O Leopardo
Capítulo 2
O E SCURO ILUMINADOR
18 de dezembro
Os dias são curtos. Ainda está claro lá fora, mas aqui na minha sala de recortes a escuridão é eterna. Na luz da lâmpada de trabalho, as pessoas nas fotos da parede parecem irritantemente felizes e confiantes. Tão cheias de expectativas, como se tomassem por certo que a vida inteira estivesse diante delas, como um oceano de tempo tranquilo e imperturbável. Já fiz recortes no jornal, descartei as histórias melosas sobre a família que está em estado de choque, eliminei os detalhes sangrentos sobre a descoberta do corpo. Tive de me satisfazer com a foto que um parente ou amigo inevitavelmente cedeu a um jornalista insistente, a foto de quando ela estava no auge, quando sorria como se fosse imortal.
A polícia não sabe muita coisa. Ainda não. Mas logo terão mais material com o qual trabalhar.
O que é, onde está, aquilo que transforma alguém num assassino? É nato, está em algum gene, uma herança que algumas pessoas têm e outras não? Ou se desenvolve por necessidade, como forma de enfrentar o mundo, uma estratégia de sobrevivência, uma doença salvadora, loucura racional? Pois, assim como a doença é um bombardeio febril do corpo, a loucura é um retiro necessário a um lugar onde se pode retomar as forças.
Pessoalmente, acho que a capacidade de matar é essencial qualquer ser humano saudável. Nossa existência é uma luta pelo próprio lucro, e aquele que não consegue matar o próximo não tem direito a existir. Matar, afinal, é apenas adiantar o inevitável. A morte não abre nenhuma exceção, o que é bom, pois a vida é dor e sofrimento. Nesse sentido, todo assassinato é um ato de caridade. Você só não consegue perceber isso no momento em que o sol esquenta sua pele e a água molha seus lábios, e você sente em cada batida do coração a vontade idiota de viver e se dispõe a pagar por qualquer migalha de tempo com tudo que conquistou durante a vida: dignidade, status, princípios. Nesse momento é preciso mergulhar nas profundezas, ir além da luz confusa e ofuscante. Entrar na fria e reveladora escuridão. E compreender o núcleo rígido. A verdade. Porque era isso que eu tinha que encontrar. E foi o que encontrei. O que transforma uma pessoa em um assassino.
E a minha vida? Eu também acredito que seja um mar de tempo, tranquilo e imperturbável?
De modo algum. Em breve, eu também vou estar no lixão da morte, com os outros atores desse pequeno drama. Mas, qualquer que seja o estágio de apodrecimento do meu corpo, mesmo restando apenas o esqueleto, terei um sorriso nos lábios. Porque é para isso que vivo agora: pelo meu direito de existir, pela minha chance de ser purificado, de ser libertado de toda desonra.
Mas esse é só o começo. Agora vou apagar a lâmpada e sair para a luz do dia. O pouco que resta.