Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 22 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Audrey levou sua bandeja de jantar até a cozinha e serviu-se um xerez extragrande. Pickles, o gato, se enroscou em seus tornozelos, esfregando a pelagem amarelada em sua meia-calça e ronronando, feliz. Audrey carregou cuidadosamente seu copo de volta à sala de estar e se acomodou em sua poltrona favorita. A poltrona era o único assento na sala que era usado. O sofá de três lugares estava tão afofado e impecável quanto no dia em que fora trazido à sua casa, 11 anos atrás. Audrey nem sequer tirara a capa de plástico durante os primeiros anos, e mesmo agora, não conseguia se lembrar da última vez em que havia sentado nele. E nunca recebia convidados. Nunca havia ninguém para convidar.

A poltrona de Audrey, por outro lado, já vira muita ação. Os braços estavam escorregadios e puídos e várias molas sob o estofamento já tinham ido para as cucuias; mas era tão confortável quanto um par de pantufas velhas e tão acolhedor quanto um banho de banheira. Audrey passava muito tempo sentada ali; sete noites por semana, se não tivesse que dar uma de suas palestras sobre “O Segredo Para Encontrar Seu Par Perfeito”. Em algum lugar do passado, a poltrona tinha sido de um tom rosa-velho, mas ao longo dos anos, tinha mudado para uma cor de doce de leite e se moldado exatamente aos contornos do traseiro de Audrey. Na frente da poltrona havia um pequeno pufe, decorado com uma camada de pelos do Pickles e marcados por dois sulcos profundos, onde os pés de Audrey repousavam.

Audrey tomou um grande gole do xerez. Esta noite, nem sua série predileta de detetive estava prendendo sua atenção. A mente não parava de divagar e o enredo tinha se tornado incompreensível. Audrey acreditava piamente que assistir a séries de detetives era muito melhor do que a qualquer daqueles programas caros de neurolinguística comercializados na TV. Um fã de seriados de detetives tinha de ficar sempre atento. Uma dieta regular de reapresentações de Morse, Cracker e Prime Suspect mantinham sua mente em forma e rápida como um raio. Isto é, à parte desta noite. Hoje ela estava confusa e dispersa.

Levou o xerez aos lábios. Pickles pulou de repente em seu colo, fazendo o xerez de Audrey espirrar em sua boca e deixando um bigode grudento de álcool. Sentiu um lampejo de irritação, mas assim que veio passou. Não podia ficar brava com Pickles. Ele era sua companhia constante, seu único amigo verdadeiro. A despeito de quão duro fosse seu dia no trabalho, ele estava sempre esperando-a em casa, ronronando alegremente só por estar na sua presença. Pickles fazia Audrey se sentir amada, e em retribuição, ela lhe concedia uma rara tolerância. Eles estavam juntos no jogo, ela e Pickles.

Enquanto Pickles massageava seu colo, Audrey acariciava seu pelo diletantemente. Seus dedos percorreram o caminho familiar pelas costas, desde as orelhas, passando ao longo das laterais da coluna até a ponta do rabo, antes de começar novamente nas orelhas. Após três ou quatro passadas, tudo fora esquecido. Só o que Audrey podia ver era John.

Sempre que Audrey fantasiava com John, ela o imaginava em sua vida, não ela na dele. Que ela o imaginasse relaxando com um uísque em sua sala de estar, ou batendo panelas em sua cozinha enquanto lhes preparava um jantar romântico, não era mais do que natural. Ela nunca tinha visto a casa de John. Nem sequer sabia onde ele morava. Sempre que tentava tocar no assunto, ele dizia algo vago do tipo “não muito longe”, antes de, com naturalidade, trazer a conversa de volta a ela.

As noites de Audrey com John ocorriam inteiramente em território neutro. Eles se encontravam na segurança da porta da casa dela. Em sua excitação, ela se vestia antecipadamente e puía o carpete entre a cozinha e a porta da frente, bebericando goles de xerez encorajadores na primeira volta, e espiando pela janelinha manchada na segunda. E assim sucessivamente. Estava sempre esperando com ansiedade por seus encontros e nunca tivera nenhum motivo para convidá-lo a ultrapassar a soleira da porta e penetrar no terreno fértil do corredor.

Quando John chegava, ele beijava sua mão em cumprimento, dirigia até o local do baile e, então, quando a noite terminava, levava-a de volta para casa. Ele jamais havia aceitado quando ela oferecia uma saideira. Recusava graciosamente, dizendo: “Algo que aprendi ao longo dos anos é quando encerrar uma ótima noite. E esta noite foi exatamente isto… uma ótima noite.”

Portanto, Audrey tinha pouquíssima geografia a usar na hora de posicionar John em seus sonhos.

Mas o único lugar que conhecia — e conhecia muitíssimo bem — era o interior do carro dele. O nervosismo que sentia antes de suas noites juntos se acalmava no instante em que John abria a porta do passageiro do Audi e ela deslizava para dentro. As propagandas do carro na TV estavam certas em usar a sedução, pensou ela. O carro de John era uma máquina perfeita e ronronante. Desde o desenho discreto do painel até os bancos de couro bege, tudo naquele carro fazia com que Audrey se sentisse protegida. Ela deslizava a mão pelo interior da porta, saboreando sua solidez, enquanto John dava a volta até o banco do motorista. Ela respirava o aroma do carro e, silenciosamente, deliciava-se com a potência abafada do motor quando John acelerava, afastando-se de sua rua e dirigindo-se à noite que ambos teriam adiante.

Esse era o marco zero de suas fantasias. Não os sonhos vigorosos das mulheres mais jovens; Audrey sonhava com domesticidade e parceria. Ela imaginava John buscando-a no trabalho numa tarde chuvosa; imaginava-o levando-a de carro até o Lake District para um fim de semana romântico; imaginava a rotina prazerosa de uma ida ao supermercado numa manhã de sábado.

Tímida demais para olhar diretamente para John no começo da noite, Audrey disfarçadamente espiava suas mãos, tão masculinas, enquanto ele girava o volante, transportando-os pelas ruas escuras da cidade. Às vezes — se era verão — ele usava uma camisa de mangas curtas, o blazer esperando alinhadamente no banco de trás. Então, Audrey admirava seus antebraços, surpreendentemente musculosos; sua pele tão uniforme e cheia de vitalidade que ela morria de vontade de se inclinar e tocá-la.

Esses eram seus momentos favoritos. Audrey se orgulhava de ocupar, na vida, o banco do motorista, mas a excitação de um homem guiando-a pela cidade escura fazia com que se sentisse tão feminina! Rendia-se! Vislumbrava seu reflexo na janela do passageiro e se espantava. As rugas tinham desaparecido, os anos de decepção tinham se apagado; ela parecia inocente e pueril, como uma adolescente em seu primeiro encontro.

Audrey estremeceu. O programa de detetive tinha terminado e o noticiário das dez já estava se encerrando. Em seu colo, Pickles jazia imóvel, de olhos fechados. Ela olhou para seu xerez pela metade. Era tarde demais para terminá-lo agora; estava na hora de ir para a cama. Gentilmente, colocou Pickles no chão e limpou sua saia. Pelo de gato flutuou no ar à sua volta.