Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 10 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Começava rapidamente a parecer um dia daqueles. Primeiro, Audrey não acordou com o despertador. Não conseguia imaginar como aquilo podia ter acontecido, já que se orgulhava de ser uma “pessoa matinal”. Tinha se vestido com pressa e só quando já estava saindo pela porta da frente percebera o fio puxado na meia-calça. Voltara para casa e mal conseguira chegar ao trabalho na hora, aquele corre-corre todo lhe dera uma dolorosa indigestão que nem três xícaras de chá de camomila, até agora, tinham conseguido aliviar.

 

E, para complementar tudo isso, tivera o azar de receber um telefonema de Maurice Lazenby, cliente mais antigo da Mesa Para Dois e reclamão de carteirinha. Como qualquer diretor de agência de relacionamentos sabe, clientes do sexo masculino são duros de achar, portanto, péssimos modos e comportamentos de diva são tolerados com sacrificada animação. Homens deviam ser conservados a todo custo. Se as clientes descobrissem quão baixa era a proporção entre clientes homens e mulheres, Audrey duvidava que contratassem os serviços da agência. Assim, obrigou-se a respirar fundo e prover-lhe o tratamento açucarado que passara tantos anos aperfeiçoando.

— Bem, Maurice — explicou a ele, assim que houve uma pausa em sua verborreia —, as outras mulheres a quem mostramos seu perfil não se interessaram em conhecê-lo. Você não é o tipo delas.

— Como assim? — perguntou Maurice com impertinência.

Audrey suspirou. Tecnicamente, Maurice era cliente de Alice. Alice já deveria ter lidado com as expectativas dele.

— As mulheres gostam de homens esportivos, que ganham bem; homens interessados em animais e crianças e que têm todos esses hobbies da moda, tipo paraquedas, aviões e bungee jump. As damas que você procura são o crème de la crème. Elas estão procurando homens que as busquem de surpresa para levar a uma apresentação de balé…

Audrey podia ouvir o cérebro de Maurice começar a objetar.

— … em Paris — acrescentou, gravemente. — Agora, Maurice, eu sei que você irá me agradecer por lhe dizer isto, e eu não sou do tipo que doura a pílula. Você precisa baixar sua expectativa. Enfim, tem certeza de que não gostaria que Alice lhe marcasse outro encontro com Hayley? A enfermeira veterinária do dedo engraçado? Tenho certeza de que ela estaria disposta a um segundo encontro.

No final, Audrey, exasperada, tinha mandado Maurice para Alice, para que esta o apaziguasse. Ele sabia que era com ela que deveria falar, então só Deus sabia por que estava incomodando Audrey com seu chororô.

Lá pelas 11 horas, Audrey tinha se refugiado em seu aquário. Calçou a porta aberta — de forma a melhor espionar as conversas das funcionárias — e fingiu se ocupar com o computador.

— Telefone para você, Audrey — gritou Hilary do outro lado do escritório. — É Sheryl Toogood na linha três.

— Ai, Deus, o que é que ela quer? — resmungou Audrey, sua paz efêmera destruída. Conversas com Sheryl Toogood já eram estranhas o bastante sem o escritório inteiro atento a cada palavra.

— Bom diiiiiiia, Audrey — arrulhou Sheryl. Ninguém tirava tanto proveito das vogais quanto Sheryl Toogood. Audrey podia imaginá-la sentada em seu escritório, toda falsidade e bajulação numa blusa decotada.

— Sheryl — respondeu com acidez entre os dentes cerrados.

— Como vaaaaaaaai? Como vão os negócios?

— Prosperando — apressou-se Audrey, contente com a oportunidade inesperada de se gabar. — Nós acabamos de saber que conseguimos outro casamento!

— Oh, parabéns! Eu sei como você adora a chance de tirar o pó do chapéu e jogar um pouco de confete.

Audrey hesitou, incerta se estava sendo vítima de condescendência.

— Como vão as coisas aí na Pombinhos? — mudou de assunto.

— Ah, terrivelmente ocupada, como sempre — entusiasmou-se Sheryl. — Contratei um novo consultor no mês passado, o Matteus. Ele é um especialista em relacionamentos on-line e uma gracinha. Aumentou nosso movimento on-line em vinte por cento, além de nos trazer uma dúzia de clientes premium! Estamos na maior correria. Todos os restaurantes da cidade receberão um casal nosso para o jantar hoje.

— Muito bem — Audrey forçou as palavras.

— Eu sei — respondeu Sheryl, sem modéstia. Audrey podia ouvir o ruído sintético do roçar da meia-calça de Sheryl ao cruzar as pernas.

— E como vai seu servicinho de relacionamentos on-line, Audrey? Já conseguiu aumentar sua área de cobertura?

Audrey pôde ouvir o indício de uma risadinha maldosa abafada. Ruborizou-se, com raiva. Sheryl jamais a deixaria se esquecer de sua gafe. Como é que ela ia saber que websites tinham área de cobertura? Não estava familiarizada com todo o jargão técnico. Maldito website. Ela só o tinha desenvolvido porque todas as demais agências tinham.

— Olha, vou direto ao assunto, Aud — continuou Sheryl antes que Audrey tivesse a chance de pensar numa resposta sarcástica. — Tenho certeza de que você não se esqueceu de que o baile da ADAR é no mês que vem.

— Claro que não! — exclamou Audrey. ADAR era a sugestiva sigla para Associação das Agências de Relacionamentos. Audrey, pessoalmente, nunca usava abreviaturas; eram uma afronta ao inglês da Rainha.

— Acredito que você irá.

— Mas é lógico!

A data tinha sido gravada na mente de Audrey desde o instante em que fora marcada. Fora o único compromisso anotado em sua agenda em meses e ela passara cada momento entre o apagar das luzes de seu quarto e o sono, saboreando a ideia. Afinal, era uma noite garantida com John.

— Como você sabe — continuou Sheryl —, eu fui nomeada organizadora do evento deste ano. Uma honra e tanto! Uma verdadeira apologia ao prestígio da Pombinhos, você não acha?

— Bem, não acho que as duas coisas estejam…

— … Portanto, como organizadora do baile, eu estava dando uma olhada na lista de presenças confirmadas e notei que ainda não recebi seu cheque. E pensei com meus botões: Oh, que estranho! Audrey normalmente paga tão em dia! Espero, sinceramente, que a Mesa Para Dois não esteja com nenhum problema de fluxo de caixa.

— Não, claro que não! Que ideia! Rá, rá, rá. — Audrey forçou uma risada leve. — Me esqueci completamente, só isso. Mandarei o cheque agora mesmo. — Que audácia! Mas que erro bobo! Não podia imaginar como havia se esquecido. Era impensável.

— Então, vou colocar um ponto de interrogação ao lado de seu nome, por ora.

— Você receberá o cheque no primeiro correio de amanhã — informou Audrey, com firmeza.

— E espero que você traga aquele seu marido bonitão, hein? — arrulhou Sheryl, pegajosa.

Todos os sentidos de Audrey se alertaram instintivamente, como se detectasse perigo iminente. Seu peito se apertou e um rubor começou a subir por seu pescoço.

— Um homem tão charmoso, tão atencioso. Eu ficaria de olho nele, se fosse você — continuou Sheryl. — Dê bastante atenção a ele. Como digo às minhas clientes, é preciso se esforçar para manter seu homem. Surpreendê-lo de vez em quando. Caso contrário, existem muitas outras que o farão. Se eu tivesse um homem como John, iria mantê-lo numa… — sua voz se encheu de significado — … rédea bem curta.

Ela riu com grosseria.

Audrey ficou enjoada.

— Sim, bem… — Ela sentiu os olhos de Cassandra e Bianca atravessando o vidro até ela. Sério, será que não podia ter um pouco de privacidade naquele escritório? E o que Sheryl estava querendo, exatamente? Por que estava falando sobre John escapar e o que queria dizer com rédea curta? Será que ela sabia de alguma coisa? — Acho que não tenho nenhuma razão para me preocupar — retrucou, na defensiva.

— Estou certa de que você é tudo de que John precisa, em termos de mulher! — exclamou Sheryl, de forma pouco convincente.

— Certo, bem, se é só isso… Porque estou muito ocupada.

— Sim, acho que isso encerra o assunto — respondeu Sheryl alegremente. — Então, vou ficar de olho para quando seu cheque chegar.

— Vou providenciar isso agora mesmo. Certo, bem, adeu…

— … Só mais uma coisinha, Audrey — interrompeu Sheryl, sem pressa. — Você não me disse qual das suas meninas você irá trazer. Você tem um convite extra de cortesia, sabe, para uma “aprendiz de casamenteira”.

— Ah, puxa. Tinha me esquecido.

— Você tinha se esquecido disso também? Eu preciso do nome até o fim do dia. Apenas me mande um e-mail e farei com que Sienna envie um convite a ela. Um verdadeiro tesouro, a Sienna! Não sei como consegui sobreviver até hoje sem uma assistente. Você ainda não tem uma, tem? Enfim, tenho que ir, Aud. Tchauzinho.

Audrey desligou o telefone e respirou fundo várias vezes. Podia sentir o pescoço queimando. Sheryl era uma nuvem negra de irritação no perfeito céu azul do baile da Associação das Agências de Relacionamentos. Ela já era ruim o suficiente ao telefone, mas ainda pior em carne e osso. E quanta carne! Não que Sheryl fosse gorda, longe disso. Só que ela nunca usava roupa suficiente. Seu busto estava sempre à mostra, apertado numa blusa pequena demais que, invariavelmente, era rosa-choque. E ela sempre cambaleava em saltos altíssimos — às vezes, sem meia-calça! E era um terror na presença de homens. Sempre jogando aquele cabelo oxigenado neles, ou se aproximando para sussurrar uma indiscrição grosseira qualquer. E o que significava aquela conversa toda sobre John? Será que ele era a próxima vítima em que Sheryl tentaria colocar as patinhas? O seu John? Mas John era refinado demais para cair nas garras de uma periguete como Sheryl. Ou não? Audrey sentiu sua indigestão queimar novamente.

Após dez minutos de árduo trabalho administrativo, Audrey se sentiu mais calma. É claro que John não iria se sentir atraído por uma piranha como Sheryl. Ela podia flertar quanto quisesse, mas John ficaria do seu lado. Sabia que podia confiar nele, apesar de seu status atual — temporário. Tocou em seu pescoço. Já estava um pouco mais frio.

Só restava decidir quem levaria ao baile como sua “aprendiz de casamenteira”. Era uma tradição da Associação das Agências de Relacionamentos que cada uma das principais agências levasse um jovem aprendiz, aspirante a casamenteiro. Era uma forma de exibi-los à liga principal de casamenteiros e de inspirá-los a trabalhar e se esforçar para subir na carreira. Uma tradição tola, na verdade. Ela preferiria uma noite longe das garotas e de suas cabecinhas ocas. Mas, ainda assim, tradições existiam para serem seguidas. Audrey contemplou sua equipe e se perguntou quem levaria.

Seu olhar recaiu em Bianca. Se tivesse que escolher uma preferida, seria ela. Ela era o tipo de garota que jogava uma pashmina nos ombros e ficava perfeita. Não era a mais inteligente, mas vinha de uma boa família, estudara num excelente colégio interno e sempre se sentava direito, com as pernas fechadas.

Virou-se para Cassandra. Cassandra era suficientemente bem-educada e uma ótima amazona, mas tinha a tendência a ter pernas tortas. Um pouco Zara Phillips demais e irmã Middleton de menos. Mas, no todo, não era ruim.

Então, havia Hilary. Hilary fora sua primeira funcionária e sabia quase tanto sobre a Mesa Para Dois quanto ela. Tinha ido ao baile várias vezes, antes dos filhos, quando ainda tinha cintura. Mas agora já estava de oito meses e era uma agressão aos olhos. Não poderia levá-la de jeito nenhum.

E, finalmente, havia Alice, que estava olhando pela janela com seu jeito sonhador de costume. Alice estava na agência há trocentos anos e ainda não fora ao baile. Tanto Bianca quanto Cassandra já tinham ido — Bianca duas vezes — mesmo trabalhando na Mesa Para Dois há muito menos tempo. Audrey suspirou. Não adiantava; sabia que teria de ser Alice. Só esperava que ela não a envergonhasse. Tinha certeza que ela iria aparecer com uma roupinha molambenta e chamar a atenção de todo mundo. Podia imaginar Sheryl levantando a sobrancelha. E Barry Chambers fatalmente faria uma piada. Essa menina é uma cruz na minha vida, pensou Audrey com amargura.

Abriu a porta de seu escritório e a chamou. Alice deu um pulo da cadeira, derrubando seus papéis no chão. Audrey ficou olhando enquanto ela se esfalfava para apanhá-los. Seus olhos baixaram até os pés de Alice. O que eram aqueles sapatos feios e volumosos que ela estava usando? Eram… Aquilo era um par de tamancos? Audrey ficou olhando, horrorizada, sem acreditar. Não tinha nem palavras. Voltou para dentro de seu escritório e se sentou pesadamente.

Bem, Alice teria de dar um jeito em suas ideias e em sua aparência, se quisesse ir ao baile anual da Associação das Agências de Relacionamentos, pensou Audrey com raiva. Vasculhou em sua bolsa à procura do talão de cheque. Esqueça o correio; ela faria Alice levar o cheque até a Pombinhos imediatamente. Pensando bem… Talvez Alice e seus sapatos devessem ficar confinados ao escritório; melhor não dar a Sheryl mais munição. Só porque ela era organizadora do evento deste ano, o poder estava claramente lhe subindo à cabeça. A cabeça de Audrey, por sua vez, latejava terrivelmente. Levou a mão à testa e franziu o rosto de dor.

Sim, definitivamente, era um dia daqueles.