O Leopardo
Capítulo 87
KALASHNIKOV
– Não teria uma rua aqui se não tivéssemos um negócio de mineração — disse Tony Leike enquanto o carro chacoalhava pela rua estreita de chão batido. — Empreiteiros iguais a mim são a única esperança para países como o Congo se erguerem, repetirem o que fizemos, se tornarem civilizados. A alternativa é deixá-los seguir o próprio destino, continuando a fazer o que sempre fizeram: matando uns aos outros. Neste continente são todos ao mesmo tempo caçadores e caça. Não se esqueça disso quando olhar para dentro dos olhos pedintes de uma criança africana. Dê a ela um pouco de comida e esses olhos logo vão voltar a olhar para você, detrás de uma arma automática. E então, não haverá piedade.
Kaja não respondeu. Olhou para o cabelo ruivo da mulher no banco do passageiro. Lene Galtung não havia se mexido nem dito nada, estava apenas sentada ali com as costas eretas e os ombros retraídos.
— Tudo na África ocorre em ciclos — prosseguiu Tony. — Chuva e seca, noite e dia, comer e ser comido, viver e morrer. O curso da natureza é tudo, nada pode ser mudado: nadar com a correnteza, sobreviver pelo máximo de tempo possível, aceitar o que é oferecido; é tudo o que você pode fazer. Porque a vida dos seus antepassados é a sua vida, você não pode mudar nada, o desenvolvimento não é possível. Não é filosofia africana, apenas a experiência de gerações. E é a experiência que temos que mudar. É a experiência que muda o modo de pensar, não o contrário.
— E se a experiência dissesse que são explorados pelos homens brancos? — questionou Kaja.
— A ideia de exploração foi semeada por homens brancos — disse Tony. — Mas o termo tem se mostrado uma ferramenta útil para líderes africanos que precisam apontar um inimigo em comum para fazer o povo ficar do seu lado. Desde o fim dos governos colonialistas dos anos 1960, eles vêm usando o sentimento de culpa dos brancos para adquirir poder, para que a real exploração da população possa começar. A culpa dos brancos pela colonização da África é patética. O crime real foi deixar o continente entregue à sua própria natureza de matança e destruição. Acredite em mim, Kaja, os congoleses nunca estiveram melhores do que sob o governo dos belgas. As revoltas não tinham base no desejo popular, mas na cobiça de poder dos indivíduos. Pequenas facções atacaram as casas dos belgas aqui no lago Kivu, porque as casas eram tão elegantes que presumiram que iam achar ali algo que queriam. Foi assim, e continua assim. É por isso que as propriedades sempre têm pelo menos dois portões, um em cada extremidade. Um pelo qual os assaltantes possam atacar, e outro pelo qual os moradores possam fugir.
— Foi assim que vocês saíram da casa sem que eu os visse?
Tony riu.
— Você realmente achou que era você que estava nos seguindo? Estou vigiando vocês desde que chegaram. Goma é uma cidade pequena com pouco dinheiro e uma estrutura de poder bem clara. Foi muito ingênuo da sua parte e de Harry virem sozinhos.
— Quem é ingênuo? — disse Kaja. — O que acha que vai acontecer quando ficarem sabendo que dois policiais noruegueses desapareceram em Goma?
Tony deu de ombros.
— Sequestro ocorre com relativa frequência aqui. Não ia me surpreender se a polícia local logo recebesse uma carta de uma guerrilha exigindo uma soma exorbitante em dinheiro por vocês dois. Além da libertação de prisioneiros conhecidos como oponentes ao regime do presidente Kabila. As negociações iam continuar por alguns dias, mas não levariam a lugar algum, já que as exigências seriam impossíveis de cumprir. E então, ninguém ia mais ver vocês. Acontece todo dia.
Kaja tentou captar o olhar de Lene Galtung no retrovisor, mas ela o desviava.
— E ela? — perguntou Kaja. — Ela sabe que você matou todas essas pessoas, Tony?
— Agora sabe — respondeu ele. — E ela me entende. Amor verdadeiro é isso, Kaja. E é por isso que Lene e eu vamos nos casar esta noite. Você está convidada. — Ele riu. — Estamos a caminho da igreja. Acho que verá uma cerimônia tocante quando a gente jurar fidelidade eterna um ao outro. Não é, Lene?
Nesse momento, Lene inclinou-se para a frente no seu assento, e Kaja viu o motivo dos seus ombros retraídos: suas mãos estavam atadas nas costas com um par de algemas cor-de-rosa. Tony inclinou-se, pôs a mão nos ombros de Lene e bruscamente empurrou-a para trás. Nisso, Lene se virou para eles, e Kaja se sobressaltou. Lene Galtung estava quase irreconhecível: o rosto marcado por lágrimas, um olho inchado, e a boca estava aberta de tal modo que seus lábios formavam um O. Dentro do O, o metal cintilava. De uma esfera dourada pendia um fio vermelho curto.
E as palavras que Tony tinha dito eram para Kaja um eco de outra proposta de casamento às portas da morte, um enterro na neve: até que a morte nos separe.
Harry escondeu-se atrás da prateleira de máscaras no momento em que o vulto desceu da escada, se virou e acendeu a lanterna. Não havia onde se esconder, apenas uma contagem regressiva até ser descoberto. Ele fechou os olhos para não ficar sem enxergar enquanto abria o pacote de balas; seus dedos sabiam exatamente quanto eram quatro balas. Ele girou o cilindro à esquerda com a mão direita, fez os movimentos já automáticos, os mesmos que havia executado quando estava sozinho em Cabrini Green e, por puro tédio, praticava carregar a arma rapidamente. Mas ali, ele não estava sozinho o suficiente. Nem com tédio suficiente. Seus dedos tremiam. Ele viu o vermelho do lado interno das pálpebras quando a luz caiu sobre seu rosto. Ele se preparou. Mas nenhum tiro foi disparado. A luz se moveu. Ele não estava morto, ainda não. Seus dedos obedeceram; enfiaram quatro balas em quatro das seis câmaras vazias, relaxados, rápidos, com uma mão só. O cilindro se encaixou. Harry abriu os olhos quando a luz caiu em seu rosto de novo. Sem conseguir enxergar, ele atirou no sol.
A luz girou para cima, passou pelo teto e sumiu. O eco dos tiros pairou no ar enquanto a lanterna rolou sobre o próprio eixo, fazendo um alto ruído ressoante e iluminando as paredes como se fosse um farol.
— Kinzonzi! Kinzonzi!
A lanterna parou ao se chocar com a prateleira. Harry correu, agarrou-a, deitou-se de costas segurando-a com o braço estendido, o mais distante possível do seu corpo, escorou as pernas na estante e deu impulso em direção à escada até estar diretamente embaixo do alçapão. Então, vieram as balas, parecendo chicotadas, e ele sentiu pó de cimento voar contra o braço e o peito quando penetraram o chão em torno da lanterna. Harry mirou e atirou na figura iluminada no vão do alçapão. Três tiros rápidos.
A Kalashnikov veio primeiro. Atingiu o piso ao lado da cabeça de Harry com um estrondo sonoro. Depois veio o homem. Harry mal teve tempo de se jogar para o lado antes de o corpo aterrissar. Nenhuma resistência. Carne. Peso morto.
Ficou quieto por alguns segundos. Então Harry ouviu Kinzonzi — se é que esse era o nome dele — gemer baixinho. Ele se levantou, ainda com a lanterna estendida para o lado, viu uma Glock no chão ao lado de Kinzonzi e chutou-a para longe. Agarrou a Kalashnikov.
Em seguida, arrastou o outro homem até a parede, o mais longe possível de Kinzonzi, e direcionou a luz para ele. Previsivelmente, ele reagiu igual a Harry; sem conseguir enxergar, atirou para o sol. Os olhos de detetive de Harry registraram automaticamente que a virilha dele estava ensopada de sangue; a bala devia ter seguido até o estômago, mas era pouco provável que o tivesse matado. Um ombro sangrando, então uma bala deve ter entrado na axila. Isso explicou por que a Kalashnikov tinha chegado primeiro. Harry se agachou. Mas isso não explicava por que o homem não estava respirando.
Ele iluminou seu rosto. O motivo de o rapaz não estar respirando.
A bala havia entrado por baixo do queixo. Do ângulo do qual ele havia atirado, o chumbo deve ter perfurado a boca, atravessado o palato e atingido o cérebro. Harry inspirou. O rapaz não devia ter mais que 16 ou 17 anos. Rapaz bem bonito. Beleza desperdiçada. Harry se levantou, encostou o cano do rifle na cabeça do morto e gritou em inglês.
— Onde eles estão? O Sr. Leike. Tony. Onde?
Ele esperou um pouco.
— O quê? Mais alto. Não estou escutando. Onde? Três segundos. Um. Dois...
Harry apertou o gatilho. A arma devia estar em modo automático, porque disparou pelo menos quatro vezes antes de ele conseguir soltar o dedo. Harry fechou os olhos quando sentiu o jorro no rosto, e ao abri-los de novo, viu que o belo rosto do rapaz havia sumido. Harry percebeu que escorria sangue quente e molhado pelo próprio corpo nu.
Foi até Kinzonzi. Ficou por cima dele, iluminou seu rosto, apontou a arma para sua testa e repetiu a pergunta em inglês, palavra por palavra.
— Onde eles estão? O Sr. Leike. Tony. Onde? Três segundos...
Kinzonzi abriu os olhos. Harry viu o tremor no branco do seu olhar. O medo de morrer é um pré-requisito para querer viver. Tinha que ser, pelo menos aqui em Goma.
O homem respondeu, devagar e claramente.