O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 72 de 96

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O Leopardo

Capítulo 72

 

B OY

 

Os dois homens estavam numa pequena relva — só que sem grama — entre a igreja de Manglerud e a autoestrada.

— A gente costumava chamar isso de narguilé ou bong subterrâneo — disse o homem de jaqueta de couro, jogando os fios do cabelo longo para o lado. — No verão, a gente ficava por aqui fumando tudo que conseguia arranjar. A 50 metros da delegacia de Manglerud. — Ele deu um sorriso torto. — Eu, Ulla, Te-Ve, sua namorada e algumas outras pessoas. Bons tempos aqueles.

O homem ficou com o olhar distante enquanto Roger Gjendem anotava.

Não tinha sido fácil encontrar Julle, mas por fim Roger conseguiu rastreá-lo num clube de motoqueiros em Alnabru onde, descobriram, ele comia, dormia e levava sua vida como homem livre; ele não se movia além do supermercado para comprar rapé e pão. Gjendem já havia visto o mesmo, como a prisão fazia com que as pessoas ficassem dependentes de ambientes familiares, de rotina e segurança. Mas, estranhamente, Julle tinha concordado relativamente rápido em falar sobre o passado. A palavra mágica havia sido Bellman.

— Ulla era minha namorada, e foi tão bom, porque todos em Manglerud estavam apaixonados por ela. — Julle fez que sim, como que para concordar consigo mesmo. — Mas ninguém foi ciumento de forma tão doentia quanto ele.

— Mikael Bellman?

Julle fez que não.

— O outro. A sombra. Beavis.

— O que houve?

Julle abriu os braços. Roger havia notado as cicatrizes. Um prisioneiro migrando entre a droga na prisão e a droga lá fora.

— Mikael Bellman me dedurou sobre um pouquinho de gasolina que roubei; eu possuía uma sentença suspensa por haxixe, e por causa disso tive que cumprir pena. Ouvi rumores de que Bellman e Ulla foram vistos juntos. De qualquer maneira, quando saí e fui buscar Ulla, aquele cara, Beavis, estava esperando por mim. Quase acabou comigo. Disse que Ulla pertencia a ele. E a Mikael. Certamente não a mim. E se eu mostrasse a cara por perto… — Julle passou o indicador sobre um pescoço magro com tufos de barba grisalhos. — Doentio aquilo. E sinistro. Ninguém do bando acreditou quando contei que o maldito Beavis por tão pouco não havia acabado comigo. O babaca babão que não fazia nada a não ser seguir Bellman por onde andasse.

— Mas você falou de um lote de heroína — disse Roger. Quando interrogava pessoas em casos de drogas, ele sempre tomava cuidado para usar a terminologia correta que não deixasse dúvidas, pois as gírias mudavam com rapidez e tinham diferentes significados em locais diferentes. Por exemplo, “smack” podia significar cocaína em Hovseter, heroína em Hellerud e qualquer droga que te deixasse doidão em Abilsdø.

— Eu, Ulla, Te-Ve e sua namorada fizemos uma viagem de moto pela Europa no mesmo verão que fui preso. Trouxemos meio quilo de boy de Copenhague. Motoqueiros que nem eu e Te-Ve eram revistados em todas as fronteiras, mas mandamos as garotas passarem sozinhas. Cacete, como eram bonitas, com vestidinhos de verão, olhos azuis e um quarto de quilo de boy na boceta. Vendemos a maior parte para um traficante lá em Tveita.

— Você é bem aberto — comentou Roger enquanto anotava, colocando “boceta” entre parênteses para reescrever mais tarde e adicionou “boy” à sua lista de sinônimos para heroína.

— O tempo passou, não podem mais prender ninguém por aquilo. O importante é que o traficante em Tveita foi pego. E ofereceram a ele pena reduzida caso dedurasse os fornecedores. O que ele fez, claro, aquele canalha.

— Como sabe disso?

— Hum! O cara contou para mim alguns anos depois quando cumprimos pena juntos em Ullersmo. Ele tinha dado o nome e o maldito endereço de nós quatro, Ulla inclusive. Só faltou o número da identidade. Tivemos sorte porque o caso foi arquivado.

Roger anotava rapidamente.

— E adivinha quem cuidava do caso na delegacia de Stovner? Quem interrogou o cara? Quem mais podia ter recomendado que o caso fosse deixado de lado, tirado da pilha, arquivado? Quem salvou a pele de Ulla?

— É o que eu gostaria que me dissesse, Julle.

— Com grande prazer. Foi o ladrão de bocetas. Mikael Bellman.

— Só uma última pergunta — falou Roger, e sabia que havia chegado ao ponto crítico. A história podia ser verificada? A fonte podia ser checada? — Você tem o nome daquele traficante? Quero dizer, ele já não corre mais risco nem será mencionado.

— Se eu quero dedurá-lo, você quis dizer? — Julle deu uma gargalhada. — Pode apostar que quero.

Ele soletrou o nome e Roger virou a página e anotou em maiúsculas, sentindo os maxilares se alargarem. Formando um sorriso. Ele se controlou e adotou uma expressão séria. Mas sabia que sentiria o gosto por muito tempo: o doce sabor de um furo.

— Então, obrigado pela ajuda — disse Roger.

— Eu que agradeço — respondeu Julle. — Apenas cuide para acabar com aquele Bellman, aí estaremos quites.

— E, a propósito, só por curiosidade. Por que acha que o traficante contou a você que tinha te dedurado?

— Porque ele estava com medo.

— Com medo? Por quê?

— Porque ele sabia demais. Ele queria que mais alguém conhecesse a história caso aquele policial fizesse o que ameaçava fazer.

— Bellman ameaçou o traficante?

— Bellman, não. Sua sombra. Ele disse que, se o cara sequer mencionasse o nome de Ulla novamente, ele enfiaria algo nele que o faria ficar de bico calado. Para sempre.