentidos por um instante. As dores voltaram e ele tentou se soltar alucinadamente. Harry era forte, sempre foi, mas sentiu logo que não tinha chance contra Krongli. A respiração acelerada do homem estava quente e úmida no seu rosto.

— Não devia ter feito isso, Harry. Não devia ter falado com aquela puta. Ela diz qualquer coisa. Faz qualquer coisa. Ela te mostrou a boceta? Mostrou, Harry?

Houve um estalo na cabeça de Harry quando Krongli pressionou com mais força. Um cavalo amarelo e outro verde batiam respectivamente contra o nariz e a testa de Harry quando ele levantou o pé direito e deu uma pisada. Forte. Krongli gritou, Harry girou e conseguiu se soltar, para em seguida se virar e bater. Não com o punho, já havia fraturado ossos demais naquela bobagem, mas com o cotovelo. Acertou Krongli onde aprendera que o efeito era maior, não no meio do queixo, mas um pouco na lateral. Krongli cambaleou para trás, caiu sobre uma cadeira giratória e depois no chão, com os pés apontando para cima. Harry notou que o material do tênis Converse no pé direito de Krongli tinha uma fenda sangrenta após o choque com a placa de ferro da sola de uma bota que definitivamente devia ter sido jogada fora. Também percebeu que o cigarro ainda pendia entre os lábios. E, pelo canto do olho, que o cavalo vermelho na primeira pista se aproximava da linha de chegada para uma evidente vitória.

Harry se curvou, pegou Krongli pelo colarinho e o puxou para cima, deixando-o cair na cadeira. Deu um trago fundo no cigarro, sentindo-o arder e esquentar os pulmões.

— Concordo que esse meu caso de estupro não tem muito fundamento — disse Harry. — Já que nem Charlotte Lolles nem sua mulher registraram queixa. Por isso preciso, como investigador, tentar ir mais fundo nas coisas, certo? E é nesse ponto que volto à cabana de Håvass.

— De que merda você está falando? — Krongli parecia ter contraído uma gripe forte e aguda.

— É sobre essa garota de Stavanger a quem Elias Skog se confidenciou na mesma noite em que foi assassinado. Estavam no ônibus quando Elias contou a ela sobre a noite na cabana de Håvass, e ele foi testemunha de algo que mais tarde pensou que podia ter sido um estupro.

— Elias?

— Sim, Elias. Parece que ele tem um sono leve. Acordou no meio da noite com ruídos no lado de fora do quarto e olhou pela janela. Como a noite estava clara, viu duas pessoas na sombra do telhado do banheiro de fora. A mulher estava de frente para ele e havia um homem atrás dela, de modo que Elias não podia ver seu rosto. Imaginou que estivessem transando, a mulher parecia fazer a dança de ventre e o homem tapava sua boca com a mão, provavelmente para que não acordassem ninguém. E, quando o homem a puxou para dentro do banheiro, Elias, um pouco decepcionado por não ver todo o show ao vivo, voltou a dormir. Foi só quando leu sobre os assassinatos que começou a pensar diferente sobre o que tinha visto. Talvez a mulher estivesse se contorcendo para tentar se soltar. Talvez a mão sobre sua boca fosse para abafar os gritos de socorro. — Harry deu outra tragada. — Foi você, Krongli? Você estava lá?

Krongli esfregou o queixo.

— Álibi? — perguntou Harry, a voz leve.

— Estava em casa, dormindo sozinho. Elias Skog disse quem era a mulher?

— Não. E, como eu disse, ele não viu o cara.

— Não fui eu. E você vive perigosamente, Harry.

— É para ser interpretado como uma ameaça ou um elogio?

Krongli não respondeu. Mas havia um brilho nos seus olhos, amarelo e frio.

Harry apagou o cigarro e se levantou.

— A propósito, sua ex não me mostrou nada. Estávamos na sala dos professores. Algo me diz que ela tem medo de ficar sozinha quando há um homem por perto. Alguma coisa você conseguiu, não é, Krongli?

— É melhor você manter um olho aberto, Harry.

Harry se virou. O crupiê parecia totalmente impassível diante do ocorrido e já estava montando os cavalos para a próxima corrida.

— Quer fazer uma aposta? — perguntou, sorrindo, com um domínio precário da língua.

Harry fez que não.

— Sinto muito, não tenho o que apostar.

— Só tem a ganhar — respondeu o crupiê.

Harry refletiu sobre isso ao sair e chegou à conclusão de que era um mal-entendido linguístico ou que estava além da sua própria lógica. Ou apenas outro péssimo ditado oriental.