Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 55 de 90

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Par Perfeito

Alice

— Sabe, é como você disse, quando a gente se conheceu. — Kate sorriu do outro lado da mesa de canto, na loja de chás. — É preciso ter a mente aberta. A vida é realmente mais excitante quando você se permite ser surpreendida!

Seus olhos brilhavam e ela estava cheia de energia, perseguindo com o garfo os últimos vestígios do bolo de chocolate em seu prato.

— Então, imagino que não precise marcar mais nenhum encontro para você, por enquanto. — Alice sorriu.

— Não, obrigada! — disse Kate, radiante. — Quero ver como vão as coisas com Tommy. Eu sei que ele não cumpre nenhum dos meus requisitos estúpidos, mas você estava completamente certa com relação a ele!

— Fico muito feliz em saber disso — respondeu Alice, tentando se controlar para que sua imensa satisfação não transbordasse e inundasse a loja de chás. Não havia nada melhor do que fazer uma união bem-sucedida. — Às vezes é bom correr riscos, não é?

Kate assentiu com veemência.

— E lembre-se: nem uma palavra para ninguém da Mesa Para Dois. — Alice tentou inserir na frase um tom de advertência, mas era difícil parecer séria com o sorriso de júbilo estampado em seu rosto.

Algumas horas depois, Alice ainda sorria alegremente ao sentar-se diante de John, num restaurante à luz de velas num bairro bucólico da cidade.

Tinha sido uma noite incrível. Alice nunca conhecera ninguém que a fizesse se sentir tão atraente e à vontade quanto John. Sentia que podia dizer qualquer coisa a ele, admitir qualquer coisa — até mesmo vestir qualquer coisa, de seu cardigã mais folgado a suas roupas de jardinagem mais surradas. Contudo, havia alguma coisa em John que a fazia querer ficar bonita, usar um vestido, passar um pouco de batom. Ele fazia com que se sentisse mulher. E eles ainda nem haviam transado!

Toda vez que Alice pensava na possibilidade de ir para a cama com ele, ficava toda mole de excitação. Sexo, ou o que podia se lembrar a respeito, sempre fora uma experiência superficial para ela, uma coisa a cumprir logo para se livrar do assunto. Nunca sabia muito bem o que estava fazendo, então ficava na sua e deixava o homem tomar a dianteira. Com John, no entanto… mal podia esperar para transar com ele, adormecer em seus braços para que aqueles olhos e aquele sorriso fossem a primeira coisa que visse ao acordar na manhã seguinte. Esperava que acontecesse logo; esperava que acontecesse esta noite!

— Então, você conseguiu — parabenizou-a carinhosamente do outro lado da mesa, tomando sua mão e entrelaçando os dedos nos dela. — Você encontrou o par perfeito para a sua executiva!

Alice sentiu um arrepio delicioso subir por seu braço, partindo do toque dele.

— Ainda é cedo para dizer, mas acho que sim. — Não conseguia parar de sorrir. — Ela certamente tinha aquela expressão típica estampada no rosto. De uma mulher que está se apaixonando.

— E tudo isso porque você assumiu correr um risco — disse John enfaticamente.

Alice olhou em seus olhos. Eram exatamente do mesmo tom de azul dos miosótis. Parecia perfeito que aquilo que achava mais atraente nele fosse algo em comum com uma das flores mais lindas e descomplicadas.

— Mas foi mais do que isso, não foi? — continuou ele, apertando os dedos dela. — Foi porque você a fez perceber que ela precisava estar mais aberta e dar uma chance às pessoas.

Ele se inclinou na direção dela, olhando-a com sinceridade. Alice se sentiu derreter lentamente sob aquele olhar, como um sorvete escorrendo sobre uma torta quente de maçã. Era assim, então?, ela se perguntou. Era essa a sensação de se apaixonar? Com certeza era boa. Melhor do que qualquer coisa que houvesse sentido antes.

— Você está me fazendo parecer muito inteligente, mas não sou, na verdade. — Ela tentou aliviar a intensidade dos elogios dele. — Só acho que acreditamos que nosso par perfeito tenha de ser de uma determinada maneira. Mas não é verdade, não mesmo. Pares perfeitos vêm em todas as formas e tamanhos.

— Precisamos estar mais abertos às surpresas.

— Exatamente!

Ela o sentiu retirar a mão. De repente, ele pareceu hesitar. Ela o viu pegar a colher de sobremesa e brincar com ela, pensativo.

— John, está tudo bem? — perguntou ela, hesitante.

— Sim, sim — respondeu ele, mas seu rosto dizia o contrário. — Olha — disse ele, de repente —, eu sei que só tivemos alguns encontros e que ainda é cedo… Mas espero que você saiba quanto eu gosto de você.

Alice tentou sorrir, mas, subitamente, se sentia nervosa.

— Vejo um futuro para nós, de verdade. — Seus olhos de miosótis se encontraram com os dela. — Não tenho um relacionamento há muito, muito tempo e, agora que te conheci, não quero te perder.

O sorriso de Alice se congelou. Por que ele iria perdê-la? Qual era o problema?

John suspirou pesadamente.

— Tem uma coisa que eu preciso te contar. Quero que você saiba a verdade para que possamos seguir adiante… juntos.

— Ai, meu Deus, você é casado… — soltou Alice, em pânico.

— Não.

— É a Audrey, então. Você tem um relacionamento com ela, afinal.

Alice estava começando a se sentir mal.

— Mais ou menos — disse John com hesitação. — É sobre isso que preciso conversar com você.

Um nó cego se formou no estômago de Alice. Devia saber que era bom demais para ser verdade. John era bom demais. Mulheres como ela não saíam com homens como ele.

— As coisas são complicadas — admitiu John.

Ele fixou o olhar na mesa, aparentemente sem saber o que dizer em seguida.

— Então, você e Audrey são mais do que apenas amigos? — Alice se ouviu perguntando. Mal podia suportar ouvir a resposta dele.

Houve uma longa pausa.

— Audrey e eu temos uma… relação profissional — revelou John baixinho.

— O quê? — Em sua surpresa, Alice esqueceu o nervosismo. — Você também trabalha na área de relacionamentos?

— Trabalho numa… área semelhante.

— Como assim?

— Por favor, Alice. Por favor, não tire conclusões precipitadas.

Os olhos dele lhe imploravam. Ela assentiu, muda.

— Audrey e eu temos uma relação profissional… na qual eu concordo em… acompanhá-la em certas noites.

Ele olhou para ela, para ver se estava entendendo. Ela lhe devolveu um olhar inexpressivo.

— Como na noite em que você me conheceu. Eu não estava lá como amigo de Audrey. Estava trabalhando.

— Como assim, trabalhando? Você tem alguma coisa a ver com a ADAR?

— Mulheres… bem… mulheres como Audrey… podem me contratar para ir a eventos com elas. Ser seu par de aluguel.

Ela ainda não parecia entender. John dispensou com um gesto o garçom que viera até a mesa e pegou a mão dela novamente.

— Essas mulheres são solteiras — explicou ele com gentileza. — E, geralmente, o evento é um compromisso de trabalho ou um casamento do qual elas não podem escapar; elas têm que ir. Mas estão realmente preocupadas. Têm vergonha de ir sozinhas. Ou, talvez, não queiram que as pessoas saibam que estão solteiras. Então, elas me contratam para ir com elas.

Houve mais uma pausa.

— Não entendo… — A voz de Alice saiu baixa, quase um sussurro.

John segurou sua mão com mais força.

— Alice, levar essas mulheres aos eventos, bem, esse é o meu trabalho. Eu as acompanho.

— Acompanha? — ecoou ela, de forma vazia, o cérebro acelerando para chegar à verdade, mas o coração já querendo desacelerar para não chegar nunca.

— Sim. Elas me contratam através da minha agente e eu as acompanho a qualquer lugar aonde precisem ir.

Ela olhou para a mão dele, que apertava a sua com força.

— Alice, eu sou um… — Ele respirou fundo. — Sou um acompanhante profissional.

Houve uma pausa. As palavras desabaram sobre os ouvidos de Alice. Algo começou a penetrar. Uma sensação fria, dormente, percorria seu corpo como uma anestesia venenosa, amortecendo os membros por onde passava.

— Então essas mulheres pagam pela sua companhia? — A voz dela soou rígida e estranha.

— Sim.

— E você faz tudo que elas quiserem?

— Bem, não exatamente. Elas somente pagam pela minha companhia, mais nada.

— Mas você age como namorado delas? Você é delas por aquela noite?

— Imagino que sim, claro.

— E esse é o seu trabalho? Sair com mulheres por dinheiro?

— Sim.

— E é isso que você faz pela Audrey? É essa sua “relação especial”? Você finge ser o marido dela e ela te paga para fazer isso?

Ele assentiu com um gesto mínimo, silencioso.

Lentamente, ela puxou a mão.

— Alice, por favor… Deixe-me explicar melhor. Não é assim tão ruim quanto parece.

— Não sou burra — disse ela baixinho, a voz trêmula. — Posso ser facilmente ridicularizada porque sou solteira e gosto de jardinagem e não sigo a moda. Mas não sou idiota. Eu sei o que isso significa.

— Mas não significa o que você está pensando! — John tentou pegar a mão dela de novo.

— Eu vivo no mundo real, sabe?

— Sei, é claro. Mas eu juro, por tudo que é mais sagrado, eu só as acompanho, mais nada.

Alice lutou para respirar, tomando o cuidado de não deixar que John a tocasse. Se ele a tocasse, ela desmoronaria, e não podia se arriscar. Se havia uma coisa, no meio daquela noite desgraçada e confusa, era a absoluta certeza de que não podia chorar. Não podia olhar para ele. Não podia nem sequer encher os pulmões de ar. — Preciso ir para casa agora — conseguiu soltar. — Preciso pensar.

— Sim, claro — disse John com relutância. — Mas, por favor, não pense demais. Não é o que você imagina. Ainda sou o mesmo homem.

Alice se levantou.

— Mantenha a mente aberta — implorou ele. — Assim como você diz às suas clientes. Por favor, Alice! Siga seu próprio conselho.

Em silêncio, Alice seguiu até a porta.