O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 31 de 96

Páginas do PDF

O Leopardo

Capítulo 31

KIGALI

 

O aeroporto de Kigali, Ruanda, era pequeno, moderno e surpreendentemente bem-organizado. Por outro lado, a experiência de Harry era de que aeroportos internacionais diziam pouco ou nada sobre o respectivo país. Em Mumbai, na Índia, havia calma e eficácia, no JFK em Nova York, paranoia e caos. A fila do controle de passaporte deu uma guinada para a frente, e Harry seguiu. Apesar da temperatura agradável, ele sentiu o suor escorrer entre as escápulas por baixo da camisa de algodão fina. Pensou de novo na figura que tinha visto no aeroporto Schiphol em Amsterdã, onde o voo de Oslo tinha chegado atrasado. Harry ficou suado ao ter que correr pelos corredores e pelo grande número de portões para alcançar o voo que ia levá-lo a Kampala, Uganda. Onde dois corredores se cruzavam, ele havia percebido algo pelo canto do olho. Uma figura familiar. Na contraluz, ela estava longe demais para ele poder ver direito seu rosto. Já a bordo, o último passageiro a entrar, Harry concluiu o óbvio: não era ela. Qual seria a chance de ser ela? E o menino ao seu lado definitivamente não podia ser Oleg. Não podia ter crescido tanto.

— O próximo.

Harry aproximou-se do guichê, apresentou o passaporte, o cartão de imigração, a cópia da solicitação do visto que imprimiu pela internet, e os 60 dólares que o visto custava.

— A trabalho? — perguntou o oficial em inglês, e Harry enfrentou seu olhar. O homem era alto, magro e tinha uma cor de pele tão preta que reluzia. Deve ser tutsi, pensou Harry. Eram eles que no momento controlavam as fronteiras do país.

— Sim.

— Onde?

— Congo — respondeu Harry, depois usou o nome local para distinguir os dois países de Congo.

— Congo-Kinshasa — corrigiu o oficial. Ele apontou para o cartão de imigração que Harry havia preenchido no avião. — Aqui diz que você vai ficar no Hotel Gorilla em Kigali.

— Só esta noite — disse Harry. — Amanhã vou de carro até o Congo, vou passar uma noite em Goma, depois volto para cá para ir para casa. Daqui é mais perto de carro do que de Kinshasa.

— Tenha uma estada agradável no Congo, busy man — disse o oficial de uniforme com uma gargalhada, carimbou o passaporte e o devolveu.

Meia hora depois, Harry preencheu um cartão de hóspedes no Gorilla, assinou e recebeu uma chave presa a um gorila talhado em madeira. Quando Harry se deitou na cama, havia se passado dezoito horas desde que tinha se levantado da sua cama em Oppsal. Ele olhou para o ventilador chiando ao pé da cama. Mal vinha um sopro de ar, apesar de as pás girarem numa velocidade histérica. Sabia que não ia conseguir dormir.

 

O motorista disse para Harry chamá-lo de Joe. Ele era congolês, fluente em francês e mais fraco em inglês. Tinha sido contratado por intermédio de contatos de uma organização norueguesa de ajuda internacional baseada em Goma.

— Oitocentos mil — disse Joe enquanto levava o Land Rover por uma estrada esburacada, mas transitável, que serpenteava entre colinas verdes e declives de montanhas com terra cultivada do pé até o topo. Vez ou outra freava para não atropelar as pessoas que caminhavam, andavam de bicicleta, empurravam carrinhos e carregavam coisas na beira da estrada, mas em geral, elas mesmas pulavam para o lado na última hora para se salvaram.

“Em poucas semanas mataram 800 mil em 1994. Os hutus entravam na casa dos seus velhos e bons vizinhos e os cortavam em pedacinhos com machetes por serem tutsis. A propaganda da rádio era que, se seu marido fosse tutsi, era sua obrigação como hutu matá-lo. Cortar as árvores altas. Muitas pessoas fugiram por essa estrada… — Joe apontou pela janela. — Os corpos ficavam empilhados, tinha lugares onde não dava para passar. Bons tempos para os abutres.”

Continuaram em silêncio.

Passaram por dois homens carregando um grande felino amarrado a um pedaço de madeira pelos pés. Crianças dançavam em júbilo ao lado, espetando galhinhos no animal morto. A pele tinha a cor do sol com manchas sombreadas.

— Caçadores? — perguntou Harry.

Joe fez que não, olhou pelo retrovisor e respondeu com um misto de palavras em inglês e francês:

— Atropelado por um carro, imagino. Bicho quase impossível de pegar. É raro, tem território grande, só sai para caçar de noite. De dia se esconde e fica bem camuflado no seu hábitat. Acho que é um animal muito solitário, Harry.

Harry olhou homens e mulheres trabalhando nos campos. Em vários lugares havia máquinas e homens consertando a estrada. Num vale, Harry viu uma autoestrada sendo construída e, num campo, crianças alegres de uniformes azuis jogavam futebol.

— Ruanda é bom — disse Joe.

Duas horas e meia mais tarde, Joe apontou pela janela.

— Lago Kivu. Muito bonito, muito fundo.

A superfície do lago enorme parecia refletir mil sóis. O país do outro lado era o Congo. Montanhas erguiam-se em todo canto. Uma nuvem isolada cercava o topo de uma delas.

— Sem nuvens — disse Joe, como se lesse o pensamento de Harry. — A montanha assassina. Nyiragongo.

Harry fez que sim.

Uma hora mais tarde haviam atravessado a fronteira e iam em direção à Goma. Na beira da estrada um homem macilento, de jaqueta rasgada, estava sentado olhando para a frente com um olhar louco, desesperado. Joe guiou o carro com cuidado entre as crateras da trilha lamacenta. Um jipe militar ia na frente deles. O soldado que operava a metralhadora balançava e fitou-os com olhar frio e cansado. Motores de aviões zumbiam logo acima deles.

— ONU — disse Joe. — Mais armas e granadas. Nkunda está chegando mais perto da cidade. Muito forte. Muitas pessoas estão fugindo. Refugiados. Talvez o Sr. Van Boorst também, eh? Eu não ver há muito tempo.

— Você o conhece?

— Todos conhecem o Sr. Van. Mas ele tem Ba-Maguje nele.

— Ba-o quê?

— Mau espírito. Demônio. Faz você ter sede de bebida. E acaba com seus sentimentos.

O ar-condicionado soprava ar frio. O suor escorria pelas costas de Harry.

 

Eles pararam no meio de duas fileiras de barracas, o que Harry entendeu como uma espécie de centro da cidade de Goma. As pessoas corriam para lá e para cá no caminho quase intransitável entre as lojas. Ao longo das casas havia pilhas de blocos de pedras pretas servindo como muros de alicerce. O chão parecia glacê negro endurecido, e poeira cinzenta rodopiava no ar, que fedia a peixe podre.

— Ali — disse Joe e apontou para a porta da única casa de alvenaria. — Espero no carro.

Harry notou dois homens na rua pararem quando ele desceu do carro. Eles o lançaram aquele olhar neutro e perigoso que não transmitiu nenhum aviso. Homens que sabiam que atos agressivos são mais eficazes sem avisos. Harry foi direto à porta sem olhar ao redor, mostrando que sabia o que estava fazendo e aonde ia. Ele bateu à porta. Uma vez. Duas vezes. Três. Merda! Uma viagem longa demais só para…

A porta se entreabriu.

Um rosto branco e enrugado o fitou, indagador.

— Eddie Van Boorst? — perguntou Harry.

— Il est mort — disse o homem numa voz tão rouca que parecia que esse também dava o último suspiro.

Harry lembrou o suficiente do francês da escola para entender que o homem alegava que Van Boorst estava morto. Ele apostou no inglês:

— Meu nome é Harry Hole. Herman Kluit, de Hong Kong, me deu o nome de Van Boorst. Estou interessado na maçã de Leopoldo.

O homem piscou duas vezes. Enfiou a cabeça para fora da porta espiando à direita e à esquerda. Depois abriu a porta mais um pouco.

— Entrez — disse e deixou Harry entrar.

Harry se agachou para passar pela porta baixinha e conseguiu dobrar os joelhos a tempo; o chão no interior estava 20 centímetros mais embaixo. Cheirava a incenso. Misturado com outra coisa, familiar: o odor doce e acre de um velho que andou bebendo durante dias.

Os olhos de Harry adaptaram-se ao escuro, e ele descobriu que o velho, baixinho e magro, usava um elegante roupão de seda cor de vinho.

— Sotaque escandinavo — disse Van Boorst, levando um cigarro numa piteira amarelada aos lábios finos. — Deixe-me adivinhar. Definitivamente não é dinamarquês. Pode ser sueco. Mas acho que é norueguês. Certo?

Uma barata mostrou suas antenas numa fresta na parede atrás dele.

— Humm. Um perito em sotaques?

— Apenas um hobby — respondeu Van Boorst, lisonjeado, contente. — Em nações pequenas como a Bélgica é preciso aprender a olhar para o exterior, e não para o interior. E como está Herman?

— Bem — respondeu Harry, ao virar-se para à direita e descobrir dois pares de olhos desinteressados olhando para ele.

Um par vinha de uma foto sobre a cama no canto. Um retrato emoldurado de uma pessoa de barba comprida e grisalha, nariz marcante, cabelo curto, ombreiras, corrente e espada. O rei Leopoldo, se Harry não estivesse enganado. O outro par pertencia à mulher deitada de lado na cama, com apenas um cobertor cobrindo os quadris. A luz da janela acima dela caía nos seios de menina. Ela respondeu ao aceno de Harry com um sorriso breve, deixando à mostra um grande dente de ouro no meio dos outros, todos brancos. Não devia ter mais de 20 anos. Na parede atrás da cintura fina dela, Harry detectou um prego grosso enfiado no emboço descascado. Do prego pendia um par de algemas cor-de-rosa.

— Minha esposa — disse o belga baixinho. — Bem, uma delas.

— Srta. Van Boorst?

— Algo parecido. Você quer comprar? Tem dinheiro?

— Primeiro quero ver o que você tem — respondeu Harry.

Eddie Van Boorst foi até a porta e deu uma espiada para fora com a porta entreaberta. Depois a fechou e trancou.

— Só está com seu motorista?

— Só.

Van Boorst deu baforadas enquanto observava Harry pelas rugas ao redor dos seus olhos semicerrados.

Então foi para um canto da sala, afastou o tapete com o pé, inclinou-se e puxou uma argola de ferro. Abriu-se um alçapão. O belga fez gesto para Harry descer primeiro. Harry supunha se tratar de precaução com base em experiência, e fez como o outro pediu. Uma escada de madeira, levou-o até um breu. Harry só sentiu o piso sólido depois do sétimo degrau. E uma lâmpada foi acesa.

Harry olhou em torno; o teto era de altura normal, e havia um piso plano de cimento. Prateleiras e armários cobriam três paredes. Nas prateleiras havia a mercadoria do dia a dia: pistolas Glock usadas, um Smith & Wesson .38, caixas de munição, uma Kalashnikov. Harry nunca havia segurado a famosa arma automática russa com o nome oficial de AK-47. Ele passou a mão sobre o cabo de madeira.

— Essa é original, de 1947, o primeiro ano de produção — disse Van Boorst.

— Parece que todos aqui têm uma — disse Harry. — É a causa de morte mais popular da África, me disseram.

Van Boorst fez que sim.

— Por dois motivos simples. Primeiro, quando os países comunistas começaram a exportar a Kalashnikov para cá depois da Guerra Fria, em tempos de paz, custava tanto quanto uma galinha gorda. E nem passava de 100 dólares em tempos de guerra. E segundo, ela funciona, não importa o que fizer com ela, e isso é importante na África. Em Moçambique gostam tanto da Kalashnikov que a colocaram na bandeira nacional.

Os olhos de Harry detiveram-se nas letras discretas de uma mala preta.

— É o que eu acho que seja? — perguntou Harry.

— Märklin — disse Van Boorst. — Um rifle raro. Muito poucos foram produzidos, já que foi um fracasso. Era pesado demais e tinha calibre grosso demais. Foi usado para caçar elefantes.

— E pessoas — disse Harry.

— Você conhece a arma?

— Telescópio com a melhor ótica do mundo. Não exatamente o que você precisa para acertar um elefante a 100 metros de distância. Perfeito para um assassinato. — Harry passou os dedos sobre a mala, tomado pelas lembranças que evocaram. — Sim, conheço.

— Pode comprar. Apenas 30 mil euros.

— Dessa vez não estou procurando um rifle. — Harry virou-se para a prateleira aberta no meio do recinto. Grotescas máscaras pintadas de branco fizeram caretas para ele.

— As máscaras espirituais do povo mai-mai — disse Van Boorst. — Eles acreditam que, molhando-se com a água sagrada, as balas dos inimigos não podem feri-los. Porque as balas de fato também vão voltar a ser H2O. A guerrilha mai-mai atacou a tropa do governo com arco e flecha, touca de banho na cabeça e, como amuletos, tampas de banheiras. Não estou brincando, não, senhor. Foram ceifados, claro. Mas os mai-mai gostam de água. E máscaras brancas. E corações e rins dos seus inimigos. Levemente grelhados com purê de milho para acompanhar.

— Humm — disse Harry. — Não imaginei que uma casa tão simples teria um porão tão cheio.

Van Boorst deu uma curta risada.

— Porão? Esse é o andar térreo. Ou era. Antes da erupção há três anos.

A ficha caiu para Harry. Blocos de pedra pretos, glacê preto. O chão em cima que estava mais preto que o chão lá fora.

— Lava — disse Harry.

Van Boorst fez que sim.

— Escorreu bem no meio do centro da cidade e levou minha mansão na beira do lago Kivu. Todas as casas de madeira na área queimaram; essa casa de concreto foi a única que ficou em pé, mas enterrada em lava pela metade. — Ele apontou para a parede. — Ali dá para ver a porta de saída que dava para a rua, no nível que estava três anos atrás. Comprei a casa e apenas coloquei uma nova porta por onde você entrou.

Harry fez que sim.

— Sorte que a lava não queimou a porta e encheu esse andar também.

— Como pode ver, as janelas e a porta ficam na parede virada para o outro lado, não para o vulcão. Não é a primeira vez. Aquela maldita montanha cospe lava nessa cidade a cada dez ou vinte anos.

Harry ergueu uma sobrancelha.

— E mesmo assim as pessoas voltam para cá?

Van Boorst deu de ombros.

— Bem-vindo à África. Mas o vulcão é bastante útil. Se quiser se livrar de um corpo inconveniente, um problema até comum aqui em Goma, é claro que pode afundá-lo no lago Kivu. Mas ele ainda continua lá embaixo. Mas se você usar o Nyiragongo… As pessoas acreditam que a maioria dos vulcões tem aquele lago borbulhante e incandescente no fundo, mas não tem. Na verdade, nenhum a não ser Nyiragongo. Mil graus celsius. Afunde algo ali e puf! Volta de novo em forma de gás. É a única chance que as pessoas de Goma têm para chegar ao céu.

Van Boorst riu e tossiu.

— Uma vez, fui testemunha de um caçador de coltan muito empolgado baixando a filha de um líder tribal, com a ajuda de correntes, para dentro da cratera. O chefe não queria assinar os documentos que dava aos caçadores de coltan o direito de extrair o minério no território deles. O cabelo dela pegou fogo 20 metros acima da lava. Quando estava 10 metros acima, a menina queimava como uma vela. E 5 metros mais embaixo, ela pingava. Não estou exagerando. Pele e carne escorriam do seu esqueleto… É isso que te interessa? — Van Boorst havia aberto um armário e tirado uma bola metálica. Brilhava, era perfurada por pequenos buraquinhos e um pouco menor do que uma bola de tênis. De um buraco maior pendia uma corrente fina com um anel na ponta. Era o mesmo instrumento que Harry tinha visto na casa de Herman Kluit.

— Funciona? — perguntou Harry.

Van Boorst soltou um suspiro. Ele enfiou o mindinho no anel metálico e puxou. Houve um estalo alto e a esfera de metal saltou na mão do belga. Harry olhou fixo. Saía dos furos da esfera algo parecido com antenas.

— Posso? — perguntou, estendendo a mão. Van Boorst passou a esfera para ele e, com olhar vigilante, observou Harry contar as antenas.

Harry fez um gesto afirmativo.

— Vinte e quatro — concluiu.

— A mesma quantidade de maçãs produzidas — disse Van Boorst. — O número tinha um valor simbólico para o engenheiro que inventou e produziu a bola. Era a idade da irmã dele quando ela cometeu suicídio.

— E você tem quantas delas no seu armário?

— Apenas oito. Incluindo esse exemplar magnífico de ouro. — Ele tirou uma bola que brilhava fracamente na luz da lâmpada e logo a colocou de volta no armário. — Mas ela não está à venda, terá que me matar para botar a mão nela.

— Então, já vendeu treze desde que Kluit comprou a dele?

— E a preços cada vez mais altos. É um investimento seguro, Sr. Hole. Antigos instrumentos de tortura têm um fiel grupo de seguidores, todos dispostos a pagar, acredite.

— Acredito — disse Harry, tentando baixar uma das antenas.

— É de mola — disse Van Boorst. — Quando a corda for puxada uma vez, o sujeito interrogado não vai conseguir tirar a maçã da boca novamente. Aliás, ninguém vai. Não execute a segunda etapa se quiser recolher as antenas. Não puxe a corda, por favor.

— A segunda etapa?

— Passe a maçã para mim.

Harry estendeu a bola a Van Boorst. Com cuidado, o belga enfiou uma caneta pelo anel, segurou-a na horizontal e na altura da bola, então soltou a bola. No momento em que a corrente se esticou, houve outro estalo. A maçã de Leopoldo dançava 15 centímetros embaixo da caneta e as agulhas afiadas, que agora despontavam de cada antena, brilhavam.

— Å faen — vociferou Harry em norueguês.

O belga sorriu.

— Os mai-mai chamavam o invento de “Sangue do Sol”. Essa beleza tem muitos apelidos. — Ele colocou a maçã na mesa, introduziu a caneta no buraco de onde a corda saía, puxou com força, e com mais um estalo, as agulhas e antenas recolheram-se para dentro da esfera, e a maçã real recuperou sua forma esférica e lisa.

— Impressionante — disse Harry. — Quanto custa?

— Seis mil dólares — disse Van Boorst. — Costumo aumentar o preço um pouco a cada vez, mas você pode levá-la pelo mesmo preço que vendi a última.

— Por quê? — perguntou Harry, passando o indicador sobre o metal liso.

— Porque você viajou de tão longe — disse Van Boorst, soprando a fumaça de cigarro no ar. — E porque gosto do seu sotaque.

— Humm. E quem foi o último comprador?

Van Boorst riu.

— Da mesma maneira que ninguém vai ficar sabendo que você esteve aqui, não vou contar sobre meus outros clientes. Não parece reconfortante, senhor…? Viu, já esqueci o nome.

Harry fez que sim.

— Seiscentos — ofereceu ele.

— Como é?

— Seiscentos dólares.

Van Boorst soltou a mesma gargalhada breve.

— Ridículo. Mas, por acaso, o preço que está mencionando corresponde a um tour guiado de três horas para dentro da reserva natural de gorilas da montanha. Prefere isso, Sr. Hole?

— Pode ficar com sua maçã real — disse Harry e tirou do bolso da calça um maço fino de notas de 20 dólares. — Estou oferecendo 600 pelas informações sobre quem comprou maçãs de você.

Ele colocou o maço na mesa diante de Van Boorst. Em cima, uma carteira de identidade.

— Polícia norueguesa — disse Harry. — Pelo menos duas mulheres norueguesas foram assassinadas com o produto monopolizado por você.

Van Boorst inclinou-se sobre o monte de notas e estudou a carteira de identidade sem tocar em nenhum dos dois.

— Se esse for o caso, eu realmente sinto muito — disse, e sua voz parecia ter ficado ainda mais rouca. — Acredite. Mas minha segurança pessoal vale mais do que 600 dólares. Se falasse abertamente sobre as pessoas que compraram algo aqui, minha expectativa de vida…

— Devia ficar mais preocupado com sua expectativa de vida numa prisão congolesa — disse Harry.

Van Boorst riu de novo.

— Bela tentativa, Hole. Mas, por acaso, o chefe de polícia de Goma é meu amigo, e além do mais… — ele abriu os braços — … o que foi que eu fiz?

— O que fez é menos interessante — disse Harry e tirou uma foto do bolso da camisa. — O estado da Noruega é um dos mais importantes provedores de ajuda ao Congo. Quando as autoridades norueguesas ligarem para Kinshasa, apontando você como fonte não cooperadora da arma do crime num homicídio duplo na Noruega, o que você acha que vai acontecer?

Van Boorst não estava mais sorrindo.

— Não será erroneamente condenado por nada, longe disso — disse Harry. — Será apenas detido, o que não se deve confundir com cumprimento de pena. É apenas a detenção judicial de uma pessoa enquanto um caso está sendo investigado, e talvez possa haver o temor de adulteração de provas. Contudo é uma prisão. E essa investigação pode levar tempo. Já viu o interior de uma prisão congolesa, Van Boorst? Não, não deve haver muitos brancos que o viram.

Van Boorst apertou o roupão. Olhou para Harry enquanto mordia a piteira do cigarro.

— Ok — disse. — Mil dólares.

— Quinhentos — disse Harry.

— Quinhentos? Mas você…

— Quatrocentos — disse Harry.

— Fechado! — disse Van Boorst e ergueu os braços aos céus. — O que você quer saber?

— Tudo — disse Harry, inclinando-se até a parede e retirando um maço de cigarros.

 

***

 

Meia hora mais tarde, quando Harry saiu da casa de Van Boorst e entrou no Land Rover de Joe, já era noite.

— Para o hotel — disse Harry.

O hotel ficava bem na beira do lago. Joe precaveu Harry quanto a entrar na água. Não por causa do parasita da Guiné que ele provavelmente não ia descobrir até um dia ter um verme fino serpenteando por baixo de sua pele, mas por causa do gás metano que subia do fundo em forma de bolha grandes e que podia deixá-lo inconsciente, provocando consequentemente, o seu afogamento.

Harry sentou-se na varanda e olhou duas criaturas de pernas longas gingarem pausadamente pelo gramado iluminado lá embaixo. Pareciam flamingos disfarçados de pavão. Na quadra de tênis com holofotes, dois jovens negros jogavam com apenas duas bolas, ambas tão esfarrapadas que pareciam meias enroladas, voando para lá e para cá sobre a rede já furada. Vez ou outra passavam aviões trovejando no ar.

Harry ouviu um tilintar de garrafas. O bar ficava exatamente a 68 passos de onde ele estava. Tinha contado quando chegou. Ele pescou o celular e ligou o número de Kaja.

Ela parecia contente em ouvir sua voz. Contente em geral, pelo menos.

— Estou presa em Ustaoset devido ao mau tempo — disse ela. — Não está nevando pra cachorro, mas pra elefante. Pelo menos fui convidada para jantar. E o livro de hóspedes foi interessante.

— É?

— A página da data que estamos procurando está faltando.

— Como pensei. Você pode verificar se…

— Sim, já procurei impressões digitais ou se a escrita havia atravessado para a página seguinte. — Ela deu risinhos, e Harry apostou que já havia tomado um pouco de vinho.

— Humm. Estava mais pensando em…

— Sim, verifiquei quem estava inscrito no dia anterior e no seguinte. Mas é raro alguém ficar mais do que uma noite numa cabana tão rústica como esta de Håvass. A não ser que o tempo impeça de continuar. E no dia sete de novembro o tempo estava bom. Mas o delegado daqui me prometeu verificar os livros de hóspedes nas cabanas da redondeza nos dias anteriores e nos depois, para ver quem foram os hóspedes que incluíram a cabana de Håvass nas suas rotas.

— Ótimo. Parece que estamos avançando.

— Talvez. E você?

— Aqui está mais devagar. Encontrei Van Boorst, mas não há nenhum escandinavo entre seus compradores. Ele diz que tem certeza quanto a isso. Estou com seis nomes com endereços, mas são todos colecionadores conhecidos. Fora alguns nomes que ele não lembra muito bem, algumas descrições, algumas nacionalidades, é só. Existem mais duas maçãs, mas Van Boorst sabia, por acaso, que ainda estão com um colecionador em Caracas. Checou Adele e o visto dela?

— Liguei para o consulado de Ruanda na Suécia. Confesso que esperei um caos, mas estava tudo muito organizado.

— O pequeno irmão mais velho certinho do Congo.

— Eles tinham uma cópia do pedido de visto de Adele, e as datas conferem. O período de visto já expirou faz tempo, mas não sabiam do paradeiro dela, claro. Disseram para entrar em contato com as autoridades de imigração em Kigali. Me deram um número, tentei ligar e fui jogada como uma bola de pinball entre os escritórios, até um sabichão que falava inglês atender, o qual me chamou a atenção ao fato de não termos nenhum acordo de cooperação com Ruanda nessa área, e lamentou que tinha que recusar meu pedido e desejou a mim e a minha família uma vida longa e feliz. Você também não farejou alguma coisa?

— Não. Mostrei a foto de Adele a Van Boorst. Ele disse que a única mulher que tinha comprado algo dele era uma ruiva com cabelo encaracolado e sotaque da Alemanha oriental.

— Sotaque da Alemanha oriental? Isso existe?

— Não sei, Kaja. Esse homem anda de roupão, usa piteira, é alcoólico e especialista em sotaques. Vou fazer o que puder e depois me mandar daqui.

Ela riu. Vinho branco, pensou Harry. Quem bebe vinho tinto ri menos.

— Mas tenho uma ideia — disse ele. — O cartão de imigração.

— Sim?

— É preciso preencher um cartão dizendo onde se vai ficar hospedado a primeira noite. Se eles mantêm os cartões em Kigali, talvez eu consiga ver onde Adele se hospedou. Pode ser uma pista. Pelo que sabemos, ela pode ser a única pessoa viva que saiba quem estava na cabana de Håvass naquela noite.

— Boa sorte, Harry.

— Para você também.

Ele desligou. É claro que podia ter perguntado com quem ela ia jantar, mas, se fosse relevante para a investigação, ela teria contado.

Harry ficou na varanda até o bar fechar e o tilintar de garrafas ser substituído por ruídos de alguém transando no quarto de cima. Gritos roucos, monótonos. Eles o lembravam das gaivotas em Åndalsnes, quando ele e o avô levantavam cedinho para pescar. Mas o pai nunca ia junto. Por que não? E como é que Harry nunca havia pensado sobre isso, por que compreendera instintivamente que o pai não se sentia em casa num barco de pesca? Será que ele, já com 5 anos, entendera que o pai havia conseguido se formar e ir embora da fazenda justamente para não se sentar naquele barco? Mesmo assim, o desejo de o pai era voltar para lá e ali ficar eternamente. Era estranha a vida. E, certamente, a morte.

Harry acendeu mais um cigarro. O céu estava sem estrelas, escuro, exceto sobre a cratera de Nyiragongo, onde havia um fulgor ardente. Harry sentiu o arder de uma picada de inseto. Malária. Magma. Gás metano. O lago Kivu brilhava distante. Muito bonito. Muito profundo.

Uma trovoada ressoou das montanhas, e o som rolou por cima da água. Erupção de vulcão ou trovoada? Harry olhou para cima. Outro estrondo, o eco sendo jogado entre as montanhas. E ao mesmo tempo, outro eco, de muito longe, chegou a Harry.

Muito profundo.

Ele fitava a escuridão de olhos arregalados e mal percebeu o céu se abrir e a chuva martelar, abafando os gritos das gaivotas.