O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 90 de 96

Páginas do PDF

O Leopardo

Capítulo 90

 

MARLON BRANDO

 

Harry estava de costas, flutuando. Flutuando para longe. Afundando no lago Kivu, enquanto o sangue, o dele e de outras pessoas, se mesclava ao sangue do lago, tornando-se único, sumindo no grande sono do universo, e as estrelas acima dele haviam desaparecido na água fria e escura. A paz das profundidades, silêncio, nada. Até ele voltar à superfície numa bolha de gás metano, um corpo azul-marinho com carne infectada de vermes da Guiné que fervilhavam e se agitavam por baixo da pele. E ele tinha que sair do lago Kivu para viver. Para esperar.

Harry abriu os olhos. Ele podia ver o balcão do hotel em cima dele. Virou de lado e nadou os poucos metros para a margem. Ergueu-se da água.

Logo ia amanhecer. Logo ele estaria no voo de volta a Oslo. Logo estaria no escritório de Gunnar Hagen, dizendo que havia acabado. Que tinham ido para sempre. Que haviam falhado. Então, ele também ia tentar sumir.

Trêmulo, Harry se enrolou na grande toalha branca e foi até a escada para seu quarto de hotel.

Quando a nuvem passou, não havia mais ninguém na beira da cratera.

A mira de Harry havia automaticamente procurado o atirador. Encontrou-o, e estava prestes a atirar. Mas descobriu que estava olhando para as costas do homem a caminho do carro. Em seguida, o Range Rover foi ligado, passou por eles e sumiu.

Ele voltou a mira para o lugar onde tinha visto Kaja, Tony e Lene. Ajustou a ótica. Viu as pegadas. Três pares.

Então, jogou o rifle, saltou do carro e correu para a cratera com o revólver à sua frente. Correu e rezou. Caiu de joelhos ao lado delas. E antes de olhar sabia que havia perdido.

Harry abriu a porta do quarto de hotel. Foi até o banheiro, tirou a atadura em volta da cabeça e colocou uma nova que conseguiu na recepção. Os pontos provisórios mantinham a bochecha no lugar; pior era o maxilar. A bolsa estava feita e pronta perto da cama. As roupas da viagem estavam sobre a cadeira. Ele pegou o maço de cigarros do bolso da calça, foi até o balcão e sentou-se numa cadeira de plástico. O frio aplacou as dores na bochecha e no maxilar. Ele olhou para o lago prateado e bruxuleante que nunca mais veria enquanto vivesse.

Ela estava morta. A bala de chumbo com 1 diâmetro de 1 centímetro e meio havia passado pelo olho direito dela, levando junto a metade direita da cabeça, fazendo os grandes dentes brancos de Tony Leike atravessarem o crânio dele, abrindo uma cratera no lado de trás, espalhando tudo sobre uma área de 100 metros quadrados de pedra vulcânica.

Harry havia vomitado. Cuspiu muco verde sobre eles e cambaleou para trás.

Tirou dois cigarros do maço. Enfiou-os entre os lábios e sentiu balançarem para cima e para baixo contra seus dentes que batiam. O voo sairia em quatro horas. Ele tinha combinado ir até o aeroporto com Saul. Harry estava tão cansado que mal conseguia manter os olhos abertos, mas não podia, nem queria dormir. Os fantasmas não tinham permissão de aparecer na primeira noite.

— Marlon Brando — disse ela.

— O quê? — respondeu Harry, acendendo os cigarros, passando um para ela.

— O ator machão de quem eu não conseguia lembrar o nome. Ele tem a voz mais feminina de todos. Boca feminina, também. Aliás, já notou que ele balbucia? Não é muito audível, no entanto está ali, como um ruído que o ouvido não capta como som, mas que o cérebro registra.

— Sei o que quer dizer — disse Harry, inalando e observando-a.

Ela havia sido pulverizada com sangue, fragmentos de osso e matéria cerebral. Tinha levado um bom tempo para cortar as tiras plásticas que atavam seus punhos; seus dedos simplesmente não queriam obedecer. Quando finalmente ficou livre, ela se pôs de pé, enquanto ele continuou de quatro.

E ele não tinha feito nada para impedi-la de agarrar o colarinho e o cinto de Tony e enrolar o corpo até que caísse na cratera. Harry não tinha ouvido um som, apenas o sussurro do vento. Ele a viu olhar para dentro do vulcão até se virar para ele.

Ele fez que sim. Não precisava explicar. Era assim que precisava ser feito.

Ela havia lançado um olhar indagador para o corpo de Lene Galtung. Harry havia avaliado o lado prático contra as considerações morais. As consequências diplomáticas contra a mãe ter um túmulo para visitar. A verdade contra uma mentira que poderia fazer a vida mais suportável. Então, ele se pôs de pé. Levantou Lene Galtung, quase caindo sobre o peso da pequena jovem. Ficou na beira do abismo, fechou os olhos, sentiu a ânsia, balançou por um segundo. E então, deixou-a cair. Abriu os olhos e acompanhou sua descida. Ela não passava de um pontinho. Em seguida foi engolida pela fumaça.

— No Congo, pessoas desaparecem todo santo dia — tinha dito Kaja quando voltavam do vulcão com Saul, com Harry no banco de trás, segurando-a nos braços.

Ele sabia que seria um relatório curto. Não havia pistas. Evaporadas. Podiam estar em qualquer lugar. E a resposta a todas as perguntas que iam receber seria esta: no Congo, pessoas desaparecem todo santo dia. Até quando ela perguntasse, a mulher com os olhos turquesa. Porque seria mais fácil para eles. Nenhum corpo, nenhum inquérito interno, o que seria a rotina quando policiais haviam disparado um tiro. Nenhum incidente internacional embaraçoso. O caso não seria arquivado, pelo menos não oficialmente, mas a busca contínua de Leike seria apenas para manter as aparências. Lene Galtung seria registrada como pessoa desaparecida. Ela não tinha passagem de voo e as autoridades da imigração no Congo não haviam registrado sua entrada no país. Melhor assim, diria Hagen. Para todos os envolvidos. Pelo menos para os que contavam.

E a mulher com os olhos turquesa aceitaria. Aceitaria o que ele contasse. Mas saberia talvez, se ela escutasse o que ele não contasse. Ela podia escolher. Escolher ouvi-lo dizer que sua filha estava morta. Que ele havia mirado entre os olhos de Lene em vez do ponto que ele supôs ser certeiro, um pouco mais à direita. Mas ele queria ter a certeza de que a bala não desviaria tão à direita a ponto de arriscar matar sua colega, a mulher com quem havia estado trabalhando neste serviço. Ela podia escolher isso, ou a mentira que empurrava as ondas do som adiante, aquelas que davam esperança em vez de um túmulo.

 

***

 

Trocaram de avião em Kampala.

Ficaram sentados em cadeiras de plástico perto do portão, olhando os aviões aterrissarem e decolarem, até Kaja adormecer e sua cabeça deslizar para o ombro de Harry.

Ela foi acordada por algum acontecimento. Não sabia o quê, mas alguma coisa havia mudado. A temperatura. O ritmo da batida do coração de Harry. Ou as linhas no seu rosto pálido e esgotado. Ela o viu colocar o celular ao bolso da jaqueta.

— Quem era? — perguntou ela.

— O Hospital Central — disse Harry, com o olhar ausente por cima dela, desaparecendo através das janelas panorâmicas à pista de concreto e ao céu azul deslumbrante. — Ele morreu.