O Leopardo
Capítulo 43
VISITA EM CASA
K aja estava deitada de lado, olhando para o escuro do seu quarto. Ouviu o portão abrir e depois passos no cascalho lá fora. Segurou a respiração e esperou. A campainha tocou. Ela saiu com cuidado da cama, enfiou o roupão e foi até a janela. Tocou de novo. Ela entreabriu a cortina. E suspirou.
— Policial bêbado — disse ela em voz alta.
Ela enfiou os pés nas pantufas e arrastou-os pelo corredor até a porta. Abriu e ficou no vão de braços cruzados. Kaja se perguntou se isso seria uma paródia do esquete do bêbado. Ou se esse fosse o triste original.
— O que traz você até aqui tão tarde? — perguntou Kaja.
— Você. Posso entrar?
— Não.
— Mas você disse que eu podia encontrar você se eu me sentisse muito sozinho. E eu estava.
— Aslak Krongli — começou ela. — Eu já estava deitada. Vai para o seu hotel agora. Podemos tomar um café amanhã de manhã.
— Estou precisando de café agora, acho. Dez minutos, depois chamamos um táxi, ok? Enquanto isso, podemos falar sobre assassinatos e serial killers. O que acha?
— Sinto muito — disse ela. — Não estou sozinha.
De imediato, Krongli se endireitou, mas com um movimento que fez Kaja suspeitar que ele não estivesse tão bêbado quanto parecia a princípio:
— É mesmo? Aquele policial em quem você está gamada está aqui?
— Talvez.
— Estes aqui são dele? — perguntou ele, devagar, e chutou os sapatos grandes ao lado do capacho.
Kaja não respondeu. Havia algo na voz de Krongli, não, por trás da voz, algo que ela não tinha notado antes. Como um rosnado de baixa frequência, quase inaudível.
— Ou só colocou os sapatos aí para assustar? — Havia riso no seu olhar. — Não há ninguém aqui, não é, Kaja?
— Escute, Aslak…
— O policial de quem está falando, aquele Harry Hole, se deu mal hoje à noite. Apareceu no café Justisen de porre, provocou e ganhou a surra que pediu. Uma viatura chegou para levá-lo para casa. Assim, você deve estar livre esta noite, não é?
Seu coração disparou. Ela não sentia mais frio por baixo do roupão.
— Talvez eles tenham trazido Harry para cá — retrucou ela e ouviu que sua voz também havia mudado.
— Não, me ligaram dizendo que o levaram para bem longe, algum lugar no alto onde ele ia visitar alguém. Quando descobriram que era o Hospital Central, eles o aconselharam a não entrar, mas aí ele pulou fora no sinal vermelho. Gosto do café bem forte, ok?
Seus olhos haviam ganhado um brilho intenso, o mesmo que Even costumava ter quando não estava bem.
— Aslak, vai embora. Tem táxi na Kirkeveien.
A mão dele disparou, e antes de ela ter tempo de reagir, ele a agarrou e empurrou-a para dentro do corredor. Ela tentou se soltar, mas ele pôs um braço em volta dela e segurou-a com força.
— Você vai ser igual a ela? — sibilou a voz dele perto do seu ouvido. — Sair de fininho, fugir? Vocês são todas iguais, malditas…
Ela gemeu e se contorceu, mas ele era forte.
— Kaja!
A voz veio do quarto, cuja porta estava aberta. Uma voz masculina decidida e dominante que Krongli em outras circunstâncias talvez houvesse reconhecido. Já que a tinha ouvido no café Justisen apenas uma hora antes.
— O que está acontecendo, Kaja?
Krongli já a havia soltado e a fitava, boquiaberto e de olhos arregalados.
— Nada — respondeu Kaja sem tirar os olhos de Krongli. — Só um caipira bêbado de Ustaoset que já está voltando para casa.
Krongli foi de costas até a saída sem dizer uma palavra. Esgueirou-se para fora e bateu a porta atrás de si. Ela foi até a porta, trancou-a e encostou a testa na madeira fria. Tinha vontade de chorar. Não de medo ou choque. Mas de aflição. Tudo em sua volta estava desmoronando. Tudo o que ela havia considerado tão puro e correto estava finalmente começando a surgir em sua luz verdadeira. Já estava acontecendo havia algum tempo, mas ela não queria ver. Porque Even tinha razão ao dizer: ninguém é como aparenta ser, e a maior parte da vida, exceto a traição sincera, é mentira e engano. E o dia em que descobrimos que não somos diferentes, é o dia em que não queremos mais viver.
— Cadê você, Kaja?
— Estou indo.
Kaja afastou-se da porta, contra a forte vontade de abri-la e sair correndo. O luar entrava por entre as cortinas, caindo sobre a cama, sobre a garrafa de champanhe que ele tinha trazido para celebrar, sobre seu torso nu atlético, sobre o rosto que para ela antes havia sido o mais belo neste mundo. As manchas no rosto dele brilhavam como tinta luminescente. Como se fossem incandescentes por dentro.