Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 60 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Maurice finalmente foi embora. Audrey fechou a porta atrás dele e fechou os olhos com alívio. O homem era realmente insuportável, com suas queixas insignificantes e sua procura por uma perfeição que nunca existirá. E, mesmo que essa mulher perfeita existisse, ela não se rebaixaria ao nível de um Maurice. O que era mais irritante, no entanto, era que, de alguma forma, no meio daquele falatório todo dele, Audrey havia concordado em assumir pessoalmente seu caso. Não podia acreditar que tivesse feito isso! Talvez fosse a adulação profissional com que ele a cumulara, ou talvez fosse apenas para tirá-lo da sua frente o mais rápido possível. De qualquer forma, era um desastre completo. Como se a vida já não fosse horrível o bastante, com John se recusando a sair com ela, tinha acabado de bater um prego na tampa de seu próprio caixão ao se condenar a ter conversas regulares — e sem dúvida longas — com Maurice Lazenby, até que conseguisse lhe encontrar um par. O que, sendo realista, não aconteceria nunca.

— Coitada de você, Audrey! — exclamou Bianca solidariamente, do outro lado do escritório. — Essa foi a pior mauriciada que eu já vi!

Audrey se voltou da porta e fixou os olhos em Alice.

— Alice Brown, você está determinada a me fazer perder todos os clientes? — perguntou ela numa voz capaz de cortar vidro. — Ou está se concentrando apenas em se livrar dos clientes do sexo masculino?

Bianca e Cassandra ofegaram, horrorizadas. Uma casamenteira iria preferir se livrar da própria avó a perder clientes homens.

Alice congelou.

— Ai, Deus, o Maurice saiu da agência?

— Se ele tivesse saído, teria sido por sua culpa — disparou Audrey. — Felizmente, eu estava aqui para convencê-lo a ficar.

Alice relaxou o corpo, aliviada, mas Audrey continuou golpeando.

— Você não apenas irritou o Sr. Lazenby, mas também recebi a notícia de que outro de seus clientes insatisfeitos está saindo.

Alice ficou confusa.

— O que eu não entendo é… o que poderia ter te impedido de encontrar um par para um jovem em ascensão e de aparência perfeitamente aceitável como Steve Walker quando temos dúzias de mulheres desesperadas em nossas listas que se contentariam com qualquer coisa?

— O Steve saiu?

— Sim, o Sr. Walker saiu! Por que ele ficaria? Você não estava marcando encontros para ele!

Alice se remexeu.

— Eu… tinha meus motivos.

— Não dou a mínima para os seus motivos! Ele é um cliente. Você é uma casamenteira. Você encontra mulheres para ele conhecer. Não precisa ser nenhum gênio! — Ela não estava para brincadeiras. Era sério. Seu pescoço estava vermelho, tal era a seriedade. — Já te disse mais de mil vezes, nós temos que valorizar cada cliente do sexo masculino que possuímos em nossos cadastros. Eles são mais valiosos do que as mulheres. Podemos nos dar ao luxo de perder dúzias delas!

— Na verdade, eu acho que a saída de Steve pode ser uma coisa boa.

— Uma coisa boa? — Audrey trovejou, com o máximo de sarcasmo. — Como é que isso poderia ser “uma coisa boa”?

— Não acho que ele tenha contratado a agência pelos motivos certos.

— Ele contratou por trezentas libras, mais cem libras por mês. Parecem ser motivos excelentes para mim.

— Mas ele teve um monte de encontros. Quinze! E não quis se encontrar com nenhuma delas pela segunda vez. Isso não parece estranho?

— Não particularmente. Você, é óbvio, fez 15 escolhas ruins.

— Minhas escolhas foram boas — afirmou Alice com surpreendente convicção.

— Não o suficiente — retrucou Audrey.

— Simplesmente tive uma sensação estranha a respeito de Steve — revelou Alice, pouco convincente. — Alguma coisa nele me deixou desconfiada, então telefonei para as 15 mulheres com quem ele se encontrou para perguntar de novo sobre os encontros. E quer saber de uma coisa? Todas disseram exatamente a mesma coisa… Que o encontro estava indo bem, que elas ficaram lisonjeadas pela forma como ele se interessou por elas e que ele parecia incrivelmente animado. Tão animado, na verdade, que insistiu em arrastar para casa cada uma delas.

Alice claramente esperava que Audrey ficasse ultrajada com a notícia dos avanços pouco cavalheirescos de Steve, mas Audrey nem morta lhe daria aquela satisfação. Em vez disso, ela resmungou: — Se supõe que você seja uma casamenteira, não uma bisbilhoteira. Então, 15 encontros não deram resultado? Grande coisa; marque mais 15.

Alice continuou:

— … E quando as mulheres disseram não, ele esfriou de repente. Quando eu telefonei para ele na manhã seguinte, ele tinha esfriado tanto que não queria um segundo encontro com nenhuma delas. Agora, isso não te faz questionar os motivos dele? Não faz você achar que ele não estava sendo honesto? E se ele não estava sendo honesto, como ficam todas essas mulheres que ele decepcionou?

Os olhos de Alice estavam enormes de sinceridade. Fosse em outro mundo, pensou Audrey, de repente, num mundo sem leis trabalhistas, consequências ou funcionários servindo como testemunhas, ela a teria estapeado.

— Então, o Sr. Walker não estava tão interessado em suas damas quanto a vaidade delas as fez acreditar — rosnou ela com maldade. — Mas e todas as mulheres que agora não vão poder mais ter encontros com ele? E a perda em nossa proporção entre homens e mulheres? E a perda na minha conta bancária? Quem se supõe que eu deva mandar nos encontros com as clientes do sexo feminino agora? O Sr. Vento?

Alguma coisa no que ela disse fez Alice ficar alerta. Em meio à névoa de sua ira, Audrey pôde vê-la observando-a de um jeito peculiar.

— Você está dizendo que eu devia ter marcado encontros inadequados para Steve só para elevar os números? — perguntou, de forma estranha.

— O que estou dizendo, sua incompetente, é que o Sr. Walker era um trunfo desta agência e, graças a você, ele se foi.

— Trunfo? — questionou a pobrezinha, toda inocente.

— Deus, dai-me forças! — bufou Audrey com raiva. — Me poupe! Você não aprendeu nada em todos estes anos?

— Não posso fazer uniões nas quais eu não acredite — declarou Alice, afetada. — Os clientes têm que encontrar o amor; e se não puderem encontrar o amor, pelo menos devem aprender alguma coisa sobre si mesmos que os ajude em sua busca.

— Busca? Nós somos uma agência de relacionamentos, não o caminho para a porcaria da iluminação espiritual. E agora temos um homem a menos e o trabalho de todo mundo ficou mais difícil.

Com toda a calma do mundo, Alice disse:

— Sinto muito, mas não posso ser responsabilizada pelo comportamento antiético de Steve.

— Assim como você não pode ser responsabilizada por Maurice invadir meu escritório para reclamar do seu? — cuspiu Audrey de forma venenosa. Quanto mais calmamente Alice protestava inocência, mais furiosa Audrey se sentia. E, nesse instante, estava prestes a explodir.

— Tenho pensado também sobre o Maurice — disse Alice, baixinho. — Acho que ninguém que encontrarmos será suficientemente boa para ele.

— Então, o que você sugere? Que a agência o “perca” também, só porque ele não se contenta com as suas propostas inferiores? — Audrey se empertigou, pronta para explodir. Já tinha se fartado de Alice Brown, com seus ideais, seus olhos grandes e cardigãs folgados, sua bicicleta de solteirona, seu cabelo despenteado e seus sapatos ridículos. Ela, Audrey Cracknell, era apenas humana, e tinha aguentado tanto quanto se podia esperar que uma pessoa decente aguentasse. Aquela era a última gota, o derradeiro prego no caixão, o fim do fim do fim da picada. Ela sentiu um ímpeto de fúria se elevando em seu peito, pronto para entrar em erupção.

— Ah, não! — Ouviu-se uma voz vinda do outro lado do escritório, desviando a raiva de Audrey e fazendo-a perder o fio da meada.

— Ah, não! — disse Hilary novamente. — Fodeu!

— Cale-se, Hilary! — gritou Audrey com irritação. — Não vou tolerar palavrões no meu escritório.

— Sinto muito, Audrey. — Hilary não parecia sentir nem um pouco. Parecia extremamente animada. — É só isso, fodeu; minha bolsa acaba de estourar!

Audrey se virou para Hilary, alarmada.

— Aqui não! — ladrou ela. — Não no carpete!

— Agora já foi! — disse Hilary, alegre.

— Certo, bem… Segure o resto, então! — ordenou Audrey, incerta. Partos eram uma área estranha para ela e, de repente, sentiu-se perdida. Mas não podia deixar que elas percebessem, não quando a tropa toda a estava observando.

O rosto de Hilary se contorceu de repente, da forma menos elegante possível.

— Puta que pariiiiiiu! — exclamou ela, sem classe nenhuma. — Que contração do caralho!

— Talvez eu devesse chamar um táxi, levar Hilary para o hospital? — sugeriu Alice, com máxima sensatez.

Audrey se virou para encará-la, o pânico disputando com a raiva. Nem sequer tinha certeza se poderia apelar ao seguro para pagar pelo carpete danificado.

— Sim, talvez sim — conseguiu dizer, sem graça. — Pelo menos enquanto você estiver fora do escritório não estará perdendo mais nenhum dos meus clientes.

Ela se dirigiu para o santuário de seu aquário e fechou a porta. Apesar de sua dieta noturna de seriados policiais e mistérios de assassinato, nunca suportara ver sangue… nem corpos seminus, para dizer a verdade. Corpos deveriam permanecer vestidos o tempo todo e o nascimento era algo que deveria ocorrer por trás de portas fechadas — que não fossem de vidro. Ela resmungou com tristeza e tentou ignorar a visão de Alice ajudando Hilary a tirar a meia-calça ensopada.