O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 26 de 96

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O Leopardo

Capítulo 26

A AGULHA

 

Gunnar Hagen esperava por eles, sentado na cadeira de Harry, quando entraram na sala úmida e quente.

Bjørn Holm, que estava sentado atrás de Hagen, deu de ombros, fazendo gestos de que não tinha ideia do que o chefão queria.

— Stavanger, me disseram — disse Hagen ao se levantar.

— Sim — disse Harry. — Fique sentado, chefe.

— É sua cadeira. Não vou demorar.

— Ah, é?

Harry deduziu que havia notícias ruins. Notícias ruins de certa importância. Os chefes não se apressavam pelo aqueduto até a prisão Botsen para dizer que o recibo de viagem havia sido malpreenchido.

Hagen ficou em pé, de modo que Holm era a única pessoa sentada.

— Infelizmente, preciso informar que a Kripos já descobriu que vocês estão investigando os assassinatos. E não tenho outra escolha a não ser pôr um fim à investigação.

No silêncio que seguiu, Harry pôde ouvir o murmúrio das caldeiras na sala vizinha. Hagen deixou os olhos varrerem no seu redor, encarou o olhar de cada um e parou no de Harry:

— Também não posso dizer que é uma demissão honrável. Deixei bem claro que a investigação tinha que ser feita sob total sigilo.

— Bem — disse Harry. — Pedi a Beate Lønn para vazar informações sobre certa fábrica de cordas à Kripos, e ela prometeu que ia fazer parecer que a fonte fosse a Perícia Criminal.

— E tenho certeza de que ela fez isso — disse Hagen. — Foi o delegado de Ytre Enebakk que te entregou, Harry.

Harry revirou os olhos e praguejou baixinho.

Hagen juntou as mãos com tanta força que provocou um ruído seco entre as paredes de alvenaria.

— Por isso, tenho que dar a triste ordem de encerrar toda a investigação, a partir de agora. E que essa sala esteja arrumada em 48 horas. Gomen nasai.

Harry, Kaja e Bjørn Holm se entreolharam enquanto a porta de ferro se fechou lentamente e os passos apressados de Hagen se afastavam pelo aqueduto.

— Quarenta e oito horas — disse Bjørn por fim. — Alguém quer um café fresquinho?

Harry chutou a lata de lixo ao lado da mesa, que acertou a parede com um estrondo, despejando o conteúdo esparso de papéis, e voltou rolando até ele.

— Vou estar no hospital — disse e foi até a porta.

 

Harry tinha colocado a cadeira dura de madeira ao lado da janela e ouviu a respiração regular do pai enquanto folheava o jornal. Havia um casamento e um enterro lado a lado. À esquerda, as fotos do enterro de Marit Olsen, mostrando o rosto sério e compassivo do primeiro-ministro, os ternos pretos dos colegas do partido e o marido, Rasmus Olsen, atrás de um grande óculos de sol nada atraente. No lado direito, o anúncio de que a filha de um armador, Lene, ia casar com seu Tony na primavera, com fotos dos convidados mais badalados que seriam levados de avião para St. Tropez. Na última página leu que o pôr do sol em Oslo ocorreria exatamente às cinco e quinze. Harry olhou para o relógio e constatou que era exatamente o que o sol estava fazendo naquele momento, escondendo-se atrás das nuvens baixas que não deixavam cair chuva nem neve. Observou as luzes se acenderem em todas as casas nos morros em torno do que outrora havia sido um vulcão. De certa forma, era um pensamento libertador, que o vulcão um dia se abriria por baixo deles, engolindo-os e apagando todos os traços do que uma vez tinha sido uma cidade satisfeita, bem-organizada e um pouco triste.

Quarenta e oito horas. Por quê? Não ia levar mais de duas horas para arrumar aquela sala de escritório improvisada.

Harry fechou os olhos e analisou o caso. Escreveu um último relatório mental para seu arquivo pessoal.

Duas mulheres assassinadas da mesma maneira, afogadas com o próprio sangue da boca e com cetamina no sangue. Uma mulher enforcada numa plataforma de mergulho, com a corda de uma velha fábrica de cordas. Um homem afogado na própria banheira. Todas as vítimas estiveram provavelmente na mesma cabana na mesma hora. Ainda não sabiam quem mais tinha estado lá, o motivo dos homicídios ou o que havia acontecido na cabana de Håvass naquela noite. Só tinham efeitos, nenhuma causa. Caso encerrado.

— Harry…

Ele não tinha ouvido seu pai acordar, e se virou.

Olav Hole parecia melhor, mas talvez fosse devido à cor das bochechas e ao brilho febril no olhar. Harry se levantou e colocou a cadeira perto da cama do pai.

— Já está aqui há um tempo?

— Dez minutos — mentiu Harry.

— Dormi tão bem — disse o pai. — E tive sonhos tão bons.

— Dá para ver. Parece que pode levantar e sair daqui.

Harry afofou o travesseiro dele, coisa que o pai permitiu, mesmo os dois sabendo que não era necessário.

— Como está a casa?

— Ótima — disse Harry. — Vai durar uma eternidade.

— Bom. Tem um assunto que eu queria discutir com você, Harry.

— Humm.

— Você é um homem feito agora. Vai me perder de modo natural. É como deve ser. Não como quando você perdeu a sua mãe. Você quase enlouqueceu.

— Foi? — perguntou Harry e passou a mão sobre a fronha.

— Você destruiu seu quarto. Queria matar o médico e todos que tinham contaminado ela, e a mim também. Porque eu tinha… bem, porque eu não tinha percebido tudo antes, imagino. Você estava tão cheio de amor.

— De ódio, quer dizer.

— Não, de amor. É a mesma moeda. Tudo começa com amor. O ódio é só o outro lado da moeda. Sempre achei que foi a morte da sua mãe que fez você começar a beber. Ou melhor, o amor à sua mãe.

— O amor é uma máquina mortífera — murmurou Harry.

— O quê?

— Apenas algo que alguém me disse uma vez.

— Eu fiz tudo sue tua mãe pediu. Exceto essa única coisa. Ela me pediu para ajudá-la quando chegasse a hora.

Parecia que alguém havia injetado água gelada no peito de Harry.

— Mas não consegui. E sabe de uma coisa, Harry? Tive muitos pesadelos por causa disso. Não passou um dia sequer sem eu pensar que não consegui satisfazer o desejo dela, da mulher que eu amava acima de tudo nesse mundo.

A cadeira fraca rangeu quando Harry se levantou de repente. Ele foi até a janela. Ouviu o pai respirar fundo algumas vezes atrás de si, de forma profunda e trêmula. Então ele continuou:

— Sei que é um fardo pesado impor isso a você, filho. Mas sei que você é igual a mim, e que isso vai te perseguir se não o fizer. Então, deixe me explicar como fazer…

— Pai — disse Harry.

— Está vendo aquela agulha?

— Pai! Pare!

O quarto ficou em silêncio. Exceto pelo respirar trêmulo. Harry ficou vendo o filme em preto e branco daquela cidade, onde as nuvens pressionavam seus rostos cinza-chumbo embaçados contra os telhados das casas.

— Quero ser enterrado em Åndalsnes — disse o pai.

Enterrar. A palavra soou como um eco da Páscoa que tinha passado com a mãe e o pai em Lesja, quando Olav Hole, com frieza, explicou o que ele e a irmã tinham que fazer se fossem soterrados numa avalanche, se o coração ficasse com pericardite constritiva, uma calcificação que surge em torno do coração, impedindo-o de se expandir. Um coração blindado. Em torno deles havia campos planos e colinas gentis, era quase como aeromoças em voos domésticos no interior da Mongólia explicando como se usa o colete salva-vidas. Absurdo, porém deu aos dois uma sensação de segurança, a sensação de que todos iam sobreviver se fizessem as coisas certas. E agora, seu pai estava dizendo que aquilo não era verdade.

Harry pigarreou duas vezes.

— Por que em Åndalsnes? Por que não aqui na cidade onde…

Harry se deteve, e o pai entendeu o resto. Onde a mãe estava enterrada.

— Quero ficar com meus conterrâneos na vila.

— Você não os conhece.

— Bem, quem é que a gente conhece? Pelo menos, eu e eles somos do mesmo lugar. No fim das contas, talvez seja disso que se trata. A tribo. Queremos estar junto à tribo.

— Queremos?

— É, é o que queremos. Ciente ou não, é isso que queremos.

O enfermeiro chamado Altman entrou, deu a Harry um breve sorriso e bateu com a ponta do dedo no relógio.

Harry desceu pela escada e cruzou com dois policiais de uniforme subindo. Automaticamente, ele acenou com a cabeça, cúmplice. Eles o olharam calados, como se ele fosse um desconhecido.

Normalmente, Harry ansiava pela solidão e por todos os benefícios que ela trazia: a paz, o silêncio, a liberdade. Mas quando parou no ponto do bonde, de súbito não sabia aonde ir. Ou o que fazer. Só que, nesse momento, a solidão na casa de Oppsal lhe parecia insuportável.

Ele digitou o número de Øystein.

O amigo estava numa longa corrida a Fagernes, mas sugeriu uma cerveja no Lompa lá pela meia-noite, para celebrar que outro dia de trabalho na vida de Øystein Eikeland havia sido relativamente bem-cumprido. Harry lembrou a Øystein que era alcoólico, e recebeu a resposta de que até um alcoólico precisava se embebedar de vez em quando, né?

Harry desejou a Øystein uma viagem tranquila e desligou. Olhou para o relógio. E a questão surgiu de novo. Quarenta e oito horas? Por quê?

Um bonde parou na sua frente e as portas se abriram. Harry olhou para dentro do vagão acolhedor, aquecido e iluminado. Daí deu meia-volta e começou a caminhar em direção à cidade.