O Leopardo
Capítulo 93
A RESPOSTA
Harry estava no meio da sala, olhando ao redor, quando o celular tocou.
— É Rakel. O que está fazendo?
— Vendo o que fica. Quando morre uma pessoa.
— E?
— Muitas coisas. Mas nem tanto. Søs já disse o que ela quer, e amanhã vem um cara para comprar os bens inventariados. Ele disse que pagaria 50 mil por tudo. E ele vai fazer a limpeza também. Isto é… — Harry não encontrou a palavra.
— Eu sei — emendou ela. — Foi assim para mim quando meu pai morreu. Suas coisas, que haviam sido tão importantes, tão insubstituíveis, pareciam perder o sentido. Foi como se só ele tivesse dado valor a elas.
— Ou talvez seja quem fique que perceba que tem que arrumar as coisas. Queimar. Recomeçar do zero. — Harry entrou na cozinha. Olhou para a foto na parede abaixo do armário da cozinha. Uma foto tirada em Sofies Gate. Oleg e Rakel.
— Espero que vocês tenham a chance de se despedir direito — disse Rakel. — A despedida é importante. Especialmente para quem fica.
— Não sei — respondeu Harry. — Ele e eu nunca dissemos um oi direito um ao outro. E eu o desapontei.
— Como assim?
— Ele me pediu para dar fim à vida dele. Eu recusei.
Houve silêncio. Harry ouviu ruídos de fundo. Ruídos de aeroporto.
Então, sua voz voltou.
— Você acha que devia tê-lo ajudado dessa maneira?
— Acho — disse Harry. — Penso que sim. Agora penso que sim.
— Não pense a respeito. Já é tarde demais.
— É?
— É, Harry. É tarde demais.
De novo, silêncio. Harry ouviu uma voz nasalada anunciar o embarque de um voo para Amsterdã.
— Então você não quis encontrá-lo?
— Não posso, Harry. Acho que eu também sou uma pessoa ruim.
— Então, temos que tentar fazer melhor da próxima vez.
Ele podia ouvi-la sorrir.
— Podemos?
— Nunca é tarde demais para tentar. Mande um abraço a Oleg.
— Harry…
— Sim?
— Nada.
Harry ficou olhando pela janela da cozinha depois de ela ter desligado.
Em seguida, foi ao andar de cima e começou a fazer as malas.
A médica estava esperando por Harry quando ele saiu do banheiro. Eles continuaram pela última parte do corredor até o guarda.
— A condição dele é estável — disse ela. — Podemos transferi-lo de volta à prisão. Qual é o propósito da visita?
— Gostaria de agradecer por nos ajudar a esclarecer um caso. E dar a resposta sobre um pedido dele.
Harry tirou a jaqueta, passou-a ao guarda e abriu os braços para ser revistado.
— Cinco minutos. Nem um segundo a mais. Ok?
Harry fez que sim.
— Vou entrar com você — disse o guarda, que não conseguiu desgrudar o olhar do queixo desfigurado de Harry.
Harry ergueu uma sobrancelha.
— Regras para visitas civis — emendou o guarda. — Estamos sabendo que você se demitiu da corporação.
Harry deu de ombros.
O homem havia saído da cama e estava sentado numa cadeira perto da janela.
— Nós o encontramos — disse Harry, puxando uma cadeira para perto. O guarda ficou próximo à porta, mas estava perto o suficiente para ouvi-los. — Agradeço a sua ajuda.
— Eu mantive minha parte do acordo — rebateu o homem. — E a sua parte?
— Rakel não quis vir.
O rosto do homem não mexeu um músculo; apenas se encolheu como se um golpe de vento gelado tivesse passado.
— Encontramos uma garrafa de remédio no kit de primeiros socorros na cabana do Cavalheiro. Ontem mandei analisar uma gota do conteúdo. Cetamina. O mesmo que ele usava nas vítimas. Você conhece a droga? Em grandes doses é fatal.
— Por que está me contando isso?
— Alguém me deu um pouco disso recentemente. De certa forma, gostei. Mas eu também gosto de todo tipo de droga. E só você sabe disso, não é? Eu te contei o que eu fazia no banheiro do Landmark em Hong Kong.
O Boneco de Neve olhou para Harry. Lançou um olhar cauteloso para o guarda e olhou de novo para Harry.
— Ah, sim — respondeu com voz monótona. — No cubículo no final à…
— À direita — completou Harry. — Bem, como disse, obrigado. Evite se olhar no espelho.
— O mesmo vale para você — disse o homem, oferecendo sua mão ossuda e branca.
Quando deixaram Harry sair no final do corredor, ele se virou em tempo de ver o Boneco de Neve cambalear em sua direção junto com o guarda. Até entrarem no banheiro.