Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes

Stephen R. Covey · Capítulo 94 de 99

Páginas do PDF

Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes

Novamente de Dentro para

FORA

“O Senhor trabalha de dentro para fora. O mundo trabalha de fora para dentro. O mundo tira as pessoas das favelas.

Cristo tira as favelas de dentro das pessoas, e depois elas mesmas saem das favelas. O mundo molda o homem, mudando seu meio.

Cristo muda o homem, e depois muda o meio. O mundo determina o comportamento humano, mas Cristo pode mudar a natureza do homem.

EZRA TAFT BENSON

Eu gostaria de relatar uma história pessoal, que na minha opinião contém a essência deste livro. Espero que entendam os princípios que estão por trás dela.

Há alguns anos nossa família deixou o local onde vivíamos por um ano. Eu consegui uma licença na universidade onde leciono, para poder me dedicar a escrever. Passamos este ano inteiro em Laie, na costa norte de Oahu, no Havaí.

Pouco depois de nos mudarmos, desenvolvemos uma rotina de vida e trabalho que podia não ser muito produtiva, mas era extremamente agradável.

Depois de um passeio de manhã cedo pela praia, mandávamos dois de nossos filhos para a escola, descalços e de shorts. Eu ia para uma sala, perto do canavial, onde tinha um escritório, para escrever o livro.

Era tudo muito quieto, muito sereno, muito bonito - sem telefone, reuniões ou compromissos urgentes.

Meu escritório ficava perto dos limites de uma universidade, e um dia, quando eu passeava por entre as fileiras de livros nos fundos da biblioteca da universidade, topei com um volume que chamou minha atenção. Quando eu o abri, os olhos pararam em um único parágrafo, que influenciou poderosamente o resto da minha vida.

Li e reli o parágrafo. Ele continha basicamente a idéia simples de que havia intervalo ou brecha entre estímulo e resposta, e que a chave tanto para o amadurecimento quanto para a felicidade era saber como usar aquela brecha.

Encontro dificuldades para descrever o efeito daquela idéia em minha mente.

Apesar de eu ter sido criado na filosofia da autodeterminação, o modo como a idéia fora redigida - "uma brecha entre o estímulo e a resposta" - me atingiu com uma

204

força nova, quase inacreditável. Era como "descobrir pela primeira vez", similar a uma revolução interior, "uma idéia cujo momento chegara".

Refleti sobre a questão por muito tempo, e ela começou a ter um efeito poderoso em meu paradigma de vida. Era como se eu tivesse me tornado um observador de minha própria participação. Comecei a ficar parado sobre a brecha, e a olhar de fora para o estímulo. Fiquei contente com a sensação íntima de liberdade para escolher minha resposta - até mesmo para me tornar o estímulo, influenciá-lo ou até revertê-lo.

Pouco depois, e em parte por causa desta idéia "revolucionária", Sandra e eu começamos a nos comunicar em grande profundidade. Eu a pegava pouco antes do meio-dia, em uma velha Honda trail 90, e saíamos levando os dois filhos em idade pré-escolar conosco - um no meio de nós dois, outro no meu joelho esquerdo -percorrendo o canavial próximo ao meu escritório. O passeio era lento, levava cerca de uma hora. Conversávamos.

As crianças aguardavam ansiosas o passeio, e normalmente não davam nem um pio. Raramente víamos outro veículo, e a moto era tão silenciosa que podíamos ouvir um ao outro tranqüilamente. Normalmente acabávamos em uma praia isolada, onde estacionávamos a Honda e caminhávamos cerca de 200 metros, até uma praia deserta, onde fazíamos um piquenique.

A praia de areia fina e o regato que desaguava no mar absorviam totalmente o interesse de meus filhos. Sandra e eu podíamos, por isso, prosseguir nossa conversa sem interrupções. Talvez não seja preciso ter muita imaginação para perceber o nível de entendimento e confiança que fomos capazes de atingir ao passar pelo menos duas horas por dia, todos os dias, durante um ano inteiro, em contato muito próximo.

Bem no começo do ano, conversamos sobre todos os tipos de assuntos interessantes - pessoas, idéias, eventos, filhos, meus textos, nossa casa, planos para o futuro e assim por diante. Mas, pouco a pouco, nossa comunicação se aprofundou, e começamos a conversar mais e mais sobre nossos mundos interiores

- sobre nossa educação, sentimentos e dúvidas. Quando estávamos profundamente envolvidos nesta comunicação, também a observávamos, e a nós mesmos dentro dela. Começamos a usar a brecha entre estímulo e resposta de modos novos e interessantes, o que nos levou a refletir sobre a forma como havíamos sido programados e como estes problemas interferiam na maneira como víamos o mundo.

Iniciamos a excitante aventura em nossos mundos interiores, e descobrimos que eles eram mais excitantes, mais fascinantes, mais absorventes, mais atraentes, mais lotados de estímulos e descobertas do que qualquer coisa que havíamos visto no mundo exterior.

Nem tudo era "luz e doçura". Por vezes tocávamos nervos expostos e tínhamos experiências dolorosas, constrangedoras, reveladoras -experiências que nos tornavam mais abertos e vulneráveis um para o outro. E acabamos por perceber que estávamos esperando por isso havia anos. Quando mergulhamos nas questões mais profundas, mais ternas, e depois saímos delas, sentimo-nos de certa forma curados.

Desde o início fomos tão solidários e companheiros, tão encorajadores e empáticos um com o outro que desenvolvemos e facilitamos estas descobertas íntimas em nós dois.

Gradualmente adotamos duas regras não verbalizadas. A primeira era "não forçar". Assim que expúnhamos as camadas mais profundas e vulneráveis, não

205

devíamos questionar um ao outro, apenas demonstrar solidariedade. Pressionar confidências seria uma invasão. Uma coisa muito lógica e dominadora. Estávamos percorrendo um terreno muito novo e difícil, incerto e assustador, trazendo à tona medos e dúvidas. Queríamos cobrir mais e mais dele, mas nos acostumamos a respeitar a necessidade de deixar que cada um se abrisse quando fosse o momento.

A segunda regra básica era parar, naquele dia, quando magoasse demais, quando fosse doloroso. Retomaríamos a questão no dia seguinte, no ponto onde havia sido interrompida, ou esperaríamos até que a pessoa que estava se expondo sentisse que estava pronta para prosseguir.

Deixávamos várias coisas no ar, sabendo que queríamos tratar delas depois.

Afinal tínhamos o tempo e o ambiente que levaria a isso, e estávamos tão excitados observando nosso envolvimento e o amadurecimento do casamento, que simplesmente sabíamos que mais cedo ou mais tarde todas as questões que ficaram no ar seriam tratadas, e que chegaríamos a algum tipo de conclusão.

A parte mais difícil, e também a mais gratificante deste tipo de comunicação surgiu quando a minha vulnerabilidade e a de Sandra se tocaram. Neste momento, em função do nosso envolvimento, descobrimos que a brecha entre estímulo e resposta não era mais palpável. Alguns sentimentos negativos vieram à tona. Mas nosso desejo mais profundo e nosso pacto implícito eram nos prepararmos para recomeçar do ponto onde havíamos parado, e lidar com os sentimentos até chegarmos a um acordo.

Um dos momentos difíceis teve a ver com uma das tendências básicas da minha personalidade. Meu pai era um indivíduo muito fechado - muito controlado e cuidadoso. Minha mãe era e ainda é muito aberta, sociável, espontânea. Percebo que os dois conjuntos de tendências existem em mim, e quando me sinto inseguro tenho uma tendência para me fechar, como meu pai. Passo a viver dentro de mim e a observar com segurança.

Sandra é mais parecida com minha mãe - sociável, autêntica e espontânea.

Passamos por uma série de experiências, no decorrer dos anos, em que considerei sua atitude pouco apropriada. Ela achava que meu retraimento era prejudicial, tanto socialmente quanto para mim como indivíduo, pois eu me tornaria insensível ao sentimento dos outros. Tudo isso e muito mais veio à tona durante as conversas na praia. Passei a valorizar a sabedoria e as descobertas de Sandra, bem como as maneiras que encontrava para me ajudar a ser uma pessoa mais aberta, disponível, sensível e sociável.

Outro momento difícil teve a ver com algo que, em minha opinião, era uma

"mania" de Sandra. Há anos eu vivia incomodado pela aparente obsessão de Sandra por equipamentos domésticos Frigidaire, que eu não conseguia entender: Ela nunca sequer cogitava em comprar outra marca de aparelho. Mesmo quando estávamos começando, com um orçamento apertado, ela insistia em viajar 70

quilômetros até uma "cidade grande", onde havia equipamentos Frigidaire à venda, simplesmente porque as lojas de nossa pequena cidade não mantinham estoque destes produtos.

Esta era uma questão muito tensa para mim. Felizmente, o problema só surgia na hora de comprar um aparelho. Mas, nesta hora, o estímulo detonava uma resposta pesada. Esta pequena questão parecia ser o símbolo de todo o pensamento irracional, e gerava todo o conjunto de sentimentos negativos dentro de mim.

Normalmente eu recorreria a meu comportamento reservado disfuncional.

Suponho que a única maneira que eu encontrava para lidar com isso era não lidar.

206

De outro modo, eu temia perder o controle e dizer coisas que não deveria dizer.

Havia momentos em que eu me descontrolava e dizia coisas desagradáveis, e precisava pedir desculpas.

O que mais me incomodava não era seu gosto pela marca Frigidaire, mas sua insistência em fazer o que eu considerava defesas completamente ilógicas da Frigidaire, que não se baseavam em fatos. Se pelo menos ela concordasse que sua reação era irracional e puramente emocional, eu creio que poderia ter aceitado. Mas suas justificativas eram irritantes.

Em algum momento, no início da primavera, o problema Frigidaire veio à tona.

Toda a proximidade anterior nos preparara para isso. As regras básicas haviam sido estabelecidas com firmeza - não forçar e dar um tempo se o tema fosse doloroso demais para um ou para os dois.

Jamais me esquecerei do dia em que conversamos. Não paramos na praia.

Continuamos o passeio do canavial, talvez porque não queríamos olhar direto no rosto um do outro. Havia um histórico de tensão e sentimentos negativos associados ao problema, que passara muito tempo sufocado. Nunca chegara a ponto de ameaçar nosso relacionamento, mas quando se está tentando cultivar uma relação de proximidade e beleza, qualquer questão que provoca afastamento é importante.

Sandra e eu ficamos maravilhados com as coisas que aprendemos naquela conversa. Foi realmente sinérgica. Era como se Sandra estivesse aprendendo, pela primeira vez, a pensar em sua mania. Ela começou a falar do pai, que havia sido professor de história do curso colegial durante anos, e como treinador também. Para ganhar o suficiente para o sustento da família, ele entrou para o ramo de eletrodomésticos. Durante uma crise econômica ele enfrentou sérias dificuldades econômicas, e a única coisa que evitou sua falência naquele momento foi o financiamento do estoque, por conta da Frigidaire.

Sandra tinha uma relação incrivelmente profunda e carinhosa com o pai.

Quando ele voltava para casa, depois de um dia cansativo, deitava no sofá para que Sandra massageasse seus pés e cantasse para ele.

Eram momentos maravilhosos, que ambos desfrutavam quase que diariamente. Ele também se abria, falando de suas preocupações com as vendas, e demonstrava a Sandra seu contentamento pelo fato de a Frigidaire financiar seu estoque, o que o ajudava a enfrentar as dificuldades.

A comunicação entre pai e filha acontecera de forma espontânea, durante momentos de descontração, quando têm lugar os ensinamentos mais profundos.

Durante estes momentos tranqüilos as defesas estão baixas, e todos os tipos de imagens e pensamentos são implantados com força no subconsciente. Talvez Sandra tenha se esquecido de tudo isso, até que a segurança encontrada naquele ano de confidências permitiu que viesse à tona de forma natural e espontânea.

Sandra realizou descobertas profundas sobre seu modo de ser e sobre seus vínculos emocionais com a Frigidaire. Eu também aprendi, e passei a respeitar sua atitude. Eu me dei conta de que Sandra não estava falando de eletrodomésticos, e sim do pai e da lealdade – da lealdade a suas necessidades.

Eu me recordo de que chegamos às lágrimas naquele dia, não tanto pela descoberta, mas pelo aumento do respeito mútuo. Percebemos que mesmo as coisas triviais com freqüência possuem profundas raízes em experiências emocionais relevantes. Lidar com as trivialidades aparentes, sem ver as questões mais fundas e delicadas significa invadir os recantos mais sagrados do coração do outro.

207

Houve muitos resultados significativos naqueles meses. Nosso contato era tão intenso que conseguíamos quase instantaneamente a sintonia de pensamentos.

Quando deixamos o Havaí, decidimos manter aquela prática. Desde então, no decorrer dos anos, continuamos a sair regularmente com nossa moto Honda trail, ou de carro, quando o tempo estava ruim, só para conversar. Achamos que o segredo de ficar apaixonado é conversar, particularmente sobre sentimentos. Tentamos nos comunicar várias vezes por dia, mesmo quando estou viajando. Manter contato com o lar dá acesso a toda a felicidade, segurança e valores que este representa.

Thomas Wolfe estava errado. A gente pode voltar para casa novamente - se sua casa for um relacionamento valioso, uma companhia preciosa.