O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 18 de 96

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O Leopardo

Capítulo 18

A PACIENTE

 

Para cada passo do policial alto, Kjersti Rødsmoen teve que dar dois. Mesmo assim, ela ficou para trás nos corredores no hospital de Sandviken. Uma tromba-d’água caía no outro lado das janelas altas e estreitas viradas para o fiorde, onde as árvores estavam tão verdes que parecia que a primavera tinha vindo antes do inverno.

No dia anterior, Kjersti Rødsmoen havia reconhecido a voz do policial de imediato. Como se estivesse esperando que ele ligasse. Para fazer exatamente o pedido que tinha feito: falar com a Paciente. A Paciente havia ganhado esse nome para manter o máximo de anonimato devido à tensão após o caso de homicídio investigado por ela havia quase um ano e que a mandou de volta aonde veio: a ala psiquiátrica. Certamente, ela havia se recuperado com rapidez impressionante e tinha voltado para sua casa, mas a imprensa — seguindo histericamente o caso do Boneco de Neve muito tempo depois que ele foi solucionado — não a deixava em paz. E uma noite uns três meses atrás, a Paciente havia ligado para Rødsmoen perguntando se podia voltar.

— Então ela está em boas condições? — perguntou o policial. — Tomando medicamentos?

— Sim para a primeira pergunta — respondeu Kjersti Rødsmoen. — A segunda é confidencial. — A verdade era que a Paciente estava tão bem que não precisava de medicação, nem ficar internada. Mesmo assim, Rødsmoen ficou em dúvida se deixaria ele visitar a Paciente; ele também esteve envolvido no caso do Boneco de Neve e podia trazer problemas antigos à tona. No seu tempo como psiquiatra, Kjersti Rødsmoen tinha acreditado cada vez mais em repressão, em fechar-se em si mesmo, em esquecimento. Era uma visão ultrapassada dentro da profissão. Por outro lado, um encontro com uma pessoa que esteve envolvida justamente naquele caso podia ser um bom teste para saber até que ponto a Paciente estava fortalecida.

— Você tem meia hora — disse Rødsmoen antes de abrir a porta para a sala comunitária. — E lembre-se que a mente é vulnerável.

Na última vez em que Harry tinha visto Katrine Bratt, ele não a havia reconhecido. A jovem mulher atraente, com cabelo escuro, pele clara e brilho nos olhos, tinha desaparecido, e no lugar estava uma pessoa que o lembrou uma flor murcha: sem vida, frágil e pálida. Ele teve a impressão de que quebraria sua mão se desse um aperto forte demais.

Por isso foi um alívio vê-la agora. Ela parecia mais velha, ou talvez estivesse apenas cansada. Mas o brilho nos olhos voltou ao sorrir e se levantar.

— Harry H — disse ela e o abraçou. — Como está?

— Médio para cima — respondeu Harry. — E você?

— Péssima — rebateu ela. — Mas muito melhor.

Ela riu, e Harry sabia que ela havia se recuperado. Ou que havia se recuperado o suficiente.

— O que houve com seu queixo? Está doendo?

— Só na hora de falar e comer — disse Harry. — E sempre que estou acordado.

— Parece familiar. Você está mais feio do que me lembro, mas fico feliz em te ver.

— Igualmente.

— Quer dizer igualmente, exceto pela parte em que estou mais feia?

Harry sorriu.

— Claro. — Ele olhou em volta. Os outros pacientes no recinto olhavam pela janela, para o colo, ou para a parede. Mas ninguém parecia interessado nele ou em Katrine.

Harry contou o que tinha acontecido desde que haviam se visto da última vez. Sobre Rakel e Oleg, que tinham se mudado para algum lugar incógnito no exterior. Sobre Hong Kong. Sobre a doença do pai. Sobre o caso que ele acabou de aceitar. Ela até riu quando ele disse que ela não podia contar a ninguém.

— E você? — perguntou Harry.

— Na verdade, eles me querem fora daqui, acham que já estou recuperada e que estou ocupando a vaga de outra pessoa. Mas gosto de ficar aqui. O serviço de quarto é péssimo, mas é seguro. Tenho TV e posso ir e vir quando quiser. Daqui a um mês ou dois talvez volte para casa, quem sabe.

— Quem sabe?

— Ninguém. A loucura vem e vai. O que você quer?

— O que você gostaria que eu quisesse?

Ela o olhou demoradamente antes de responder:

— Além de querer que você tenha uma vontade louca de transar comigo, quero que precise de mim.

— É exatamente isso.

— A vontade louca de transar comigo?

— Preciso de você.

— Merda. Mas tudo bem. De que se trata?

— Vocês tem um computador aqui com acesso à internet?

— Temos um computador comunitário na sala de recreação, mas não está conectado à internet, eles não iriam correr esse risco. Só é usado para jogar paciência. Mas eu tenho o meu próprio no quarto.

— Use o comunitário. — Harry enfiou a mão no bolso e passou o cartão SIM por cima da mesa. — Na loja chamaram isso de “escritório móvel”. É só conectar…

— … em uma das saídas de USB — disse Katrine, pegando o cartão e enfiando-o no bolso.

— Quem paga a assinatura?

— Eu. Quer dizer: Hagen.

— Eba, vou surfar hoje à noite. Alguns novos sites quentes de pornográfia que eu devia conhecer?

— Provavelmente. — Harry passou uma pasta sobre a mesa. — Aqui estão os relatórios. Três assassinatos, três nomes. Quero que faça o mesmo que fez no caso do Boneco de Neve. Descobrir as conexões que a gente não enxerga. Está por dentro do caso?

— Estou — disse Katrine Bratt sem olhar a pasta. — Eram mulheres. É esta a conexão.

— Está lendo os jornais…

— Só um pouco. Por que acha que sejam mais do que vítimas aleatórias?

— Não acho nada, procuro.

— Mas não sabe o que procura?

— Correto.

— Mas tem certeza de que o autor do crime de Marit Olsen é o mesmo das outras duas? O método de matar foi totalmente diferente, pelo que entendi.

Harry sorriu. Achou graça Katrine tentar esconder que ela havia lido o caso até os mínimos detalhes nos jornais.

— Não, Katrine, não tenho certeza. Mas estou ouvindo que você chegou à mesma conclusão que eu.

— Claro. Éramos almas gêmeas, lembra?

Ela riu e, de repente, era Katrine novamente e não o esqueleto daquela investigadora brilhante e excêntrica que ele mal teve tempo de conhecer antes de tudo ruir. Para sua própria surpresa, Harry sentiu um nó na garganta. Maldito fuso horário.

— Então, acha que pode me ajudar?

— A encontrar algo que a Kripos passou dois meses sem encontrar? Com um computador ultrapassado numa sala de recreação de um manicômio? Nem sei por que está me perguntando. Há pessoas na polícia muito mais preparadas do que eu quando o assunto é procurar dados.

— Eu sei, mas tenho algo que eles não têm. E que nem posso passar a eles: a senha para o underground.

Ela o fitou perplexa. Harry verificou que não havia ninguém por perto.

— Quando trabalhei no Serviço Secreto POT no caso da Garganta Vermelha, tive acesso à ferramenta de busca que o POT usava para rastrear terroristas. Eles usam portas de fundo secretas na internet como a MILNET, a rede militar americana, feita antes de eles passarem a rede para o uso comercial através da ARPANET nos anos 1980. Como você sabe, a ARPANET virou internet, mas as portas de fundo ainda estão lá. As ferramentas de busca usam cavalos de Troia para atualizar senhas, códigos e atualizações onde eles já conseguiram entrar. Reservas de voo, de hotéis, pedágios rodoviários, transferências bancárias eletrônicas. Essas ferramentas podem ver tudo.

— Já ouvi boatos sobre essas ferramentas de busca, mas não acreditei que existissem — disse Katrine.

— Mas existem. Foram montadas em 1984. O pesadelo orwelliano transformado em realidade. E o melhor de tudo, minha senha ainda está válida. Já chequei.

— Então, para quê precisa de mim? Você pode fazer isso sozinho, não?

— Apenas a POT pode usar o sistema e, como disse, só em caso de emergência. Como no Google, sua busca de dados pode ser rastreada até o usuário. Se for descoberto que eu ou outras pessoas na sede da Polícia entramos nas ferramentas de busca, podemos ser presos e condenados. Mas se a busca for rastreada até um computador comunitário num manicômio…

Katrine Bratt riu. A outra risada, a variante bruxa malvada.

— Estou começando a entender. Minha qualificação mais importante aqui não é como a genial investigadora Katrine Bratt, mas… — Ela abriu a mão: — ... como a paciente Katrine Bratt. Pois, devido à insanidade mental, ela não pode ser processada.

— Correto — disse Harry com um sorriso. — Além de ser uma das poucas pessoas em quem posso confiar e que não vai dar com a língua nos dentes. E mesmo que não seja genial, você é definitivamente mais esperta que a média dos investigadores.

— Três dedos machucados e manchados de nicotina no seu cuzinho.

— Ninguém pode saber o que estamos fazendo. Mas prometo que seremos Os irmãos cara de pau aqui.

— On a mission from God? — citou ela.

— Anotei a senha no verso do cartão SIM.

— E o que faz você pensar que vou conseguir usar aquelas ferramentas de busca?

— É praticamente como usar o Google, até eu captei isso quando estive no POT. — Ele mostrou um sorriso irônico. — Afinal, as ferramentas eram destinadas a policiais.

Ela soltou um suspiro profundo.

— Obrigado — disse Harry.

— Eu não disse nada.

— Quando você acha que vai ter algo para mostrar?

— Vai se foder! — Ela deu uma pancada na mesa com uma das mãos.

Harry viu uma enfermeira olhar na direção deles. Harry encarou o olhar selvagem de Katrine. Esperou.

— Não sei — sussurrou ela. — Não acho que eu deva ficar na sala de recreação usando ferramentas de busca ilegais em plena luz do dia, por assim dizer.

Harry se levantou.

— Ok. Vou entrar em contato daqui a três dias.

— Não se esqueceu de nada?

— Do quê?

— Dizer o que eu tenho a ganhar com isso?

— Bem — disse Harry e abotoou o casaco. — Agora sei o que você quer.

— O que eu quero… — A surpresa em seus olhos virou perplexidade quando a ficha caiu, e ela gritou atrás de Harry, que já estava a caminho da porta: — Seu descarado! Além do mais, é presunçoso!

Harry sentou-se no táxi, disse “aeroporto”, pegou o celular e viu que havia três ligações perdidas de um dos únicos dois números em sua lista de contatos. Ótimo, isso significava que eles tinham encontrado alguma coisa.

Ele ligou.

— Lyseren — disse Kaja. — Tinha um negócio de cordas lá que foi fechado há uns quinze anos. O delegado de Ytre Enebakk pode nos mostrar o lugar amanhã à tarde. Tinha uns dois criminosos notórios na área, mas só peixe pequeno; invasão de domicílio e roubo de carros. E um cara que cumpriu pena por espancar a mulher. Mas ele já nos mandou uma lista de homens, e vou conferir no nosso registro criminal agora mesmo.

— Ótimo. Me pega no aeroporto de Gardermoen a caminho de Lyseren.

— Não fica no caminho.

— Tem razão. Me pega mesmo assim.