Par Perfeito
Alice
Alice soprou a superfície de seu cappuccino e fez o possível para não olhar para os seios de Sheryl, que lutavam para escapar da blusa de oncinha. Se Alice erguesse os olhos acima deles, sabia que veria Sheryl sorrindo cheia de dentes sobre seu latte desnatado, com os lábios pegajosos de gloss escarlate. Alice especulou se Sheryl alguma vez usaria uma blusa de gola polo, ou qualquer peça de roupa que não exibisse um enorme decote em V. Será que seus peitos nunca sentiam frio? Alice estava aninhada em duas camadas de suéter. Com certeza os peitos de Sheryl deviam implorar por um dia de folga; um tempinho sem serem expostos ao relento. Deviam sonhar em ser embrulhados numa macia e aconchegante gola rulê.
Alice soprou seu café novamente.
— Então, Alice. — Sheryl lambeu os lábios e pousou sua caneca de café. Cuidadosamente, ajeitou a saia justíssima. — Não sou de fazer rodeios. Já faz muito tempo que venho escutando como você é uma casamenteira maaaaravilhosa. Gostaria que você viesse trabalhar para mim.
Alice engasgou, produzindo um ruído estranho.
— Gostaria que você pedisse demissão da Mesa Para Dois, com efeito imediato, e se juntasse a nós na Pombinhos. Naturalmente, espero que seus clientes venham com você.
Alice tentou não deixar o queixo cair.
— Simples assim?
— Simples assim. — Sheryl sorriu com um beicinho.
— Mas e a Audrey? — perguntou Alice, espantada. — E meu contrato? Eu dei minha palavra.
— Contratos são feitos para serem rompidos, toda mulher sabe disso. Não existe um só contrato no mundo do qual não se possa escapar e aposto que os de Audrey são tão cheios de furos quanto uma rede de pesca. Posso pedir que nossos advogados deem uma olhada. Não vejo nenhum motivo para que você não comece na Pombinhos na segunda-feira.
Ela dirigiu a Alice um olhar penetrante.
Alice se aferrou à sua caneca de café e se concentrou nos joelhos de Sheryl.
— Eu, hã, não sei direito o que dizer — resmungou.
— Diga que sim. O que quer que Audrey esteja te pagando vou dobrar. E farei de você minha vice na agência.
— Uau. — O queixo de Alice caiu de novo. Dobrar o salário? Ela ficaria rica. Poderia comprar todas as plantas da loja de jardinagem. Poderia até comprar uma estufa; sempre quisera uma estufa! E vice na agência… Ela quase estaria no comando. Nunca, nem em seus sonhos mais loucos… e alguns sonhos de Alice podiam ser bastante loucos… havia imaginado chegar tão alto. Era incrível! — Isso é… — ela sorriu abertamente, incapaz de acreditar em sua própria sorte — é muita generosidade sua.
— Não sou uma mulher generosa; sou uma mulher de negócios. Você é um recurso valioso e eu preciso de uma vice-comandante para ficar em cima dos clientes de serviço personalizado, enquanto eu me concentro em expandir nosso serviço on-line. O site de relacionamentos é uma galinha dos ovos de ouro e pretendo tirar todos os ovinhos possíveis. Portanto… — Sheryl se inclinou na direção de Alice como uma cascavel saindo do cesto —, de uma empresária a outra, o que você me diz?
O cérebro de Alice estava zunindo. Empresária? Nunca tinha pensado em si mesma nesses termos. Será que podia fazer aquilo? Poderia trabalhar para Sheryl e ser uma… casamenteira de alto escalão?
— Humm, Srta. Toogood, obrigada — resmungou, atordoada. — Obrigada por ter tanta fé em mim…
— Não é fé. — Sheryl pegou sua caneca de café. — Você pode me trazer clientes, ganhar dinheiro para mim. — Ela tomou um gole, os olhos fixos em Alice.
— Mas e a Audrey? — questionou Alice novamente, conforme voltava à realidade. — Eu não poderia simplesmente abandoná-la. Foi ela quem me deu minha primeira oportunidade, meu primeiro emprego como casamenteira. E agora ela vai me levar ao baile como aprendiz; eu não deveria retribuir assim! E ela jamais me deixaria levar meus clientes… e eu não poderia roubá-los.
Do outro lado da mesa, podia ouvir Sheryl fazendo “tsc, tsc, tsc, tsc” enquanto descruzava as pernas, produzindo um forte ruído de náilon.
— Eles não são clientes de Audrey, são seus! Você muda de lugar e eles te seguem. Eles não querem ficar empacados com uma mocreia como a Audrey. Você deixaria que alguém como ela decidisse a sua vida amorosa? Acredite em mim; eles irão correndo atrás de você!
— Mas são pessoas, com vidas e sonhos! — protestou Alice. — Não são posses para serem carregadas de um lado a outro nem fichas com as quais apostar. E eu não poderia deixar Audrey na mão. Precisaria lhe dar aviso com tempo de sobra para que ela pudesse organizar tudo. No mínimo, alguns meses. — Alice viu Sheryl desviar o olhar, com uma expressão peculiar no rosto. — Audrey detesta recrutar gente nova — explicou. — Quando alguém finalmente começasse, seria tarde demais. Relacionamentos embrionários já teriam perdido o impulso. Meus clientes voltariam a ser solteiros e a pensar que estão condenados a isso. E Audrey ficaria numa situação terrível com a carga de trabalho extra.
Sheryl revirou os olhos.
— A Audrey é durona. Cascuda como uma barata.
— Eu teria de lhe dar pelo menos seis meses. Caso contrário, não seria justo.
— Oh, Alice, que doçura! — Sheryl deu uma risadinha ríspida. — A vida de um adulto grande e malvado não é justa, sabe? Às vezes, as crianças grandes roubam os doces das menores.
Alice se ruborizou e baixou os olhos para seu café. — Seria a coisa certa a fazer — sussurrou.
— A coisa certa a fazer! — Sheryl ergueu as mãos, exasperada. — Daqui a pouco você vai dizer que une os casais porque acha que eles vão se apaixonar!
— É claro! Esse é o objetivo, não? — respondeu Alice, espantada.
Sheryl abafou um sorrisinho duro.
— Alice, minha queriiida, esse é o objetivo secundário. Uma coincidência de sorte, só isso. Nós todos estamos nisso… eu, Audrey, até mesmo você, embora, obviamente, ainda não consiga enxergar… em primeiro lugar para ganhar dinheiro, e em segundo para fazer relacionamentos. Não existe nenhum benefício em ser o melhor Cupido do mundo se você não pode pagar o aluguel! Não estamos nisso pela bondade de nosso coração; toda essa coisa de amor é só a decoração da vitrine. Estamos nisso para obter lucros. Ninguém forma deliberadamente um par perfeito antes que tenha arrancado pelo menos seis meses de taxas de um cliente. É loucura financeira dar-lhes seus finais felizes cedo demais.
Alice encarou Sheryl. Não podia acreditar no que acabara de ouvir. Certamente todos tentavam ajudar os casais a encontrar o amor, não? Esse era o objetivo de ser casamenteiro! Arquitetar uniões ruins só para as taxas continuarem entrando era asqueroso; sentia-se suja só em pensar naquilo.
— Audrey não faz isso — afirmou Alice com muita convicção.
— Ah, não? — cutucou Sheryl.
— É claro que não! — Alice estava chocada com a simples ideia. — Ela não seria capaz! E, além disso, todo mundo sabe que ela uniu tão bem seus cinco primeiros pares que todos se casaram.
Sheryl sorriu com afetação.
— Todo mundo sabe que três deles já estavam namorando, e todos os cinco já estão divorciados há muito tempo.
Alice ofegou, horrorizada. Ãh?!? Já estavam namorando? E divorciados? Certamente que não! Audrey nunca dissera nada. Mas, também, será que ela diria? Ela sempre ficava um pouco estranha à menção da palavra começada por “D”, tanto que todas elas haviam aprendido a nunca dizê-la em voz alta no escritório.
— Além do mais — Sheryl mexeu seu café com astúcia —, a Audrey foi assim tão eficiente, desde então? Ela era inexperiente, naquela época. Aposto que ela não une mais ninguém assim tão depressa hoje em dia. Na verdade, aposto que ela praticamente não forma mais nenhum par de sucesso.
Alice abriu a boca para saltar em defesa de Audrey, mas então, lentamente, voltou a fechá-la. Era verdade que as uniões promovidas por Audrey invariavelmente fracassavam. Os clientes ficavam séculos em suas listas; alguns já estavam há anos. Mas Alice sempre achara que isso se devia ao fato de Audrey não ter muita sintonia com as pessoas, não por estar fazendo algo desonesto. Então, pensou em Max Higgert e em como ele queria um tipo de mulher e, no entanto, Audrey parecia decidida a juntá-lo com outro.
Sheryl suspirou e suavizou a voz.
— Olha, Alice. Acho maravilhoso que você tenha ideais elevados; que você acredite na vocação de casamenteira. Esse idealismo pode ser útil para mim. Você pode lidar com os sonhos e eu lido com o extrato bancário. Você é exatamente o que estou procurando.
Trêmula, Alice pousou sua caneca de café.
— Não acho que eu seja certa para você — disse baixinho.
— Que bobagem. — Sheryl jogou o cabelo. — Agora me escute, Alice. Estou acostumada a conseguir o que quero, e quero você trabalhando para a Pombinhos dentro de, no máximo, duas semanas. A cara de Audrey seria impagável.
Alice tentou argumentar, mas Sheryl insistiu.
— Olha, você pode se esconder por trás de sua moralidade, mas quando foi o último aumento que a bruxa velha te deu? Se é que já deu algum!!! Todos sabem que a Audrey gosta de te manter como a última da fila. Mas estou te oferecendo um aumento de cem por cento e a chance de ser meu braço direito! A Pombinhos está crescendo; tem futuro. Audrey é um dinossauro; ela está fadada à extinção.
Ela apanhou seu casaco e sua bolsa.
— Preciso pensar — disse Alice, insegura, a ninguém em particular. O ambiente parecia girar. O mundo inteiro parecia girar sob seus pés.
Sheryl se levantou. Ela pairou ameaçadoramente sobre Alice, do alto de seus saltos.
— Você pode pensar, mas não se atreva a dizer não, garotinha. Ofertas como essa não dão em árvores. Eu te darei alguns dias, mas é só. A vida está aí para ser aproveitada, Alice… — Sheryl vestiu o casaco com um floreio impaciente — portanto, aproveite!
Ela se virou nos saltos e saiu da cafeteria, emitindo um toque-toque maligno e deixando a porta bater ruidosamente atrás de si.