O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 69 de 96

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O Leopardo

Capítulo 69

L ETRAS ENTRELAÇADAS

 

A mulher que abriu a porta do apartamento em Hovseter tinha ombros largos de boxeador e a mesma altura de Harry. Ela olhou para ele com paciência, como se estivesse acostumada a dar às pessoas os segundos necessários para se recompor.

— Sim?

Harry reconheceu a voz de Frida Larsen do telefone, que fazia com que ele imaginasse uma mulher esbelta e baixinha.

— Harry Hole — apresentou-se ele. — Encontrei o endereço pelo número de telefone. Felix está?

— Não está aqui. Está jogando xadrez — respondeu ela com a voz inexpressiva. Parecia uma resposta padrão. — Mande um e-mail.

— Gostaria muito de falar com ele.

— Sobre o quê? — Ela preencheu o vão da porta de modo a impedir que ele bisbilhotasse. E não era só por causa de seu tamanho.

— Encontramos um fragmento de lava na delegacia de polícia. Gostaria de saber se esse fragmento é do mesmo vulcão daquele que mandamos para ele anteriormente.

Harry estava dois degraus mais baixo que ela, segurando a pedrinha no ar. Porém ela não se mexeu da soleira.

— Impossível de ver — retrucou ela. — Mande um e-mail para Felix. — Ia fechar a porta.

— Mas lava é lava — disse Harry.

Ela hesitou. Harry esperou. Por experiência, sabia que um perito em algo nunca conseguia resistir a uma oportunidade de corrigir um leigo.

— Todos os vulcões têm sua própria composição de lava — explicou ela. — Mas varia também de erupção para erupção. Vocês precisam analisar a pedra. A quantidade de ferro diz muito. — Seu rosto estava impassível, o olhar, desinteressado.

— O que eu realmente queria era perguntar um pouco sobre as pessoas que viajam pelo mundo estudando vulcões. Não devem ser muitas, por isso queria saber se Felix teria uma visão geral desse meio na Noruega.

— Somos mais numerosos do que imagina — comentou ela.

— Então, você é uma delas?

Ela deu de ombros.

— Qual foi o último vulcão onde estiveram?

— Ol Doinyo Lengai, na Tanzânia. E a gente não chegou ao vulcão, mas perto. Estava em erupção. Magma de natrocarbonatito. A lava que ele expele é preta, mas ela reage com o ar e depois de algumas horas fica totalmente branca. Como a neve.

Sua voz e seu rosto ficaram de repente vivazes.

— Por que ele não quer conversar? — perguntou Harry. — Seu irmão é mudo?

Seu rosto voltou a se fechar. Sua voz se tornou novamente inexpressiva.

— Mande um e-mail.

A porta bateu com tanta força que entrou poeira nos olhos de Harry.

 

Kaja estacionou na Maridalsveien, pulou a mureta e desceu com cuidado o declive íngreme até a floresta onde ficava a fábrica Kadok. Acendeu a lanterna e passou pelo meio do mato, afastando os galhos nus que queriam acertar seu rosto. O mato era denso, as sombras pulavam como lobos silenciosos e, mesmo quando parava para ouvir e olhar, as sombras das árvores caíam em outras árvores e não dava para distingui-las; era como um labirinto de espelhos. Mas Kaja não estava com medo. De fato, era estranho que ela, com tanto medo de portas fechadas, não tivesse medo do escuro. Ouviu o rugido do rio. Escutara alguma outra coisa? Um som que não devia estar ali? Ela continuou. Passou curvada por baixo de um tronco derrubado pelo vento e parou de novo. Mas os outros sons silenciaram assim que ela parou. Kaja respirou fundo e terminou o pensamento: como se alguém a seguisse sem querer ser descoberto.

Ela se virou e iluminou a trilha atrás de si. Sem tanta certeza sobre não ter medo do escuro. Alguns galhos oscilavam à luz, mas seriam os mesmos que ela havia tocado?

Kaja se virou para a frente.

E gritou quando a luz caiu num rosto pálido com olhos arregalados. Ela deixou a lanterna cair e deu alguns passos para trás, mas a figura a seguiu com um grunhido que mais parecia riso. No escuro, Kaja vislumbrou a figura se abaixar, se endireitar, e então ele estava com a luz ofuscante de sua lanterna no rosto.

Ela prendeu a respiração.

O grunhido parou.

— Aqui — chamou uma voz masculina rouca, e a luz ressurgiu.

— Aqui?

— Sua lanterna — avisou a voz.

Kaja a pegou e deixou a faixa de luz um pouco ao lado dele. Para poder vê-lo sem cegá-lo. Ele tinha cabelo loiro e um queixo proeminente.

— Quem é você? — perguntou ela.

— Truls Berntsen. Trabalho com Mikael.

Claro que tinha ouvido falar de Truls Berntsen. A sombra. Beavis, não era assim que Mikael o chamava?

— Eu sou…

— Kaja Solness.

— Correto, como sabe…? — Ela engoliu em seco, e reformulou a pergunta. — O que está fazendo aqui?

— O mesmo que você — respondeu ele com voz rascante.

— Certo. E o que eu estou fazendo aqui?

Ele soltou seu grunhido risonho. Mas não respondeu. Ficou ali parado em frente a ela, com os braços caídos um pouco para os lados. Uma pálpebra tremia como se um inseto estivesse preso por baixo.

Kaja suspirou.

— Se estiver fazendo o mesmo que eu, você está aqui para vigiar a fábrica — disse ela. — Caso ele reapareça.

— Exato, caso ele reapareça — disse Beavis sem desviar o olhar dela.

— Não seria tão improvável, seria? — perguntou Kaja. — Talvez ele não saiba que pegou fogo.

— Meu pai trabalhava ali — disse Beavis. — Ele dizia que produzia PSG, tossia PSG e virou PSG.

— Há muitas pessoas da Kripos na área? Mikael mandou você para cá?

— Você não está mais saindo com ele, não é? Está saindo com Harry Hole.

Kaja sentiu um frio no estômago. Como esse cara sabia disso? Será que Mikael realmente havia contado a alguém sobre ela?

— Você não estava na cabana de Håvass — comentou ela para mudar de assunto.

— Não estava? — Um grunhido risonho. — Eu devia estar de folga, então. Jussi estava lá.

— É — disse ela baixinho. — Estava.

Veio um golpe de vento, e Kaja virou a cabeça de lado para não ser atingida no rosto por um galho. Será que ele a havia seguido ou já estava no local antes de ela chegar?

Quando ia perguntar, ele não estava mais ali. Ela projetou a luz por entre as árvores. Truls Berntsen havia sumido.

 

Eram duas da madrugada quando ela estacionou na rua, entrou pelo portão e subiu a escada da casa amarela. Apertou o botão sobre a placa de cerâmica com as palavras “fam. Hole” com letras entrelaçadas.

Quando ia tocar pela terceira vez, ouviu alguém pigarrear baixo e se virou a tempo de ver Harry devolver um revólver de serviço ao cós da calça. Ele devia ter dado a volta pela casa sem fazer barulho.

— O que foi? — perguntou ela, assustada.

— Só estou sendo mais cuidadoso. Você devia ter ligado avisando que viria.

— Eu... Eu não devia ter vindo?

Harry subiu a escada, passou por ela e abriu a porta. Ela o seguiu, abraçou-o por trás, se agarrou às suas costas, fechando a porta dando um empurrão com o calcanhar. Ele se libertou, ia dizer alguma coisa, mas ela o deteve com um beijo. Um beijo ávido que exigia ser retribuído. Pôs as mãos geladas por baixo da camisa de Harry, sentiu pela sua pele cálida que vinha direto da cama, tirou o revólver da calça e o deixou cair na mesa do corredor.

— Quero você — sussurrou ela, mordendo a orelha dele, enfiando a mão nas calças de Harry. O membro estava quente e macio.

— Kaja…

— Posso?

Ela pensou ter sentido certa hesitação, uma leve relutância. Pôs a outra mão em torno do pescoço dele e o olhou nos olhos.

— Por favor…

Harry sorriu. Por fim, seus músculos relaxaram. E ele a beijou. Com cuidado. Com mais cuidado do que ela queria. Kaja gemeu de frustração, desabotoou sua calça. Segurou seu pau firme sem mexer a mão e ficou sentindo crescer.

— Foda-se — gemeu ele e a levantou do chão. Carregou-a escada acima. Chutou a porta do quarto e a deitou na cama. No lado da mãe. Kaja inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos, sentiu as roupas serem tiradas, com rapidez, com eficiência. Sentiu o calor radiar de sua pele um instante antes de Harry se deitar por cima dela, forçando suas coxas a se abrirem. É, pensou ela. Me fode.

 

Kaja estava deitada com o rosto e a orelha sobre o peito dele, ouvindo as batidas do coração.

— O que você pensou quando estava deitado na neve, sabendo que ia morrer? — sussurrou ela.

— Que eu ia viver — respondeu Harry.

— Só isso?

— Só isso.

— Não que ia… rever as pessoas queridas?

— Não.

— Eu pensei. Foi estranho. Estava com tanto medo de que algo especial acabasse. Depois, o medo passou e me senti repleta de paz. Adormeci. E então você veio. Me acordou. Me salvou.

Harry estendeu o cigarro a Kaja e ela tragou, dando uma risadinha.

— Você é um herói, Harry. Do tipo para quem dão medalhas. Quem diria isso de você, hein?

Harry balançou a cabeça.

— Acredite, querida, só pensei em mim. Não pensei em você até chegar à lareira.

— Talvez não, mas quando chegou lá ainda tinha pouco ar. Ao cavar para me tirar, você sabia que ia usar o ar duas vezes mais rápido.

— O que posso dizer? Sou um cara generoso.

Ela deu um tapinha no peito dele.

— Um herói!

Harry deu uma bela tragada.

— Ou talvez fosse o instinto de sobrevivência que tenha passado a perna na consciência.

— O que quer dizer?

— A pessoa que encontrei primeiro era tão forte que quase conseguiu segurar o bastão. Por isso percebi que devia ser Kolkka e que ele estava vivo. Eu sabia que era questão de segundos e minutos, mas, em vez de cavar para retirá-lo, comecei a cutucar na neve até te encontrar. Você estava quieta. Pensei que estivesse morta.

— Então?

— Então, pode ser que eu tenha pensado, bem lá no fundo, que se cavasse para retirar a pessoa morta primeiro, nesse meio-tempo a pessoa que estava viva poderia morrer. Assim, eu teria todo o ar só para mim. É difícil saber o que governa nossas ações.

Ela ficou quieta. Lá fora o rugido de uma moto aumentou e sumiu. Uma motocicleta em março. E hoje, Kaja tinha visto uma ave migratória. Tudo estava fora do lugar.

— Você não frita o seu cérebro pensando tanto assim? — perguntou ela.

— Não. Talvez. Não sei.

Kaja se aconchegou nele.

— Sobre o que está pensando agora?

— Como ele pode saber o que sabe.

Ela suspirou.

— O nosso assassino?

— E por que ele está brincando comigo. Por que ele me enviou um pedaço de Tony Leike. Como ele pensa.

— E como está pensando em descobrir?

Harry apagou o cigarro no cinzeiro da mesa de cabeceira. Inalou fundo e soltou o ar com um longo assobio.

— É essa a questão. Só consigo pensar numa única maneira. Preciso falar com ele.

— Com ele? O Cavalheiro?

— Alguém igual a ele.

O sonho surgiu na soleira do sono. Ele olhava para cima, para um prego. Estava saindo da cabeça de um homem. Mas essa noite havia algo familiar com o rosto. Um retrato familiar, um que ele tinha visto tantas vezes. Recentemente. O objeto estranho na boca de Harry explodiu e ele se sobressaltou. Estava dormindo.