Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 75 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Audrey mal notou a dor que mordia seus calcanhares e menos ainda o sangue que vazava por sua meia-calça e escorria na parte de trás dos sapatos. Dessa vez, não pensou no suor pouco estético que estava produzindo ao caminhar com pressa nem que sua reputação profissional jazia em pedaços às suas costas. Não podia pensar em nada além de telefonar para John. Ou, na verdade, telefonar para Geraldine para conseguir o telefone dele e, então, telefonar-lhe.

 

Ela foi dando encontrões e empurrões em meio aos transeuntes, com a denúncia de Sheryl ainda em sua mão. Tinha que chegar em casa, e rápido. Esperar o ônibus não era uma opção; ela não conseguiria ficar parada. Então, atravessou o centro da cidade bufando e suando, repetindo silenciosamente as mesmas palavras em seu cérebro: Não é nada disso… Não é nada disso… Nós estamos apaixonados… Nós estamos apaixonados… Todos tinham entendido mal. Ela e John iam viver felizes para sempre. Eles estavam apaixonados. A-PAI-XO-NA-DOS!

Agora, tudo tinha sido revelado; não havia nada mais a esconder, nada que os impedisse de ficar juntos. Ela tinha que contar a ele o que havia acontecido. Tinha que ouvi-lo finalmente dizer as palavras pelas quais ela vinha esperando: Audrey, eu te amo. Sempre te amei. E, então, ele a tomaria nos braços e a protegeria de Sheryl, Ernie e de todos os abutres que haviam duvidado dela e faria com que tudo no mundo fizesse sentido.

Finalmente, após uma hora de caminhada intensa e desesperada, subiu a calçada do jardim até sua casa. Abriu a porta. Pickles correu até ela num cumprimento que passou despercebido enquanto ela se atirava na direção do telefone.

— Geraldine? Audrey Cracknell. Por favor, preciso falar com John. É uma emergência.

— Emergência? O que foi que aconteceu? Você está bem?

— Deixe isso pra lá, eu preciso falar com John agora mesmo.

Houve uma pausa confusa no outro lado do telefone.

— É questão de vida ou morte! — atacou Audrey.

— Aconteceu algum acidente?

— Não exatamente. Mais ou menos. Olha, vamos logo! É urgente. — Audrey pulava de um pé para o outro, agitada. Podia ver seu reflexo no espelho. Parecia frenética, louca, fora de controle.

— Está ferida?

— Estou muito ferida! — gritou ela impacientemente. — É por isso que preciso falar com John!

— Você quer que eu chame uma ambulância para você?

— Jesus Cristo, não! Não é esse tipo de ferimento. Olha, pare de perder tempo!

— Audrey, você não está falando coisa com coisa. E, além disso, você sabe que eu não posso te dar o telefone residencial de John. Clientes não podem fazer contato direto.

— Que se danem as regras! — gritou Audrey com raiva. — As regras já foram quebradas.

— O que você quer dizer?

Pickles começou a ronronar alto, girando em volta das panturrilhas de Audrey e farejando o sangue nos seus calcanhares.

— Quero dizer que terminou! Todos já sabem. John foi exposto! — esganiçou-se ela.

— Ah, entendo! — A voz de Geraldine ficou mais leve, com um tom que parecia insultantemente parecido a divertimento. — Bem, não acho que John vá se preocupar muito com isso. Veja bem, ele tomou a decisão de se aposentar como acompanhante. Ele abandonou a agência.

— Abandonou? Como assim… parou? Com todas as clientes? — Pela primeira vez desde que saíra do quartel-general da ADAR, Audrey ficou completamente imóvel.

— Exato.

— Então, não haverá mais encontros? Com ninguém?

— Isso mesmo.

Audrey ofegou. Estava acontecendo! Estava finalmente acontecendo!

— Bem, então, você não vê? — enfatizou ela, animada. — É mais importante do que nunca que eu fale com ele! Precisamos acertar as coisas para que possamos ficar juntos!

— Que coisas? Não há nada a acertar. E vocês não estão juntos. Audrey, você precisa parar com isso!

— Parar? Oh, pelo amor de Deus! Você não entende. Me dê o telefone dele!

— Você conhece as nossas normas: não damos os telefones dos acompanhantes às clientes.

— Mas você mesma disse, ele não é mais um acompanhante e eu não sou mais uma cliente! — gritou Audrey, exasperada de raiva. Ela não tinha chegado tão longe, passado por tanta coisa, para ser frustrada por Geraldine e suas malditas normas.

— Audrey, não — respondeu Geraldine com firmeza. — Não vou dar o número para você. Principalmente com você nesse estado.

— Que estado? O que você quer dizer?

— Quero dizer que você não está no seu estado normal, Audrey. Pode fazer ou dizer alguma coisa de que vá se arrepender depois.

— Arrepender? Vou te dizer do que me arrependo! Me arrependo de não ter resolvido isso anos atrás. Me arrependo de todo o tempo que John e eu desperdiçamos.

Houve uma longa pausa. Audrey agarrou o telefone com desespero.

— Sinto muito — disse Geraldine, finalmente.

As palavras cortaram o coração de Audrey como uma navalha. A injustiça daquela recusa quase a deixou sem fôlego. Se não podia falar com John, ou contratá-lo para um encontro, como iria vê-lo novamente? Como iriam dizer um ao outro que se amavam? Como qualquer coisa neste mundo iria voltar a ficar bem?

— Ok, você pode pelo menos me dizer onde ele está hoje? — gralhou ela, a voz soando alquebrada. — Por favor? Estou desesperada, Geraldine.

Houve uma pausa muito longa.

— Você pode encontrá-lo no parque ecológico, ao sul do rio — informou Geraldine, por fim. — Isso é tudo que estou autorizada a dizer. Mas Audrey…?

Não houve resposta. A porta da frente se fechou com força, o vidro manchado revelando a silhueta disforme de Audrey correndo pela calçada. Tudo que restou foi Pickles, miando, e uma pequena gota de sangue no carpete.