O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 89 de 96

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O Leopardo

Capítulo 89

O CASAMENTO

 

K aja estava na beirada olhando para baixo. O ar aquecido subia como uma brisa quente em seu rosto. A fumaça tóxica a deixava tonta, mas talvez fosse apenas o ar trepidante que borrava sua visão, fazendo a lava balançar no abismo abaixo, onde brilhava em tons de amarelo e vermelho. Uma mecha de cabelo caiu em seu rosto, mas as mãos estavam atadas nas costas com tiras de plástico. Ela estava ombro a ombro com Lene Galtung, que Kaja presumiu ter sido drogada, a julgar pelo modo sonâmbulo que ela olhava para a frente. Um cadáver vivo vestindo branco, com nada além de gelo e deserto por dentro. O manequim de vitrine em vestido de noiva na janela de uma fábrica de cordas.

Tony estava ao lado delas. Kaja sentiu a mão dele em suas costas.

— Você aceita o homem a seu lado e promete amá-lo, honrá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza… — sussurrou ele.

Não foi por crueldade, ele havia explicado. Mas era tão prático. Não deixariam rastro nenhum. Nem ao menos uma pergunta. No Congo pessoas desapareciam todos os dias.

— Eu vos declaro marido e mulher.

Kaja murmurou uma prece. Ela imaginou que fosse uma prece. Até ouvir as palavras: “… porque é impossível para mim e para a pessoa que desejo ficarmos juntos.”

As palavras da carta de despedida de Even.

O motor de um carro ressoou em marcha lenta com os faróis varrendo os céus. O Range Rover apareceu na outra extremidade da cratera.

— E ali estão os outros — disse Tony. — Dê um belo aceno de adeus, meninas.

 

***

 

Harry não sabia que cena o esperava quando alcançassem o planalto sobre a cratera. Kinzonzi tinha dito que, além das mulheres, o Sr. Tony só havia levado seu motorista. Mas que ele e o Sr. Tony tinham armas automáticas.

Antes de chegar ao topo, Harry havia oferecido a Saul a chance de descer do carro, mas ele havia recusado.

— Não tenho mais família, Harry. Talvez seja verdade que você esteja do lado dos caras do bem. De qualquer maneira, você pagou pelo dia todo.

O carro parou, derrapando um pouco.

Os faróis apontavam para a outra extremidade da cratera, para os três juntos na beirada. Eles desapareceram de repente atrás de uma nuvem, mas Harry já os havia visto e resumido a situação: um homem com uma arma de cano curto atrás dos outros três. Um Range Rover estacionado. E nenhum tempo. Então a nuvem passou, e Harry viu Tony e o outro homem protegendo os olhos para ver o carro, como se estivessem aguardando alguma coisa.

— Desligue o motor — ordenou Harry do banco de trás, encostando o cano do rifle Märklin ao assento da frente. — Mas deixe as luzes acesas.

Saul seguiu as instruções.

O homem em trajes de camuflagem agachou-se com a arma no ombro e mirou.

— Pisque as luzes duas vezes — disse Harry, encostando os olhos nas miras. — Devem estar esperando algum sinal.

Harry fechou o olho esquerdo. Excluiu meio mundo. Excluiu os rostos pálidos, o fato de Kaja estar ali, de Lene estar ali com o rosto inchado e aspecto assustado, de que esses segundos contavam. Excluiu os olhos turquesa observando-o quando ele disse as palavras: “Eu juro.” Excluiu o som de um disparo que dizia que eles haviam enviado o sinal errado, excluiu o baque quando o tiro acertou o carro, seguido por outro. Excluiu tudo que não era o reflexo da luz no para-brisa, o reflexo da luz no calor trepidante sobre a cratera, o desvio provável da bala à direita, a mesma direção que as nuvens de vapor estavam seguindo. Sabia que naquele momento ele era sustentado por uma única coisa: adrenalina. Ele sabia que o efeito do estimulante natural seria breve. Podia sumir em um segundo. Mas enquanto seu coração ainda fornecia sangue ao cérebro, era o segundo que precisava. Porque o cérebro é um computador fantástico. A cabeça de Tony Leike estava meio escondida atrás de Lene, um pouco mais acima.

Harry mirou os dentes pontudos de Kaja. Seguiu para a bola cintilante entre os lábios de Lene. Moveu a mira mais para cima. Sem tempo para ajustes. Tudo depende do acaso. Façam as suas apostas, última corrida.

Uma nuvem de vapor vinha da esquerda.

Logo estariam envoltos nela, e como se tivesse recebido um momento de clareza visual, Harry entendeu: quando a nuvem tivesse passado, não haveria mais ninguém ali. Harry apertou o gatilho. Viu Kaja piscar logo acima da mira.

Eu juro.

Ele estava perdido. Finalmente.

Parecia que o interior do carro ia explodir com o estrondo, e seu ombro ia ser deslocado. Havia uma pequena perfuração branca no para-brisa. A nuvem vermelho-sangue cobria tudo no outro lado da cratera. Trêmulo, Harry respirou fundo e esperou.