O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 95 de 96

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O Leopardo

Capítulo 95

OS ALIADOS

 

Harry saiu do restaurante de dança que não era mais um restaurante de dança, desceu a colina para a escola de marinheiros que não era mais uma escola de marinheiros. Continuou até a casamata que havia defendido o país contra os invasores. Embaixo estavam o fiorde e a cidade, escondidos pela névoa. Carros se arrastavam com olhos de gatos amarelos. Um trem surgiu da névoa como um fantasma rangendo os dentes.

Um carro parou na sua frente, Harry entrou e se sentou no banco de passageiros. A voz de Katie Melua ressoou pelos alto-falantes com sua agonia melosa, e Harry procurou desesperadamente o botão para desligar o rádio.

— Jesus Cristo, que cara a tua! — disse Øystein, horrorizado. — Com certeza o cirurgião não passou no curso de costura. Mas pelo menos você vai poupar algum dinheiro com a máscara de Halloween. Não dá risada para não rachar de novo a cara.

— Prometo.

— Aliás — disse Øystein —, hoje é meu aniversário.

— Ih, merda. Parabéns. Toma um cigarro. De mim para você. De graça.

— É exatamente o que eu queria.

— Hum. Gostaria de algum presente maior?

— Como o quê?

— A paz mundial.

— O dia em que você acordar para a paz mundial, Harry, você não acorda. Porque aí já estaria detonado.

— Ok. Algum desejo em particular?

— Pouca coisa. Uma nova consciência, talvez.

— Nova consciência?

— A velha anda mal. Belo terno. Pensei que só tivesse aquele outro.

— É do meu pai.

— Jesus, você deve ter encolhido.

— É — disse Harry, endireitando a gravata. — Encolhi.

— Como é o restaurante de Ekeberg?

Harry fechou os olhos.

— Ótimo.

— Você se lembra daquela barraca gotejante onde a gente entrou de penetra aquela vez? Quantos anos a gente tinha? Dezesseis?

— Dezessete.

— Você não dançou com aquela Killer Queen uma vez?

— Um pouco.

— É assustador pensar que a MILF da sua juventude já está no asilo.

— MILF?

Øystein deu um suspiro.

— Procure na internet.

— Hum. Øystein?

— Sim.

— Por que eu e você ficamos amigos?

— Porque a gente cresceu junto, suponho.

— Só por isso? Um acaso geográfico. Nenhum companheirismo espiritual?

— Não que eu tenha notado. Pelo que saiba, a gente sempre teve só uma coisa em comum.

— E o que é?

— Ninguém mais queria ser amigo da gente.

Eles serpenteavam pelas curvas seguintes em silêncio.

— A não ser Tresko — disse Harry.

Øystein fungou.

— Que fedia tanto a chulé que ninguém aguentava sentar ao lado dele.

— Verdade — comentou Harry. — A gente era bom naquilo.

— A gente conseguiu — disse Øystein — Mas, Jesus, como fedia.

Riram juntos. Leves, alegres. Tristes.

 

Øystein havia estacionado no gramado marrom deixando as portas abertas. Harry subiu até o topo do bunker e se sentou na beirada, balançando os pés. Dos alto-falantes do carro, Bruce Springsteen cantava sobre irmãos de sangue numa noite de tempestade e a promessa que precisava ser cumprida.

Øystein passou a garrafa de Jim Beam a Harry. Uma sirene solitária da cidade subiu e desceu até perder a força e morrer. O veneno ardia na garganta e no estômago de Harry, e ele vomitou. O segundo gole foi melhor. O terceiro foi ótimo.

Max Weinberg parecia que estava tentando destruir a pele do tambor.

— Sempre me passa pela cabeça que eu devia querer ter mais arrependimentos — disse Øystein. — Mas não dou a mínima. Acho que eu simplesmente aceitei desde o primeiro momento que eu era um bundão. E você?

Harry pensou.

— Tenho arrependimentos aos montes. Mas talvez seja por eu me achar o máximo. De fato, acho que eu podia ter feito outras escolhas.

— Mas não podia, cara.

— Naqueles tempos, não. Mas na próxima vez, Øystein. Na próxima vez.

— Isso já aconteceu, Harry? Alguma vez na maldita história da humanidade?

— Só porque alguma coisa não aconteceu, não quer dizer que não possa acontecer no futuro. Eu não sei se essa garrafa vai cair se eu a soltar. Merda, que filósofo era aquele? Hobbes? Hume? Heidegger? Um daqueles malucos começando com H.

— Me responda.

Harry deu de ombros.

— Acho que podemos aprender. O problema é que a gente aprende tão devagar, então, quando você já sacou alguma coisa, é tarde demais. Por exemplo, alguém que você ama pode pedir um favor a você, um ato de amor. Como ajudá-lo a morrer. Ao que você diz não, porque você ainda não aprendeu, você ainda não tem a compreensão daquilo. E quando finalmente vê a luz, é tarde demais. — Harry tomou outro gole. — Então, em vez disso, você realiza esse ato de amor para outra pessoa. Talvez para alguém que você odeie, até.

Øystein aceitou a garrafa.

— Não faço ideia do que está falando, mas parece complicado demais.

— Não necessariamente. Nunca é tarde demais para uma boa ação, não é?

— É sempre tarde demais, não é o que quer dizer?

— Não! Sempre achei que a gente tem ódio demais para conseguir obedecer a outros impulsos. Mas meu pai tinha outra opinião. Ele dizia que amor e ódio são duas faces da mesma moeda. Tudo começa com amor, e o ódio é o viés da moeda.

— Amém.

— Mas isso deve significar que você pode fazer o caminho inverso, ir de ódio a amor. O ódio deve ser um bom ponto de começo para aprender, para mudar, para fazer coisas de modo diferente da próxima vez.

— Agora está tão otimista que estou quase vomitando, Harry.

O órgão veio no refrão, queixoso, cortante como uma serra circular.

Øystein inclinou a cabeça de lado, batendo as cinzas. E Harry quase ficou com vontade de chorar. Simplesmente porque viu os anos que haviam se tornado suas vidas, que haviam se tornado eles mesmos, do modo que seu amigo batia as cinzas como sempre havia feito, inclinando-se de lado como se o cigarro fosse pesado demais, sua cabeça inclinada como se ele gostasse mais do mundo na perspectiva oblíqua, as cinzas no chão do abrigo dos fumantes na escola, para dentro de uma garrafa de cerveja vazia numa festa na qual havia entrado por acaso, no chão de cimento frio e úmido da casamata.

— De qualquer maneira, você está começando a ficar velho, Harry.

— Por que diz isso?

— Quando homens começam a citar seus pais, estão velhos. Aí não há mais volta.

E então, Harry achou. A resposta para a pergunta dela sobre o que ele mais queria no momento. Ele queria um coração blindado.