O Leopardo
Capítulo 66
APÓS O INCÊNDIO
A escuridão da noite havia chegado a Nydalen. Harry estava com um cobertor sobre os ombros e um grande copo de papelão na mão enquanto ele e Bjørn Holm assistiam aos bombeiros entrando e saindo às pressas com as últimas latas de PSG que restavam na fábrica Kadok.
— Quer dizer que ele tinha colocado fotos de todas as vítimas na parede? — perguntou Bjørn Holm.
— Isso mesmo — confirmou Harry. — Exceto a prostituta de Leipzig, Juliana Verni.
— E a folha? Tem certeza de que era do livro de hóspedes da cabana de Håvass?
— Tenho. Vi o livro na cabana e as páginas eram idênticas.
— E você estava a meio metro da folha onde provavelmente constava o nome do oitavo hóspede, mas não viu?
Harry deu de ombros.
— Talvez eu precise de óculos para ler. Tudo aconteceu rápido demais lá dentro, Bjørn. E meu interesse pela folha esmoreceu um pouco quando o policial começou a pulverizar gasolina.
— Claro. Não quis…
— Havia algumas cartas na parede. Pelo que consegui ler, eram cartas de chantagem. Talvez ele já tenha sido desmascarado por alguém.
Um bombeiro foi até eles. Suas roupas chiavam e rangiam com os passos.
— Kripos, não é? — grunhiu o homem com uma voz que combinava com o capacete e as botas. E sua linguagem corporal dizia “chefe”.
Harry hesitou, mas confirmou com um gesto de cabeça; não havia motivo para complicar as coisas.
— O que realmente aconteceu lá dentro?
— É o que espero que seu pessoal possa nos dizer — respondeu Harry. — Mas assim por alto podemos dizer que a pessoa que alugava de graça a sala lá dentro tinha um plano claro para o que ia acontecer se por acaso alguém chegasse sem ser convidado.
— É?
— Assim que vi os tubos fluorescentes no teto devia ter desconfiado que houvesse algo de errado. Se tivessem sido usados, o locatário não ia precisar de uma lâmpada na mesa. O interruptor estava ligado a outra coisa, algum dispositivo de ignição.
— Você acha? Bem, vamos mandar os peritos darem uma olhada amanhã cedo.
— Como está lá dentro? — perguntou Holm. — Na sala onde começou.
O bombeiro encarou Holm.
— Com PSG no teto e nas paredes, meu filho. Como você acha que está?
Harry estava cansado. Cansado de apanhar, cansado de sentir medo, cansado de sempre chegar tarde demais. Mas naquele exato momento, estava cansado de homens adultos que nunca cansavam de brincar de cacique. Harry falou baixinho, tão baixinho que o bombeiro precisou se inclinar um pouco para a frente.
— A não ser que esteja minimamente interessado no que meu perito criminal acha sobre a sala para onde você acabou de enviar inúmeros bombeiros, sugiro que bote para fora o que você sabe em respostas concisas, mas exaustivas. Entenda bem, havia um cara lá dentro que planejou seis ou sete homicídios. Que ele cumpriu. E estamos muito interessados em saber se podemos ter esperança em encontrar pistas na sala que possam nos ajudar a deter esse homem cruel, muito cruel. Fui claro o suficiente?
O bombeiro se endireitou e pigarreou.
— PSG é extrema…
— Escute aqui. Estamos querendo saber as consequências, não a causa.
O bombeiro enrubesceu não apenas por causa do calor do PSG em chamas.
— Tudo queimado. Não sobrou nada. Papéis, móveis, computador, tudo.
— Obrigado, chefe — disse Harry.
Os dois policiais ficaram olhando as costas do bombeiro ao se afastar.
— Meu perito criminal? — repetiu Holm fazendo careta, como se tivesse engolido algo indigesto.
— Tinha que fazer com que eu me parecesse um pouco com um chefe também.
— É bom passar a perna em alguém logo depois de alguém ter passado a perna em você, não é?
Harry fez que sim e apertou mais o cobertor.
— Ele disse “queimado”, não disse?
— Queimado. Como se sente?
Harry lançou um olhar triste para a fumaça que ainda saía das janelas da fábrica, entrando nos refletores dos bombeiros.
— Fodido em Nydalen — respondeu ele e tomou o resto do café, já frio.
Harry deixou Nydalen de carro, mas não havia chegado ao sinal vermelho na Uelandsgate quando Bjørn Holm ligou de novo.
— Os peritos analisaram as manchas de sêmen nas calças de esqui de Adele e temos uma impressão genética.
— Já? — perguntou Harry.
— Um perfil parcial. Mas o suficiente para afirmarem com 93 por cento de certeza de que é idêntico a um perfil nos nossos registros.
Harry se endireitou no assento.
DNA idêntico. Que maravilha. Talvez o dia ainda pudesse ser salvo.
— Diga logo! — disse Harry.
— Você tem que aprender a apreciar uma pausa dramática — respondeu Holm.
Harry suspirou.
— Ok, ok. Eles acharam uma impressão genética idêntica no cabelo da escova de Tony Leike.
O olhar de Harry ficou distante.
Tony Leike havia estuprado Adele Vetlesen na cabana de Håvass.
Não estava preparado para aquilo. Tony Leike? Não fazia sentido. Violento, sim, mas estuprar uma mulher que está na cabana com outro homem? Elias Skog disse que o tinha visto com a mão na boca de Adele, arrastando-a para dentro da casinha do banheiro. Talvez não fosse um estupro afinal?
E então — de repente — as peças se encaixaram.
Harry viu tudo com clareza cristalina.
Não foi um estupro. E ali estava: o motivo.
O carro atrás dele buzinou. O sinal estava verde para Harry.