Par Perfeito
Seis Meses Depois...: ALICE
Ficava a apenas cem metros do mar e tinha uma porta vermelha com uma aldrava de metal brilhante. Alice ficou parada na calçada, apertando a mão de John com excitação.
— É de estilo eduardiano — explicou ele.
— É perfeita! — exclamou ela. E era mesmo. Era tradicional, discreta, austera e segura; o tipo de lugar que os clientes se sentiriam à vontade para visitar.
— Então, vamos realmente… dar esse passo? É definitivamente o que você quer? — perguntou ele.
— Cem por cento!
— Os dois andares superiores têm espaço de sobra para morarmos e o escritório pode ser ao nível da rua. E tem um jardim enorme, virado para o sul, portanto recebe muito sol. Pense em tudo que podemos plantar!!! Girassóis, ervilhas-de-cheiro, madressilvas!
— E azevinho, cactos e tulipas vermelhas — acrescentou ela, sorrindo como o Gato de Alice no País das Maravilhas.
— É claro! Isso não precisa nem dizer — John devolveu o sorriso para ela. — Amanhã, achei que pudéssemos conhecer os bares locais. E Ginny e Dan já prometeram vir nos visitar.
— É melhor eles se apressarem! Gin terá o bebê em uns dois meses! — Alice riu conforme seus olhos absorviam o prédio. Tudo ali parecia diferente: excitante. As pessoas pareciam diferentes, os jardins pareciam diferentes. Até o ar tinha um cheiro diferente e não era apenas o aroma tentador de peixe com batatas fritas que estava entrando deliciosamente por suas narinas. — Me sinto tão feliz que poderia explodir — disse ela alegremente. — Parece tão perfeito. É um novo começo!
John a puxou mais para perto.
— É o nosso felizes-para-sempre. — Ele sorriu.
— Isso parece um final! — Alice riu. — Mas, na verdade, é um começo. Nosso começo! — Ela o fez girar numa dança enlevada na calçada, enquanto as gaivotas gritavam acima.
Tudo em sua vida parecia estar começando. O verão passara tão depressa, num turbilhão estonteante e cheio de animação. Ela vendera rapidamente o apartamento na Eversley Road e se mudara para a casa de John. Sempre achou que seria triste deixar seu apartamento e seu jardim, mas mal olhara para trás. Só estava há alguns meses com John quando ele também encontrou um comprador para sua casa e, agora, ali estavam eles, montando suas vidas juntos em um novo lugar.
— E venha olhar aqui. — John a pegou pela mão, animado, e a levou até a lateral da casa. Alice olhou pelo corredor de pedra que levava até o jardim dos fundos. Alguma coisa à esquerda atraiu seu olhar.
— Uma bicicleta nova! — exclamou ela. E, então, viu outra coisa. — Você comprou um suporte! Meu próprio suporte de bicicleta!
— É só uma coisinha para que você se sinta em casa — explicou John timidamente. — Além do mais, agora que você tem uma bicicleta melhor, parece uma pena deixá-la encostada num canto qualquer.
— Adorei! — declarou ela. E era verdade. Correu para examinar a bicicleta e o suporte. A bicicleta tinha, talvez, sido a maior surpresa dos últimos seis meses — ou, melhor: a pessoa que a dera. Audrey mal havia olhado Alice nos olhos durante a semana em que pedira demissão, e Alice se conformara em receber apenas silêncio durante o mês inteiro de seu aviso prévio. Não se importava; entendia por que Audrey achava que ela o merecia. Mas, pouco a pouco, Audrey fora relaxando. Começara a incluir Alice em discussões no escritório e até lhe trouxera café quando, de forma pouco característica, saíra para comprar cappuccinos para o pessoal do escritório. Mas, apesar da reconciliação, Alice nunca esperara uma festa de despedida e menos ainda um presente.
— É de segunda mão — Audrey havia declarado ao trazer a bicicleta até o Luigi’s. — Foi ideia do Maurice.
Alice tinha ficado tão emocionada que mal pudera segurar uma lágrima. A bicicleta era perfeita e a cestinha era enorme e espaçosa. Antes que pudesse até mesmo pensar em se calar, ela se ouviu perguntando, em voz alta:
— Audrey, você sabe se algum dos cinco primeiros pares que você formou ainda está casado?
— Meu Deus do céu, eu sou uma casamenteira, não milagreira! — respondeu Audrey, com surpresa. — Na verdade, um dos pares pode ter se casado só para que a esposa pudesse ficar no país. Eu nunca teria juntado os dois se soubesse… posso ter sido cúmplice num crime de imigração! Não, o único casal que acredito que ainda esteja junto é o meu primo de segundo grau e a esposa. Faz anos que não temos contato, mas a última notícia que recebi era que eles tinham três filhos e não tenho motivos para duvidar que ainda estejam firmes e fortes.
Alice desejou de todo coração ter tido a coragem de perguntar para Audrey antes. Então, por alívio e gratidão, ela levara Audrey a um canto tranquilo e compartilhara com ela a única coisa que tinha para dar: conhecimento. O queixo de Audrey caíra quando Alice lhe contou sobre a estratégia de Sheryl para ganhar dinheiro. Ela tinha ficado tão espantada que não pudera falar por vários minutos. Alice sentiu um profundo afluxo de vergonha por ter, ainda que fugazmente, desconfiado que Audrey pudesse ser capaz de fazer a mesma coisa.
— Isso é um absurdo! — Audrey finalmente desabafou. — Imperdoável! Pobres clientes…
E prometera usar a informação com sabedoria. Não houve nem vestígios do fervor pelo poder que Alice teria esperado dela ao receber uma carga de munição contra Sheryl. Apenas um assentimento sério e uma breve declaração de que iria cuidar para que as coisas fossem esclarecidas. Alice sabia que Audrey iria fazer a coisa certa. E por causa da entente cordiale que estabelecera com sua chefe, não houve qualquer rancor pela sua partida.
John interrompeu o devaneio de Alice com um aperto em sua mão e eles voltaram até a frente da casa.
— Então — provocou ele, gentilmente. — Agora só nos resta decidir o nome para esse nosso empreendimento comercial.
— Sim, estive pensando nisso! — anunciou Alice, animada. — Você sabe que a nossa agência de relacionamentos será um pouco diferente, né? Que vamos usar nossas experiências para oferecer serviços completos para encontrar o amor…coaching pessoal, elevação da autoestima, etiqueta no relacionamento e compatibilização de pessoas!
John assentiu, sorrindo diante da animação dela.
— Bem, eu acho que isso parece ser algo à moda antiga… mas de um jeito positivo! Nossos clientes receberão um toque pessoal. Vamos ensinar o que se deve e o que não se deve fazer nos encontros e desmistificar todas as regras tácitas para ajudar as pessoas a serem mais confiantes, se divertirem e se apaixonarem. Vamos cuidar delas como se fôssemos o melhor amigo, ou como uma tia experiente e sábia.
John riu.
— Por favor, não me diga que você vai chamá-la de “Tia John”?
— O que quero dizer é que cuidaremos de nossos clientes de uma forma que ninguém mais faz; levando o tempo que for preciso para conhecê-los. É o tipo de serviço que as pessoas costumavam receber, antes dos computadores e das otimizações de lucros. Portanto, se vamos dar um toque pessoal, nós devemos ser pessoais. Nós somos Alice e John: Srta. Brown e Sr. Smith! — Ela olhou para ele, cheia de expectativa.
— Você quer chamar nossa agência de “Srta. Brown e Sr. Smith”…? — John refletiu sobre aquilo. — Bem, não é meloso. E não é um clichê enjoativo como Pombinhos ou Um Lindo Romance…
— É honesto.
— É certamente à moda antiga…
— É nós!
— Na fita!!! — ponderou John com humor. — Mas eu acho que podemos fazer melhor do que isso.
— ?!?!? — Alice tentou não parecer desapontada. Ela o viu observar o imóvel enquanto fingia refletir profundamente. A rua já estava ficando mais tranquila no final da tarde e ela pôde ouvir o barulho gentil do mar. O fim da tarde de outono banhava a pele de John com uma luz dourada. Ele parecia exótico, como algo precioso — mais precioso do que jamais poderia esperar para si mesma. E, então, ele se voltou da porta vermelha, os olhos azuis cintilando, e seu rosto se abriu num sorriso esplêndido.
— Esqueça “Srta. Brown e Sr. Smith”! — Ele sorriu. — Eu acho que “Sr. & Sra. Smith” soa muitíssimo melhor! — E tomou ambas as mãos de Alice nas suas e se abaixou, colocando um joelho na calçada. — Eu te amo, Srta. Brown — disse ele baixinho. — O dia em que te conheci foi o dia de maior sorte em toda a minha vida. Você me daria a honra de concordar em ser minha esposa?
O coração de Alice deu um pulo e ela caiu de joelhos e o beijou, ali mesmo na bela luminosidade de fim de tarde, na calçada. Sabia que sempre estivera certa em acreditar em Príncipes Encantados, em ter fantasias e ser uma viciada em romantismo sem qualquer vergonha. Estivera certa em acreditar que um dia encontraria um homem que não se importaria se ela usasse cardigãs, andasse numa bicicleta vintage e preferisse fazer jardinagem a ir a boates. E agora ali estava ela, mais feliz do que jamais acreditara possível, sendo levantada por ele e tomada nos braços de seu próprio Par Perfeito. E eles estavam prestes a partir rumo ao pôr do sol. Ela o apertou com entusiasmo ao imaginar a vida que teriam juntos: Alice, a jardineira casamenteira e seu perfeito Príncipe Encantado, John Smith!
Você terminou Par Perfeito
Eleanor Prescott
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