O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 79 de 96

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O Leopardo

Capítulo 79

LIGAÇÕES PERDIDAS

 

Eram duas e quinze quando o helicóptero aterrissou em Fornebu, o aeroporto antigo de onde se demorava doze minutos de carro para se chegar ao centro. Quando Harry e Bjørn passaram pela porta da Kripos e Harry perguntou ao recepcionista por que nem Bellman nem os outros investigadores da equipe atendiam às ligações, ele ficou sabendo que todos estavam na mesma reunião.

— E por que não fomos chamados? — murmurou Harry, andando a passos largos pelo corredor, com Bjørn quase correndo atrás.

Ele empurrou a porta aberta sem bater. Sete cabeças se viraram para eles. A oitava, de Mikael Bellman, não precisou se virar, já que estava sentado na ponta da mesa comprida de frente para a porta, e era nele que todos estiveram focados.

— O Gordo e o Magro — disse Bellman, rindo, e Harry entendeu pelas risadas que haviam sido sujeitos a comentários. — Onde estiveram?

— Bem, enquanto vocês ficaram aqui brincando de Branca de Neve e os Sete Anões, estivemos na cabana de Tony Leike — rebateu Harry e deixou-se cair numa cadeira vazia na outra extremidade da mesa. — E temos novidades. Não foi Altman. Prendemos o homem errado. Foi Tony Leike.

Harry não sabia que reação esperar, mas certamente não era esta: nenhuma.

O superintendente inclinou-se para trás na cadeira com um sorriso amistoso e indagador.

— Nós prendemos o homem errado? Pelo que me lembro, foi o delegado Skai que achou por bem prender Sigurd Altman. E quanto ao valor da novidade, é bastante limitado. Em relação a Tony Leike, talvez devêssemos dizer “Bem-vindo de volta”.

O olhar de Harry pulou de Ærdal a Pelicano e voltou a Bellman, seu cérebro trabalhando. E chegou à única conclusão possível.

— Altman — disse Harry. — Altman contou que foi Leike. Ele sabia o tempo todo.

— Ele não só sabia — disse Bellman. — Assim como Leike foi o responsável pela avalanche na cabana de Håvass, Altman sem saber todos esses assassinatos. Skai prendeu um homem inocente, Harry.

— Inocente? — Harry balançou a cabeça. — Eu vi as fotos na fábrica Kadok, Bellman. Altman está envolvido, só não sei ainda de que maneira.

— Mas a gente sabe — retrucou Bellman. — Então, se você não se importa em deixar isso para nós... — Harry ouviu a palavra adultos se formar na boca de Bellman, mas o que saiu foi: — … que já estamos a par dos fatos, você pode entrar na conversa quando estiver mais atualizado, Harry. Ok? Bjørn também? Prosseguimos, então. Eu estava dizendo que não podemos excluir a hipótese de Tony Leike ter tido um cúmplice, alguém que executou pelo menos dois dos assassinatos, para quais Leike tem um álibi. Sabemos que quando Borgny e Charlotte foram mortas, ele estava em reuniões de negócios, com várias testemunhas presentes.

— Um safado esperto — disse Ærdal. — Naturalmente, Leike sabia que a polícia ia descobrir a conexão entre todos os assassinatos. De modo que, se ele tivesse um álibi de verdade para um ou dois deles, estaria automaticamente livre da suspeita dos outros.

— Correto — disse Bellman. — Mas quem seria o cúmplice?

Harry ouviu sugestões, comentários e perguntas voarem por cima da sua cabeça.

— O motivo para Tony Leike matar Adele Vetlesen não deve ter sido o valor da chantagem de 400 mil — concluiu Pelicano. — Mas sim o medo de que vazasse a informação de ele havia deixado uma mulher grávida, pois Lene Galtung certamente ia romper com ele, e ele ia ter que dizer adeus aos milhões do bolso de Galtung para seu projeto no Congo. Portanto, a pergunta que a gente deve se fazer é quem tinha os mesmos interesses que ele.

— Os outros investidores no Congo — gritou o detetive imberbe. — Que tal seus parceiros no escritório?

— Para Tony Leike, o projeto do Congo era do tipo vai ou racha — disse Bellman. — Mas nenhum dos outros sujeitos do mercado financeiro teria matado duas pessoas para garantir sua participação de dez por cento num projeto. Aqueles caras estão acostumados a ganhar e perder dinheiro. Além do mais, Leike teria que colaborar com alguém em quem podia confiar, tanto pessoal como profissionalmente. Devemos também lembrar que a arma no caso de Borgny e Charlotte foi a mesma. Como é que se chama, Harry?

— A maçã de Leopoldo — disse Harry numa voz monótona, ainda confuso.

— Mais alto, por favor.

— A maçã de Leopoldo.

— Obrigado. Da África. Onde Leike foi mercenário. Por isso, seria razoável presumir que ele usou um de seus colegas anteriores, e acho que devemos começar por aí.

— Se ele tivesse usado um mercenário no segundo e no terceiro assassinato, por que não em todos? — perguntou Pelicano. — Assim ele teria álibi o tempo todo.

— Teria ganhado um desconto por cabeça também — disse o bigode de Nansen. — De qualquer maneira, o mercenário não pode pegar nada mais do que prisão perpétua.

— Pode haver ângulos que a gente não consegue ver — continuou Bellman. — Motivos banais, como falta de tempo ou Leike não ter o dinheiro. Ou o motivo mais comum em casos criminais: simplesmente aconteceu assim.

Todos assentiram em volta da mesa, e até Pelicano parecia contente com a resposta.

— Outras perguntas? Não? Então gostaria de usar a ocasião para agradecer Harry Hole por nos auxiliar até aqui. Já que não precisamos mais da sua perícia, ele vai voltar à Divisão de Homicídios imediatamente. Foi interessante experimentar outra visão da investigação de homicídios, Harry. Pode não ter conseguido solucionar o caso desta vez, mas quem sabe? Se não assassinatos, pode haver crimes interessantes esperando por você lá embaixo, em Grønland. Novamente, agradeço. Agora tenho uma coletiva de imprensa, pessoal.

Harry olhou para Bellman. Ele não podia deixar de admirá-lo. Como se admira uma barata que se joga na privada e dá a descarga, mas que se arrasta para cima de novo. E de novo. E acaba por ganhar o mundo.

 

Ao lado da cama de Olav no Hospital Central, os segundos, minutos e horas passavam numa monotonia lenta e ondulante. Um enfermeiro veio e foi embora, Søs veio e foi embora. Imperceptivelmente, as flores se aproximavam.

Harry tinha visto como muitas pessoas próximas não suportavam a espera pelo último suspiro de seus entes mais queridos, como elas no final rezavam, pedindo para a morte chegar e libertá-los. Libertar a eles, os vivos. Mas para Harry era o contrário. Ele nunca havia se sentido mais próximo do pai do que naquele momento, ali, naquele quarto sem palavras, onde tudo era respiração e a próxima batida de coração. Porque ver Olav Hole assim foi como ver a si mesmo, na existência pacífica entre a vida e o nada.

Os investigadores da Kripos haviam visto e entendido muita coisa. Mas não a conexão óbvia. A conexão que deixava tudo às claras. A conexão entre a fazenda de Leike e Ustaoset. Entre os rumores do fantasma de um menino desaparecido da fazenda de Utmo e um homem que chamava o ermo da montanha de “seu território”. Entre Tony Leike e o menino da foto, junto com seu pai feio e sua bela mãe.

Vez ou outra, Harry dava uma olhada no celular e via uma ligação perdida. Hagen. Øystein. Kaja. Kaja de novo. Logo teria que responder às chamadas dela. Ligou para ela.

— Posso ir à sua casa esta noite? — perguntou ela.