O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 53 de 96

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O Leopardo

Capítulo 53

LANCE DE CALCANHAR

 

Quando Harry acordou, eram nove horas, o quarto estava banhado pela luz do dia e não havia ninguém ao seu lado. Tinha quatro mensagens de voz no celular.

A primeira era de Kaja, que disse estar no carro a caminho de casa para se trocar antes de ir trabalhar. Ela agradeceu pelo… ele não conseguiu ouvir o que, apenas um riso alegre antes de desligar.

A segunda era de Gunnar Hagen, que queria saber por que Harry não havia respondido as suas ligações, dizendo que a imprensa estava em cima dele devido à prisão injustificada de Tony Leike.

A terceira era de Günther, que repetiu o gracejo de Harry Klein e disse que a polícia de Leipzig não havia encontrado o passaporte de Juliana Verni e, por isso, não podia confirmar se existia um carimbo de Kigali.

A quarta era de Mikael Bellman, que simplesmente pediu para Harry comparecer à Kripos às duas da tarde, e que ele supunha que Solness o havia instruído.

Harry se levantou. Ele se sentiu bem. Melhor que bem. Talvez fantástico. Parou para sentir. Ok, fantástico seria talvez um exagero.

Ele desceu, pegou um pacote de pão sueco e fez a ligação mais importante primeiro.

— Está falando com Søs Hole. — Sua voz soava tão solene que o fez sorrir.

— E você está falando com Harry Hole.

— Harry! — Ela gritou seu nome outras duas vezes.

— Oi, Søs.

— Papai disse que você estava em casa! Por que não ligou antes?

— Não estava pronto, Søs. Agora estou. Você está?

— Estou sempre pronta, Harry. Você sabe.

— Claro, eu sei. Vamos almoçar no centro antes de visitar o papai? Eu pago.

— Claro! Você parece tão feliz, Harry. É Rakel, falou com ela? Falei com ela ontem. Que barulho foi esse? Harry?

— Pão caindo no chão. O que ela queria?

— Saber sobre papai. Ela ficou sabendo que ele está doente.

— Isso foi tudo?

— Foi. Não. Ela disse que Oleg está bem.

Harry engoliu em seco.

— Ótimo. Então vamos nos falar em breve, ok?

— Não esquece. Estou tão feliz por você ter voltado, Harry! Tenho tanta coisa para te contar!

Harry deixou o celular na bancada da cozinha e se curvou para catar os pães quando o telefone tocou de novo. Søs tinha a mania de se lembrar de coisas que queria dizer depois de terem desligado. Ele se endireitou.

— O que foi?

Pigarro fundo. E uma voz que se apresentou como Abel. O nome era familiar, e Harry procurou automaticamente na memória. Havia pastas de homicídios anteriores, cuidadosamente arquivadas que pareciam nunca se apagar: nomes, rostos, números de casas, datas, o tom de uma voz, a cor e o ano de um carro. Mas ele podia de repente se esquecer do nome de vizinhos que moraram três anos no mesmo prédio ou do aniversário de Oleg. Era chamado de “memória de investigador”.

Harry ouviu sem interromper.

— Entendo — disse por fim. — Obrigado por ligar.

Ele desligou e ligou para um novo número.

— Kripos — atendeu a voz cansada de uma recepcionista. Está tentando ligar para Mikael Bellman?

— Estou. Hole da Divisão de Homicídios. Onde ele está?

A recepcionista informou onde o superintendente se encontrava.

— Lógico — disse Harry.

— Como é? — disse a recepcionista, e bocejou.

— É o que ele faz, não é?

Harry deixou o celular cair no bolso. Olhou pela janela da cozinha. Os pães suecos esmigalharam por baixo dos seus pés quando saiu.

 

***

 

“Centro de Escaladas Skøyen”, dizia no vidro da porta virado para o estacionamento. Harry a empurrou e entrou. Ao descer as escadas, teve que aguardar uma turma animada de alguma escola que estava de saída. Ele tirou as botas e deixou no lugar apropriado ao pé da escada. No grande ginásio de escaladas havia meia dúzia de homens escalando as paredes de 10 metros de altura, mais parecendo os paredões rochosos de papel machê nos filmes do Tarzan que Harry e Øystein viam no Cinema Symra quando eram crianças. Porém essas eram incrementadas com suportes multicoloridos, ferrolhos com cordas e mosquetões. Um discreto cheiro de sabão e chulé emanava das esteiras azuis no chão por onde Harry cruzou. Ele parou ao lado de um homem atarracado e com pernas arqueadas que olhava concentrado para a saliência por cima deles. Uma corda se estendia de sua cintura até um homem que nesse momento balançava como um pêndulo por um só braço 8 metros acima deles. No extremo do movimento, ele lançou um pé para cima, enfiou o calcanhar por baixo de um apoio cor-de-rosa em forma de pera, colocou o outro pé num pedacinho da estrutura e encaixou a corda de escalada na âncora do topo com um lance elegante.

— Te peguei! — gritou, e se inclinou para trás na corda, colocando os pés contra a parede.

— Belo lance de calcanhar — elogiou Harry. — Seu chefe é um exibicionista e tanto, não é?

Jussi Kolkka não respondeu nem se dignou a olhar para Harry, apenas puxou o dispositivo de trava da corda.

— Disseram no escritório que você estava aqui — continuou Harry a falar para o homem que estava sendo baixado até eles.

— Horário fixo toda semana — respondeu Bellman. — Um dos poucos benefícios de ser policial é poder treinar um pouco na hora do expediente. Como está, Harry? Pelo menos você parece estar com os músculos definidos. Muitos músculos por quilo, imagino. Ideal para escalar, você sabe.

— Para ambições bem limitadas — disse Harry.

Bellman aterrissou com as pernas abertas, puxando um pouco a corda para poder soltar o nó de oito.

— Não entendi essa.

— Não vejo graça em escalar tão alto. Eu trepo em cima de um rochedo vez ou outra.

— Trepar — bufou Bellman, soltando e tirando o arnês. — Sabe que dói mais cair de 2 metros sem corda do que de 30 com uma?

— Sei — disse Harry e esboçou um sorriso. — Eu sei.

Bellman se sentou num dos bancos de madeira, tirou as sapatilhas de escalada, que pareciam mais apropriadas para balé, e esfregou os pés, enquanto Kolkka puxou a corda e começou a enrolá-la.

— Recebeu minha mensagem?

— Recebi.

— Então, por que a pressa, a gente não ia se ver às duas?

— Era isso que queria esclarecer com você, Bellman.

— Esclarecer?

— Antes de encontrar os outros. Vamos entrar de acordo sobre as condições para eu me juntar à equipe.

— A equipe? — Bellman riu. — Do que está falando, Harry?

— Quer que eu soletre? Você não precisa de mim para ligar para a Austrália e convencer uma mulher a vir para cá para agir como isca, isso você mesmo consegue. O que está me pedindo é uma ajudinha.

— Harry! Sinceramente, agora…

— Você parece cansado, Bellman. Já está começando a notar isso, não é? Sentiu a pressão aumentar depois de Marit Olsen.

Harry se sentou no banco ao lado do superintendente. Mesmo sentado, era quase 10 centímetros mais alto.

— Há um frenesi de especulação na imprensa todo santo dia. Impossível passar por uma banca de jornal ou ligar a TV sem ser lembrado do Caso. O Caso que você não solucionou. O Caso que os chefes te cobram o tempo todo. O Caso que exige uma coletiva com a imprensa por dia, com os abutres gritando perguntas nos bicos um do outro. E agora o homem que você mesmo soltou simplesmente evaporou. Os abutres jornalistas estão vindo aos montes, alguns já grasnando em tudo quanto é língua, incluindo sueco, dinamarquês e até em inglês. Já estive onde você está, Bellman. Em breve estarão falando o maldito francês. Porque esse é o Caso que você precisa solucionar, Bellman. E o Caso está entravado.

Bellman não respondeu, mas a musculatura do maxilar se contraía. Kolkka havia guardado a corda na sacola e se aproximou deles, mas Bellman fez um gesto para que se afastasse. O finlandês deu meia-volta e bamboleou para a saída como um terrier obediente.

— O que você quer, Harry?

— Estou te oferecendo uma chance de resolver isso pessoalmente em vez de lá em cima durante a reunião.

— Você quer que eu te peça ajuda?

Harry viu o rosto de Bellman ficar um tom mais vermelho.

— Em que posição você imagina estar para negociar assim, Harry?

— Bem. Imagino que seja melhor do que em muito tempo.

— Você está enganado.

— Kaja Solness não quer trabalhar para você. Você já promoveu Bjørn Holm, e, se o mandar de volta para o trabalho da perícia na cena do crime, ele só vai te agradecer. A única pessoa que você pode atingir agora sou eu, Bellman.

— Esqueceu que posso mandar te prender para que você não possa mais encontrar seu pai antes que ele morra?

Harry balançou a cabeça.

— Não há mais ninguém para encontrar, Bellman.

Surpreso, Mikael Bellman ergueu uma sobrancelha.

— Ligaram do hospital hoje de manhã — rebateu Harry. — Meu pai entrou em coma essa noite. Seu médico, Abel, diz que ele não vai mais acordar. O que ficou não dito entre nós dois continuará não dito.