O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 35 de 96

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O Leopardo

Capítulo 35

 

O MERGULHO

 

A neblina flutuava sobre a superfície negra do lago Lyseren. Na margem, as árvores pareciam estar de ombros caídos, remetendo a testemunhas sombrias e mudas. O silêncio era rompido por gritos de comando, comunicação por rádio e o ruído dos mergulhadores caindo de costas da borda dos botes de borracha. Eles haviam começado perto da beira, em frente à fábrica de cordas. Os líderes dos grupos de busca haviam mandado seus mergulhadores se afastassem avançando como um leque, e agora estavam em terra, marcando no mapa quadriculado as partes da área definida que já haviam esquadrinhado, sinalizando com um puxão nas cordas quando queriam que os mergulhadores parassem ou voltassem. Os mergulhadores profissionais de busca e salvamento, como Jarle Andreassen, também tinham fios entre as cordas ligados às máscaras para que se mantivessem em contato.

Havia apenas seis meses desde que Jarle havia terminado seu último curso de resgate, e ainda ficava com pressão alta durante esses mergulhos. E alta pressão significa maior consumo de ar. Os membros mais experientes do corpo de bombeiros em Briskeby o chamavam de “A boia”, porque tinha que subir com frequência para trocar o cilindro de ar.

Jarle sabia que ainda havia bastante luz do dia lá em cima, mas ali no fundo era um breu. Ele tentou nadar a 1,5m acima do fundo, conforme as instruções, mas não pôde evitar tocar no lodo, que se levantou, refletindo a luz da lanterna e quase o cegando. Mesmo ciente de que havia outros mergulhadores nos dois lados a poucos metros de distância, ele se sentiu só. Só e congelando até os ossos. E teriam possivelmente horas de mergulho pela frente. Sabia que tinha menos ar que os outros, e vociferou para si mesmo. Ser o primeiro mergulhador do corpo de bombeiros a trocar de cilindro, tudo bem, mas temia também ter que subir antes dos voluntários do clube de mergulhadores local. Ele redirecionou o olhar para a frente e parou de respirar. Não como um ato voluntário para reduzir o consumo. Mas porque, no meio do raio da luz da lanterna, dentro da floresta esvoaçante de talos que cresciam do fundo lodoso mais perto da margem, viu um vulto flutuando. Um vulto que não pertencia àquele lugar, que não podia viver ali. Um elemento estranho. Era isso que fazia tudo tão fantástico e ao mesmo tempo tão apavorante. Ou talvez fosse a luz da sua lanterna refletida nos olhos escuros que fez com que parecesse estar vivo.

— Tudo bem, Jarle?

Era o líder do seu grupo. Uma das suas tarefas era escutar a respiração dos seus mergulhadores. Não só para saber se estavam respirando, mas para detectar qualquer sinal de ansiedade. Ou calma exagerada. A 20 metros de profundidade, o cérebro começa a armazenar tanto nitrogênio que pode ocorrer a chamada embriaguez das profundezas, uma narcose de nitrogênio que leva o mergulhador a se esquecer das coisas, tornando as tarefas simples mais difíceis, e que, em profundidades maiores, pode causar tontura, falta de visão periférica e um comportamento completamente irracional. Jarle não sabia se eram apenas mitos, mas tinha ouvido falar de mergulhadores que haviam arrancado suas máscaras e começado a gargalhar numa profundidade de 50 metros. Por enquanto, sua experiência de embriaguez se limitava à calma agradável do vinho que ele costumava apreciar com a namorada nas noites de sábado.

— Está tudo bem — respondeu Jarle Andreassen e voltou a respirar. Ele sugou a mistura de nitrogênio e oxigênio e ouviu um zunido passar pelos ouvidos quando soltou amontoados de borbulhas que subiam desesperadamente em direção à superfície.

Era um cervo vermelho. Estava pendurado de ponta-cabeça, parecia preso num precipício pelos imensos chifres. Devia ter pastado perto da margem do lago e caído na água. Ou talvez algo ou alguém o tivesse assustado para dentro da água. Senão, o que estava fazendo ali? Provavelmente havia se enroscado no junco e nos longos talos das vitórias-régias, tentando se libertar, mas em vez disso se enroscou ainda mais naqueles tentáculos verdes e viscosos. Devia ter se debatido até cair na água, continuando sua luta até se afogar. E provavelmente ficou no fundo do lago até que as bactérias e a química do corpo o enchessem de gás, fazendo-o subir outra vez à superfície, e devia ter ficado preso pelos chifres na rede verde de vegetação que crescia ali embaixo. Em poucos dias, o gás devia ter vazado do cadáver, que voltara ao fundo do lago. Como acontece com uma pessoa afogada. Era perfeitamente possível que isso houvesse acontecido com a pessoa que estavam procurando, e era por isso que o corpo não tinha sido encontrado: nunca havia flutuado à superfície. Nesse caso, estaria em algum lugar por ali, provavelmente coberto por camadas de lodo. Lodo que inevitavelmente se levantaria assim que eles se aproximassem, o que queria dizer que até pequenas áreas definidas de busca como essa podiam manter seus segredos escondidos para todo o sempre.

Jarle Andreassen tirou a poderosa faca de mergulho, nadou até o cervo e cortou os talos por baixo dos chifres. Pressentiu que seu chefe não ia apreciar tal feito, mas ele não suportava a ideia daquele animal majestoso ficar ali submerso. O cadáver subiu meio metro, mas, outros talos o prendiam. Jarle tomou cuidado para que sua linha não se enroscasse nos talos e fez mais alguns cortes apressados. De súbito sentiu um puxão na linha. Forte o suficiente para sentir a irritação. Forte o suficiente para ele perder a concentração por um instante. A faca escorregou de sua mão. Ele direcionou a lanterna para o fundo e viu a lâmina cintilar na luz antes de sumir no lodo. Foi atrás, nadando com cuidado. Enfiou a mão no lodo, que se levantou em sua direção como cinzas. Tateou o fundo. Sentiu pedras, galhos, tudo escorregadio por podridão e algas. E alguma coisa dura. Corrente. Provavelmente de algum navio. Mais corrente. E outra coisa. Sólida. Os contornos de algo. Um buraco, uma abertura. Ouviu o repentino sibilo de borbulhas antes que seu cérebro tivesse tempo de formular o pensamento: de que ele estava com medo.

— Tudo bem, Jarle? Jarle?

Não, as coisas não estavam nada bem. Porque mesmo com luvas grossas, mesmo com um cérebro que parecia não ser capaz de receber ar o suficiente, ele não teve dúvida de onde estava sua mão. Dentro da boca aberta de um corpo humano.