Par Perfeito
Alice
Alice abriu a porta de casa e colocou as chaves no pratinho. Era meia-noite e meia e ela estava acabada.
Os últimos dias tinham sido exaustivos. Enquanto segurara a mão de Hilary na sala de parto, gritando palavras de estímulo e apoio da melhor forma possível até que o marido dela, Kevin, encontrasse uma babá e fosse para o hospital, conseguira esquecer as noites insones do fim de semana. Tivera um ataque súbito e poderoso de energia positiva que deixou de lado todos os pensamentos sobre John, sua vida dupla e o penoso vazio que ele havia deixado. Ela fora um verdadeiro bálsamo de otimismo ao elogiar, animar e incentivar sua amiga. Porém, quando o bebê já estava coroando e Kevin chegou, Alice tentou sair da sala de parto de fininho.
— Ei, aonde você pensa que vai? — indagou Hilary com ferocidade, afastando-se de seu óxido nitroso e olhando para Alice como uma demente.
— Pensei em dar um pouco de privacidade para você e o Kevin…
— Privacidade, o escambau! Você já passou as últimas horas olhando para a minha perereca. Pode muito bem ficar para ver eu me borrar toda, gritar que nem uma patricinha histérica e botar essa criatura enorme para fora! — gritou Hilary.
Percebendo que não era páreo para uma mulher em trabalho de parto, Alice ficou e se uniu a Kevin, segurando a mão de Hilary durante os últimos minutos do parto e sentindo todos os ossos de sua mão serem esmagados pela força ancestral da Mãe Natureza em ação. E, quando Kevin segurou seu menininho recém-nascido, pai e filho piscando um para o outro em perplexo reconhecimento, Alice se sentou e deu seu primeiro sorriso verdadeiro em dias. Mas quando Hilary, exausta, tomou o filho junto ao peito com ternura e beijou o alto de sua cabecinha coberta de gosma, alguma coisa estalou de repente na cabeça de Alice, com um clique tão sonoro que mal podia acreditar que as enfermeiras não tivessem escutado. De repente, tudo fez sentido. Ali, naquele quarto, estava o real significado da vida: parceria, nascimento, família. Era o que realmente importava. Mas era o que ela jamais teria.
Hilary e Kevin estavam felizes demais para notar a luz se esvaindo do sorriso de Alice. Ela passou mais alguns minutos com os inebriados pais e, então, discretamente, deixou o quarto.
Ao entrar no táxi, não conseguiu mais segurar as lágrimas. Soluçou indiscriminadamente, assustando o taxista com seus lamentos mal disfarçados. Chorou por Hilary, Kevin e o bebê. E chorou por si mesma e por John, e pelo futuro que ela havia perdido e os sonhos que havia estilhaçado. E chorou por Kate e sua determinação em encontrar o Par Perfeito e ter filhos. Ela nunca tinha pensado em ter filhos; não houvera um homem em sua vida com quem quisesse tê-los. Mas será que poderia ter sido ela e John, um dia, na sala de parto, igual a Hilary e Kevin? Será que eles teriam chegado tão longe? Será que ainda poderiam chegar?
Tirou o telefone do bolso e repassou suas mensagens até encontrar a de Ginny.
Confie nos seus instintos, Alice. Eles nunca se enganaram.
O problema era que já não sabia mais quais eram seus instintos.
Pela primeira vez se perguntou se teria cometido um erro ao se afastar de John e sair do restaurante. Talvez devesse ter ouvido o que ele tinha a dizer, sido mais aberta, dado uma chance? Talvez pudesse se acostumar a passar as noites sozinha, esperando que ele voltasse de seus encontros com outras mulheres. Talvez, no fim, ela pudesse se acostumar a compartilhá-lo. Mas, não: em seu coração ela sabia que jamais poderia fazer aquilo. Algumas mulheres conseguiriam; poderiam ser frias, racionais e tranquilas com relação ao trabalho dele. Mas não Alice. Não a viciada em romantismo. Ela tinha uma imaginação fértil demais para isso. Toda vez que John saísse para trabalhar, sua mente a levaria para passear no inferno.
De volta a seu apartamento, ela despiu o casaco e foi até a cozinha, sem se dar ao trabalho de acender as luzes. As cortinas ainda estavam abertas e a lua cheia iluminava o ambiente. Encheu a chaleira de água e se sentou à mesa da cozinha, exausta. Adormeceu antes mesmo que a água fervesse.