Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 6 de 90

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Par Perfeito

Kate

Kate abriu a porta do escritório, olhar fixo para o chão. Concentrou-se em chegar à sua mesa o mais rápido possível. Enfiou as sacolas de compras sob a mesa e tentou passar a impressão de que já fazia um dia e meio que estava ali, naquele mesmíssimo lugar.

Olhou disfarçadamente para seu relógio. Por que se sentia tão culpada toda vez que parava para almoçar? Só saíra por 45 minutos; mal dava tempo de Julian, seu chefe, terminar a entrada no The Privet. Julian sempre fazia almoços ridiculamente demorados. E Kate sempre trabalhava durante os seus. Não pela primeira vez naquele dia (ou em qualquer dia), Kate ponderou sobre a amarga ironia de que quanto mais você ganhava e mais era promovido no trabalho, menos horas você se preocupava em trabalhar pelo salário.

Horários normais de trabalho não se aplicavam nem a Kate nem a Julian, só que de maneiras totalmente opostas. Kate era sempre a primeira a chegar no escritório às 7h30 e era sempre a última a sair. Julian, porém, seguia o horário de uma criança do ensino fundamental. Ele chegava às 9h e passava a primeira meia hora empoleirado na mesa de algum colega azarado, balançando arrogantemente a perna, comendo um croissant e espalhando farelos por todo lado (Kate já havia, em várias ocasiões, ido ao toalete no meio da manhã e encontrado vestígios do desjejum de Julian em seu cabelo). E, então, ele saía para algumas supostas reuniões, que envolviam principalmente risadas espalhafatosas em resposta a piadas toscas de clientes do sexo masculino, ou flertes repulsivos com as clientes do sexo feminino.

Uma manhã intensa de risadas e flertes seria finalizada por um almoço, que ia geralmente das 12h às 15h. A isso se seguiria uma meia hora extremamente ruidosa no escritório, na qual Julian exigia ver o planejamento estratégico de divulgação/imprensa de todo mundo e fazia pouco caso das ideias alheias, antes de pular em seu carro esporte e abandonar o barco. Às 15h30, o Blackberry de Julian seria desligado enquanto ele papagaiava bobagens sobre ir fazer brainstorming ou networking. Mas todos sabiam que ele sairia cantando pneu do estacionamento e iria direto para o clube privê só para cavalheiros mais próximo. Ou, falhando isso, vestiria um colete ridículo e iria para uma quadra de tênis bater bola com um chapa dos velhos tempos de colégio.

Kate o odiava.

Muito.

No entanto, amava seu trabalho.

Muito.

Por mais irritante que o chefe fosse, trabalhar para a empresa de assessoria de comunicação de Julian Marquis era fantástico. E Kate tinha de admitir que, nos poucos minutos do dia em que Julian trabalhava, ele era brilhante. A Julian Marquis AC era a melhor empresa de assessoria de comunicação da cidade e conseguir um emprego ali dava um impulso enorme à carreira. O horário de trabalho era exaustivo, mas não havia dois dias iguais, e observar Julian tecer uma nova ideia ou manipular um editor de tabloide para que escrevesse exatamente o que ele lhe dissera para escrever era sempre assombroso. Sem falar que ver uma nota escrita por ela publicada num jornal de circulação nacional nunca deixava de enchê-la de orgulho.

Enquanto Kate revisava rapidamente seus e-mails, seu olhar desviou-se para suas sacolas de compras. Sentiu uma pontada de culpa pela surra que dera no cartão de crédito; no entanto, a culpa foi rapidamente superada por uma onda de animação. Que mulher com sangue nas veias não era levada ao êxtase com a compra de um par de sapatos debilitantemente caro, mas absurdamente lindo? E Kate conseguira comprar três pares novos só naquela hora de almoço! Fora uma necessidade. Bem, um deles, pelo menos. Ela precisava ter a aparência certa para sua reunião na Mesa Para Dois. Já passara horas agonizando sobre o que vestir. Queria dar aquela impressão. Não queria parecer ansiosa demais ou… solteira demais. Queria parecer uma mulher bem-sucedida; alguém no controle da própria vida; alguém em quem os homens vivessem se atirando em cima. Ela queria parecer o tipo de mulher que não precisava de forma alguma ir a uma agência de relacionamentos, mas que estava disposta a tentar em nome de uma experiência social moderna. O traje certo, acreditava Kate, poderia expressar isso tudo. E, como toda mulher sabe, o traje perfeito sempre começa com os sapatos.

Kate resistiu à tentação de fotografar suas novas aquisições com o iPhone e enviar as fotos para Lou. Em vez disso, empurrou as compras para onde não pudesse ver e se dedicou a trabalhar. Hoje precisava realmente se concentrar na conta de um de seus clientes menos glamorosos: a Kachorro Kente. (“Vocês podem achar que é lixo”, Julian declarara alegremente quando Kate e seus colegas suspiraram, ao saber que tinham conquistado a conta, “mas para mim são 12 parcelas da hipoteca e uma semana no sul da França”.)

O cliente de Kate, um fabricante de ração para cachorro, havia criado uma nova variedade de “pedaços de carne em conserva para o cão exigente” e dera à Julian Marquis AC a tarefa de encontrar formas “sexy” de promover seu produto. Kate se segurara para não engasgar de rir quando o cliente dissera aquilo, com uma cara séria e honesta, na reunião de estratégia. Mas fora ainda mais difícil não ter uma convulsão (tão difícil que, de fato, chegara a doer) ao ver Julian fazer das tripas coração para concordar que os novos pedaços de carne em conserva realmente pareciam apetitosos e que os alimentos para cães nunca tinham sido tão gourmet.

Kate logo se perdeu em pensamentos sobre como, exatamente, conseguiria fazer com que comida para cachorro parecesse sexy…

Duas horas depois, Julian irrompeu estrondosamente no escritório, a jaqueta amarrotada e os olhos preocupantemente arregalados.

— Katinha, minha darling! — clamou de forma extravagante. — O que tá faltando?

Kate detestava ser chamada de Katinha. Só Julian a chamava assim. Ela o havia corrigido inúmeras vezes, mas parecia entrar por um ouvido e sair pelo outro.

— Só estou finalizando algumas ideias para a conta da Kachorro Kente — ela conseguiu dizer, educadamente.

— Ah, miúdos maneiros para o seu bicho bacana. Bem, vamos lá, então! Me sssssurpreenda. — Julian arrastou o bico sarcasticamente, sentando-se na mesa dela. — Me conte como você vai conseguir fazer todos nós desejarmos ser cãezinhos de madame pulguentos só para devorar os novos petiscos da Kachorro Kente.

— Bem — começou Kate, sem jeito. Podia ver que todos no escritório estavam prestando atenção. — Sabe aquelas feiras livres de pequenos produtores de orgânicos?

— Sei, sei, sei.

— Bem, pensei em fazermos um festival de ração gourmet ali — sugeriu Kate, hesitante.

— Éééééééééé… prossiga — pediu Julian, pensativo.

— A Kachorro Kente podia ocupar uma praça durante um dia inteiro e montar várias barracas com chefs de cozinha… chefs de verdade, com chapéu e roupa branca… preparando deliciosos pratos orgânicos só para cães.

Houve uma pausa. Kate prosseguiu, vacilante.

— Então, teríamos um monte de frigideiras e churrasqueiras de altíssima qualidade, todas cozinhando coisas diferentes. Por exemplo, um chef poderia preparar um cozido de carneiro orgânico e os cães poderiam vir experimentar… depois que esfriasse, lógico. Os chefs poderiam ir descrevendo as receitas, conforme as fossem preparando, para que os donos vissem em primeira mão que tipo de ingredientes a Kachorro Kente usa… que seriam todos frescos e fornecidos por produtores locais. E outra barraca poderia fazer pratos caninos à base de peixe: bacalhau grelhado, talvez? Ou croquetes de salmão? E outra poderia fazer sobremesas caninas: todas sem açúcar… Teriam de ser saudáveis e boas para os dentes dos cães. Eu estava pensando em cupcakes caninos, com abobrinha ralada escondida na massa e, em vez de glacê, poderiam ser cobertos com uma mistura de purê de maçã e cream cheese. Contém muito menos gordura, principalmente usando cream cheese light. Eu vi num programa de dietas… Para humanos, obviamente — acrescentou depressa, percebendo que o escritório mergulhara num silêncio mortal. — Acho que ainda não fazem programas de dietas para animais de estimação.

Julian estava atipicamente quieto. Houve uma longa pausa. O ar tinia de tensão. Kate, humildemente, acrescentou sua ideia final.

— E, no fim do dia, os cães poderiam ir para casa com uma sacolinha de amostras das barracas… tipo… uma quentinha de restaurante… que a gente leva para o cachorro.

Alguém riu com desdém. O estômago de Kate se apertou.

— Não sei do que você está rindo! — Julian recobrou vida, olhando feio para o funcionário. — Katinha, minha craque, é uma ideia absolutamente genial!

Kate se sentiu amolecer de alívio.

— Ge-ni-al! — exclamou ele, começando a dançar pelo escritório. — A Kachorro Kente irá desvanecer de excitação! — Ele beijou o topo de sua cabeça. — Rápido! Anote tudo e marque uma reunião com o pessoal da KK pra ontem. Eles vão adorar!

E foi valsando até seu escritório.

Kate se sentiu quase tonta com o elogio. Julian gostara da ideia! Mal podia acreditar! Olhou para seu relógio. Talvez chegasse em casa num horário decente, afinal. De fato, esperava que sim. Esta noite ela queria definir que traje usaria para a reunião na Mesa Para Dois — e planejar também seus acessórios. A reunião com Alice seria só dentro de alguns dias, mas gostava de se preparar com antecedência. Afinal, tinha muita coisa dependendo daquilo: um fim às noites solitárias de sexta-feira e uma vida de felicidade amorosa em potencial, nada menos! Tinha que dar certo.

Sorrindo, ela se virou para seu computador e abriu um novo documento.