O Leopardo
Capítulo 38
Marcado para Sempre
Harry havia abaixado o volume de Duke Ellington e estava com o celular na mão. Essa pessoa sabia sobre a supercola. E tinha o número do celular dele. Será que Harry deveria rastrear o número para verificar o endereço e o nome da pessoa que havia deixado a mensagem, talvez até mandar prendê-lo antes, pois havia o risco de ele se assustar e fugir? Por outro lado, quem quer que fosse, estava esperando uma resposta.
Harry apertou “retornar a ligação”.
Após dois toques, ele ouviu uma voz grave:
— Sim?
— Aqui é Harry Hole.
— Prazer falar com você de novo, Hole.
— Humm. Quando foi que nos falamos pela primeira vez?
— Não está lembrado? No apartamento de Elias Skog. Supercola.
Harry sentiu o sangue pulsar contra a artéria carótida, produzindo um aperto na garganta.
— Eu estava lá. Com quem estou falando, e o que você estava fazendo lá?
Houve um segundo de silêncio do outro lado e Harry pensou por um momento que a pessoa havia desligado. Mas então a voz voltou com um alongado:
— Ah, perdão, devo ter assinado a mensagem apenas com C, não foi?
— Foi.
— É um hábito meu. Aqui é Colbjørnsen. O inspetor de Stavanger. Você me deu o seu número, lembra?
Harry vociferou por dentro, percebeu que ainda estava segurando a respiração e soltou o ar num longo sibilo.
— Ainda está aí?
— Estou — respondeu Harry, pegando a colher de chá que estava na mesa e raspando um pouquinho do ópio. — Disse que tem algo para mim?
— Tenho. Mas com uma condição.
— E qual é?
— Que fique só entre nós dois.
— Por quê?
— Porque não quero que aquele babaca do Bellman venha para cá se achando a dádiva divina para as investigações de homicídio. Ele e a maldita Kripos estão tentando monopolizar o país inteiro. Por mim, ele pode ir para o inferno. O problema são os meus chefes. Não tenho a permissão de levantar um dedo sequer naquele maldito caso de Skog.
— Então por que entrou em contato comigo?
— Sou um rapaz simples de uma cidade provinciana, Hole. Mas quando leio no Aftenposten que você está cuidando do caso, sei o que vai acontecer. Sei que você é como eu, que não quer apenas se fingir de morto e deixar as coisas acontecerem, não é?
— Bem… — começou Harry e olhou para o ópio à sua frente.
— Então, se você puder usar isso para passar a perna naquele rato, o que por sua vez pode também deter os planos daquele império maldito de Bellman, então, será um prazer. Vou esperar para enviar o relatório a Bellman até depois de amanhã. Você tem um dia para agir.
— E o que você sabe?
— Conversei com as pessoas ligadas a Skog. Não eram muitas, já que ele era meio esquisito, superintenso e viajava pelo mundo todo sozinho. Duas pessoas, para ser exato. A proprietária. E uma garota que rastreamos pelos números de telefone que ele havia ligado alguns dias antes de ser morto. O nome dela é Stine Ølberg e ela disse que falou com Elias na mesma noite em que ele foi assassinado. Estavam no ônibus que saía do centro, e ele contou que hospedou-se na cabana de Håvass com as mulheres cujas mortes apareciam nos jornais. Ele achou estranho que ninguém houvesse descoberto que tinham estado todos na mesma cabana, e ele queria ir à polícia. Mas estava relutante, porque não queria se envolver no caso. E disso entendo, porque Skog já havia tido problemas com a polícia. Havia sido acusado de perseguir pessoas em duas ocasiões. Mas ele não chegou a fazer nada de ilegal, era só uma pessoa estranha. Stine disse que teve medo dele, mas naquela noite quem parecia estar com medo era ele.
— Interessante.
— Stine fingiu não saber quem eram as três pessoas assassinadas, e então Elias disse que ele queria contar para ela sobre outra pessoa que também esteve na cabana, alguém que ela com certeza conhecia. E é aqui que começa a ficar interessante. O homem é bem conhecido. Pelo menos uma celebridade de segundo escalão.
— É mesmo?
— De acordo com Elias Skog, Tony Leike estava lá.
— Tony Leike. Eu devia saber quem é?
— Ele mora com a filha de Anders Galtung, o armador.
Algumas manchetes de jornais passaram pela cabeça de Harry.
— Tony Leike é o um suposto investidor, isto é, ficou rico sem que ninguém entendesse bem como; com certeza não foi dando duro. Além do mais, é boa-pinta. Mas isso não quer dizer que é do tipo bonzinho. E aqui chegamos ao que é realmente interessante. O cara tem um sheet.
— Sheet? — perguntou Harry, deliberadamente perplexo a fim de insinuar o que ele achava dos anglicismos de Colbjørnsen.
— Ficha criminal. Tony Leike tem uma condenação por agressão violenta.
— Humm. Verificou a condenação?
— Tony Leike espancou e desfigurou Ole S. Hansen no dia seis de agosto das onze e vinte até as onze e quarenta. Ocorreu em frente a uma boate na cidade onde Tony morava com o avô. Tony tinha 18, Ole, 17, e, claro, tinha mulher no meio.
— Hum. Jovens ciumentos brigando depois de encher a cara não é exatamente fora do normal. Você disse agressão violenta?
— Foi, porque tem mais. Depois de Leike ter espancado o outro rapaz, ele se sentou em cima dele e cortou a cara do coitado com uma faca. O menino ficou com uma cicatriz no rosto, mas de acordo com a condenação, podia ter sido pior se Leike não tivesse sido detido por alguém.
— Nada mais além dessa condenação?
— Tony Leike era conhecido por seu gênio terrível e vivia metido em brigas. No tribunal, uma testemunha contou que, no ensino médio, Leike quase o havia estrangulado com um cinto porque tinha falado mal do pai de Tony.
— Parece que alguém deve bater um bom papo com esse Tony Leike. Sabe onde mora?
— Na sua cidade. Holmenveien… espere… 172.
— Certo. Zona sul. Bem. Obrigado, Colbjørnsen.
— Não há de quê. Ah, sim, tem mais uma coisa. Um homem desceu do ônibus no mesmo ponto que Elias, e Stine disse que ela viu o cara seguir Elias. Mas ela não conseguiu dar qualquer descrição do homem, porque o rosto estava escondido por um chapéu. Pode ser importante ou não.
— Certo.
— Então, conto com você, Hole.
— Conta com o quê?
— Que você faça a coisa certa.
— Humm.
— Boa noite.
Harry ficou algum tempo ouvindo o Duke. Depois pegou o telefone e procurou o número de Kaja. Ele ia apertar o botão para ligar, mas hesitou. Estava fazendo aquilo de novo. Levando outras pessoas na queda. Harry largou o celular. Ele tinha duas opções. A opção mais inteligente, que era ligar para Bellman. E a opção mais estúpida, que era agir sozinho.
Harry suspirou. A quem estava enganando? Não tinha escolha. Então pôs o isqueiro no bolso, embrulhou a pedra no papel-alumínio, guardou-a no armário de bebidas, tirou a roupa, ajustou o despertador para as seis e foi para a cama. Prisioneiro do próprio padrão comportamental, cada movimento uma ação compulsiva. Nesse aspecto, ele não era melhor nem pior do que aqueles que perseguia.
E com esse pensamento caiu no sono com um grande sorriso no rosto.
Abençoado seja o silêncio da noite, que cura a visão e clareia o pensamento. O novo velho policial. Hole. Preciso contar a ele. Não vou mostrar tudo a ele, só o suficiente para que entenda. Para ele parar isso tudo. Para que eu não tenha que fazer o que faço. Eu cuspo e cuspo, mas o sangue enche minha boca, sem parar.