O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 22 de 96

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O Leopardo

Capítulo 22

 

FERRAMENTA DE BUSCA

 

– Primeiro tentei com os três nomes que você me deu — disse Katrine Bratt. — Borgny Stem-Myhre, Charlotte Lolles e Marit Olsen. Mas a busca não deu em nada que fizesse sentido. Então acrescentei todas as pessoas desaparecidas na Noruega durante os doze últimos meses. E consegui um ponto por onde começar.

— Espere — disse Harry, já bem acordado. — De onde conseguiu as pessoas desaparecidas?

— Intranet da Divisão de Pessoas Desaparecidas da Polícia Distrital de Oslo. O que você achou?

Harry gemeu, e Katrine prosseguiu.

— Surgiu um nome que de fato ligou os outros três nomes. Está pronto?

— Então…?

— O nome da mulher desaparecida é Adele Vetlesen, 23 anos, residente em Drammen. O desaparecimento dela foi registrado pelo companheiro em novembro. Apareceu uma conexão no sistema de passagens da Ferroviária Nacional da Noruega. Dia sete de novembro, Adele Vetlesen reservou uma passagem de trem de Drammen a Ustaoset pela internet. Na mesma data, Borgny Stem-Myhre tinha passagem de Kongsberg para o mesmo destino.

— E olha que Ustaoset nem é o centro do mundo — disse Harry.

— Não é um lugar, é parte de uma montanha. Onde as famílias de Bergen construíram suas cabanas com dinheiro antigo e onde a Associação de Turismo construiu cabanas nos cumes, para que os noruegueses pudessem honrar a herança de Amundsen e Nansen e ir de cabana a cabana, com esquis nos pés, 25 quilos nas costas e um leve medo quanto a morte no fundo da mente. Apimenta a vida, sabe.

— Parece que você já esteve lá.

— A família do meu ex-marido tem uma cabana nas montanhas. São tão dignamente ricos que nem tem eletricidade ou água encanada. Só os novos ricos têm sauna e Jacuzzi.

— E a outra conexão?

— Não havia registro de passagem de trem para Marit Olsen. Entretanto, surgiu um pagamento registrado no caixa eletrônico no restaurante do mesmo trem no dia anterior. O horário do registro foi às duas e treze da tarde quando, de acordo com os horários da ferrovia, o trem devia estar entre Ål e Geilo, isto é, antes de Ustaoset.

— Menos convincente — disse Harry. — O trem vai até Bergen, talvez ela fosse para lá.

— Você acha… ? — Katrine Bratt começou, mas se calou, esperou e continuou em tom mais baixo. — Você acha que sou tão burra assim? O hotel em Ustaoset registrou um pernoite em quarto de casal em nome de Rasmus Olsen, que no registro central é listado com o mesmo endereço residencial de Marit Olsen. Presumi por isso que…

— Sim, é o marido dela. Por que está sussurrando?

— Porque o guarda noturno acabou de passar, ok? Escute, colocamos duas pessoas mortas e uma desaparecida em Ustaoset no mesmo dia. O que você acha?

— Bem. É uma coincidência significante, mas não podemos excluir a possibilidade de ser uma coincidência.

— De acordo. Então, aqui vem o resto. Fiz buscas por Charlotte Lolles e Ustaoset, mas não apareceu nada. Então me concentrei na data para ver onde Charlote Lolles podia estar enquanto as outras três pessoas estavam em Ustaoset. Dois dias antes, Charlotte havia comprado diesel num posto de gasolina perto de Hønefoss.

— Fica longe de Ustaoset.

— Mas fica na direção certa vindo de Oslo. Tentei achar um carro que estivesse registrado no nome dela ou de um eventual companheiro. Se eles tivessem um cartão de passagem automática de pedágio e se deparassem com vários, seria possível rastrear seus movimentos.

— Humm.

— O problema é que ela não tinha carro, nem companheiro, pelo menos não oficialmente.

— Tinha um namorado.

— Pode ser. Mas nos registros de Europark, a ferramenta de busca encontrou um carro na garagem deles em Geilo, pago por uma Iska Peller.

— Fica a poucos quilômetros de distância. Mas quem é… hum, Iska Peller?

— De acordo com os dados do cartão de crédito, ela mora em Bristol, Sydney, Austrália. Acontece que ela tem pontuação alta nas buscas relacionadas à Charlotte Lolles.

— Buscas relacionadas?

— Funciona assim. Há registros dos últimos anos de pessoas que pagaram com cartão no mesmo restaurante no mesmo horário, o que indica que elas comeram juntas e dividiram a conta. Ou que sejam membros da mesma academia de ginástica por ter a mesma data de adesão, ou que sentaram lado a lado em voos mais de uma vez. Sacou?

— Saquei — repetiu Harry, imitando seu sotaque de Bergen. — E tenho certeza de que você verificou a marca do carro e que usa…

— De fato, usa diesel — respondeu Katrine de forma um tanto brusca. — Quer ouvir o resto ou não?

— Mas é claro.

— Não é possível reservar cama nestas cabanas da Associação de Turistas de self service. Se todas as camas estiverem ocupadas quando você chega, você simplesmente se instala no chão num colchão ou no saco de dormir que você levar. Custa apenas 370 coroas por noite, e pode pagar em espécie numa caixinha na cabana, ou deixar um envelope com autorização de debitar o valor na sua conta.

— Em outras palavras, não tem como ver quem esteve em que cabana e quando?

— Se pagarem em dinheiro, não. Mas, caso deixem uma autorização, haverá depois uma transação bancária entre a conta da pessoa em questão e a Associação de Turistas. Com menção à cabana e à data do pagamento.

— Pelo que me lembro, era difícil fazer busca de transações bancárias.

— Não se a ferramenta tiver os critérios corretos fornecidos por um cérebro humano esperto.

— O que nesse caso se aplica, certo?

— É isso que gosto de ouvir. Bem, dia vinte de novembro, a conta de Iska Peller foi debitada, referente a duas camas em quatro cabanas da Associação de Turistas, com um dia de caminhada entre uma a outra.

— Uma viagem de esqui de quatro dias.

— É. E ficaram na última cabana, em Håvass, dia sete de novembro. Fica apenas meio dia de esqui de Ustaoset.

— Interessante.

— Interessante mesmo são duas outras contas que também foram debitadas, referente a pernoites no dia sete de novembro na cabana de Håvass. Adivinhe quais?

— Bem. Não deve ser a de Marit Olsen ou Borgny Stem-Myhre, já que suponho que a Kripos teria descoberto se duas mulheres assassinadas recentemente estivessem no mesmo lugar na mesma noite. Então uma deve ser da garota desaparecida, como era o nome dela?

— Adele Vetlesen. E você acertou. Ela pagou por duas pessoas, mas é claro que não posso saber quem é a outra.

— E quem é a outra pessoa que pagou com autorização de débito?

— Não é tão interessante. É de Stavanger.

Harry pegou mesmo assim uma caneta e anotou o nome e o endereço da pessoa e também de Iska Peller em Sydney.

— Parece que está gostando da ferramenta de busca — comentou ele.

— Estou mesmo — respondeu ela. — É como pilotar um avião de caça antigo. Um pouco enferrujado e lento de início, mas depois de levantar voo… nossa. O que acha do resultado?

Harry pensou um pouco.

— O que fez — disse — foi colocar uma mulher desaparecida e uma mulher que presumidamente não tem nada a ver com o caso no mesmo lugar na mesma hora. Por si só, não há motivo para festejar. Mas você mostrou ser mais provável que uma das vítimas de assassinato, Charlotte Lolles, estava com ela. E você colocou duas das vítimas, Borgny Stem-Myhre e Marit Olsen, na proximidade imediata a Ustaoset. Portanto…

— Portanto…

— Meus parabéns. Você cumpriu sua parte do acordo. Quanto à minha…

— Poupe-se e tire esse sorriso do rosto. Eu não estava falando sério. Sou mentalmente instável, não sabia?

Ela desligou batendo o telefone.