Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 29 de 90

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Par Perfeito

Alice

Alice entrou feito um tufão em casa e tirou o capacete, revelando bochechas coradas e cabelos suados e desgrenhados. Essa história de “ser uma dama” era muito mais complicada — para não dizer cara — do que imaginara.

Comprar o vestido e os sapatos tinha sido uma coisa, mas agora já estava passando dos limites. Tudo custava uma fortuna e cada tarefa (como a escolha do esmalte) conduzia a outra tarefa (a necessidade de lixar e dar forma às unhas). Parecia um pesadelo em forma de boneca russa, com um tal de arruma aqui, depila ali, alisa acolá. E se os preparativos anteriores ao baile a assustavam, a perspectiva de ir ao baile pendia sobre sua cabeça como se fosse a contagem regressiva para uma cirurgia sem anestesia. Alice estava começando a cogitar a possibilidade de Audrey tê-la convidado para o baile como uma forma engenhosa de torturá-la.

A mais recente emergência fora a questão absolutamente ridícula da maquiagem. Ou, mais especificamente, a percepção de última hora por parte de Alice de que ela não tinha nenhuma maquiagem. Mais cedo, naquela tarde, Hilary casualmente perguntara como ela iria fazer a maquiagem para o baile. Ninguém jamais tinha visto Alice com nada além de um rímel aguado e um pouco de brilho nos lábios. A cor se esvaiu do rosto de Alice. Maquiagem era mais uma coisa com que se estressar. Uma pesquisa rápida no escritório (felizmente, Audrey havia saído) revelou que até Cassandra achava inconcebível que Alice fosse ao baile sem, pelo menos, os cosméticos mais básicos. O problema era que o baile seria em 24 horas e Alice não sabia por onde começar.

De volta à segurança de seu apartamento, soltou a sacola de maquiagens recém-adquiridas sobre a poltrona e ouviu os potinhos de cremes e cores tilintando dispendiosamente. Passara as últimas horas vagando, toda desajeitada, pelo ambiente alienígena dos balcões de cosméticos, evitando os aterrorizantes olhares das vendedoras e se sentindo o próprio Crocodilo Dundee enquanto observava os tubos de não-sei-quê iluminador e sei-lá-o-quê acetinado. Olhou com melancolia para sua sacola de compras; lá se iam mais cem libras.

Alice checou as horas. O tempo estava passando. Ainda não tinha nem preparado o jantar, muito menos raspado as pernas, lavado o cabelo ou passado as duas horas que normalmente levava para aplicar o esmalte de um jeito decente. E agora ainda havia a complicação extra de ter de praticar fazer maquiagem. De repente, a noite começou a parecer curta demais.

Pressionou a mão contra o estômago, tentando acalmar os nervos. Era difícil saber do que tinha mais medo.

Primeiro, estava a apreensão de ter que conversar informalmente com Audrey.

Depois, a lista de regras de Audrey. Havia tantas que mal conseguiria se lembrar, quem dirá obedecer a elas.

Além disso, o medo paralisante de ser vista em público com o vestido e os sapatos novos a espreitava. Uma coisa era desfilar por seu apartamento, imaginando-se uma femme fatale , mas usar de fato tudo aquilo da porta para fora, como a simples Alice Brown…? Certeza que iria tropeçar naqueles saltos e parecer uma idiota.

E agora a preocupação extra da maquiagem mal aplicada (por que ela não vinha praticando desde os 13 anos de idade, como todo mundo?).

E, para finalizar, a perspectiva excruciante de ver Sheryl Toogood de novo.

Imediatamente após sua conversa com Ginny, Alice tinha virado a noite compondo com todo o cuidado um e-mail para Sheryl. Agradecera educadamente pela oferta, mas recusara respeitosamente o emprego. Quanto mais pensava nas más uniões feitas por Sheryl por dinheiro, mais enojada se sentia. Receava vê-la novamente. Sheryl não era do tipo que aceitava rejeições, ainda que fossem por parte de Alice. Ela só faria um jantar líquido esta noite, decidiu, enquanto vasculhava a cozinha à procura de uma garrafa de vinho. Estava nervosa demais para comer. O máximo que podia fazer era servir o vinho numa taça. Por um momento, sentiu-se tentada a tomar diretamente no gargalo.