O Leopardo
Capítulo 60
DUENDES E ANÕES
Roger Gjendem correu pela rua Karl Johans, onde as lojas começavam a abrir. Na praça Egertorget, olhou para cima e viu os ponteiros do relógio vermelho da loja de chocolates Freia marcarem três para as dez. Ele apertou o passo.
Tinha sido chamado às pressas por Bent Nordbø, o então aposentado e, em todos os sentidos, lendário redator-chefe do jornal, que agora também era devoto membro do conselho administrativo.
Gjendem virou à direita, seguindo pela Akersgata, onde todos os grandes jornais se aglomeraram nos tempos em que a versão em papel era absoluta no mundo jornalístico. Virou à esquerda em direção aos tribunais de justiça, então de novo à direita em Apotekergata e entrou ofegante no Stopp Pressen. Aparentemente, não tinham conseguido decidir se o lugar deveria ser um bar esportivo ou um pub inglês tradicional. Talvez as duas coisas, visto que o objetivo era fazer todo tipo de jornalista se sentir em casa. Nas paredes havia fotos da imprensa mostrando o que emocionava, agitara, alegrara e chocara a nação ao longo dos últimos vinte anos. A maioria referia-se a eventos esportivos, celebridades e catástrofes naturais. Além de certos políticos que se encaixavam nas duas últimas categorias.
Como se podia ir a pé dos dois jornais remanescentes em Akersgata — Verdens Gang e Dagbladet —, o bar Stopp Pressen funcionava como uma extensão de seus refeitórios, mas no momento só havia duas pessoas no interior: o barman atrás do balcão e um homem sentado à mesa do fundo, embaixo de uma estante com livros clássicos publicados pela editora Gyldendal e um rádio velho, evidentemente para dar ao lugar certo toque de classe.
O homem embaixo da estante era Bent Nordbø. Ele tinha a pinta arrogante do ator John Gielgud, óculos enormes como os do ex-primeiro-ministro britânico John Major e suspensórios como os do apresentador Larry King. E lia um verdadeiro jornal em papel. Roger já havia ouvido dizer que Nordbø só lia The New York Times, The Financial Times, The Guardian, China Daily, Süddeutsche Zeitung, El País e Le Monde, e o fazia todo dia. Ele podia até inventar de folhear o Pravda e o esloveno Dnevnik, mas alegava que “as línguas do Leste Europeu eram pesadas demais para os olhos”.
Gjendem parou em frente à mesa e pigarreou. Bent Nordbø terminou de ler as últimas linhas do artigo sobre áreas previamente condenadas do Bronx que se revitalizavam com a chegada de imigrantes mexicanos, e lançou um breve olhar na página para se assegurar de que não havia outra coisa ali que lhe interessava. Então, tirou os óculos enormes, puxou o lenço do bolso no peito do casaco de tweed e ergueu os olhos para o homem nervoso, ainda ofegante, diante da mesa.
— Roger Gjendem, suponho.
— Correto.
Nordbø dobrou o jornal. Gjendem também tinha ouvido dizer que, quando o homem o reabrisse, era certo que a conversa terminara. Nordbø inclinou um pouco a cabeça e iniciou, não sem considerável importância, a tarefa de limpar as lentes dos óculos.
— Você trabalha há muitos anos em casos criminalísticos e conhece bem o pessoal da Kripos e da Divisão de Homicídios, correto?
— É… correto.
— Mikael Bellman. O que sabe sobre ele?
Harry semicerrou os olhos contra o sol que inundava o quarto. Tinha acabado de acordar, aproveitando os primeiros segundos para se livrar dos sonhos e reconstruir a realidade.
Eles escutaram seus tiros.
E descobriram o bastão no primeiro empurrão da pá.
Depois haviam contado que o mais assustador foi levar tiros enquanto cavavam para chegar à chaminé.
A cabeça de Harry doía como se ele estivesse sem beber fazia uma semana. Pôs os pés para fora da cama e deu uma olhada no quarto do hotel de Ustaoset o instalaram.
Kaja e Kolkka tinham sido levados de helicóptero para o Hospital Central em Oslo. Harry havia se negado a acompanhá-los. Só depois de mentir, dizendo que teve bastante ar o tempo inteiro e se sentia muito bem, que o deixaram ficar.
Harry enfiou a cabeça embaixo da torneira do banheiro e bebeu. “Água nunca é tão ruim e muitas vezes é até bom.” Quem costumava dizer aquilo? Rakel, quando ela queria que Oleg bebesse um copo inteiro na hora do jantar. Ele ligou o celular que esteve desligado desde sua ida até a cabana de Håvass. Havia cobertura em Ustaoset, informava a tela. Que também mostrou uma mensagem à espera. Ele a ouviu, mas era apenas um segundo de alguém pigarreando ou rindo antes que a conexão fosse cortada. Um número de celular — podia ser de qualquer pessoa. Ele parecia vagamente familiar, mas com certeza não era do Hospital Central. Quem quer que fosse, ligaria novamente se fosse importante.
Na sala do café da manhã, Mikael Bellman estava sentado em solidão majestosa, com uma xícara de café à sua frente. E jornais dobrados, já lidos. Harry não precisou folheá-los para saber que traziam mais do mesmo. Mais sobre o Caso, mais sobre a ineficácia da polícia, mais pressão. Porém a edição de hoje dificilmente tivera tempo para incluir a morte de Jussi Kolkka.
— Kaja está bem — comentou Bellman.
— Hum. Onde estão os outros?
— Pegaram o trem de manhã para Oslo.
— Mas você não.
— Queria esperar você. O que acha?
— Do quê?
— Da avalanche. Era algo que podia acontecer assim do nada?
— Não faço ideia.
— Não? Você ouviu o estrondo pouco antes da avalanche começar?
— Pode ter sido o amontoado de neve no topo que caiu na encosta da montanha. Que, por sua vez, impeliu a avalanche.
— Era isso que parecia, pelo que você ouviu?
— Não sei como deve ser o som disso. Mas ruídos desse tipo podem causar avalanches, com certeza.
Bellman balançou a cabeça
— Até alpinistas experientes acreditam naquele mito de que ondas sonoras podem provocar uma avalanche. Escalei os Alpes com um perito em avalanches e ele me disse que as pessoas lá embaixo ainda acreditam que as avalanches ocorridas por lá durante a Segunda Guerra Mundial foram provocadas por explosões de canhões. A verdade é que uma avalanche só é impelida se a neve for atingida diretamente.
— Hum. E?
— Sabe o que é isso? — Bellman segurava um pedacinho de metal brilhante entre o polegar e o indicador.
— Não — respondeu Harry, sinalizando para o garçom que retirava o bufê do café da manhã que ele queria uma xícara de café.
Bellman cantarolou o verso de Wergeland, “Duendes e anões”, sobre construir nas montanhas e explodir os rochedos.
— Passo.
— Você está me desapontando, Harry. Mas, ok, talvez eu tenha uma vantagem sobre você. Cresci nos anos 1970 em Manglerud, uma cidade suburbana em expansão. Cavavam lotes em torno da gente por todo lado. A trilha sonora da minha infância foi o som de cargas de dinamite explodindo. Depois que os trabalhadores voltavam para casa, eu andava por lá procurando pedaços de cabos com plástico vermelho e pedacinhos de papel das bananas de dinamite. Kaja me contou que o pessoal tem uma maneira especial de pescar aqui em cima. Bananas de dinamite são mais comuns que bebida ilegal. Não me diga que a ideia não passou pela sua cabeça.
— Ok — disse Harry. — É um pedaço de um detonador. Quando e onde o achou?
— Depois que vocês foram retirados ontem à noite. Eu e dois integrantes da equipe fizemos uma busca onde a avalanche começou.
— Alguma pista? — Harry recebeu a xícara de café do garçom e agradeceu.
— Não. É tão exposto lá no topo que o vento havia varrido qualquer trilha de esqui que poderia existir. Mas Kaja disse que talvez tivesse ouvido uma motoneve.
— Dificilmente. E passou bastante tempo entre ela ter ouvido aquilo e a avalanche começar. Ele pode ter estacionado a motoneve antes de se aproximar para a gente não ouvir.
— Pensei a mesma coisa.
— E agora? — Harry tomou um gole do café.
— Procurar pistas de motoneve.
— O delegado local…
— Ninguém sabe onde ele está. Mas arrumei uma motoneve, um mapa, uma corda de escalar, um machado para gelo e comida. Então, não fique tranquilão aí com o seu café... A previsão é de mais neve essa tarde.
Para chegar ao topo da área da avalanche, o diretor do hotel dinamarquês havia explicado que teriam que dar uma longa volta a oeste da cabana de Håvass, mas não muito a noroeste, para não entrar na área chamada Kjeften. Recebera o nome, que significava “bocão”, devido aos blocos de pedra em forma de presas espalhados pela área. Repentinas fendas e precipícios foram encravados na planície, tornando-o um lugar extremamente perigoso de rondar em tempo ruim para quem não o conhecia bem.
Era quase meio-dia quando Harry e Bellman olharam a encosta lá embaixo, onde podiam vislumbrar a escavação da chaminé no fundo do vale.
As nuvens já se aproximavam, seguindo do oeste. Harry olhou para noroeste com olhos semicerrados. Sem sol, as sombras e os contornos não podiam ser vistos.
— Deve ter vindo de lá — indicou Harry. — Senão, a gente teria ouvido.
— Kjeften — emendou Bellman.
Duas horas mais tarde, após cruzarem a paisagem de neve de sul a norte em passos de caranguejo sem encontrar nenhuma pista de motoneve, pararam para comer. Sentaram lado a lado, bebendo da garrafa térmica que Bellman havia trazido. Caía um pouco de neve.
— Uma vez encontrei uma banana de dinamite que não havia sido detonada na área de construção em Manglerud — contou Bellman. — Eu tinha 15 anos. Em Manglerud, havia três coisas para os jovens fazerem: praticar esportes, estudar a Bíblia ou puxar fumo. Eu não tinha interesse em nenhuma dessas coisas. E menos ainda em ficar sentado no banco em frente aos correios à espera que a vida me levasse do haxixe à heroína, passando por cheirar cola, até a cova. Como aconteceu com quatro dos meus colegas de turma.
Harry notou que o dialeto de Manglerud tinha se misturado ao sotaque de Bellman.
— Eu detestava tudo aquilo — disse Bellman. — Então, meu primeiro passo para a profissão de policial foi levar a banana de dinamite para atrás da igreja de Manglerud, onde os drogados de haxixe tinham seu bong subterrâneo.
— Bong subterrâneo?
— Eles cavaram um buraco no chão onde enfiaram uma garrafa de cerveja quebrada, de ponta-cabeça, com uma grade dentro, onde o haxixe fumegava e fedia. Eles tinham enterrado mangueiras que vinham do buraco, despontando do chão a meio metro dali. Ficavam deitados na grama em volta do bong, cada um sugando seu canudo de plástico. Não sei por que…
— Para esfriar a fumaça — explicou Harry sorrindo. — Mais efeito com menos droga. Maconheiros espertos, aqueles. Devo ter subestimado Manglerud.
— De qualquer maneira, tirei um dos tubos de plástico e enfiei a dinamite no lugar.
— Você explodiu o bong subterrâneo?
Bellman fez que sim e Harry riu.
— Choveu terra por meio minuto. — Bellman sorriu.
Ficaram em silêncio. O vento uivava baixinho e rouco.
— Na verdade, gostaria de te agradecer — disse Bellman e olhou para o próprio copo. — Por ter tirado Kaja a tempo.
Harry deu de ombros. Kaja. Bellman sabia que Harry sabia dos dois. Como? E isso queria dizer que Bellman também sabia sobre Kaja e ele?
— Eu não tinha mais nada para fazer lá embaixo — disse Harry.
— Tinha sim. Vi o corpo de Jussi antes de o levarem de avião.
Harry não respondeu, apenas olhou os flocos de neve que caíam com mais força.
— O corpo tinha uma ferida no pescoço. E nas palmas das mãos. Pareciam marcas de um bastão de esqui. Você o encontrou primeiro, não foi?
— Talvez — respondeu Harry.
— A ferida no pescoço tinha sangue fresco. O coração devia estar batendo quando foi ferido, Harry. E foi com muita força. Devia ter sido possível cavar e retirar o homem a tempo. Mas você deu prioridade a Kaja, não foi?
— Bem, acho que Kolkka tinha razão. — Ele despejou o resto do café na neve. — É preciso escolher de que lado ficar.
Às três encontraram as marcas deixadas pela motoneve, a 1 quilômetro do local da avalanche, entre duas rochas em forma de presas, onde o vento não chegava.
— Parece que ele deu uma parada aqui — refletiu Harry, apontando para as marcas deixadas pela banda de rodagem da esteira. — A motoneve teve tempo de afundar na neve.
Ele passou o dedo ao longo do rastro do esqui esquerdo enquanto Bellman varria a neve suave e seca ao redor da pegada.
— É isso mesmo — emendou ele, apontando. — Virou aqui e continuou em direção a noroeste.
— Estamos chegando mais perto dos precipícios, e a neve está ficando mais densa — comentou Harry, olhando para o céu e tirando o celular. — Temos que ligar para o hotel e pedir para enviar um guia numa motoneve. Droga!
— O quê?
— Estamos sem cobertura. Vamos ter que achar o caminho de volta para o hotel por conta própria.
Harry olhou para a tela. Ainda mostrava a ligação perdida daquele número vagamente familiar que tinha deixado aqueles sons na caixa postal. Os três últimos dígitos — onde foi que os havia visto?
E de repente lembrou. Memória de investigador. O número estava na pasta de “Ex-suspeitos”, impresso num cartão de visita.
Com o nome de “Tony C. Leike, Empreendedor”. Harry ergueu o olhar devagar e encarou Bellman.
— Leike está vivo.
— O quê?
— Pelo menos o telefone dele está. Leike tentou me ligar quando estávamos na cabana de Håvass.
Bellman devolveu o olhar de Harry sem piscar. Flocos de neve pousaram em seus longos cílios e as manchas brancas pareciam reluzir. Sua voz estava baixa, quase um sussurro:
— A visibilidade está ótima, não acha, Harry? E sequer um floco de neve no ar.
— Visibilidade excelente — concordou Harry. — E nem um maldito floco de neve.
E montou depressa de volta na motoneve.
Eles avançavam aos trancos e barrancos pela paisagem de neve, 100 metros por vez. Localizaram a rota provável da motoneve, varreram as marcas que deixavam com uma vassourinha, orientaram-se e continuaram em frente. Uma depressão na marca esquerda, provavelmente devido a um acidente, fez com que tivessem certeza de que seguiam a pista certa. Em alguns lugares, em pequenos declives ou em colinas varridas pelo vento, a marca estava visível e eles podiam avançar depressa. Mas não rápido demais, Harry havia tido que gritar duas vezes para alertar sobre precipícios e passaram perigosamente perto algumas vezes. Já eram quase quatro horas. Bellman ligava e desligava o farol da motoneve de acordo com a quantidade de neve caindo. Harry olhou o mapa. Não sabia exatamente onde estavam, apenas que se afastavam cada vez mais de Ustaoset. E que a luz do dia logo ia sumir. Um terço de Harry já começava a se preocupar com a volta. O que queria dizer que os dois terços majoritários não estavam nem aí.
Às quatro e meia perderam a pista.
A neve era tão densa que mal podiam ver um palmo à frente.
— Isso é loucura — gritou Harry sobre o rugido do motor. — Por que a gente não espera até amanhã?
Bellman se virou para ele e respondeu com um sorriso.
Às cinco reencontraram a marca.
Pararam e desceram da motoneve.
— Está indo naquela direção — avisou Bellman e voltou à motoneve. — Venha!
— Espere.
— Por quê? Vamos, já vai escurecer.
— Quando você gritou agora, não ouviu o eco?
— Já que você diz. — Bellman parou. — Despenhadeiro?
— Não há despenhadeiros no mapa — disse Harry e se virou para a mesma direção das marcas. — Desfiladeiro! — gritou. E obteve resposta. E bem rápida. Ele se virou de novo para Bellman.
— Acho que a motoneve que fez essas pegadas está bem ferrada.
— O que sei sobre Bellman? — repetiu Roger Gjendem para ganhar tempo. — Dizem que ele é muito competente e extremamente profissional. — O que exatamente o lendário redator Nordbø queria saber? — Ele sabe tudo, faz tudo direitinho — continuou Gjendem. — Aprende rápido, já sabe como lidar com o pessoal da imprensa. Um fenômeno. Bem, se é que você entende…
— A expressão é familiar — disse Bent Nordbø com um sorriso ácido, enquanto o polegar e o indicador direito esfregavam sem parar a lente com o lenço. — Mas na verdade estou mais interessado em saber se há alguma fofoca.
— Fofoca? — perguntou Gjendem, sem perceber que caiu no hábito antigo de deixar a boca aberta depois de falar.
— Espero que conheça o conceito, Gjendem. Já que é disso que você e seu empregador se sustentam. Então?
Gjendem hesitou
— Há fofocas e fofocas.
Nordbø revirou os olhos.
— Especulações. Invenções. Mentiras descaradas. Não estou preocupado com as delicadezas, Gjendem. Revire o saco de fofoca, bota para fora o que for ruim.
— Coi… coisas negativas, então?
Nordbø suspirou profundamente.
— Meu querido Gjendem. Quando você ouve fofocas sobre a sobriedade das pessoas, a generosidade financeira, a lealdade ao cônjuge e o estilo de liderança saudável? Será que é assim porque a função da fofoca é de nos alegrar por nos colocar numa posição melhor? — Nordbø terminou uma lente e começou a esfregar a outra.
— Há uma fofoca bastante duvidosa — comentou Gjendem e emendou depressa: — E conheço outras pessoas entre as quais circula a mesma conversa, e sei com certeza que definitivamente não é verdade.
— Como ex-redator-chefe, recomendo veementemente que elimine “com certeza” ou “definitivamente”; é uma tautologia — disse Nordbø. — Definitivamente não é o quê?
— É. Ciumento.
— Não somos todos ciumentos?
— Violentamente ciumento.
— Ele espancou a mulher?
— Não, não acho que tenha posto a mão nela. Ou que teve motivos para tanto. Mas aqueles que olharam duas vezes para ela…