O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 13 de 96

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O Leopardo

Capítulo 13

E SCRTITÓRIO

 

Quando Harry abriu os olhos de novo, já tinha passado duas horas deitado na cela, e Gunnar Hagen estava do outro lado lutando para abrir a porta com a chave.

— Desculpe, Harry, eu estava numa reunião.

— Para mim foi ótimo, chefe — disse Harry, esticando-se no colchão com um bocejo. — Estou livre?

— Conversei com o advogado da polícia, ele disse que está tudo certo. A detenção é preventiva, não é cumprimento de pena. Disseram que foram dois rapazes da Kripos que trouxeram você para cá. O que houve?

— É o que espero que você me diga.

— Eu?

— Desde que aterrissei em Oslo estou sendo seguido pela Kripos.

— Kripos?

Harry sentou-se no colchão e passou uma das mãos pelo cabelo escovinha

— Eles me seguiram até o hospital. Me prenderam por uma formalidade. O que está havendo, chefe?

Hagen ergueu o queixo e passou a mão pelo pescoço.

— Droga, eu devia ter adivinhado.

— Adivinhado o quê?

— Que ia vazar que a gente estava atrás de você. Que Bellman ia tentar nos impedir.

— Traduza, por favor.

— Como já disse, é muito complicado. Trata-se de corte de gastos e pessoal na força policial. Sobre jurisdição. A briga de sempre, a Divisão de Homicídios versus a Kripos. Se há recursos suficientes para duas entidades com competência paralela num país pequeno. A discussão ressurgiu quando entrou o novo segundo comandante da Kripos, Mikael Bellman.

— Me fale sobre ele.

— Bellman? Academia de Polícia, curto período em serviço na Noruega antes de seguir para a Europol em Haia. Voltou para a Kripos como menino-prodígio querendo avançar e subir. Encrenca desde o primeiro dia, quando ele quis empregar um ex-colega da Europol, um estrangeiro.

— Por acaso finlandês?

Hagen fez que sim.

— Jussi Kolkka. Tem formação policial da Finlândia, mas nenhuma das qualificações formais exigidas para ser policial na Noruega. O sindicato pegou fogo. A solução foi, claro, empregar Kolkka temporariamente como intercambista. A iniciativa seguinte de Bellman foi deixar claro que a legislação seria interpretada de modo que, em grandes casos de investigação de assassinato, a própria Kripos é quem decide se o caso cabe a eles ou ao distrito policial, não ao contrário.

— E?

— É inaceitável, claro. Temos a maior divisão de Homicídios nacional aqui na sede da polícia; cabe a nós decidir que casos pegar dentro do distrito de Oslo, quando precisamos de ajuda e quando queremos solicitar à Kripos que cuide de algum caso. A Kripos foi estabelecida para oferecer seus conhecimentos aos distritos policiais investigando casos de homicídio, mas sem mais nem menos Bellman deu status de império à sua divisão. O Ministério da Justiça foi envolvido na questão. E, de imediato, eles viram a chance de realizar o que conseguimos conter por tanto tempo: a concentração de investigações de homicídios em uma única central de competências. Eles não querem saber dos nossos argumentos sobre o perigo de padronização e nepotismo, sobre a importância de conhecimento local e distribuição de competências, sobre recrutamento e…

— Obrigado, está ensinando o padre a rezar missa.

Hagen levantou uma mão.

— Ok, mas o Ministério da Justiça está convocando uma reunião…

— E…?

— Dizem que vão ser pragmáticos. Que se trata de utilizar recursos escassos da melhor maneira possível. Se a Kripos puder mostrar que alcança melhores resultados ao atuar de maneira desimpedida em relação aos distritos policiais…

— Então todo o poder fica com a sede da Kripos em Bryn — emendou Harry. — Um grande escritório para Bellman e adeus para a Divisão de Homicídios?

Hagen deu de ombros.

— Algo do tipo. Quando Charlotte Lolles foi encontrada morta atrás daquele Datsun e vimos semelhanças com o assassinato daquela moça no porão do prédio novo, houve um embate. A Kripos disse que mesmo que os corpos tivessem sido encontrados em Oslo, um homicídio duplo cabe a eles e não à polícia distrital de Oslo, e iniciaram uma investigação por conta própria. Eles entenderam que a batalha pelo suporte do Ministério será travada nesse último caso.

— Então, o jeito é solucionar o caso antes da Kripos?

— Como disse, é complicado. A Kripos se recusa a trocar informações conosco, mesmo que não tenham conseguido avançar. Em vez disso, foram ao Ministério. O nosso chefe recebeu um telefonema do Ministério, que gostaria que a Kripos cuidasse do caso até eles resolverem a futura divisão das responsabilidades.

Harry balançou a cabeça lentamente.

— As coisas estão ficando mais claras. Vocês ficaram desesperados…

— Não é essa a palavra que eu usaria.

— Desesperados o suficiente para ressuscitar Hole, o velho caçador de serial killers. Um cara que não está mais na folha de pagamento, que podia investigar o caso sem levantar poeira. Foi por isso que eu devia ficar de bico fechado.

Hagen soltou um suspiro.

— Mas Bellman descobriu, claro. E mandou seguirem você.

— Para ver se vocês estavam cumprindo o pedido do Ministério. Para me pegar em flagrante lendo velhos relatórios ou interrogando testemunhas antigas.

— Ou ainda mais eficaz: Tirar você do jogo. Bellman sabe que um pequeno deslize seria suficiente para sua suspensão, uma cervejinha no horário do serviço, uma única quebra do regulamento.

— Humm. Ou resistir à prisão. Ele está pensando em levar o caso adiante, o canalha.

— Vou falar com ele. Vai deixar para lá quando souber que você não quer o caso. A gente não deixa policiais na lama se não houver nenhum motivo. — Hagen olhou para o relógio. — Tenho trabalho a fazer. Vamos tirar você daqui.

 

***

 

Eles saíram da detenção, cruzaram o estacionamento e pararam na entrada da sede da Polícia, uma torre de concreto e aço no topo do parque. Ao lado deles, conectados à sede da Polícia por um aqueduto subterrâneo, ficavam os velhos muros cinzentos de Botsen, a Prisão Distrital de Oslo. Abaixo deles, o bairro de Grønland estendia-se até o fiorde e o porto. As fachadas eram brancas como inverno, e estavam sujas como se houvesse chovido cinzas por cima delas. Os guindastes no porto estavam delineados como forcas contra o céu.

— Não é muito boa esta vista, o que acha?

— Não — disse Harry, respirando o ar.

— No entanto, essa cidade tem algo peculiar.

Harry fez que sim.

— Tem mesmo.

Ficaram algum tempo ali, balançando sobre os calcanhares com as mãos nos bolsos.

— Está frio — disse Harry.

— Nem tanto.

— Pode ser, mas meu termostato ainda está sintonizado em Hong Kong.

— Entendo.

— Então, talvez tenha uma xícara de café esperando ali em cima? — Harry virou a cabeça em direção ao sexto andar. — Ou era trabalho? O caso Marit Olsen?

Hagen não respondeu.

— Humm — disse Harry. — Então, também ficou com Bellman e a Kripos?

 

Harry recebeu um e outro cumprimento comedido ao andar pelo corredor da zona vermelha no sexto andar. Decerto era uma lenda da casa, mas nunca foi um homem bem-quisto.

Passaram por uma porta onde alguém havia colado uma folha de papel A4 com o texto “I

SEE DEAD PEOPLE

”.

Hagen pigarreou.

— Eu tive que deixar Magnus Skarre ficar com seu escritório, aqui está entupido de gente.

— Sem problema — disse Harry.

Pegaram um copo do infame café coado na copa.

No escritório de Hagen, Harry instalou-se na cadeira em frente à mesa do chefe, onde havia sentado tantas vezes.

— Estou vendo que ainda tem isso — comentou Harry e apontou para um objeto em cima da mesa que à primeira vista parecia um ponto de interrogação branco. Era um dedo mindinho empalhado. Harry sabia que havia pertencido a um comandante japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a retirada, o comandante havia cortado fora seu mindinho na frente dos seus homens, como um pedido de desculpas por não poderem voltar para pegar seus mortos. Hagen adorava usar a história quando ensinava a gerência intermediária sobre liderança.

— E você ainda não. — Hagen acenou para a mão de Harry, que segurava o copo de café, sem o dedo do meio.

Harry fez que sim e tomou um gole. O café também estava como antes. Asfalto derretido.

Harry fez uma careta.

— Preciso de um grupo de três pessoas.

Hagen bebericou o café e pôs o copo na mesa.

— Só três?

— Você sempre pergunta isso. Você sabe que eu não trabalho com grandes grupos de investigadores.

— Nesse caso, não vou reclamar. Menos pessoas significa menos chance para a Kripos e o Ministério da Justiça ficar sabendo que estamos investigando o homicídio duplo.

— Homicídio triplo — disse Harry e bocejou.

— Peraí, a gente não sabe se Marit Olsen…

— Mulher sozinha à noite, sequestrada e levada para outro lugar onde é assassinada de forma nada convencional. Pela terceira vez nessa cidadezinha de Oslo. Triplo. Acredite. Mas, independente do nosso número, você sabe que, se depender de mim, vamos tomar muito cuidado para que os nossos caminhos não se cruzem com os da Kripos.

— Sei — disse Hagen. — Sei disso. Por isso há a condição de que, caso a investigação venha à tona, não terá nada a ver com a Divisão de Homicídios.

Harry fechou os olhos.

Hagen prosseguiu.

— É claro que vamos lamentar que alguns dos nossos empregados estejam envolvidos, mas deixaremos claro que se trata de algo que o notoriamente rebelde Harry Hole iniciou por conta própria, sem o conhecimento do comando da divisão. E você irá confirmar essa versão.

Harry reabriu os olhos e fitou Hagen.

Hagen encontrou seu olhar.

— Alguma pergunta?

— Sim.

— Estou ouvindo.

— Onde está o vazamento?

— Como é?

— Quem está informando Bellman?

Hagen deu de ombros.

— Não tenho a impressão de que ele tenha algum acesso sistemático ao que fazemos. Ele pode ter descoberto por várias fontes que você estava voltando.

— Sei que Magnus Skarre gosta de soltar a língua a torto e a direito.

— Não me pergunte mais, Harry.

— Ok. Onde podemos nos instalar?

— Certo. Certo. — Gunnar Hagen fez que sim com a cabeça repetidamente, como se tivessem falado do assunto já por algum tempo. — A respeito de uma sala…

— Então?

— Como disse, aqui está lotado, por isso tivemos que achar algo do lado de fora, mas não muito longe.

— Ótimo. Onde?

Hagen olhou pela janela. Para os muros cinzentos da prisão Botsen.

— Está brincando — disse Harry.