O Leopardo
Capítulo 47
FEAR OF THE DARK
Olav Hole piscou no escuro.
— É você, Harry?
— Sim, sou eu.
— É noite, não é?
— É noite, sim.
— Como está?
— Estou vivo.
— Deixe-me acender a luz…
— Não precisa. Tenho algo para te contar.
— Conheço esse tom de voz. Não sei se quero ouvir.
— Você vai ler sobre isso no jornal amanhã.
— E você tem uma versão diferente que queira me contar?
— Não. Só queria ser o primeiro.
— Andou bebendo, Harry?
— Quer ouvir?
— Seu avô bebia. Eu o amava. Bêbado ou sóbrio. Não há muitas pessoas que podem dizer isso sobre um pai bêbado. Não, não quero ouvir.
— Humm.
— E posso dizer isso a você também. Sempre te amei. Sempre. Bêbado ou sóbrio. Nem foi difícil. Mesmo que você sempre tenha sido muito encrenqueiro. Vivia em guerra com a maioria das pessoas, inclusive consigo mesmo. Mas amar você foi a coisa mais fácil que fiz, Harry.
— Pai…
— Não há tempo para falar de coisas triviais, Harry. Não sei se já contei, acho que sim, mas de vez em quando a gente pensa uma coisa tantas vezes que simplesmente acha que falou em voz alta. Sempre tive orgulho de você, Harry. Será que eu te disse isso o suficiente?
— Eu…
— Sim? — Olav Hole ficou ouvindo no escuro — Está chorando, filho? Não tem problema. Sabe o que me deu mais orgulho? Nunca te contei isso. Você era adolescente, e um dos seus professores ligou lá para casa. Ele disse que você esteve de novo envolvido numa briga no pátio da escola. Com dois rapazes do ano acima do seu, mas dessa vez tinha sido feio, tiveram que te mandar para o hospital para levar pontos no seu lábio e arrancar um dente solto. Lembra que eu descontei da sua mesada? Bem, de qualquer modo, Øystein me contou sobre a briga mais tarde. Que você foi em cima deles porque encharcaram a mochila de Tresko com água do chafariz do pátio. Pelo que me lembro, você nem gostava muito de Tresko. Øystein disse que você ficou tão machucado porque não quis desistir de jeito nenhum. Você se levantava de novo e de novo e por fim estava tão ensanguentado que os rapazes maiores ficaram com medo e deram no pé.
Olav Hole riu baixinho.
— Eu achava que não podia te dizer naquela época, seria encorajar a entrar em brigas. Mas eu me sentia tão orgulhoso que podia chorar. Você era tão corajoso, Harry. Tinha medo do escuro, mas isso não te impedia de andar na escuridão. E eu era o pai mais orgulhoso do mundo. Alguma vez te disse isso, Harry? Harry? Está aí?
Livre. A garrafa de champanhe quebra contra a parede, e o líquido borbulhante escorre pelo papel de parede como massa encefálica fervendo, sobre as fotos, os recortes, sobre a foto impressa de um site que diz que Harry Hole assumirá a culpa. Livre. Livre da culpa, livre para mandar o mundo para o inferno outra vez. Piso em cacos de vidro, piso até afundarem no chão, escutando-os estilhaçar. E estou descalço. Escorrego no meu próprio sangue. Rindo sem parar. Livre. Livre!