O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 61 de 96

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O Leopardo

Capítulo 61

A QUEDA

 

Harry e Bellman estavam deitados de bruços na beira do precipício onde o rastro da motoneve acabava. Olhavam para baixo. Despenhadeiros íngremes e cortantes desapareciam por baixo deles no meio do redemoinho de neve, que já caía com mais força.

— Está vendo alguma coisa? — perguntou Bellman.

— Neve — respondeu Harry e estendeu o binóculo a ele.

— A motoneve está ali. — Bellman se levantou e deu alguns passos em direção ao veículo deles. — Vamos descer escalando.

— Nós?

— Você.

— Eu? Pensei que o alpinista aqui era você, Bellman.

— Correto — disse Bellman, que já havia começado a prender as cordas à cadeirinha. — Por isso faz mais sentido eu cuidar das cordas e da trava. A corda tem 70 metros. Vou baixar você até onde der. Ok?

Seis minutos mais tarde, Harry estava na beira com as costas para o precipício, o binóculo preso ao pescoço e um cigarro fumegante no canto da boca.

— Nervoso? — perguntou Bellman, sorrindo.

— Não — disse Harry. — Cagando de medo.

Bellman verificou que a corda corria solta pela trava, em volta do tronco da árvore e para a cadeirinha de Harry.

Harry fechou os olhos, respirou fundo e se concentrou em se inclinar para trás, reprimindo o protesto condicionado pela evolução, desenvolvido ao longo de milhões de anos de experiência, que diz que a espécie não pode sobreviver caso caia de um precipício.

A mente ganhou sobre o corpo com a menor margem possível.

Nos primeiros metros da descida, conseguiu apoiar os pés na rocha, mas, quando a parede começou a reentrar, ficou pendendo no ar. A corda foi liberada aos trancos, porém sua elasticidade suavizou a pressão contra as costas e as coxas. Depois, a corda vinha mais regular e, em seguida, Harry perdeu de vista o topo e estava sozinho, pairando entre os flocos brancos de neve e as escuras paredes rochosas.

Ele se inclinou para o lado e olhou para baixo. E lá, a 20 metros, vislumbrou pedras afiadas espichando entre a neve. Enormes pedras pontudas. E, em meio ao branco e ao preto, alguma coisa amarela.

— Estou vendo a motoneve! — gritou Harry, e o eco ricocheteou entre as paredes rochosas. O veículo estava virado, com os esquis no ar. Como ele e a corda não eram afetados pelo vento, calculou que a motoneve devia estar alguns metros adiante. Mais de 70 metros para baixo. Portanto, a motoneve devia estar indo bem devagar quando despencou.

De repente, a corda se retesou.

— Mais para baixo! — gritou Harry.

A resposta ressoante de cima parecia vir de um púlpito:

— Não há mais corda.

Harry olhou para a motoneve. Algo despontava por baixo dela, no lado esquerdo. Um braço nu. Preto, inchado, como uma salsicha esquecida na churrasqueira. A mão branca contra uma pedra preta. Ele tentou focar, forçando os olhos a ver melhor. Palma aberta, a mão direita. Dedos. Retorcidos, tortos. O cérebro de Harry rebobinou a fita. O que Tony Leike tinha dito sobre sua doença? Não era contagiosa, apenas hereditária. Artrite.

Harry olhou para o relógio. O reflexo de detetive. O morto encontrado às cinco e cinquenta e quatro. A escuridão já cobria as paredes das rochas lá embaixo.

— Para cima! — gritou Harry.

Nada aconteceu.

— Bellman?

Nenhuma resposta.

Um golpe de vento fez Harry girar na corda. Pedras negras. Vinte metros. E, de repente, sem aviso, sentiu o coração martelar e ele automaticamente agarrou a corda com as duas mãos para se assegurar de que ainda estava ali. Kaja. Bellman sabia.

Harry respirou fundo três vezes antes de gritar novamente:

— Está escurecendo, o vento está mais forte e eu estou congelando, Bellman. Está na hora de encontrar um abrigo.

Ainda sem resposta. Harry fechou os olhos. Estava com medo? Medo de que um colega aparentemente racional pudesse matá-lo por um capricho porque circunstâncias casuais eram propícias? Lógico que morria de medo. Porque não era um capricho. Não foi por acaso que Bellman esperou para adentrar aquele deserto congelado com Harry. Ou foi? Ele respirou fundo. Seria fácil para Bellman fazer parecer um acidente. Podia descer depois e remover a corda e a cadeirinha, argumentando que Harry havia caído no precipício na nevasca. Já sentia a garganta seca. Isso não estava acontecendo. Não tinha conseguido sair de uma maldita avalanche só para se deixar cair de um despenhadeiro 12 horas depois. Por outro policial. Isso não estava acontecendo, não…

A pressão da corda sumiu. Ele estava caindo. Queda livre. Veloz.

 

— O boato é que Bellman supostamente agrediu um colega — disse Gjendem. — Só porque o cara havia dançado vezes demais com ela na festa de Natal da polícia. O cara queria dar queixa por ter fraturado o maxilar e o crânio, mas não tinha provas, pois o agressor estava encapuzado. Mas todos sabiam que tinha sido Bellman. Os problemas se acumularam, por isso ele pediu transferência à Europol para se safar.

— Você acredita que há algo real nessas fofocas, Gjendem?

Roger deu de ombros.

— Parece que Bellman tem certa… bem, predileção por esse tipo de transgressão. Demos uma olhada na ficha de Jussi Kolkka depois da avalanche na cabana de Håvass. Ele espancou um estuprador durante as investigações. E Truls Berntsen, o capanga de Bellman, também não é exatamente flor que se cheire.

— Ótimo. Quero que cubra o duelo entre a Kripos e a Divisão de Homicídios sobre quem terá a responsabilidade principal da investigação de homicídios. Quero que solte algumas bombas. De preferência sobre certo estilo gerencial psicótico. É tudo. Aguardamos então a reação do ministro da Justiça.

Sem nenhum gesto ou palavras de despedida, Bent Nordbø colocou seus óculos devidamente limpos, abriu o jornal e retomou a leitura.

 

***

 

Harry não teve tempo de pensar. Não teve um único pensamento. Não viu sua vida passar diante de si, rostos de pessoas a quem devia ter dito que amava, nem se sentiu impelido a ir de encontro a alguma luz. Possivelmente porque não há tempo para isso numa queda de 5 metros. A cadeirinha de escalar apertou contra a virilha e as costas, mas a elasticidade da corda permitiu uma freada mais suave.

Então sentiu que estava sendo içado de novo. O vento soprou neve em seu rosto.

— Que merda foi que essa? — perguntou Harry quando 15 minutos mais tarde estava na beira do precipício, balançando nos golpes do vento ao soltar a corda da cadeirinha.

— Ficou com medo, é? — Bellman sorriu.

Em vez de soltar a corda, Harry deu algumas voltas com ela na mão direita. Verificou que estava frouxa o bastante para erguer a mão e dar um soco no queixo dele, um belo gancho. A corda faria com que ele pudesse usar a mão no dia seguinte, o que não pôde fazer quando acertou Bjørn Holm e passou dois dias com ela doendo.

Harry deu um passo em direção a Bellman. Notou a expressão de surpresa do superintendente ao ver a corda em volta de sua mão, depois o observou recuar, cambalear e cair de costas na neve.

— Não! Eu… só tive que dar um nó na ponta da corda para que ela não passasse pela trava…

Harry continuou indo em sua direção, e Bellman — que estava encoberto pela neve — levantou automaticamente o braço para proteger o rosto.

— Harry! Houve… Houve um golpe de vento e eu escorreguei…

Harry parou e olhou surpreso para Bellman. Então passou pelo trêmulo superintendente, com passos pesados na neve.

 

O vento gelado atravessou a roupa externa, interna, a pele, a carne, os músculos, penetrando até os ossos. Harry pegou um bastão que estava preso à motoneve, procurou alguma roupa que pudesse amarrar na ponta, mas não achou nada, e sacrificar sua vestimenta estava fora de cogitação. Enfiou então o bastão na neve para marcar o lugar. Só Deus sabia quanto tempo iam levar para reencontrá-lo. Ele apertou a chave automática. Encontrou o botão dos faróis e ligou. E Harry viu de imediato. Viu pela neve que soprava de lado para dentro do cone de luz, formando uma parede branca e intransponível: que eles nunca conseguiriam sair daquele labirinto e voltar para Ustaoset.