Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 4 de 90

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Par Perfeito

Lou

— Eu vou fazer — declarou Kate, em tom de desafio, no outro lado do telefone. — E você também deveria.

— Hã…? — Lou procurou seu relógio com a mão, ao lado da cama. — Puta que pariu, Kate, que horas são? É melhor que seja uma emergência. É melhor que a sua mãe tenha morrido.

— Cinco para as nove — respondeu Kate, sem rodeios. Lou podia ouvir o burburinho abafado do escritório ao fundo. Kate era madrugadora e provavelmente já estava no trabalho havia várias horas. Lou não podia ser classificada como uma pessoa matinal e escolhera trabalhar em bares justamente para poder começar às 11 da manhã.

— Você ouviu o que eu disse? Vou fazer.

Lou esfregou os olhos e recaiu pesadamente sobre o travesseiro.

— Fazer o quê, sua doida destruidora de sono? — bocejou ela. Esticou a mão até o outro lado da cama. Estava vazio. Com uma careta, lembrou-se da noite anterior.

— Minha inscrição na agência de relacionamentos Mesa Para Dois e conhecer o homem dos meus sonhos.

Lou emitiu um ruído estranho, entre uma risada, um bocejo e uma fungada.

— Cê tá brincando, né?

— Não, estou falando supersério. No serviço personalizado deles.

— Você bebeu?

— Claro que não; são cinco para as nove!

Lou esfregou novamente os olhos. Um pouco da maquiagem da noite passada se espalhou pelo rosto.

— Então, deixe-me ver se entendi direito. Você caiu e bateu a cabeça depois que saiu do bar ontem à noite, e acordou achando que entregar não sei quanto do seu tão suado dinheirinho para aquela matrona ruiva com os peitos caídos até os joelhos vai fazer toda a diferença e que você, de repente, vai encontrar um cara e viver feliz para sempre?

— Não vou contratar Audrey; não sou totalmente louca! — Kate riu. — Se ela atender o telefone, eu desligo. Não, vou telefonar para aquela simpática da Alice.

— A bibliotecária molambenta de meias de lã? Excelente ideia!

— A aparência dela não importa. O que importa é que ela vai me apresentar a novas pessoas; ampliar meus horizontes.

Lou se sentou.

— Você quer dizer, baixar seu nível e fazer você se encontrar com caras retardados! Jesus, Kate. Você lembra como os caras de ontem eram esquisitos? Eles estavam tão abaixo de você, eles são… são… — Lou jogou o edredom longe, com raiva, e saiu da cama. — Isso não tem graça nenhuma. Você só pode estar me sacaneando. O que há de errado em ir ao bar ou usar a internet, como todo mundo?

— A internet é para comprar sapatos, não para encontrar homens.

— Que desculpa mais esfarrapada.

— Não é, não — respondeu Kate com acidez. — É só que eu não quero relacionamentos pela internet. É devassado demais, publicar seu perfil para todo mundo ver; não confio na motivação das pessoas; elas nunca dizem a verdade. E quanto a ir a bares… viu o que aconteceu com o barman de ontem à noite?

— Como é que é? Ah, tá. Não era meu tipo.

— Desde quando existem homens que não são seu tipo?

Lou arqueou uma sobrancelha.

— Pelo menos eu tenho um tipo. Enfim, ainda não vejo por que você precisa contratar uma agência de relacionamentos. É um pouquinhozinho ultrapassado.

— Não quero fazer isso seguindo a moda, quero fazer direito. Estou cansada de trabalhar para encontrar um namorado. Trabalho pra caramba no escritório o dia inteiro. Encontrar namorado não deveria ser mais uma tarefa a cumprir. Então, vou terceirizar. Quero pagar, ficar sentada e deixar que os especialistas arrumem candidatos de qualidade que me levem para jantar. Não quero um espertalhão de internet que só está a fim de sexo. Quero alguém que seja sério com relação a se estabilizar e formar uma família.

Lou mordeu o lábio.

— Bem, parece que você está decidida.

— Estou mesmo! — disse Kate em seu tom mais determinado.

Houve um longo silêncio. Lou ouviu Kate responder secamente para um colega de trabalho.

— Bem, vá em frente, então — disse com leveza. — Boa sorte.

— Você está falando sério? — perguntou Kate, a voz imediatamente vulnerável.

— Sim — respondeu Lou, tateando à procura da luz do banheiro. — Se você é louca o bastante para comprar no saldão dos calvos de ombros caídos, que provavelmente nunca tiveram uma namorada na vida, muito menos uma transa, então vai precisar de toda sorte do mundo. Os caras são os mesmos, viu? Na internet ou na agência de relacionamentos. São os restos, porque os bons da nossa idade já foram pegos. Você se daria muito melhor se fosse a um bar e pegasse um carinha de 24 anos.

Lou foi repentinamente assaltada por um flashback. O que foi mesmo que o barman lhe disse na noite anterior? Obrigado, mas, sem querer ofender, não pego coroa. Sem querer ofender? Vermezinho imaturo. Filho de uma puta atrevido. Ela se olhou no espelho. Coroa é o cacete, pensou enquanto analisava seus olhos de panda, borrados com rímel e sombra, e a pele acinzentada. Ela ainda dava um bom caldo. Só precisava de uma chapinha e uma camada bem caprichada de corretivo. O segredo estava na apresentação e na iluminação. Além do mais, ninguém é bonito quando acorda.

— Então, tá… Quanto é que esse privilégio vai te custar? — perguntou agressivamente.

— Trezentos agora, depois cem por mês.

— Puta merda, Kate! E se levar um ano para você conhecer alguém?

— Não vai! — respondeu Kate, confiante. — Terei profissionais me ajudando; provavelmente, tudo será resolvido em algumas semanas. Além disso, não pode demorar tanto assim; eu não tenho tempo. Já estou atrasada.

— Atrasada?

Kate baixou a voz para que não fosse ouvida por mais ninguém.

— Bem, quero ter dois filhos, e sempre quis tê-los antes de completar 35. O ideal é que houvesse dois anos de intervalo entre eles, para que não estivessem próximos demais na escola, o que me põe ao menos em 32. Obviamente, eu deveria me casar primeiro; e sempre achei que meu marido e eu deveríamos ter pelo menos um ano juntos só curtindo a vida de casal e tirando férias sofisticadas, antes que os filhos chegassem e tivéssemos que ir a parques temáticos… Portanto, 31. E deveríamos estar juntos há um ano e meio antes de ficarmos noivos… mais do que isso e parece que ele está deixando suas opções em aberto, para o caso de aparecer alguém melhor… 29 e meio. E todo mundo sabe que é preciso pelo menos um ano e meio para organizar um casamento decente…

— Cristo Todo-Poderoso, será que estou sonhando? Eu ainda estou dormindo?

— … Logo, você pode ver como já estou atrasada! — A voz de Kate ficara mais alta e levemente estridente. — Eu devia ter conhecido meu Príncipe Encantado aos 28; devia estar tendo o bebê número um agora! Já estou cinco anos atrasada, portanto não posso demorar mais um ano para encontrar o homem certo; simplesmente não posso!

A linha subitamente ficou muda.

Lou exalou, em estado de choque.

— Kate, como é que eu nunca percebi que você era maluca?

— Não há maluquice nenhuma em ter um plano de vida — respondeu Kate obstinadamente.

Por um raro e breve momento, Lou ficou sem saber o que dizer.

— Lou, por favor! — implorou Kate. — Preciso do seu otimismo com relação a isso. Estou fazendo um negócio muito audacioso.

Houve uma pausa.

— Imagino que não haja nenhuma possibilidade de você se inscrever comigo, né?

— Não, porra!

— Nem para dar risada?

— Querida, se eu quisesse rir, me olharia no espelho pelada. E se eu quiser um homem, vou a um bar chulé, como qualquer mulher lúcida. Eu, por acaso, ainda não cheguei ao fundo do poço.

— Bem, eu cheguei! — disse Kate, animadíssima. — E vou ligar na Mesa Para Dois agora mesmo, pedir que eles encontrem um homem fantástico para mim e vou viver feliz para sempre. — E desligou o telefone antes que Lou pudesse retaliar.

Lou pousou o telefone ao lado da banheira e se deu uma longa e severa olhada no espelho.

— Taqueuspariu — enunciou para o banheiro vazio.