O Leopardo
Capítulo 41
M ANDADO DE PRISÃO
– Então — disse Aslak Krongli girando a xícara de café na mão. Kaja pensou que parecia um copo para ovos na mão grande dele. Ela estava sentada à sua frente na mesa perto da janela. A cantina da polícia ficava no último andar e era do típico design norueguês, isto é, grande, iluminada e limpa, mas não aconchegante o suficiente para que o pessoal ficasse tentado a permanecer mais tempo do que o necessário. O melhor do lugar era a vista da cidade, mas não parecia despertar o interesse de Krongli.
— Eu verifiquei o livro de hóspedes nas outras cabanas de autoatendimento na área — continuou ele. — As únicas pessoas que escreveram no livro que iam passar a noite em questão na cabana de Håvass foram Charlotte Lolles e Iska Peller, que estavam na cabana de Tunvegg na noite anterior.
— E já sabemos delas — disse Kaja.
— Sim. Então, de fato, só tenho duas coisas que talvez possam ter algum interesse para você.
— E são?
— Conversei por telefone com um casal idoso que esteve na cabana de Tunvegg na mesma noite que Lolles e Peller. Disseram que, à noite, apareceu um homem lá, que comeu um pouco, trocou de camisa e continuou em direção sudoeste. No escuro mesmo. E a única cabana naquela direção é a de Håvass.
— E essa pessoa…?
— Elas mal o viram. Parecia que não queria ser visto, ele não tirou a balaclava ou os óculos de esqui antiquados, nem mesmo quando trocou de camisa. A esposa disse ter pensado que ele devia ter se machucado feio no passado.
— Por quê?
— Ela só lembrou que teve esse pensamento, não o motivo. De qualquer maneira, ele pode ter mudado de direção depois de sumir de vista, e ido para outra cabana.
— Claro — disse Kaja e olhou para o relógio.
— Aliás, já receberam alguma notícia em relação ao pedido de se apresentar à polícia?
— Não — respondeu Kaja.
— Esse seu “não” parece querer dizer sim.
Kaja lançou um rápido olhar a Aslak Krongli, que reagiu levantando as mãos.
— Caipira burro na cidade grande! Desculpe, não quis dizer nada com isso.
— Sem problema — disse Kaja.
Os dois olharam para suas xícaras de café.
— Você disse que havia duas coisas que poderiam me interessar — disse Kaja. — Qual é a segunda?
— Sei que vou me arrepender por dizer isso — afirmou Krongli. O riso quieto estava de novo no seu olhar.
Kaja entendeu no mesmo instante aonde estava querendo chegar e sabia que ele tinha razão: ele ia se arrepender.
— Estou no hotel Plaza esta noite e queria saber se gostaria de jantar lá comigo hoje.
Ela podia ver no rosto dele que foi fácil interpretar a reação dela.
— Não conheço mais ninguém nessa cidade — comentou ele e fez uma careta com a boca que talvez fosse um sorriso desarmador. — Além da ex, mas não tenho coragem de ligar para ela.
— Teria sido muito legal… — começou Kaja e fez uma pausa. Futuro do pretérito. Ela viu que Aslak Krongli já estava arrependido. — Mas infelizmente já tenho compromisso para hoje.
— Tudo bem, foi muito em cima da hora. — Krongli sorriu e enfiou os dedos no cabelo encaracolado. — Que tal amanhã?
— Eu… eh, estou muito ocupada esses dias, Aslak.
Krongli fez que sim, mais para si mesmo.
— Claro. Claro que está ocupada. O cara que estava na sua sala quando cheguei talvez seja o motivo?
— Não, tenho outros chefes agora.
— Não era em chefes que eu estava pensando.
— Não?
— Você disse que estava apaixonada por um policial. E pelo visto, ele não teve dificuldades em te convencer. Não tanto quanto eu, pelo menos.
— Não, não, está louco, não foi ele! Eu… bem, acho que bebi um pouco demais naquela noite. — Kaja ouviu a própria risada tola e sentiu o sangue subir pelo pescoço.
— Bem — continuou Krongli e tomou o resto do café. — Devo sair para a cidade grande e gelada. Deve ter museus para ver e bares para visitar.
— É, você deve aproveitar a oportunidade.
Ele ergueu uma sobrancelha e seu olhar dançou. Igual ao olhar de Even no final.
Kaja desceu com ele. Quando ele apertou sua mão, ela falou de improviso:
— Me ligue se ficar muito só, vou ver se posso dar uma escapada.
Ela interpretou seu sorriso como agradecimento por ela lhe dar a oportunidade de recusar uma oferta ou pelo menos decidir por conta própria se procuraria ela.
Quando Kaja entrou no elevador de novo, ela pensou no que ele tinha dito: “não teve dificuldade em te convencer”. Quanto tempo será que Krongli havia ficado no vão da porta ouvindo a conversa deles?
À uma hora da tarde, o telefone na frente de Kaja tocou.
Era Harry.
— Então, consegui o mandado. Pronta?
Ela sentiu o coração disparar.
— Estou.
— Colete?
— Colete e arma.
— A Delta vai cuidar das armas. Estão prontos num carro na frente da garagem, é só descer. E traz o mandado que está no meu escaninho?
— Ok.
Dez minutos depois estavam numa van azul de doze lugares da Unidade Especial Delta, indo para o oeste, passando pelo centro de Oslo. Kaja ouviu Harry explicar que ele, meia hora antes, havia ligado para o prédio comercial onde Leike alugava uma sala. Disseram que ele estava trabalhando em casa hoje. Harry havia ligado para o telefone fixo em Holmenveien e assim que Leike tinha atendido, Harry desligara. Harry tinha especialmente requisitado Milano para chefiar a operação, um homem moreno e forte com sobrancelhas enormes, mas que apesar do nome não tinha um pingo de sangue italiano nas veias.
Passaram pelo túnel Ibsen, e retângulos de luz refletida passaram sobre os capacetes e visores dos oito policiais que pareciam estar em meditação profunda.
Kaja e Harry encontravam-se nos assentos de trás. Harry vestia uma jaqueta com POLÍCIA escrito em maiúsculas amarelas na frente e nas costas e verificava se possuía cartuchos em todas as câmaras do revólver.
— Oito homens da Delta e um liquidificador — comentou Kaja, referindo-se à luz azul girando no teto do carro. — Tem certeza de que não está pegando pesado demais?
— É para pegar pesado — disse Harry. — Para conseguirmos a atenção quanto a quem de fato tomou a iniciativa dessa prisão, precisamos de efeitos especiais mais contundentes do que os de praxe.
— Vazou para a imprensa?
Harry olhou para ela.
— Se quiser atenção, quis dizer — rebateu ela. — Imagine Leike, a celebridade, ser preso pelo assassinato de Marit Olsen. Eles deixariam um nascimento de princesa de lado por isso.
— E se a noiva dele estiver lá? — disse Harry. — Ou a mãe? Também vão estar nos jornais e na TV ao vivo? — Ele deu uma girada rápida no revólver, e o cilindro fechou com um clique.
— Então, para quê os efeitos especiais?
— A imprensa vem depois — explicou Harry. — Vão questionar os vizinhos, os transeuntes, a gente. Vão ficar sabendo que foi um grande show. Para mim, basta. Nenhuma pessoa inocente envolvida, e a primeira página é nossa.
Ela o olhou de soslaio quando as sombras do túnel seguinte passaram por cima deles. Cruzaram Majorstuen e subiram a rua Slemdal, passando por Vinderen, e ela o observou olhando para fora pela janela, na parada do bonde, com uma expressão de preocupação no rosto. Teve vontade de pôr sua mão por cima da dele, dizer algo, qualquer coisa, que pudesse fazer aquela expressão sumir. Ela olhou a mão dele. Segurava o revólver, apertando-o com força, como se fosse tudo o que tinha. Não podia continuar assim; algo iria arrebentar. Já havia arrebentado.
Subiram cada vez mais, deixando a cidade abaixo deles. Passaram sobre os trilhos do bonde, e daí luzes piscaram atrás deles e a cancela foi baixada.
Estavam na Holmenveien.
— Quem vem comigo até a porta, Milano? — gritou Harry para o policial no assento de passageiro na frente.
— Delta três e Delta quatro — gritou Milano ao se virar e apontar para um homem com um grande número 3 escrito com giz no peito e nas costas do seu uniforme de combate.
— Ok — disse Harry. — E os outros?
— Dois homens em cada lado da casa. Procedimento Dyke 1-4-5.
Kaja sabia que era um código para a formação. Tinha sido emprestada do futebol americano, e o propósito era comunicar rapidamente sem que mais ninguém entendesse, caso alguém conseguisse interceptar a radiofrequência usada pela Delta. Pararam algumas casas antes da de Leike. Seis homens checaram suas MP-5 e saltaram. Kaja os viu avançarem pelo grande jardim do vizinho, o gramado queimado e seco, macieiras desnudas e altas cercas vivas das quais tanto gostavam ali na zona oeste, a parte mais rica da cidade. Kaja olhou o relógio. Já haviam se passado quarenta segundos quando zuniu no rádio de Milano:
— Todos a postos.
O motorista soltou a embreagem, e eles seguiram devagar até a casa.
A mansão relativamente nova de Leike era amarela, de um só andar, imponente e grande, mas o endereço era mais ostensivo do que a arquitetura, que estava em algum lugar entre funcional e uma caixa de madeira, pelo menos na opinião de Kaja.
Pararam na frente de duas portas de garagem no fim de uma rua de cascalho que levava à porta de entrada. Alguns anos antes, durante um sequestro dramático na província de Vestfold, em que a Delta havia cercado uma casa, os sequestradores haviam escapado entrando na garagem por um corredor ligado à casa, dar a partida no carro do proprietário e saindo tranquilamente, para a surpresa de policiais armados com o queixo caído.
— Fique atrás e me siga — disse Harry a Kaja. — A próxima vez será sua.
Desceram da van, e Harry foi imediatamente em direção à casa com os outros dois policiais um passo atrás e para o lado, numa formação triangular. Kaja ouviu pela voz de Harry que o batimento dele estava acelerado. Também viu pela linguagem corporal, na tensão da nuca, pelo modo extremamente lento com que se movimentava.
Subiram a escada. Harry tocou a campainha. Os dois policiais tomaram posição em cada lado da porta com as costas à parede.
Kaja contou. Harry tinha dito a ela no carro que no FBI a instrução era de tocar a campainha ou bater, gritar “polícia!” e “favor abrir!”, repetir uma vez e esperar dez segundos antes de entrar. A polícia norueguesa não possuía nenhuma instrução tão específica, mas isso não queria dizer que não houvesse regras.
Esta manhã na Holmenveien, porém, nenhuma regra foi aplicada.
A porta foi aberta de um golpe só, e Kaja deu automaticamente um passo para trás quando viu o gorro rastafári no vão da porta, depois viu o ombro de Harry se mexer e ouviu o som de um punho socando a carne.