Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 42 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Audrey ocupou seu assento favorito, na primeira fila da parte elevada do primeiro andar do ônibus 119. Ela nunca viajava no andar de cima; estava sempre cheio de adolescentes e bêbados. Em vez disso, preferia sua posição vantajosa no andar de baixo, de onde podia formular críticas contundentes sobre os passageiros que desciam.

Essa noite, porém, nem as reprovações desdenhosas do público em geral estavam conseguindo prender a atenção de Audrey. A todo instante seus olhos se desviavam para as ruas, cinzentas e molhadas, e seus pensamentos voltavam a John.

Já haviam passado seis dias inteiros desde o baile e da conversa horrível que tivera no banco do passageiro de seu Audi. Durante seis dias e seis noites, ela tinha repassado as palavras dele até que se entranhassem em seus sonhos quando ela dormia e surgissem diante de seus olhos quando estava desperta.

Eu não sabia que você era assim… dura… tão desprovida de compaixão.

Por várias vezes, Audrey quase pegara o telefone para ligar para Geraldine e exigir uma explicação sobre o que ele quisera dizer com aquilo. Sua mão chegara a tocar o fone em algumas oportunidades, mas ela acabou não telefonando. Afinal, como poderia se explicar sem admitir que havia, de alguma forma, incorrido na desaprovação de John? John, que era tão tranquilo com relação a todo mundo.

Não, seria muito melhor se Geraldine simplesmente desse a Audrey o número do telefone de John para que ela pudesse ligar pessoalmente. Pediria desculpas, prometeria mudar, fazer uma doação à instituição de caridade preferida dele, qualquer coisa que o fizesse perdoá-la.

Mas tampouco havia telefonado para pedir o número dele. Sabia que não dariam. Já havia tentado antes, anos atrás. Tinha usado todo o seu poder de persuasão, mas o número de John continuara firmemente fora de alcance. Era a política da agência. Audrey não tinha coragem de tentar de novo. Não podia encarar uma recusa, não agora que se sentia tão fragilizada.

Em vez disso, havia impotentemente esperado que John entrasse em contato com ela, que ele se desculpasse e implorasse com seus olhos de Paul Newman para que ela esquecesse o incidente todo. As esperanças de Audrey tinham se elevado quando as flores inesperadas chegaram. Tinha prendido a respiração enquanto o entregador tirava o papel do bolso e era direcionado para a mesa certa. Quando ficou claro que ele não estava vindo para seu escritório envidraçado, Audrey já prendera o fôlego por tanto tempo que sua visão estava salpicada de pontinhos negros. Devia saber que John não se desculparia daquela forma. Além disso, ele jamais teria escolhido um buquê de flores tão desagradáveis.

Mas se ela não iria telefonar para Geraldine, e se John não iria telefonar para ela, então o que deveria fazer? Conseguiria viver no limbo até que surgisse outro compromisso profissional? E se os sentimentos de John se endurecessem mais, nesse ínterim? E se o descontentamento da quinta-feira ficasse mais forte? Seria um risco que podia correr? E justo quando vinha sentindo uma evolução no relacionamento deles! As últimas vezes em que vira John, tinha sentido que ele estava cada vez mais perto de declarar seu amor. Mas, agora, a ideia de recuar novamente vários degraus a fez sentir vontade de chorar de raiva e frustração.

Não, não podia simplesmente deixar que as coisas se resolvessem sozinhas. Se havia algo que ela sabia, era que os homens jamais podiam ser deixados ao acaso.

Audrey começou a considerar outra opção. Poderia marcar uma noite com John — não para acompanhá-la a um evento; só uma noite normal da semana, para que eles pudessem desfrutar a companhia um do outro. Poderiam sair para jantar. Seria o tipo de noite que os outros casais têm sempre e, sem a pressão devastadora de um evento formal, talvez o amor deles pudesse voltar a florescer.

Era um grande passo a ser dado, no entanto. Primeiro, haveria o fator constrangedor de ter de agendar o programa. Geraldine, certamente, perguntaria o motivo do encontro. E iria entender imediatamente o porquê do pedido de Audrey e saberia que ela estava desesperada. E havia também o golpe em sua conta bancária a ser considerado. Uma noite com John não era barata e ela não iria poder disfarçá-la como despesa profissional.

O ônibus entrou na rua Sidwell e ela tocou o sinal. Passou pela porta dupla e desceu na calçada. Tinha começado a chuviscar.

Que escolha ela tinha com relação a John?, perguntou a si mesma ao subir rapidamente a rua, a chuva leve já fazendo seu cabelo encrespar. Teria de fazer aquilo. Teria de enfrentar Geraldine, marcar um restaurante e encarar a despesa de uma noite com John sem um evento que a justificasse. Era um risco, mas talvez sua jogada compensasse. John veria que ela queria passar tempo com ele, e não apenas contratá-lo por motivos profissionais. E esse poderia ser o impulso de que ele precisava para revelar seus sentimentos. Ao diabo com o dinheiro! Se tudo corresse de acordo com o planejado, talvez nunca mais precisasse pagar pela companhia dele! Poderia ser a primeira de centenas de noites descompromissadas com John. Poderia ser a noite em que 11 anos de sonhos finalmente se realizariam!

Os passos de Audrey ficaram mais saltitantes. Estava decidido, pensou consigo mesma, o peso da inércia se esvaindo de seus ombros. Ela tinha um plano!