O Leopardo
Capítulo 30
LIVRO DOS HÓSPEDES
A placa de um prédio modesto da estação de trem anunciou que estavam em Ustaoset. Kaja conferiu no relógio que tinham chegado como previsto, às dez e quarenta e quatro da manhã. Ela olhou para fora. O sol brilhava nas planícies cobertas de neve, e as montanhas estavam brancas como porcelana. Ustaoset, exceto por um agrupamento de casas e um hotel de dois andares, era uma montanha deserta. Decerto havia pequenas cabanas espalhadas na paisagem e um e outro arbusto perdido no alto, mas não deixava de ser um lugar ermo. Ao lado do prédio da estação, quase na própria plataforma, havia um solitário SUV com o motor ligado. Do vagão do trem parecia que não havia nem uma leve brisa. Mas quando Kaja desceu do trem, o vento pareceu atravessar suas roupas; roupas de baixo térmicas, agasalho, botas de esquiar.
Uma figura pulou do SUV e foi ao seu encontro. Ele estava com o baixo sol de inverno nas costas. Kaja semicerrou os olhos. Andar ágil, confiante, um sorriso branco e uma das mãos estendida. Ela gelou. Era Even.
— Aslak Krongli — disse o homem com um firme aperto de mão. — Delegado.
— Kaja Solness.
— Está frio, não é? Não como lá embaixo, né?
— Exato — disse Kaja e devolveu o sorriso.
— Não posso te acompanhar até a cabana de Håvass hoje. Tivemos uma avalanche, um túnel está fechado e temos que redirecionar o trânsito. — Sem perguntar, pegou os esquis dela e colocou-os sobre o ombro e começou a ir para o SUV. — Mas o homem que cuida das cabanas pode levar você até lá. Odd Utmo. Tudo bem?
— Tudo bem — disse Kaja, que de verdade achou o arranjo ótimo. Desse modo talvez escapasse das perguntas sobre o súbito interesse da polícia de Oslo numa pessoa desaparecida da cidade de Drammen.
Krongli acompanhou-a pelos 500 metros até o hotel. Na praça coberta de neve na frente da entrada havia um homem numa motoneve amarela. Usava macacão vermelho, gorro de pele com abas protetoras nas orelhas, cachecol cobrindo a boca e grandes óculos de neve.
Quando ele levantou os óculos e murmurou seu nome, Kaja viu que tinha um olho coberto por uma membrana branca, como se leite tivesse sido derramado por cima. O outro olho estudou-a da cabeça aos pés, sem embaraço. Sua postura ereta lembrava um jovem, mas seu rosto era de um velho.
— Sou Kaja. Obrigada por comparecer, mesmo sendo avisado na última hora — cumprimentou-o.
— Sou pago — respondeu Odd Utmo. Ele olhou para o relógio, baixou o cachecol e cuspiu. Kaja viu o brilho do aparelho ortodôntico entre dentes manchados de rapé. O cuspe de tabaco desenhou uma estrela preta no gelo. — Espero que você já tenha comido e feito xixi.
Kaja riu, mas Utmo já havia se virado para montar na motoneve.
Ela olhou para Krongli, que tinha enfiado os esquis e bastões de esqui por baixo das correias ao longo da motoneve, junto com os esquis de Utmo, e uma trouxa que parecia conter bananas de dinamite vermelhas e um rifle com telescópio.
Kaja virou-se para Krongli. O delegado deu de ombros e mostrou seu sorriso branco de menino outra vez.
— Boa sorte, espero que encontre…
O resto foi abafado pelo estrondo do motor da motoneve. Kaja montou depressa. Para seu alívio, viu que havia alças para se segurar, assim não ia ter que abraçar o velho caolho por trás. A fumaça da descarga os envolveu; em seguida partiram com um puxão.
Utmo estava com os joelhos dobrados, usando o peso do corpo para equilibrar a motoneve. Passaram pelo hotel, por cima de um amontoado de neve até chegarem à neve fofa, subindo diagonalmente o primeiro declive suave. Quando chegaram ao topo, com vista para o norte, Kaja viu um sem-fim de branco à sua frente. Utmo virou-se com uma expressão indagadora. Kaja fez um gesto de que estava tudo bem. Então, ele acelerou. Ela se virou e, através da fonte de neve que jorrava atrás das correias da motoneve, viu as casas desaparecerem.
Kaja sempre tinha ouvido dizer que os planaltos cobertos de neve lembravam o deserto. Isso a fez pensar nos dias e noites junto a Even no seu barco de corrida náutica.
A motoneve cortou a vasta paisagem vazia. A neve e o vento haviam apagado os contornos, alisando e aplainando tudo até virar uma vasta superfície de mar de onde a grande montanha, Hallingskarvet, se erguia como uma monstruosa e ameaçadora onda. Não havia nenhum movimento brusco, a maciez da neve e o peso da motoneve tornaram todos os movimentos macios e abafados. Com cuidado, Kaja esfregou o nariz e as bochechas para manter a circulação do sangue. Estava ciente do que relativamente pequenas feridas de frio podiam fazer com um rosto. O rugido monótono do motor e a uniformidade tranquilizadora da paisagem a fez cair no sono, até o motor morrer e eles ficarem parados. Ela acordou e olhou o relógio. Seu primeiro pensamento foi que houvesse uma pane no motor e que fossem levar pelo menos quarenta e cinco minutos para voltar à civilização. Quanto tempo levariam esquiando? Três horas? Cinco? Não fazia ideia. Utmo já havia descido e estava soltando os esquis do scooter.
— Tem algum problema com… — começou ela, mas se deteve quando Utmo se endireitou, apontando para dentro do pequeno vale mais adiante.
— A cabana de Håvass — disse ele.
Kaja semicerrou os olhos atrás dos óculos de sol. E, de fato, ao pé da montanha viu uma pequena cabana preta.
— Por que não vamos de moto…
— Porque as pessoas são idiotas, e por isso, temos que nos arrastar até a cabana.
— Arrastar? — perguntou Kaja e colocou depressa seus esquis, como Utmo já havia feito.
Ele apontou com o bastão de esqui para o lado da montanha.
— Se andar de scooter para dentro de um vale tão estreito, o eco é lançado de lado a lado. A neve recém-caída solta…
— Avalanche — disse Kaja. Ela lembrou algo que seu pai havia contado depois de uma de suas viagens aos Alpes. Durante a Segunda Guerra Mundial, mais de 60 mil soldados haviam morrido lá em cima, e a maioria das avalanches foi causada por ondas sonoras do fogo de artilharia.
Utmo parou um momento e olhou para ela.
— Aquele pessoal da cidade que se diz amante da natureza se acha esperto quando constrói uma cabana numa área protegida. Mas é só uma questão de tempo até ela também estar coberta pela neve.
— Também? — perguntou Kaja.
— A cabana de Håvass só está aí há três anos. Este ano é o primeiro com neve típico de avalanche. E logo vem mais.
Ele apontou para o oeste. Kaja protegeu os olhos com as mãos. No horizonte nevado viu o que ele queria dizer. Pesadas nuvens cúmulos branco-acinzentadas formavam cogumelos gigantes contra o fundo azul.
— Vai nevar a semana toda — disse Utmo, soltando o rifle da motoneve e pendurando-o sobre o ombro. — Se eu fosse você, me apressaria. E não grite.
Entraram no vale em silêncio, e assim que chegaram à sombra, Kaja sentiu a temperatura cair, e o frio assentava-se nos sulcos do terreno.
Tiraram os esquis na frente da cabana de madeira preta e os colocaram em pé contra a parede. Utmo pegou uma chave do bolso e enfiou-a na fechadura.
— Como os hóspedes entram? — perguntou Kaja.
— Eles compram a chave-padrão que serve para todas as quatrocentas e cinquenta cabanas de turistas no país inteiro.
Ele girou a chave, apertou a maçaneta e empurrou a porta. Nada aconteceu. Ele praguejou baixinho, encostou o ombro à porta e empurrou com força. A porta soltou dos batentes com um chiado estridente.
— A cabana encolhe no frio — murmurou ele.
Lá dentro estava um breu, e havia cheiro de parafina e madeira queimada.
Kaja examinou o interior. Sabia que os arranjos eram bem simples. Quando alguém chegava, registrava seus dados no livro de hóspedes, pegava uma cama, ou um colchão se a cabana estivesse lotada, acendia a lareira, fazia sua própria comida na cozinha, onde havia um fogão e utensílios, ou, se usasse a comida guardada nos armários, deixava algum dinheiro numa lata. Pagava-se pela estada na mesma lata ou se preenchia uma autorização bancária. Todos os pagamentos eram à base de sentimento de responsabilidade e honra.
A cabana tinha quatro quartos, todos virados para o norte, todos com duas camas, cabendo duas pessoas em cada uma. A sala estava virada para o sul, com móveis tradicionais, isto é, sólidos móveis de pinho. Havia uma lareira grande e aberta para um efeito visual acolhedor, e um fogão a lenha para uma calefação mais eficiente. Kaja calculou que cabia de doze a quinze pessoas sentadas em volta da mesa de jantar, e o dobro de lugares para dormir, se as pessoas se espremessem e usassem os colchões no chão. Ela imaginou a luz das velas e da lareira tremeluzindo sobre rostos conhecidos e desconhecidos, enquanto conversavam sobre o passeio do dia seguinte, bebendo uma cerveja ou uma taça de vinho tinto. O rosto corado de Even sorria para ela, e ele brindou com ela de um dos cantos na penumbra.
— O livro de hóspedes está na cozinha — disse Utmo, apontando para uma das portas. Ali na entrada, ainda de gorro e luvas, ele parecia impaciente.
Kaja pôs a mão na maçaneta e ia girá-la quando uma imagem veio a sua mente. O delegado Krongli. Ele era tão parecido. Ela soube que o pensamento viria à tona novamente, só não sabia quando.
— Pode abrir a porta para mim? — pediu.
— Hein?
— Emperrou — disse Kaja. — O frio.
Ela fechou os olhos enquanto ouviu ele se aproximar, ouviu a porta ser aberta sem barulho nenhum, e sentiu o seu olhar surpreso nela. Então, abriu os olhos de novo e entrou.
A cozinha tinha um leve cheiro de ranço. Ela sentiu a pulsação acelerar enquanto seus olhos varriam as bancadas, os armários. Seu olhar caiu no livro de capa de couro preto na bancada por baixo da janela. Estava amarrado à parede com um fio de náilon azul.
Kaja respirou fundo. Aproximou-se do livro. Abriu.
Páginas e páginas com nomes escritos a mão pelos próprios hóspedes. A maioria havia seguido a regra de registrar o próximo destino.
— Na verdade, eu tinha feito planos de vir para cá depois do final da semana e poderia ter verificado o livro para vocês — ouviu a voz de Utmo atrás dela. — Mas a polícia não podia esperar, não é?
— Não — disse Kaja, procurando pelas datas. Novembro. Seis de novembro. Oito de novembro. Ela folheou para trás. E para a frente. Não estava lá. Sete de novembro havia sumido. Ela abriu bem o livro. Havia apenas vestígios da folha. Tinha sido arrancada por alguém.