O Leopardo
Capítulo 44
A ÂNCORA
K aja ficou no vão da porta do quarto olhando para ele. Mikael Bellman. Para as pessoas em geral: um inspetor competente e ambicioso, feliz no casamento e pai de três filhos, em breve comandante geral da nova Kripos gigantus que ia chefiar toda as investigações de homicídios na Noruega. Para ela, Kaja Solness: o homem por quem ela havia se apaixonado desde a primeira vez que tinham se encontrado, que a havia seduzido com todas as artimanhas possíveis, e mais algumas impossíveis. Ela foi uma presa fácil, mas não era culpa dele, e sim dela. Em geral. O que foi que Harry havia dito? “Ele é casado e diz que vai deixar a mulher e os filhos por você, mas nunca deixa?”
Ele tinha acertado em cheio. É claro. Somos tão previsíveis assim. Acreditamos porque queremos acreditar. Nos deuses porque mitigam o medo da morte. No amor porque embeleza a noção do que é a vida. No que homens casados falam porque é o que homens casados falam.
Ela sabia o que Mikael ia dizer. E agora disse:
— Preciso ir para casa. Ela já vai começar a desconfiar.
— Eu sei — suspirou Kaja e deixou, como de costume, de fazer a pergunta que sempre surgia quando ele dizia aquilo: por que não fazer com que ela pare de desconfiar? Por que não fazer o que já tinha prometido há tanto tempo? E agora surgiu uma nova pergunta: Por que não tenho mais tanta certeza de que quero que ele o faça?
Harry subiu para a ala de Hematologia no Hospital Central, apoiando-se no corrimão da escada. Estava ensopado de suor, gelado até os ossos, e os dentes batiam como um motor a dois tempos. E estava de porre. Tinha enchido a cara de Jim Beam e encontrava-se cheio de astúcia, cheio de si, cheio de merda. Cambaleou pelo corredor, e no final vislumbrou a porta do pai.
A cabeça de uma enfermeira surgiu de uma sala, ela olhou para ele e desapareceu. Faltavam 50 metros para o quarto quando a enfermeira e um enfermeiro careca irromperam no corredor, barrando Harry.
— Não guardamos medicamentos aqui nessa ala — disse o careca.
— O que está dizendo não é apenas uma mentira descarada — respondeu Harry e tentou controlar o equilíbrio e o bater dos dentes. — Mas um insulto grave. Não sou viciado, mas parente próximo. Vou visitar meu pai. Então façam a gentileza de saírem do caminho.
— Desculpe — disse a enfermeira, que parecia mais calma com a dicção clara de Harry. — Mas você está fedendo igual a uma cervejaria, e não podemos permitir…
— Cervejaria faz cerveja — retrucou Harry. — Jim Beam é bourbon. O que implica dizer que estou fedendo igual a uma destilaria, senhorita. É…
— De qualquer modo... — disse o enfermeiro e tocou o cotovelo de Harry. E soltou-o depressa quando sua mão foi torcida. O homem gemeu e fez uma careta de dor antes de Harry soltá-lo. Harry ficou imóvel, encarando-o. — Ligue para a polícia, Gerd — pediu o enfermeiro, baixinho, sem tirar os olhos de Harry.
— Se me permitem, eu cuido disso — disse uma voz com um leve ceceio atrás deles. Era Sigurd Altman. Ele vinha andando com uma pasta por baixo do braço e um sorriso amigável. — Você pode me acompanhar até o local onde a gente guarda os medicamentos, Harry?
Hole balançou duas vezes para a frente e para trás. Focou no baixinho magricelo de óculos redondos. E fez que sim.
— É para cá — disse Altman, que já havia começado a andar.
A rigor, a sala de Altman parecia uma despensa. Sem janela, sem ventilação perceptível, mas cabia uma mesinha com computador, uma cama simples, e ele explicou que servia quando fazia plantão e podia dormir e ser chamado quando necessário. E um armário com chave que Harry supunha conter uma série de anfetaminas e calmantes.
— Altman — disse Harry, que estava sentado na beira da cama, estalando a língua, como se tivesse cola nos lábios. — Nome incomum. Só conheço uma pessoa com esse sobrenome.
— Robert — disse Sigurd Altman, que estava sentado na única cadeira da sala. — Eu não gostava de quem eu era naquele vilarejo onde cresci. Assim que consegui sair de lá, fiz um requerimento para trocar o nome tão comum terminando em -sen. Justifiquei o requerimento com a verdade, que Robert Altman era meu diretor favorito. E o encarregado do caso devia estar de ressaca naquele dia, porque autorizou. Pode fazer bem a todos renascer de vez em quando.
— O jogador — disse Harry.
— Assassinato em Gosford Park — disse Altman.
— Short Cuts: Cenas da vida.
— Ah, uma obra-prima.
— Bom, mas superestimado. Tem temas demais. O roteiro faz a trama desnecessariamente complicada.
— A vida é complicada. As pessoas são complicadas. Assista ao filme de novo, Harry.
— Humm.
— Como está indo? Algum avanço no caso de Marit Olsen?
— Avanço — disse Harry. — O culpado foi preso hoje.
— Uau. Bem, então entendo que esteja festejando. — Altman pressionou o queixo contra o peito e olhou por cima dos óculos. — Preciso confessar que tenho esperança em contar a meus netos que foi minha informação sobre cetamina que solucionou o caso.
— Pode contar, mas foi uma ligação para um dos mortos que o desmascarou.
— Coitado.
— Quem é coitado?
— Todos são coitados, eu acho. Então, por que a pressa em ver seu pai justamente agora?
Harry pôs a mão diante da boca e soltou um arroto.
— Há um motivo — disse Altman. — Não importa o quão bêbado estiver, sempre tem um motivo. Por outro lado, é claro que não tenho nada a ver com esse motivo, por isso, talvez eu devesse calar a bo…
— Você já foi solicitado para ajudar alguém a morrer?
Altman deu de ombros.
— Algumas vezes, sim. Como enfermeiro especializado em anestesia, faz sentido pedir isso a mim.
— Meu pai me pediu.
Altman anuiu devagar com a cabeça.
— É uma carga pesada para pôr nos ombros de outra pessoa. É por isso que veio para cá agora? Para acabar com isso?
O olhar de Harry tinha vagado pela sala à procura de uma bebida. Agora dava outra volta.
— Vim para pedir perdão. Por não poder fazer isso por ele.
— Não precisa pedir perdão por isso. Tirar uma vida não é algo que se pode exigir que alguém faça, especialmente seu próprio filho.
Harry pôs a cabeça nas mãos. Parecia dura e pesada como uma bola de boliche.
— Eu já fiz isso uma vez — respondeu ele.
A voz de Altman soou mais perplexa do que diretamente chocada:
— Ajudou alguém a morrer?
— Não — disse Harry. — Me recusado a fazer. A meu pior inimigo. Ele tinha uma doença incurável, mortal e terrivelmente dolorosa. Ele se sufocou lentamente com a própria pele, que foi encolhendo.
— Esclerodermia — disse Altman.
— Quando eu o prendi, ele tentou fazer com que eu o matasse com um tiro. Estávamos no topo de uma torre, só ele e eu. Ele tinha matado um número desconhecido de pessoas e machucado a mim e a pessoas queridas. Estão marcadas para sempre. Meu revólver estava apontado para ele. Só nós dois ali. Autodefesa. Não havia risco nenhum atirar nele.
— Mas você preferia que ele sofresse — disse Altman. — A morte era uma saída fácil demais.
— Exato.
— E agora está sentindo que está fazendo a mesma coisa com seu pai, deixando-o sofrer em vez de ajudá-lo a morrer.
Harry esfregou a nuca.
— Não é por me ater a princípios sobre a virtude da vida ou qualquer tolice do gênero. É pura e simples conformidade. É covardia. Droga, não tem nada para beber aqui, Altman?
Sigurd Altman balançou a cabeça. Harry não sabia se era uma resposta à última pergunta ou à outra parte que ele havia dito. Talvez às duas coisas.
— Você não pode desqualificar seus próprios sentimentos dessa maneira, Harry. Você está tentando ignorar o fato de que você, como todo mundo, é guiado por noções de certo e errado. Seu intelecto talvez não tenha todos os argumentos para estas noções, mas mesmo assim estão profundamente enraizadas em você. Certo e errado. Talvez seja algo que seus pais contaram na sua infância, um conto de fadas com moral que sua avó lia, algo na escola que você achou injusto e parou para pensar a respeito. A soma de todas as coisas meio esquecidas. — Altman inclinou-se para a frente. — Na verdade, “profundamente enraizado” é uma boa expressão. Porque diz que você talvez não enxergue a âncora ali no fundo, mas mesmo assim não consegue sair do lugar, que é em torno disso que está girando, é ali que você se sente em casa. Tente aceitar isso, Harry. Aceite a âncora.
Harry ficou olhando para suas mãos dobradas.
— As dores que ele sofre…
— Dor física não é a pior coisa para alguém — refletiu Altman. — Acredite, eu vejo isso todo dia. Nem a morte. Nem o medo da morte.
— O que é a pior então?
— Humilhação. Ser destituído de honra e dignidade. Ser despido, expulso do rebanho. É essa a pior pena; é como ser enterrado vivo. E o único consolo é que a pessoa vai perecer bem depressa.
— Humm. — Harry fitou Altman por um longo tempo. — Será que tem algo naquele armário que pode aliviar um pouco a atmosfera aqui?