O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 63 de 96

Páginas do PDF

O Leopardo

Capítulo 63

A DESPENSA

 

Harry pôs lenha no fogão de ferro.

Bellman estava sentado à mesa da sala, batendo os dentes. Suas manchas de pigmentação estavam com um tom azulado. Eles bateram à porta e gritaram no vento uivante durante algum tempo antes de quebrar a janela de um quarto vazio. Um quarto com a cama desarrumada e um cheiro que fez Harry pensar que alguém tinha dormido ali recentemente. Quase botou a mão nela para sentir se ainda estava quente. E, mesmo que a sala fosse parecer quente de qualquer forma — estavam com tanto frio —, Harry enfiou a mão no fogão para sentir se havia brasas quentes por baixo das cinzas. Mas não havia.

Bellman se sentou mais perto do fogão.

— Viu alguma coisa além da motoneve lá embaixo?

Foram as primeiras palavras que disse depois de correr atrás de Harry, gritando para ele não o abandonar, montando na motoneve atrás de Harry num só pulo.

— Um braço — respondeu Harry.

— O braço de quem?

— Como posso saber?

Harry se levantou e foi ao banheiro. Verificou o que tinha lá. O pouco que tinha. Um sabonete e um barbeador. Nenhuma escova de dente. Uma pessoa, um homem. Que não escovava os dentes ou tinha ido viajar. O chão estava úmido, mesmo ao longo do rodapé, como se alguém houvesse usado uma mangueira. Algo chamou sua atenção. Ele se agachou. Meio escondida atrás do rodapé havia uma coisa marrom e preta. Uma pedrinha? Harry a catou e a estudou. Com certeza não era lava. Ele a pôs no bolso.

Nas gavetas da cozinha encontrou café e pão. Ele apertou o pão. Relativamente fresco. Na geladeira havia um vidro de geleia, manteiga e duas garrafas de cerveja. Harry estava com tanta fome que pensou ter sentido cheiro de porco assado. Vasculhou os armários. Nada. Droga, será que o cara só comia pão com geleia? Encontrou um pacote de biscoito em cima de uma pilha de pratos. O mesmo tipo de prato que havia na cabana de Håvass. E os mesmos móveis. Será que essa também seria uma das cabanas de turistas? Harry parou. Não apenas imaginou, ele sentiu de fato cheiro de porco assado — corrigindo, porco queimado.

Ele voltou à sala.

— Está sentindo?

— O quê?

— O cheiro — disse Harry e se sentou de cócoras próximo ao fogão. Ao lado da porta, no alto-relevo de um veado, havia três pedacinhos pretos, não identificáveis, presos ao ferro do fogão, ainda fumegando.

— Encontrou alguma comida? — perguntou Bellman.

— Depende do que você chama de comida — respondeu Harry pensativo.

— Tem uma despensa no outro lado do quintal. Talvez…

— Em vez de “talvez”, por que não vai dar uma olhada?

Bellman fez que sim, se levantou e saiu.

Harry foi até uma espécie de escrivaninha para ver se havia algo que pudesse usar para raspar os pedacinhos queimados. Abriu a gaveta de cima. Vazia. Abriu as outras, todas vazias. Exceto por uma folha de papel na última. Harry a tirou da gaveta. Não era uma folha, mas uma fotografia virada para baixo. A primeira coisa que estranhou foi o fato de haver uma foto de família numa cabana de turistas. Tinha sido tirada no verão, diante de uma pequena casa de fazenda. Uma mulher e um homem estavam no topo da escada da entrada, com um menino entre eles. A mulher usava um vestido azul, lenço na cabeça, sem maquiagem e tinha um sorriso cansado. O homem estava com a boca apertada numa expressão severa e o rosto fechado típico de homens constrangidos que parecem estar escondendo um segredo sombrio. Mas foi o menino no meio que mais chamou a atenção de Harry. Era parecido com a mãe, o mesmo sorriso largo e aberto, e olhar gentil. Porém era também parecido com outra pessoa. Aqueles grandes dentes brancos…

Harry foi até o fogão; de repente começou a sentir frio de novo. O cheiro forte de fumaça de carne de porco… Ele fechou os olhos e se concentrou em respirar pelo nariz, fundo e com calma, algumas vezes, porém mesmo assim sentiu náusea.

No mesmo instante, Bellman entrou pisando forte, com um largo sorriso nos lábios.

— Espero que goste de carne de veado.

 

Harry acordou, se perguntando o que o tinha despertado. Um ruído? Ou a falta de um ruído? Ele notou que a sala estava num silêncio total, e que havia parado de nevar. Jogou o cobertor de lado e se levantou do sofá.

Foi até a janela e olhou para fora. Era como se alguém tivesse passado uma varinha mágica sobre a paisagem. O que seis horas antes tinha sido um deserto branco, duro e implacável, agora estava suave e materno, quase belo ao luar cativante. Harry se viu procurando passos na neve. Certamente fora acordado por um ruído. Podia ter sido qualquer coisa. Um pássaro. Um bicho. Ele ficou quieto e ouviu o roncar leve atrás da porta do quarto. Então não podia ter sido Bellman que havia levantado. Seu olhar seguiu as pegadas que iam da casa à despensa. Ou da despensa à casa? Ou as duas coisas, havia várias. Podiam ter sido as pegadas de Bellman de seis horas antes? A que horas havia parado de nevar?

Harry calçou as botas, saiu e olhou em direção ao banheiro externo. Nenhuma pegada naquela direção. Ele virou as costas para a despensa e urinou na parede da cabana. Por que os homens faziam aquilo, por que tinham que urinar em alguma coisa? Os restos de um instinto de demarcação de território? Ou… Harry percebeu que não havia nada importante com o lugar onde urinava, mas para onde havia virado as costas. A despensa. Tinha a sensação de que o observavam de lá. Ele fechou o zíper, se virou e olhou para o lugar. Então, se aproximou. Agarrou a pá ao passar a motoneve. O plano era entrar de uma vez, mas, em vez disso, ficou parado na frente da escada de pedras que levava à porta baixa. Ficou quieto. Nada. O que estava fazendo? Não havia ninguém ali. Subiu a escada, tentou levantar a mão e agarrar a maçaneta, mas a mão não quis obedecer. O que estava acontecendo? Seu coração batia com tanta força que doía no peito a ponto de explodir. Suava, e seu corpo se recusava a obedecer a ordens. E, aos poucos, Harry se lembrou de que era exatamente como descreviam. Um ataque de pânico. Foi a raiva que o salvou. Ele deu um chute violento na porta e mergulhou no escuro. Um forte cheiro de ranço, carne defumada e sangue seco. Algo se mexeu na faixa de luar e um par de olhos brilhou no escuro. Harry brandiu a pá. E acertou. Ouviu o surdo ruído de carne e sentiu algo ceder. A porta atrás dele abriu, deixando a luz da lua entrar. Harry olhou para o veado morto pendendo na sua frente. Para as outras carcaças de animais. Ele soltou a pá e caiu de joelhos. Então, veio tudo de uma vez. A parede que rachou, a neve que o engoliu vivo, o pânico por não conseguir respirar, o longo grito de puro pavor na queda sobre as rochas pretas lá embaixo. Estava tão só. Porque todos tinham ido embora. O pai estava em coma, em trânsito. E Rakel e Oleg eram silhuetas à luz de um aeroporto, também em trânsito. Harry queria voltar. Voltar para o quarto onde pingava. Às paredes sólidas, úmidas. O colchão cheio de suor e a fumaça doce que o transportava para onde eles estavam. Em trânsito. Harry baixou a cabeça e sentiu lágrimas quentes escorrerem pelo rosto.

 

Imprimi uma foto de Jussi Kolkka tirada do jornal Dagbladet on-line e prendi na parede ao lado das outras. Não havia uma palavra sobre Harry Hole no noticiário nem sobre os outros policiais que estavam lá. Para não mencionar Iska Peller. Foi um blefe? Pelo menos estão tentando. E agora há um policial morto. Vão se esforçar mais. PRECISAM se esforçar mais. Está me ouvindo, Hole? Não? Devia. Estou tão perto que eu poderia sussurrar essas palavras no seu ouvido.