O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 19 de 96

Páginas do PDF

O Leopardo

Capítulo 19

A NOIVA BRANCA

 

A pesar da velocidade lenta, o Volvo Amazon de Bjørn Holm seguia balançando na estreita estrada serpenteada entre os campos e as colinas na região de Østfold.

Harry dormia no banco de trás.

— Não achei nenhum criminoso sexual em torno de Lyseren — disse Bjørn.

— Nenhum que tenha sido preso — corrigiu Kaja. — Não viu a enquete no jornal VG? Uma pessoa em vinte diz ter feito o que pode ser caracterizado como abuso sexual.

— Será que as pessoas são honestas ao responder esse tipo de enquete? Se eu tivesse pressionado uma mulher a ir longe demais, tenho certeza de que minha cabeça ia cuidar de esquecer isso.

— Foi isso o que você fez?

— Eu? — Bjørn entrou na contramão para ultrapassar um trator. — Negativo. Sou um dos dezenove por cento. Ytre Enebakk. Droga, como é o nome daquele comediante da TV que é daqui da área? O caipira idiota com óculos quebrados e uma bicicleta motorizada? Paródia hilária.

Kaja deu de ombros. Bjørn olhou pelo retrovisor, mas só viu a boca aberta de Harry.

Como combinado, o delegado de Ytre Enebakk estava esperando por eles na estação de tratamento de água em Vøyentangen. Eles estacionaram, ele apresentou-se como Skai — o nome norueguês do couro sintético que Bjørn Holm parecia tanto apreciar — e o seguiram até um cais flutuante onde havia uma dúzia de barcos balançando na água calma.

— É cedo para colocar os barcos na água — comentou Kaja.

— Não teve neve esse ano, nem vai ter — disse o delegado. — É a primeira vez desde que nasci.

Eles entraram num barco largo de fundo plano, Bjørn com mais cuidado do que os outros.

— É raso aqui — disse Kaja enquanto o delegado afastou o barco do cais com uma vara.

— É mesmo — respondeu ele, olhando para a água enquanto puxava a corda para ligar o motor. — O lugar das cordas fica ali, na parte funda. Há uma trilha, mas o terreno é tão íngreme que é melhor ir de barco. — Ele moveu a alavanca lateral do motor para a frente. Um pássaro de uma espécie indeterminada levantou voo de uma árvore no meio do pinheiral e lançou um grito de alerta.

— Odeio o mar — disse Bjørn a Harry, que mal ouviu o colega por causa do barulho entrecortado do motor de popa de dois tempos. Deslizavam por entre a luz cinzenta da tarde num canal aberto no meio do junco de 2m de altura. Passaram quietos por um monte de galhos que Harry supôs tratar-se de uma toca de castor, saindo no meio de uma avenida de árvores de mangue.

— Isso é um lago — disse Harry. — Não o mar.

— É a mesma droga — retrucou Bjørn e sentou-se mais para o meio do barco. — Prefiro um lugar no interior, com bosta de cavalo e montanhas rochosas.

O canal alargou-se e lá estava na frente deles: o lago Lyseren. Eles passaram por ilhas e ilhotas onde sobreviviam pequenas cabanas abandonadas com janelas pretas que pareciam fitá-los com olhar vigilante.

— Cabanas simples — disse o delegado. — Aqui você está livre do estresse do litoral dos ricos, onde você precisa competir com o vizinho para ver quem tem o maior barco e fez a maior obra na casa. — Ele cuspiu na água.

— Como é que se chama aquele comediante da TV que é de Ytre Enebakk? — perguntou Bjørn, gritando para ser ouvido por cima do barulho do motor. — Óculos quebrados. Bicicleta motorizada.

O delegado lançou um olhar inexpressivo para Bjørn Holm e balançou a cabeça lentamente.

— A fábrica de cordas — disse ele.

Na frente da proa, na beira da água, Harry viu uma velha construção comprida de madeira ao pé de um declive íngreme com floresta densa nos dois lados. Ao lado da casa, trilhos de aço desciam pela montanha e desapareciam na água preta. A tinta vermelha estava descascando das paredes com buracos escancarados em vez de janelas e portas. Harry semicerrou os olhos. Na luz esmaecida parecia que uma pessoa vestida de branco estava numa janela, olhando fixamente para eles.

— Nossa, é uma casa mal-assombrada — disse Bjørn, rindo.

— É o que dizem — comentou o delegado Skai, desligando o motor.

No silêncio repentino podiam ouvir o eco do riso de Bjørn do outro lado e, de longe, um solitário sino de carneiro chegou a eles por cima da água.

Kaja pegou a corda, pulou do barco e, experiente, deu um nó duplo numa madeira verde e podre que se projetava entre as vitórias-régias.

Desceram do barco para as grandes pedras que serviam como cais. Pela abertura da porta entraram num galpão estreito e deserto cheirando a alcatrão e urina. Não era completamente visível do lado de fora, porque uma extremidade da construção continuava para dentro da densa floresta, e, com cerca de 2 metros de largura, o galpão devia ter mais de 60 metros de comprimento.

— Ficavam em cada ponta da casa girando a corda — explicou Kaja antes que Harry tivesse tempo de perguntar.

Num canto havia garrafas de cerveja vazias e sinais de tentativas de acender uma fogueira. Na parede oposta pendia uma rede de pesca em frente a algumas tábuas soltas.

— Depois de Simonsen, ninguém quis assumir o negócio — disse o delegado, olhando em volta. — Desde então o galpão está vazio.

— Para que servem os trilhos ao lado da casa? — perguntou Harry.

— Para duas coisas. Para levantar e baixar o barco que usavam para buscar as toras de madeira. E para segurar os troncos embaixo da água para amolecer. Prendiam as toras ao vagão de ferro que deve estar na casa de barco. Depois baixavam o vagão na água e o levantavam de novo após algumas semanas, quando a madeira estava no ponto. Simonsen era um cara prático.

Sobressaltaram-se com um repentino ruído da floresta lá fora.

— Carneiros — disse Skai. — Ou veados.

Eles seguiram o delegado pela escada estreita até o segundo andar. No meio do aposento tinha uma enorme mesa comprida. As duas extremidades do espaço, que mais parecia um corredor, sumiam no escuro. O vento entrava pela abertura das janelas, que tinham bordas de vidro quebrado ao longo dos batentes e assobiavam e agitavam o véu de noiva carcomido. Ela fitava o lago. Por baixo da cabeça e do torso estava o esqueleto: uma estrutura de ferro preto com rodas.

— Simonsen a usava como espantalho — disse Skai, fazendo um gesto em direção ao manequim de vitrine.

— Sinistro — disse Kaja, aproximando-se do delegado e tremendo dentro da jaqueta.

Ele olhou-a de soslaio e esboçou um sorriso:

— As crianças por aqui morriam de medo dela. Os adultos diziam que, na lua cheia, ela andava por aí caçando o marido que a havia abandonado no dia do casamento. E que dava para ouvir as rodas chiando quando ela se aproximava. Eu cresci pertinho daqui, em Haga, sabe.

— É mesmo? — disse Kaja, e Harry escondeu um sorriso.

— É — respondeu Skai. — Aliás, essa aqui era a única mulher conhecida na vida de Simonsen. Ele era um pouco recluso. Mas fazer corda, ah, isso ele sabia.

Atrás deles, Bjørn Holm tirou um rolo de corda que estava pendurado num prego.

— Eu disse que você podia tocar em alguma coisa? — comentou o delegado sem se virar.

Depressa, Bjørn colocou a corda no lugar.

— Ok, chefe — disse Harry, abrindo um sorriso para Skai sem mostrar os dentes. — Podemos tocar em alguma coisa?

O delegado mediu Harry com os olhos.

— Vocês ainda não me contaram de que se trata.

— É confidencial — respondeu Harry. — Sinto muito. Combate a fraudes. Você sabe.

— É? Se você for aquele Harry Hole que acho que é, costumava trabalhar na Divisão de Homicídios.

— Bem — disse Harry. — Agora é insider trading, evasão de impostos e fraudes. Chama-se progredir.

O delegado Skai fechou um olho. Um pássaro chiou.

— É claro que você tem razão, Skai — disse Kaja e suspirou. — Mas sou a pessoa encarregada de cuidar da burocracia para obter o mandado de busca do advogado da polícia. Como você sabe, estamos com falta de pessoal e eu podia ganhar bastante tempo se a gente pudesse… — Ela sorriu com seus pequenos dentes afiados e fez um gesto em direção ao rolo de corda.

Skai olhou para ela. Balançou algumas vezes para a frente e para trás nos calcanhares das botas de borracha. Daí fez que sim.

— Espero no barco — disse.

Bjørn começou o trabalho sem demora. Colocou o rolo de corda na mesa comprida, abriu sua pequena mochila, acendeu uma lanterna presa a uma cordinha com um anzol na ponta e o prendeu entre duas tábuas no teto. Pegou o laptop, um microscópio móvel no formato de um martelo, conectou-o à entrada USB do laptop, verificou se o microscópio estava transmitindo as fotos para a tela e clicou numa imagem que ele tinha passado para o computador antes de partir.

Harry ficou ao lado da noiva, olhando para o lago. No barco podia ver a brasa de um cigarro. Ele viu os trilhos que desapareceram na água. A parte funda. Harry nunca havia gostado de tomar banho em água doce, especialmente depois que ele e Øystein haviam matado aula para ir ao lago Hauktjern em Østmarka para pular do Pico do Diabo, que supostamente tinha 12 metros de altura. E Harry — segundos antes de atingir a água — tinha visto uma cobra deslizar na água por baixo dele. Daí foi engolido pelo gélido escuro verde e, em pânico, tragou metade do lago, com a certeza de que nunca voltaria a ver a luz do dia ou respirar novamente.

Harry sentiu a fragrância e sabia que Kaja estava logo atrás dele.

— Bingo — ouviu Bjørn dizer baixinho.

Harry se virou:

— O mesmo tipo de corda?

— Sem um pingo de dúvida — respondeu Bjørn, segurando o microscópio contra a ponta da corda e apertando o botão para fotos de alta resolução. — Tília e olmo. Fibra da mesma grossura e do mesmo comprimento. Mas o bingo foi por causa do corte fresco na ponta da corda.

— Como é?

Bjørn Holm apontou para a tela.

— A foto à esquerda foi aquela que eu trouxe. Ela mostra o corte da corda da piscina de Frogner, ampliado vinte e cinco vezes. E nessa corda tenho uma perfeita…

Harry fechou os olhos para melhor apreciar a palavra que ele sabia que vinha:

— … combinação.

Ele continuou de olhos fechados. O pedaço de corda com a qual Marit Olsen foi enforcada não apenas tinha sido fabricado ali, mas havia sido cortado da corda que estava na sua frente. E era um corte recente. Há pouco tempo, ele tinha estado ali onde se encontravam agora. Harry farejou o ar.

 

Uma densa escuridão os envolvia. Harry mal podia enxergar algo branco na abertura da janela quando deixaram o lugar.

Kaja sentou ao seu lado na frente do barco. Tinha que ficar bem pertinho dele para Harry poder ouvi-la por cima do zunido do motor:

— A pessoa que veio pegar a corda deve conhecer bem o local. E não deve ter muitas conexões entre essa pessoa e o assassino…

— Não acho que tenha conexão alguma — disse Harry. — O corte é recente demais. E não há muitos motivos para que uma corda troque de mãos.

— Alguém familiar com o local morando por perto ou que tem cabana por aqui — pensou Kaja em voz alta. — Ou que cresceu aqui.

— Mas por que ir até essa fábrica de corda abandonada para arrumar alguns metros de corda? — indagou Harry. — Quanto custa uma corda comprida na loja? Umas 200 coroas?

— Talvez estivesse passando por perto e sabia que tinha corda ali.

— Ok, mas por perto quer dizer que deve ter ficado numa das cabanas mais próximas. Para todas as outras pessoas é uma longa viagem de barco até a fábrica. Você faz…?

— Claro, faço uma lista dos vizinhos mais próximos. Aliás, consegui achar o perito em vulcões que você pediu. Um nerd do Instituto de Geologia. Felix Røst. Parece que ele costuma ir à procura de vulcões. Viaja pelo mundo todo para ver vulcões e erupções e esse tipo de coisa.

— Falou com ele?

— Só com a irmã que mora com ele. Ela me pediu para enviar um e-mail ou SMS, ele não se comunica de outra forma, ela disse. Ele estava fora, jogando xadrez. Mandei as pedras e as informações.

Eles avançaram pelo canal raso em direção ao cais em passo de lesma. Bjørn segurou a lanterna para guiá-los pela leve neblina que pairava sobre a superfície da água. O delegado desligou o motor.

— Olhe! — sussurrou Kaja e inclinou-se para ainda mais perto de Harry. Ele podia sentir seu cheiro quando acompanhou o dedo indicador. No junco atrás do cais uma grande cegonha branca e solitária deslizou pelo véu de neblina para a área iluminada pela luz da lanterna. — Não é apenas… lindo? — sussurrou encantada, riu e deu um aperto rápido na mão dele.

Skai os acompanhou até a estação de tratamento de água. Eles já estavam no Amazon prestes a ir embora quando Bjørn febrilmente baixou a janela e gritou atrás do delegado:

— FRITJOF!

Skai parou e virou-se lentamente. A luz de um poste caiu sobre seu rosto pesado e inexpressivo.

— O comediante da TV — gritou Bjørn. — Fritjof de Ytre Enebakk.

— Fritjof? — disse Skai e cuspiu. — Nunca ouvi falar dele.

Vinte e cinco minutos mais tarde, quando o Amazon pegou a estrada perto do lixão de Grønmo, Harry havia tomado uma decisão.

— Temos que vazar essa informação para a Kripos — disse ele.

— O quê? — disseram Bjørn e Kaja em uníssono.

— Vou falar com Beate, e ela vai passar a informação adiante para parecer que foi o pessoal dela da Perícia Técnica que descobriu o negócio da corda, e não a gente.

— Por quê? — quis saber Kaja.

— Se o assassino mora nos arredores de Lyseren, terá que ser feita uma busca de casa em casa. Não temos meios, nem pessoal para isso.

Bjørn Holm deu um murro no volante.

— Eu sei — disse Harry. — Mas o mais importante é que ele seja preso, não quem o prende.

Continuaram em silêncio com o eco falso das palavras ressoando no ar.