Par Perfeito
Alice
— Ai, meu Deus, como é bom ver você! — Uma pálida Alice atirou os braços em volta da amiga e a abraçou no degrau molhado de chuva.
Alguns minutos depois, Alice e Ginny estavam sentadas na aconchegante cozinha, xícara de chá nas mãos e o casaco de Ginny secando num canto. Vários pacotes de biscoitos jaziam abertos na mesa entre elas.
— Quanto tempo você pode ficar? — Alice esperava não parecer tão desesperada quanto se sentia.
— O tempo que você quiser! — veio a resposta divina de Ginny. — Quando você disse que tinha tirado um dia de folga, eu soube que só podia ser uma emergência; normalmente você não ficaria longe dos seus clientes por nada desse mundo. Então, deixei Scarlet com uma babá. É parte do nosso novo sistema: mais tempo de qualidade com adultos!
— Novo sistema? — Apesar de Alice estar se sentindo mais infeliz do que podia se lembrar já ter se sentido, o leve indício de progresso na situação Ginny/Dan a animou de forma instantânea. — Então, como foi seu fim de semana fora com o Dan?
— Foi demais! — Ginny riu com alegria. — Nós conversamos… muito. E bebemos… muito! E aí choramos um pouco, e então transamos… muito!
— Bem, isso é ótimo, não?
— Deus do céu, se é! Nós não fazíamos isso, nada disso, há muito tempo! Acho que esse era o problema.
— E como você está se sentindo agora?
— Melhor. Nós dois estamos. Nos fez perceber que ambos desejamos que nosso casamento dê certo; não pelo bem de Scarlet, mas para o nosso! Então, decidimos procurar aconselhamento matrimonial. Nosso casamento é precioso e, se queremos consertá-lo e conservá-lo, vamos fazer direito; um simples remendo nas rachaduras não serve. Estamos nessa pra valer.
— Uau, que ótimo; parece um plano perfeito.
— Tomara! Bem, já está na hora de começarmos a agir como adultos! — Ginny sorriu e mordeu um biscoito. — Ah, e falando em ser adulto, eu me dei conta de uma coisa: você estava certa e eu estava errada.
— Duvido muito — disse Alice com tristeza. Não podia se lembrar de quando fora a última vez em que se sentira certa sobre qualquer coisa. Nas últimas semanas, tudo que pensava saber sobre a vida tinha sido virado de cabeça para baixo.
— Eu tenho sorte em ter Dan — continuou Ginny com sinceridade. — É Deus no céu e ele na Terra; eu só me distraí um pouco e parei de ver isso! Na verdade, enquanto estávamos fora decidi seguir um conselho seu.
— Conselho meu?
— Sim: vou começar a acreditar em finais felizes! — Ginny estava inspirada demais para notar a expressão aflita de Alice.
— Verdade?
— Por que não? Profecias autorrealizáveis e tudo mais. Não é mais positivo acreditar que coisas boas acontecerão?
O lábio de Alice tremeu. Ela viu o sorriso radiante de Ginny e teve de afastar o olhar.
— É só que… Não tenho certeza se meu conselho é o melhor a ser seguido — disse fragilmente. — Andei reescrevendo meus conselhos desde que você foi viajar.
— Como assim? Você está dizendo que a grande Alice Brown não acre-dita mais em finais felizes? — brincou Ginny. Mas, então, viu a expressão no rosto da amiga e a ficha caiu lentamente. — Não! De jeito nenhum! Isso não pode acontecer. Se você não tiver fé, como se supõe que o resto de nós tenha? Você não acreditar no amor é como chá sem biscoitos ou neve no verão. Foi por isso que você tirou um dia de folga?
Então, Alice contou tudo a ela, desde a confissão de John até a visita surpresa de Emily. Enquanto falava, o dia foi escurecendo, a chuva foi ficando mais forte e o chá foi esfriando.
— Bem… — disse Ginny, vacilante, quando Alice finalmente terminou de falar. Alice podia ver que ela estava chocada. — Você sempre diz que ninguém é perfeito! — ofereceu, parcamente.
— Não me importo que ele não seja perfeito. Só não imaginava que ele fosse um… — ela hesitou, detestando ter de dizer em voz alta — um gigolô. — E não imaginara mesmo. Dos milhares de cenários diferentes de Príncipe Encantado que a imaginação de Alice havia tão vividamente criado, jamais vira seu homem saindo com outras mulheres por dinheiro.
— Ele não é um gigolô; é um acompanhante.
— Mesma mer… coisa — respondeu Alice com tristeza.
— É? — Ginny ponderou sobre aquilo. — Não sou especialista nesse negócio de alugar homens, mas certamente o que ele disse não é tão inverossímil assim, é?
— O que você quer dizer? — Alice estava surpresa. Tinha esperado que Ginny fosse aconselhá-la a esquecer até mesmo que John existia. Não esperara que fosse montar um caso em sua defesa.
— Bem, deve haver algumas mulheres que só querem um parceiro falso para uma noite — raciocinou Ginny. — Entendo completamente que possa ser constrangedor comparecer a certos eventos solteira, principalmente se seu ex vai estar lá. Por que não contratar para si mesma um cara bonitão, para servir como uma espécie de armadura? Não quer dizer que você vá transar com ele.
— Não?
— Não! Além disso, não acho que as mulheres gostem de verdade dessa coisa de pagar por sexo. Mulheres querem relacionamentos e romances; querem se sentir especiais, que o sexo realmente signifique alguma coisa. Você deveria saber disso; sabe melhor do que ninguém o que as mulheres querem num homem. Então, por que não pode haver algo como um acompanhante honesto? Principalmente hoje em dia, em que todo mundo é divorciado e todo convite vem “com direito a acompanhante”?
Alice olhou pela janela e pensou. Ginny tinha uma certa razão. Se todos os anos de trabalho como casamenteira lhe haviam mostrado uma coisa, era que, no frigir dos ovos, as mulheres queriam amor. Nenhuma de suas clientes era motivada por sexo. Além disso, se tudo que elas quisessem fosse uma noite só, não seria muito mais fácil de conseguir? Não havia milhões de homens lá fora procurando por uma rapidinha sem compromisso? Não era por isso que as mulheres vinham consultá-la, em primeiro lugar: para encontrar alguém que estivesse à procura de algo mais?
— Olha, Alice — disse Ginny, interrompendo seus pensamentos. — A vida é sua. Não posso te dizer qual é a coisa certa a fazer, mas sei duas coisas com certeza. Primeira: John te fez feliz, e segunda: você nunca, nunca se engana com as pessoas.
Alice mordeu o lábio e olhou para o colo.
— Você não acha que deveria pelo menos ouvi-lo? — perguntou Ginny com sutileza. — Você não estaria prometendo nada; só tem que se sentar e ouvir.
Alice franziu a testa, tentando impedir as lágrimas. Ginny fazia parecer tão fácil, mas não era. Nada a respeito daquilo era fácil. Era mais complicado do que um jogo de xadrez entre campeões.
— Além do mais — insistiu Ginny —, você não disse que a filha dele era legal e inteligente?
Alice confirmou.
— Muito.
— Aí está: prova irrefutável de que ele está dizendo a verdade! — declarou Ginny. — É impossível um gigolô ter uma filha legal e inteligente.
Houve uma batida na porta.
Com um sorriso fraco, Alice limpou uma lágrima fujona de seu rosto e se levantou.
— Alice Brown? — perguntou um homem com uma capa de chuva e um sorriso enorme. — Flores para você. — E entregou a ela um buquê gigantesco de crisântemos. Os botões brancos imaculados brilhavam no dia sombrio.
— Obrigada — fungou Alice, surpresa.
— Minha nossa; de quem são? — perguntou Ginny quando Alice voltou para a mesa da cozinha.
— Não sei. Não tem cartão. — Ela examinou as flores.
— Crisântemos… é meio flor de vovozinha, não? Sempre me fazem lembrar daqueles chapéus que a Rainha Mãe costumava usar.
— São belíssimos. — Alice imediatamente saltou em defesa das flores. — Simples e despretensiosos. Supostamente, eles simbolizam a verdade e a lealdade.
— E podem ser seus por 9,99 em qualquer banca da cidade.
— Não estes aqui — disse Alice com admiração. — São crisântemos de floricultura. Olhe como as pétalas são impecáveis. São espécimes maravilhosos… perfeitos. Parecem ter sido colhidos um minuto atrás. — Ao examinar as flores, sentiu-se atraída pela força gravitacional delas. A despeito de seu coração pesado e da cabeça a mil por hora, apenas alguns segundos na presença da natureza foram suficientes para aliviar seus ombros de uma fração do peso.
— Então, são do John, certo? — perguntou Ginny.
— Mas como ele iria saber que eu estou em casa? — perguntou Alice, intrigada.
— Como qualquer pessoa iria saber que você está em casa? As únicas pessoas que sabem são Audrey e a turma lá, e não imagino aquela mocreia te mandando flores, mesmo sendo flores de vovozinha!
A mente de Alice estava zunindo. Será que as flores eram realmente de John? Ele era o único candidato provável. E, nesse caso, deveria aceitá-las? Talvez devesse correr atrás do entregador e pedir que as levasse de volta. Mas ela olhou para as flores e para a forma protetora em que cada pétala nívea se curvava para dentro, como se guardando o centro do botão, como a linha de defesa mais deslumbrante do mundo. Iria contra seu DNA devolvê-las. Assim, em vez disso, colocou a chaleira para ferver e foi procurar um vaso.
Meia hora e outra xícara de chá depois, houve nova batida na porta. O mesmo entregador estava na soleira da porta de Alice, ainda molhado, ainda sorrindo, e dessa vez segurando um segundo buquê de flores.
— Para você! — Ele lhe fez uma mesura.
Alice apanhou o buquê com espanto.
— Obrigada! — gritou para ele, que já se afastava, os pés respingando água nas poças conforme andava.
— Mais flores! — exclamou Ginny quando Alice trouxe um enorme buquê de cravos à cozinha, as pétalas salpicadas por gotas de chuva. — Brancas de novo! Algum cartão?
Alice balançou a cabeça.
— Deve ser de um maníaco por organização — supôs Ginny, com conhecimento de causa. — Alguém que não gosta de cores bagunçando tudo. Ou isso, ou o cara confundiu as entregas e essas flores deveriam estar indo para um velório.
— Podem-se enviar cravos em condolência — murmurou Alice, pensativa —, mas não é esse seu significado normal.
— Significado? Flores são só flores, não são?
— Bem, sim e não. Tradicionalmente, as flores possuem um simbolismo próprio. As pessoas entendiam o que cada variedade simbolizava e o que significava se você as mandasse para alguém.
— É? Então o que estas aqui significam?
Alice olhou para o buquê. Era um arranjo simples: só cravos, rodeados por exuberantes samambaias verdes.
— Cravos… ou melhor, cravos brancos… são as flores da inocência — explicou. — Cores diferentes simbolizam coisas diferentes. Um cravo rajado significa uma recusa; um amarelo significa decepção. Mas estes são do branco mais puro. E as samambaias ao redor… elas também significam alguma coisa. Supostamente, simbolizam sinceridade.
Um silêncio recaiu sobre a cozinha enquanto Alice devaneava envolta em pensamentos.
— Ele está parado — disse Ginny de repente. Ela espiava pela janela da cozinha, para a Eversley Road. Alice seguiu seu olhar. De fato, o entregador de flores ainda estava lá, sentado em sua van, com as janelas começando a embaçar.
— Provavelmente só está programando o GPS para a próxima entrega.
— Humm, provavelmente. — Ginny não estava muito convencida.
E, de fato, cinco minutos depois, ele ainda não tinha se movido.
— Algo me diz que você vai receber a próxima entrega dele. — Ginny franziu a testa.
— Não seja boba. Nem sei de quem são essas duas.
— Claro que sabe! — zombou Ginny.
Vinte minutos depois, houve outra batida na porta. Dessa vez, ambas as mulheres correram para abrir.
— Aí vão — o entregador deu um sorriso amplo.
— Tem certeza que são para mim? — perguntou Alice, confusa. Ainda não havia nenhum cartão.
— Você é Alice Brown, não é? Sim, com certeza são para você!
— Está bem, florista: o que significam estas aqui? — Ginny saltou sobre ela no minuto em que a porta da frente foi fechada.
As mulheres examinaram o buquê colorido e rústico.
— Íris é a flor da fé — explicou Alice. — Traduzindo, grosso modo, significa: “Não desista; tenha fé.”
— E essas flores cor-de-rosa pequenas? — Até Ginny parecia estar excitada com a cultura de Alice.
— São cornisos — respondeu Alice, os olhos começando a brilhar. — Cornisos têm a ver com amor e perseverança. Significa algo na linha do amor que vence a distância… — Ela vacilou. Seu rosto começou a se encher de cor, um rosado suave se espalhando pelas bochechas como se em solidariedade com as flores coloridas.
De repente, saiu correndo pela porta da frente, sem se dar ao trabalho de parar e vestir o casaco. Pisoteou as poças do caminho e bateu na janela da van. O vidro elétrico desceu com um ruído suave.
— Mas de quem são as flores? — perguntou Alice, sem fôlego.
— Não posso dizer. — O entregador sorriu. — Confidencialidade florista/cliente.
— Bem, e por que você não vai embora? — exigiu saber. — Não tem outras entregas para fazer?
— Tenho ordens estritas.
— Ordens para quê?
— Um buquê… para você… a cada trinta minutos.
— A cada trinta minutos? — repetiu Alice, incrédula. — Quantos buquês você tem aí?
Ele verificou sua planilha. — Sete.
O queixo de Alice caiu. — Todos da mesma pessoa?
O entregador sorriu com astúcia.
— Não pode simplesmente me dar o resto já?
Ele negou com a cabeça. — Ordens estritas, lembra?
— Então, é uma mensagem de John, certo? — disse Ginny devagar quando Alice voltou ao apartamento. — Ele está te mandando uma carta de amor, não está? Uma carta de amor em forma de flores.
Alice assentiu rigidamente, intoxicada demais com o romantismo daquilo para falar alguma coisa. Sabia que não deveria aceitar, não deveria se permitir ficar excitada, mas não podia se controlar. Uma mensagem através de flores… era a coisa mais incrível que poderia ter imaginado. Estava, literalmente, além de sua imaginação.
Ginny exalou ruidosamente.
— Tenho que dar os parabéns a ele; isso é chique no último!
Meia hora depois, Alice bateu novamente na janela da van, dessa vez armada de um queijo quente e uma caneca de chá.
— Tome. — Ela os passou pela janela aberta. — Se você vai ficar aqui até o fim, é razoável eu garantir que esteja alimentado e hidratado.
— Valeu! — O entregador sorriu ao pegar a merenda de Alice e colocá-la sobre o painel. Ele checou seu relógio. — Certo, bem, melhor eu te entregar o próximo buquê.
Ele saiu da van e abriu as portas traseiras, tomando cuidado para que Alice não pudesse olhar lá dentro. E, então, com um floreio, tirou um único ramo de azevinho.
— Fácil! — Ginny apareceu como num passe de mágica ao lado de Alice, segurando o casaco sobre a cabeça num guarda-chuva improvisado. — Essa… até eu sei. Ele quer te beijar!
— Não, não é isso. — A voz de Alice era baixa e distante.
— Se você não se importa que eu me intrometa… — o entregador interrompeu, com um sorriso, deixando claro que ele estava gostando do mistério floral que se desenrolava — … essa é uma visão equivocada sobre o azevinho; filmes de Hollywood demais e cartões de Natal… Não, o que o azevinho realmente significa é…
— … eu supero dificuldades — completou Alice introspecta, a chuva caindo em volta deles.
O entregador deu uma piscadela e entrou de novo na van.
— Então, ele está dizendo que vai vencer; que vai fazer com que vocês dois superem isso — inferiu Ginny conforme as garotas voltavam para o apartamento e fechavam a porta. Ela apontou para os primeiros três buquês, agora arrumados em vasos e alinhados em ordem cronológica sobre a bancada da cozinha. — Primeiro, ele disse que estava falando a verdade. Depois, que era inocente. E, então, o terceiro buquê: Não desista…
— … tenha fé em mim — interrompeu Alice, a voz repleta de espanto. — Em nós. — Ela olhou para Ginny com empolgação. Sentia-se a ponto de explodir.
— Amiga, ele te conhece direitinho! — maravilhou-se Ginny. — Não poderia ter pensado numa forma mais perfeita de conseguir sua atenção!
Meia hora depois, o entregador trouxe o buquê seguinte para a cozinha, junto com a caneca e o prato vazios.
— Para não dizer que não se fala por meio de flores! — Ele sorriu ao ver as entregas de um a quatro alinhadas na bancada da cozinha. — Gostaria que todos os meus clientes fossem como esse cara. Isso deixa uma dúzia de rosas vermelhas no chinelo!
Mas Alice se encontrava concentrada apenas na cascata luxuriante de minúsculas estrelas roxas que ele estava segurando, devorando as pétalas com os olhos, à procura de seu significado.
— Não faço ideia! — exclamou, aflita.
— São violetas — ajudou o entregador.
— Sim, sim! Mas o que significam?
— Pois é, esta aqui também me desconcertou.
Ginny apanhou seu iPhone e rapidamente começou a digitar. Um minuto depois, eles tinham a resposta.
— Mais uma flor de fé — leu ela, em voz alta.
Alice ofegou.
— Agora eu me lembro. Amantes que iriam se afastar costumavam ofertá-las um ao outro como uma promessa de que não iriam se trair.
O ambiente ficou silencioso, de repente.
— Ele está dizendo que é seu, Alice — concluiu Ginny com suavidade. — Seu e de mais ninguém.
Alice emitiu um ruído estranho, abafado, e se virou.
— Preciso de um minutinho — disse ela com a voz rígida e, rapidamente, se retirou para seu quarto. Tinha de se afastar das flores; tinha que remover a si mesma da sedução de seus poderes intoxicantes.
Na penumbra silenciosa do quarto, podia ouvir os sons abafados de Ginny conversando com o entregador e o tilintar das louças e colheres conforme ela preparava outro chá para ele. Sentou-se, ereta, em sua cama e tentou respirar fundo. Precisava se concentrar. Já tinham sido entregues cinco buquês, o que queria dizer que só faltavam dois. E eram apenas flores. Ela podia ser durona, passar por isso. Podia resistir.
Dois minutos depois, Ginny tocou na porta de seu quarto. Alice olhou para o relógio e, de fato, meia hora havia se passado.
— Ele foi pegar o próximo buquê — disse a amiga baixinho. Sentindo-se um pouco frágil, Alice abriu a porta e saiu. Ginny sorriu para ela de forma encorajadora, mas ela nem notou. Estava ocupada demais olhando pela janela, vendo o entregador mergulhar na parte de trás da van antes de se aproximar pela entrada, os ombros curvados contra a chuva.
— É só este carinha aqui… — declarou ele ao colocar o número seis na mesa.
As duas mulheres olharam fixamente.
— Tem certeza de que não é um engano? — perguntou Ginny, incrédula. — Não pode estar certo.
O entregador sorriu.
— Tenho.
— Mas é um cacto! Só um cacto pequeno e espinhento! Ele não vai reconquistar ninguém com um cacto!
— Não se deve julgar um livro pela capa — disse o entregador, de forma sugestiva. — A moça captou.
Todos os olhos se voltaram para Alice.
— É sobre sobrevivência — explicou ela, devagar, seus olhos não se desviando nem um milímetro do cacto sobre a mesa. — É sobre viver num mundo cruel e vencer contra todas as expectativas. Cactos sobrevivem; são fortes. Estarão ali faça chuva ou faça sol, na penúria e na seca.
— Uau! — maravilhou-se Ginny. — Simplesmente, U-AU!
Alice se virou rigidamente para o entregador.
— Preciso ver o último. Chega de intervalos de meia hora. Tenho de vê-lo agora.
— Mas e quanto às instruções de John? — apelou Ginny. Mas Alice já estava lá fora e indo em direção à van, com o entregador correndo atrás dela.
— Qual é o próximo? — exigiu saber, enquanto examinava o carregamento de cores vivas. A caçamba da van era uma muralha de pétalas, folhas e tons. — Qual deles é o meu?
Os segundos pareceram uma eternidade enquanto o entregador remexia na caçamba para encontrar seu último elo. Alice não notou a chuva implacável lavando seu rosto e metodicamente emplastrando seu cabelo. Mal conseguia se controlar para não fazer a van em pedaços com o intuito de ler as palavras finais daquela declaração de amor.
E, então, ele se endireitou e se virou para ela, e ela viu.
— Uma única tulipa vermelha! — declarou Ginny de forma depreciativa. Ela também tinha saído na chuva, o nariz franzido de decepção. — Não deveria ser uma rosa vermelha?
— Não! — exclamou Alice, alto. — Isto é muito, muito melhor. — Ela segurou a tulipa contra o peito e soltou um ruído estranho, estrangulado.
Ginny olhou para o entregador em busca de uma explicação.
— Acredite em mim, eu te amo — explicou ele baixinho, depois sorriu e acrescentou: — É a linguagem do jardineiro.
Alice fechou os olhos e tentou segurar as lágrimas. Levantou a cabeça para o céu chuvoso e respirou fundo. O que era mesmo que Emily dissera? Lá no fundo, no seu íntimo, você sabe que meu pai jamais iria fazer você de boba… Ele é um cara bom. É claro que era! John não era todas aquelas coisas terríveis que ela vinha imaginando. Era carinhoso, gentil, direito e digno. Não aceitaria o dinheiro de Sheryl nem sairia com ela por diversão. Ele era bom, honesto, fiel e verdadeiro. Ficou tão óbvio para ela agora. Mas Alice tinha ido embora e o deixado no restaurante, e ignorado todos os seus telefonemas quando ele tentara se explicar. Ela nem sequer lhe fizera a cortesia de escutá-lo, não tinha dado a ele a chance de lhe dizer o que queria dizer. E agora John tinha dito da única forma que lhe restara, numa forma que não precisava de palavras.
Alice levou a mão livre ao rosto. Não conseguia falar. Tudo girava dentro dela tão rapidamente que não sabia que palavras usar. Olhou exasperadamente de Ginny para o entregador e de volta a Ginny.
— Tenho que ir! — explodiu ela, girando nos calcanhares.
— Mas ainda não te entreguei a carta! — protestou o entregador. — Minhas ordens eram todos os buquês, depois a carta. De que outro jeito você vai saber onde encontrá-lo? — Mas Alice já corria pelo meio da rua cheia de poças d’água, para longe da van e do apartamento, em direção ao centro da cidade.
— Eu vou trancar a casa! — gritou Ginny às suas costas. — Vou deixar a chave embaixo do vaso!
Mas Alice já estava longe, a tulipa ainda apertada contra o peito e o cardigã já pesando com a chuva. Ela sabia onde ele estaria. Não precisava de uma carta para descobrir exatamente onde ele estaria esperando. Não se importava que seus sapatos estivessem ensopados nem que seu cabelo molhado estivesse grudado no rosto; só se importava em chegar lá o mais depressa possível.
Conforme corria, os arredores foram ficando mais movimentados. Logo, as ruas foram ficando congestionadas com o tráfego e ela passou a correr pelas calçadas. Corria cada vez mais rápido, desviando-se dos transeuntes do centro e ziguezagueando entre compradores cheios de sacolas. Tinha que chegar até John. Tinha que senti-lo tomando-a nos braços e beijando-a.
Finalmente, chegou à cafeteria. Quando, sem fôlego, estendeu a mão para empurrar a porta pesada de vidro, ela o viu e parou no meio do movimento. Ele também a viu. Ele deixou seu café fumegando na mesa e veio direto ao seu encontro.
— Obrigado por ter vindo. Eu fiquei na dúvida se você viria — revelou, de modo rígido, quase formal, quando os dois estavam juntos na calçada. Ele ficou bem perto dela e, por um momento, Alice pensou que ele estivesse prestes a tocá-la. Sentiu-se zonza; mal podia respirar devido à corrida e à proximidade dele. Era tão bom estar novamente ao seu lado. Seu corpo todo ansiava que ele estendesse a mão e a tocasse.
— Estou aqui há horas — disse ele baixinho. — Não tinha certeza se o florista iria obedecer à programação e não podia correr o risco caso você viesse antes e eu te perdesse.
Imperceptivelmente, aproximaram-se um pouco mais, como se atraídos por ímãs. “É este o momento em que ele me beija”, pensou Alice consigo mesma. “É este o momento em que ele me toma nos braços e conserta tudo.” E ela ergueu a cabeça em expectativa.
E, então, Alice percebeu.
— Ahhhh! — exclamou boquiaberta. Seus olhos estavam fixos no peito dele. Não podia acreditar que não tivesse visto antes; John estava usando um smoking.
— Vou trabalhar hoje à noite — explicou ele, sombrio.
— Sério? — Alice murchou e deu um passo atrás. Que diabos estava fazendo ali? No que estava pensando? Ela tinha se deixado cegar pela esperança, pelo romance e pelas flores. Nada havia mudado; não de verdade. Uma camisa e um paletó lhe diziam mais do que todos aqueles buquês brilhantes… John tinha outro encontro, mais importante, esta noite.
— Alice, por favor. — Ele viu a mudança em sua expressão. — Preciso que você veja uma coisa. Fica aqui pertinho. Você já veio até aqui; por favor, não me dê as costas agora.
Alice estava confusa demais para discutir. Mas, enquanto caminhava, entorpecida, ao lado dele, estava dolorosamente consciente dos poucos centímetros de ar que os separavam. Agora que estava com ele, podia vê-lo, podia sentir sua presença… será que as outras mulheres realmente importavam? Naquele preciso momento, nem sequer tinha certeza se ligava para elas. A única coisa que sabia ao certo era quanto ansiava, desejava que John a tocasse. Por que ele não a havia abraçado? Por que não estava segurando sua mão? Ele tinha tido tanto trabalho para conseguir que ela viesse até ali, mas não havia nem sequer tentado beijá-la. Será que ao menos a queria?
A chuva havia parado e John seguia pela rua, cintilante, parecendo estranhamente exótico, atravessando o mar de transeuntes com seu smoking. Insegura, Alice via as mulheres olharem para ele ao passar. Ela se lembrou, com vergonha, de seu rosto vermelho e seu cabelo molhado. Não estava à altura de John. Não estava nem na mesma categoria.
De repente, ele parou.
— É aqui — informou, apertando uma campainha de metal ao lado de uma porta preta. Alice examinou a placa. Dizia G. Ashby Serviços.
— Aonde estamos indo?
— Tem alguém que eu quero que você conheça. Minha agente.
O queixo de Alice caiu e ela estava prestes a protestar quando uma voz feminina crepitou pelo interfone.
— Pode subir, John! — E a porta se abriu. John a segurou para ela. Alice hesitou.
— Pelo menos escute o que eu tenho a dizer. — Seus olhos azuis captaram os dela, suplicantes.
Sentindo-se impotente, ela entrou. O que estava fazendo?, perguntou a si mesma, o coração aos pulos conforme subia a escada densamente acarpetada. Não queria conhecer a agente dele! E se Ginny não estivesse certa? E se ele fosse um gigolô? “Minha agente” podia ser código para “minha cafetina”? Não estava pronta para aquilo; não estava preparada.
— Continue subindo — pediu ele. — É no último andar.
Alice começou a entrar em pânico. Não deveria estar ali. Era uma garota decente… uma jardineira. Jardineiras não se encontravam com gigolôs. E o que, exatamente, estaria esperando por ela no final da escadaria? Uma sala cheia de letreiros intermitentes de néon e mulheres seminuas? Homens com dentes de ouro e prateleiras de máscaras de borracha? No entanto, não podia deixar de notar que a fibra do carpete azul-marinho era luxuosamente grossa e que as paredes da escadaria eram forradas por painéis de madeira escura, de aparência cara. Não era exatamente como teria imaginado a entrada do covil de uma cafetina. Tinha visto nos filmes; não eram, supostamente, antros de drogas?
Ela parou. A escadaria tinha chegado ao fim e havia uma porta pesada de mogno à sua frente. Sentiu John ao seu lado e tentou ignorar a forma como seu corpo formigava com a proximidade. Ele se inclinou à volta dela e abriu a porta.
— John! — chamou uma voz feminina, num cumprimento animado.
Alice piscou e se viu sendo impelida delicadamente para dentro da sala. Uma mulher vinha na direção deles com um sorriso radiante. Ela tinha uns cinquenta e poucos anos e exalava uma bondade maternal. Com seu cabelo crespo grisalho, terninho de linho amarrotado e olhos risonhos, ela mais parecia ser a mãe de todos ali.
— Vejo que você trouxe uma convidada! — Ela sorriu para Alice.
— Geraldine, quero te apresentar a Alice — disse John calmamente. — Alice, esta é minha amiga e agente, Geraldine.
Sem palavras, Alice deixou que ela apertasse sua mão. Olhou para Geraldine. Ela devia ser o G., da G. Ashby Serviços. Mas não parecia uma cafetina; na verdade, parecia… simpática.
Geraldine sorriu e os conduziu a um sofá afundado que já vira tempos melhores. Alice notou um exemplar cheio de orelhas do livro Polo sobre o braço do sofá.
— Uma taça de vinho? — perguntou Geraldine, de sua mesa. — Já passam das seis, afinal.
— Para mim, com certeza — respondeu John. — Alice?
Alice assentiu, muda, e viu Geraldine tirar três taças e uma garrafa de vinho tinto de uma prateleira ao lado de sua mesa bagunçada. Então, ela puxou uma cadeira velha e surrada e se juntou a eles no sofá.
— Saúde! — brindou Geraldine alegremente.
Alice sorveu mecanicamente a bebida. Mas… que diabos estava acontecendo?
— Então — começou John —, infelizmente, isto não é uma visita de cortesia.
— Bem, eu estava mesmo me perguntando — respondeu Geraldine, com cautela.
Houve uma pausa. Apesar de sua confusão, Alice percebeu John ficar tenso a seu lado.
— Você se lembra de umas semanas atrás? — perguntou ele cuidadosamente. — Quando eu te disse que não queria mais Audrey Cracknell como cliente?
— É claro. — Geraldine assentiu. — Eu te perguntei se havia algo errado.
— Eu menti — disse John, sem jeito. — Havia algo errado. Bem, não errado exatamente. Algo muito certo, a bem da verdade.
— Correto — disse Geraldine devagar, olhando de relance para Alice. Alice encarava John, lutando para acompanhar os eventos dinâmicos do dia.
John pigarreou e puxou o colarinho para afrouxar a gravata-borboleta.
— Bem, o negócio é o seguinte: já venho fazendo isso há bastante tempo. Sendo acompanhante, quero dizer. Onze anos, aproximadamente. E já há algum tempo venho pensando que talvez não seja mais um trabalho para mim.
Alice inspirou silenciosamente. Sua cabeça estava a mil. O que John estava dizendo?
— Venho pensando: talvez tenha me escondido um pouco atrás do meu trabalho. Usando-o como uma desculpa para não… bem, para não conhecer gente — refletiu John, constrangido. — Sei que conheço pessoas a trabalho, mas não é a mesma coisa. Eu deveria conhecer pessoas por mim mesmo. Sendo eu mesmo. Venho pensando que, talvez, seja hora de parar de tentar salvar todo mundo da solidão e, bem… — ele fez uma pausa, de repente parecendo perdido — fazer alguma coisa pela minha própria.
Alice estava chocada. John era solitário? Ele nunca tinha dito. Ela olhou para Geraldine, que externava uma expressão estranha no rosto. Parecia estar dizendo: “até que enfim”.
— E, então, eu conheci Alice. — John, de repente, agarrou a mão de Alice. Ela quase ofegou alto com o calor de sua pele. Tocar em John, ser tocada por John, era uma sensação incrível.
— Conhecer Alice me fez perceber que todos os pensamentos que eu vinha tendo estavam certos — continuou John. — Preciso derrubar a… sei lá… a prisão que construí para mim mesmo. Preciso tentar viver a vida, mergulhar nela. Me deixar ser feliz.
Ele se virou e olhou para Alice, com os olhos repletos de algo que ela jamais tinha visto.
— E, então, você vai deixar de ser acompanhante — disse Geraldine com tranquilidade. Era uma afirmação, não uma pergunta.
— Sim. Gostaria que hoje fosse minha última noite. E eu estava esperando que você não me fizesse trabalhar durante o aviso prévio. — Ele deu um sorriso aguado.
Geraldine sorriu, radiante.
— Não seja bobo, seu chorão! Como sua agente, fico obviamente triste por te perder, mas, como sua amiga, estou feliz como pinto no lixo!
— Verdade?
— É claro! — Ela riu. — Onze anos de penitência são suficientes para qualquer um! Eve não iria querer que você ficasse sozinho pelo resto da vida. Já está mais do que na hora de você se apaixonar de novo. Eu estava começando a me preocupar que seríamos só eu e a Emily a te visitar no asilo!
John se atirou para a frente e tomou Geraldine num abraço gigante de urso. Então, voltou para o sofá e olhou para Alice.
— Então… é isso! — concluiu ele, com alegria. — Alice, você acha que poderia considerar sair com um ex-acompanhante? Um que jura pela própria vida que jamais dormiu com nenhuma de suas clientes?
— É óbvio que ele não dormiu! — exaltou-se Geraldine. — Não estou tocando um bordel!
— Então, ele definitivamente não é um…? — Alice começou a perguntar a Geraldine. Eram as primeiras palavras que dizia desde que havia chegado.
— Deus do céu, claro que não! — exclamou Geraldine. — Eu tenho cara de cafetina?
— Não! — reagiu Alice rapidamente. De repente, sentiu-se estúpida. Por que havia deduzido o pior? Não deveria ser propensa a acreditar nos finais felizes? — Mas eu não entendo — intrigou-se ela. — O que você quer dizer com 11 anos de penitência? — Ela se virou para John. — E o que é isso de construir uma prisão para si mesmo?
— Ele não te contou? — perguntou Geraldine.
Alice olhou com perplexidade para John, mas ele tinha os olhos fixos em sua taça de vinho.
— A esposa de John morreu há 15 anos — explicou Geraldine.
Alice olhou para John. Ele estava imóvel feito uma pedra.
— Ele se culpou. Estava atrasado para buscá-la no trabalho, uma noite, então ela decidiu ir para casa caminhando e, no caminho, foi atropelada.
— Ah, não! Isso é terrível! — Impulsivamente, Alice pegou a mão de John.
— Eu vinha… vinha tendo um caso — admitiu John sem jeito, o rosto grave. — Me atrasei para buscar minha esposa porque estava com outra mulher.
— Ãh?!? — A mão de Alice ficou rígida na dele.
— É a única coisa que já fiz da qual me envergonho — disse John baixinho, incapaz de olhar para Alice. — E passei o resto da minha vida me arrependendo. Não te contei antes porque não queria que você pensasse mal de mim. Foi uma coisa terrível o que eu fiz, e jamais, jamais faria novamente.
John ficou com o olhar perdido, sentindo-se um bosta por um momento. Alice não sabia o que pensar ou dizer.
— Eve e eu nos casamos muito jovens — disse John, por fim. — Não tínhamos planejado, mas ela ficou grávida e quisemos fazer a coisa certa. Eu a amava, mas, analisando agora, eu não estava preparado. E ter Emily, bem… não me leve a mal: amo a minha filha, mas ter um filho cobra um preço do relacionamento. É duro, principalmente quando você também é praticamente uma criança. Eu tinha 18 anos. O problema foi que os anos passaram, mas eu ainda achava que tinha 18 anos. Não fui o melhor dos maridos.
Alice abriu a boca, mas não pôde encontrar palavras.
— Depois que Eve morreu, me escondi do mundo — continuou ele. — Passava o dia inteiro cuidando de Emily e ficava sentado no sofá à noite. Não sentia que merecia sair e ser feliz.
— Bem, ter um caso foi obviamente muito ruim, mas não foi culpa sua Eve ter morrido. Não foi você que a atropelou — argumentou Alice.
— Tentei dizer isso a ele todos os dias por 15 anos… — resmungou Geraldine.
— Sei disso agora. — John sorriu fragilmente. — Mas levou algum tempo. Eu só ficava pensando “e se?”. E se eu tivesse sido um marido melhor, um ser humano melhor?
— Depois de alguns anos, eu convoquei uma intervenção! — contou Geraldine. — Eu tinha acabado de montar este negócio e precisava de mais acompanhantes em meus cadastros. John era o homem mais bonito que eu conhecia e ele não estava ajudando ninguém, largado num sofá. Eu sabia que ele não estava preparado para conhecer uma nova companheira nem arrumar uma namorada. Mas também sabia que devia ser sentir muito solitário. Tão solitário quanto as minhas clientes.
— Então, ela me convenceu a trabalhar aqui — prosseguiu John. — Ela me disse que eu estaria ajudando mulheres solitárias a encarar seus demônios e a se sentirem melhor consigo mesmas.
— Eu disse a ele que ele estaria fazendo uma espécie de compensação — interrompeu Geraldine —, que Eve não iria querer que ele ficasse apodrecendo em casa. E que eu cuidaria de Emily enquanto ele estivesse trabalhando.
— Oh! — reagiu Alice.
— Ele ainda não teve um relacionamento de verdade desde Eve, sabia? — contou-lhe Geraldine.
— Ah, mas eu tenho as minhas clientes. — John sorriu com melancolia.
— Emily apelidou-as de namoradas de aluguel. — Geraldine riu. — Ela diz que ele é problemático com P maiúsculo.
— Emily sabe tudo a respeito disso — disse Alice, lembrando-se da conversa entre elas no escritório.
— Tudinho — ratificou John. — Milagrosamente, ela me perdoou por ter traído a mãe dela. E ela sabe do trabalho como acompanhante há anos.
Ele olhou para Alice e sorriu.
— Cometi erros — admitiu. — Erros grandes dos quais eu verdadeiramente me arrependo. Mas trabalhar como acompanhante não é um deles. Não é nada de que se envergonhar.
— Eu sei — disse Alice. E sabia mesmo.
John apertou sua mão.
— Alice, você é a primeira pessoa que me fez querer ter alguém de novo. Que me fez sentir que mereço ter.
Seus olhos se encontraram. Alice sentiu todo ar se esvair de seu corpo.
— Não sou o mesmo homem que era então — disse ele baixinho. — Tentei ajudar as mulheres, não dormir com elas. Aprendi uma lição: cumpri minha pena.
Ele sorriu para ela com esperança.
— Você acredita em mim? — perguntou ele. — Será que tenho direito a uma segunda chance?
— Sim! — exclamou ela. — Sim, sim! — E atirou os braços em volta dele.
— Bem, meus parabéns aos dois! — Geraldine sorriu. — Você conseguiu um bom homem, Alice.
— Eu sei! — respondeu Alice com alegria.
— E você… — Geraldine ralhou com John, de brincadeira. — É melhor sair daqui e dar a Lady Denham o melhor encontro de sua vida! Não vou aceitar um serviço meia-boca só porque você está de saída!
— Lady Denham? — repetiu Alice.
— Nada de ralé para o John! — respondeu Geraldine. — Só as melhores clientes para o cavalheiro mais popular dos meus cadastros. Todas elas parecem estar sob a ilusão de que este homem tem classe, pobres coitadas.
Momentos depois, John e Alice tinham descido a escadaria e estavam do lado interno e privativo da porta preta.
— Você vai realmente parar? — perguntou Alice. — Por mim?
— Eu já deveria ter feito isso há muito tempo! — John sorriu, subitamente bêbado de felicidade. — Sou homem de uma mulher só de agora em diante! — declarou. — John Marlowe está se aposentando! Viva John Smith!
— John Smith?
— Smith; esse é meu nome real! Você não acha que eu iria trabalhar como acompanhante usando meu nome verdadeiro, né? Já era ruim o bastante que Emily soubesse o que eu fazia da vida enquanto ela ainda estava na escola. Eu não iria expô-la ao ridículo diante de seus amigos facilitando que eles descobrissem que o pai de Emily Smith era o mesmo Sr. Smith que acompanhara sua mãe divorciada ao jantar do sábado passado.
— Mas o que você irá fazer para ganhar a vida?
— Não se preocupe com isso! — John a rodeou num abraço apertado e cálido. — Eu sou um bom acompanhante, mas não tão bom assim! Eu tenho outro emprego durante o dia, sabe? Sou modelo masculino de nus.
Ele riu da expressão aflita de Alice.
— Estou brincando! Sou consultor empresarial. — Ele se inclinou para beijá-la.
— Ótimo! — disse Alice com alívio. — Porque não sei direito se quero sair com um aposentado. Faz você parecer velho pra caramba.
— Ah, é? — murmurou John. — Mas não sou eu que está usando cardigã! — provocou ele. E lhe deu um beijo… daqueles!