O Leopardo
Capítulo 14
RECRUTAMENTO
Bjørn Holm entrou na sala de reuniões da Perícia Técnica em Bryn. Lá fora, o sol despedindo-se das fachadas, entregando a cidade à escuridão da tarde. O estacionamento estava lotado, e na frente da entrada da Kripos, no outro lado da rua, havia uma minivan branca com uma antena no teto e o logo NRK da Rádio Nacional da Noruega na lateral.
A única pessoa na sala era sua chefe, Beate Lønn, uma mulher excepcionalmente pálida, miúda e quieta. Pessoas mal-informadas podiam achar que uma mulher como ela teria problemas em chefiar um bando de adultos experientes, profissionais e seguras de si; esses sempre excêntricos peritos técnicos que raramente recuavam diante de um conflito. Pessoas mais bem-informadas saberiam que ela era a única ali capaz de lidar com aquele bando. Não necessariamente por respeitarem o fato de Beate ter se mantido firme apesar da perda de dois policiais, primeiro seu pai e mais tarde o pai do seu filho. Mas por ela ser a melhor deles e por radiar uma irrepreensibilidade, integridade e seriedade que fazia com que uma ordem sussurrada de Beate Lønn, com olhar baixo e o rosto vermelho, fosse cumprida na hora. Portanto, Bjørn Holm veio assim que foi informado.
Ela estava sentada numa cadeira logo em frente à tela da TV.
— Estão gravando ao vivo da coletiva de imprensa — disse ela sem se virar. — Sente-se.
Holm reconheceu de imediato as pessoas na tela. Ocorreu-lhe que era estranho estar ali vendo sinais de TV que haviam viajado milhares de quilômetros para o espaço e voltado, só para mostrar o que estava acontecendo no outro lado da rua naquele instante.
Beate Lønn aumentou o volume.
— Entendeu corretamente — disse Mikael Bellman e inclinou-se para o microfone na mesa diante dele. — Por enquanto não temos pistas, nem suspeitos. E para repetir: não estamos excluindo a possibilidade de suicídio.
— Mas você disse… — começou uma voz do grupo de jornalistas.
Bellman a interrompeu:
— Eu disse que estamos considerando a morte suspeita. Você deve conhecer a terminologia. Caso contrário, deve… — Ele deixou a continuação no ar e apontou para alguém atrás da câmera.
— Stavanger Aftenblad — ouviu-se berrar no dialeto lento de Rogaland: — A polícia está vendo alguma ligação entre esta e as duas mortes em…?
— Não! Se você tivesse prestado atenção, teria entendido que eu disse que não estamos excluindo uma possível ligação.
— Já entendi isso — continuou o mesmo cara do lento e imperturbável dialeto de Rogaland. — Mas nós aqui presentes estamos mais interessados no que vocês acham, e não no que vocês não estão excluindo.
Bjørn Holm pôde ver Bellman lançar um olhar cruel ao homem, a impaciência tensionando os cantos da boca. Uma mulher de uniforme ao lado de Bellman pôs a mão sobre o microfone, inclinou-se para ele e sussurrou alguma coisa. O rosto dele demonstrou preocupação.
— Mikael Bellman está recebendo um curso intensivo em como lidar com a mídia — disse Bjørn Holm. — Lição um, passar a mão na cabeça deles, especialmente nos jornais provinciais.
— Ele é novo no emprego — disse Beate Lønn. — Vai aprender.
— Você acha?
— Acho. Bellman é do tipo que aprende.
— Ouvi dizer que humildade não é nada fácil de aprender.
— A verdadeira, não. Mas baixar a crista quando proveitoso é essencial na comunicação moderna. É o que Ninni está dizendo a ele. E Bellman é esperto o bastante para entender.
Na tela, Bellman limpou a garganta, esboçou um sorriso com ares de menino, e inclinou-se para o microfone:
— Desculpe se fui um pouco brusco, mas tem sido um dia longo para todos nós, e espero que vocês entendam que estamos impacientes para voltar à investigação desse caso trágico. Temos que encerrar, mas se alguém tiver outras perguntas, pode passá-las a Ninni aqui, e prometo voltar a elas pessoalmente mais tarde. Antes do prazo. Combinado?
— O que foi que eu disse? — Beate riu triunfante.
— Nasce uma estrela — disse Bjørn Holm.
A imagem da TV sumiu, e Beate Lønn se virou.
— Harry ligou. Quer que eu te libere.
— Me libere? — perguntou Bjørn Holm. — Para quê?
— Você sabe muito bem. Soube que você foi até o aeroporto com Gunnar Hagen quando Harry chegou.
— Ooops. — Holm sorriu, mostrando todos os dentes.
— Suponho que Hagen queria usar você na Operação de Persuasão, sabendo que você é um dos poucos policiais com quem Harry gosta de trabalhar.
— Nunca chegamos a tanto, e Harry não aceitou o trabalho.
— Mas agora parece que ele mudou de ideia.
— É mesmo? O que foi que o fez mudar?
— Ele não disse. Só disse que ele achou correto passar por mim.
— Claro, é você quem manda aqui.
— Nada é claro quando se trata de Harry. Como você sabe, eu o conheço bem.
Holm fez que sim. Ele sabia. Sabia que Jack Halvorsen, o namorado de Beate e depois pai do filho dela, morreu enquanto trabalhava para Harry. Um dia gélido de inverno, em plena luz do dia, em Grünerløkka, e teve a garganta cortada. Holm havia chegado logo depois. O sangue quente escorria pelo gelo azul. A morte de um policial. Ninguém havia colocado a culpa em Harry. Além de Harry, claro.
Holm coçou a costeleta.
— Então, o que você respondeu?
Beate respirou fundo e olhou os jornalistas e fotógrafos deixando o prédio da Kripos às pressas.
— A mesma coisa que digo agora para você. Que o ministério sinalizou que a Kripos tem a prioridade e, evidentemente, não posso de modo algum liberar peritos técnicos a outros além de Bellman nesse caso.
— Mas?
Beate Lønn tamborilou na mesa com uma caneta Bic.
— Mas tem outros casos além desse homicídio duplo.
— Homicídio triplo — disse Holm, e acrescentou quando Beate lhe lançou um olhar penetrante: — Acredite.
— Não sei exatamente o que o inspetor Hole está investigando, mas definitivamente não é nenhum desses homicídios. Ele e eu estamos de acordo sobre isso — observou Beate. — Portanto, você está liberado para esse caso ou esses casos; dos quais eu não tenho conhecimento. Por quinze dias. Uma cópia do primeiro relatório sobre qualquer caso em que esteja trabalhando deve estar na minha mesa daqui a cinco dias úteis. Entendido?
Kaja Solness riu por dentro e sentiu uma quase irresistível vontade de dar uma volta ou duas na sua cadeira giratória.
— Se Hagen está dizendo que sim, é claro que topo — disse ela, tentando se conter, embora notasse o júbilo na própria voz.
— Hagen está dizendo que sim — emendou o homem encostado no vão da porta com o braço sobre a cabeça, formando uma diagonal na porta da sala. — Então, vai ser apenas Holm, você e eu. E o caso que vamos investigar tem caráter sigiloso. Vamos começar amanhã. Esteja às sete na minha sala.
— Eh… às sete?
— S-e-t-e. Às sete. Dezenove horas.
— Ok. Que sala?
O homem abriu um sorriso largo e explicou.
Ela o olhou, incrédula.
— Nossa sala vai ser na prisão?
A forma em diagonal relaxou.
— Venha preparada. Alguma dúvida?
Kaja tinha muitas, mas Harry Hole já não estava mais lá.
O sonho já está começando a aparecer também de dia. De longe ainda posso ouvir a banda tocar “Love Hurts”. Percebo que alguns rapazes estão à nossa volta, mas não estão interferindo. Bom. Da minha parte, estou olhando para ela. Veja o que fez, tento dizer. Olhe para ele agora. Ainda o quer? Meu Deus, como eu a odeio, como quero arrancar a faca da minha boca e enfiá-la nela, perfurá-la, ver jorrar para fora: o sangue, as entranhas, a mentira, a estupidez, sua presunção idiota. Alguém devia mostrar a ela como é feia por dentro.
Vi a coletiva de imprensa na TV. Idiotas incompetentes! Nenhuma pista, nenhum suspeito? As primeiras quarenta e oito horas, tão importantes; o relógio está correndo, depressa, depressa. O que querem que eu faça? Que eu escreva tudo na parede com sangue?
São vocês, e não eu, que estão deixando essa matança continuar.
A carta está escrita.
Corram.