Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 20 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Audrey sempre ficava ansiosa pela reunião bimestral da Associação das Agências de Relacionamentos. Era uma oportunidade de ouro para que os chefes e funcionários das agências não só da cidade, mas do país inteiro, fizessem network. As reuniões eram realizadas na última quinta-feira, mês sim, mês não, e todas as agências desligavam os telefones, fechavam as portas e seguiam para a sede da ADAR. Não se organizava um só encontro num raio de duzentos quilômetros. Era como se o Cupido tirasse umas miniférias.

Às 14h15 em ponto, Audrey encerrou os trabalhos e conduziu suas garotas na curta caminhada através do centro da cidade até o QG da Associação para a reunião que começaria às 15h. Gostava de chegar pontualmente; transmitia uma boa imagem. Além disso, dava a ela a oportunidade de conversar com o Presidente Ernie, de profissional para profissional. Mas hoje irritou-se ao ver que Sheryl Toogood e a equipe da Pombinhos já estavam lá. Sheryl tinha tomado a cadeira ao lado de Ernie e estava sentada, descalça e com as pernas encolhidas sob o corpo, como uma gata.

— Aud! — Sheryl se afastou penosamente de seu tête-à-tête com Ernie. — Que óóótimo que você pôde vir.

Audrey se eriçou. Desde quando era função de Sheryl dar-lhe as boas-vindas à reunião? E quando fora, em seus 11 anos como membro da Associação, que Audrey não “pudera ir”?

— Boa-tarde, Srta. Toogood, Sr. Presidente — respondeu friamente. Alguém precisava manter as convenções.

Como colegiais risonhas, Bianca, Cassandra, Hilary e Alice seguiram em frente, pendurando os casacos nas cadeiras e tagarelando informalmente com o pessoal da Pombinhos, enquanto se agrupavam em volta da chaleira, escolhendo seus biscoitinhos. Audrey notou que todos os assentos mais próximos de Ernie já estavam tomados. Franziu os lábios e fingiu se ocupar com a leitura do mural de avisos da Associação.

Houve um barulho na porta e Barry Chambers e sua equipe da Um Lindo Romance entraram na sala, seguidos de perto por David Bennett da Parceiros Perfeitos e Wendy Arthur da Ligações Amorosas. O nível de ruído se elevou conforme as pessoas se cumprimentavam e se serviam de chá.

— Audrey! — Wendy se separou do tumulto e foi direto até o mural. — Você está ótima. Que bom te ver. Como vai?

— Vou bem — resmungou Audrey. Wendy sempre monopolizava sua atenção nas reuniões da Associação. Ela só tinha uma agência minúscula. Audrey ficava irritada por ela se considerar da mesma liga.

Wendy mexeu seu chá com entusiasmo. — Me diga, como vai aquele seu marido simpático?

Audrey analisou Wendy atentamente à procura de uma farpa em sua pergunta.

— Bem.

— E como vão os negócios?

— Prosperando. — Audrey deu sua resposta padrão. A Associação era amigável, nas aparências, mas ela não se deixava enganar. Por baixo do verniz, todos estavam resolvidos a expandir suas listas de clientes… mesmo os peixes pequenos como Wendy.

Wendy se aproximou um pouco mais.

— Você soube do Nigel? — sussurrou de forma conspiradora e mergulhou um biscoito no chá.

Audrey ficou desconcertada, dividida entre a promessa de segredo feita a Ernie e o medo de parecer a última a saber. Lutou consigo mesma por um momento.

— Mas é claro! — exclamou intencionalmente. — Que descuido tirar os olhos da bola daquele jeito. Um erro tão amadorístico! Mas a perda dele é nosso ganho. Fomos inundados por clientes insatisfeitos da Cabana do Cupido.

— Opa, nós também. — Wendy assentiu com vigor, não parecendo nada convincente.

Audrey levantou uma sobrancelha num gesto que esperava que fosse sua feição mais contundente e cética.

— Você está bem, Audrey? — Wendy parecia assustada. — Nossa, por um minuto achei que você estivesse tendo um derrame.

Felizmente, foram distraídas por um leve movimento à porta quando Nigel entrou de mansinho, com o rosto pálido e preocupado. Audrey viu Alice ir até ele e lhe dar uma xícara de chá, tocando em seu braço enquanto dizia algo solidário. Audrey franziu a testa. Como Alice sabia sobre a Cabana do Cupido? Não podia ter sido através de Bianca; ela lhe havia dito expressamente que era segredo. Mas parecia que todo o universo das agências de relacionamentos estava sabendo. Será que ninguém mais entendia o significado da palavra “discrição”?

— Senhoras e senhores — chamou Ernie. — Todos poderiam se sentar, por favor? Vamos começar.

Irritada, Audrey notou que a única cadeira vazia que restava era entre Alice e Wendy. Com relutância, enfiou-se entre as duas.

Na cabeceira da sala e usando um elegante terno cinza que fazia seu cabelo grisalho brilhar, Ernie habilidosamente fez todos ficarem em silêncio.

— Certo, bem, obrigado por abrirem mão de uma preciosa tarde de trabalho… (houve aclamações por parte dos puxa-sacos). Não há muito na pauta de hoje, então seremos breves. Obviamente, o assunto na boca de todo mundo é o baile vindouro da ADAR… (mais aclamações), portanto, sem mais delongas, gostaria de lhes apresentar Sheryl Toogood, que está fazendo um trabalho maravilhoso na organização do evento deste ano.

Houve um vigoroso estrondo de aplausos e Sheryl se levantou. Audrey revirou os olhos. Sheryl usava um terninho rosa-bebê com uma saia ofensivamente curta e um decote perigosamente profundo. Barry Chambers e David Bennett, de repente, começaram a prestar atenção. De todos os homens na sala, apenas Nigel pareceu não ficar enfeitiçado; sua atenção, em vez disso, enraizou-se num ponto no meio do carpete.

— Primeiramente — Sheryl fez uma pausa, dramática —, Ernie e eu estamos encantaaaados por tantas carinhas novas que irão ao baile como “aprendizes de casamenteiro”. Que safra de talentos temos nesta sala! — arrulhou ela e, lentamente, de forma muito deliberada, olhou direto para Alice.

O queixo de Audrey caiu, com surpresa. Com certeza devia estar enganada. Mas, a seu lado, Alice se remexeu na cadeira e começou a ficar ruborizada. Audrey não podia acreditar. Por que diabos Sheryl estava olhando para Alice? O que ela queria dizer com aquilo? E o que ela tinha dito mesmo? Ernie e eu estamos encantados. Então era sobre isso que eles estavam fofocando antes! Estavam rindo da “aprendiz de casamenteira” da Mesa Para Dois. O pescoço de Audrey ficou vermelho e seu sangue ferveu. Sabia que não devia ter convidado Alice para o baile. Bem, não iria fazer papel ridículo. Já se cansara de Alice fazendo-a passar vexame, com sua bicicleta idiota e seus cardigãs XXG. Iria chamá-la em seu escritório logo cedo no dia seguinte e lhe dizer que tinha havido um erro. E, então, convidaria Bianca para o baile, em vez dela.

Audrey baixou o olhar. Os nós de seus dedos estavam brancos. Obrigou-se a respirar fundo.

Finalmente, conforme os minutos foram passando, algumas palavras de Sheryl começaram a penetrar sua mente.

— E, daí, o prêmio será entregue — anunciou Sheryl, seu busto trepidando de excitação, fazendo Barry Chambers e David Bennett se remexerem estranhamente na cadeira — pela nossa celebridade local, a atriz de novelas Lucy Lucinda!

Audrey recobrou a atenção.

— Prêmio? Que prêmio? — sibilou para Alice.

— Para a Agência do Ano! Vai começar este ano. Ernie vai escolher a agência vencedora.

Audrey piscou com descrença. Um prêmio! Por que ela não tinha ouvido nada a respeito daquilo?

— Obrigado — disse Ernie suavemente quando Sheryl, muito relutante, cedeu a palavra. — Tenho certeza de que todo mundo concorda que o baile deste ano promete, está parecendo ser melhor do que nunca. Obrigado, Sheryl, por seus fantásticos esforços.

Ernie tagarelou sobre outros itens dos negócios antes de perguntar:

— E, finalmente… atualizações dos sócios. Alguém tem alguma alteração de equipe a reportar para o grupo?

Todos os olhos se voltaram para Nigel, que ainda contemplava o carpete.

Silêncio.

— Hã-hum. — Uma tossezinha veio da frente da sala. — Na verdade, eu tenho. — Sheryl estava novamente de pé. — Senhoras e senhores, gostaria de apresentar o Matteus. — Ela estendeu uma imensa unha rosa-bebê na direção de um jovem chiquérrimo e inegavelmente bonito. Matteus se levantou e fez uma mesura diante do grupo. Pelo canto do olho, Audrey viu Cassandra dar uma cotovelada em Bianca e murmurar “caramba!”. Ela apertou os lábios. Por que suas garotas tinham de vexá-la toda vez?

— Matteus é novo na área — continuou Sheryl —, mas ele vem com um currículo fantástico. Acaba de deixar a equipe de gerência da

NamoroParaDesesperados.com!

Houve murmúrios de admiração. A NamoroParaDesesperados.com era o maior site de relacionamentos do país. Angariava mais membros novos numa semana do que todas as agências da ADAR conseguiam juntas em seis meses.

— Claro, todos nós sabemos que as compatibilizações feitas por casamenteiros profissionais são muito mais propensas a levar ao amor do que os trabalhos no estilo faça-você-mesmo pela internet — Sheryl pregou à audiência, com um sorriso intencional —, mas a extensão da experiência de Matteus, para não falar das fortes habilidades interpessoais — Cassandra cutucou Bianca de novo; até Wendy já tinha começado a se abanar com a agenda — … fazem dele a cereja que faltava ao bolo da Pombinhos.

— Viva! — Ernie conduziu uma salva de palmas e Matteus sorriu com júbilo.

Houve uma pausa.

— Mais alguém? — perguntou Ernie. Mais uma vez, Nigel pareceu distraído, isolado em sua própria desgraça pessoal. — Nesse caso — Ernie pareceu desapontado —, a reunião está encerrada.

A sala ganhou vida com as mulheres marchando na direção de Matteus. Elas o rodearam, com olhos brilhantes e faces rosadas. Até Wendy se juntou. Audrey franziu a testa e, então, percebeu de repente que a debandada não deixara ninguém entre ela e Nigel. Devagar, e com pesar, ele se virou na direção dela, abrindo a boca como se fosse falar alguma coisa. Audrey se sobressaltou. Ele não podia de forma alguma falar com ela. O fracasso era contagioso e ela não queria ser vista socializando com um naufrágio.

— Oh, Sr. Presidente! — chamou ela, depressa. — Posso dar uma palavrinha com o senhor?

Ernie estava absorto numa discussão com Sheryl e pareceu irritado com a interrupção.

— Em particular — pediu Audrey enfaticamente, desviando Ernie de Sheryl e levando-o a um canto silencioso.

— Sim? — perguntou ele com certa impaciência.

— Sr. Presidente, é sobre o baile.

— Sim?

— Sobre a minha “aprendiz de casamenteira”. — Ela se moveu para bloquear a linha de visão dele. — Eu gostaria de saber se é possível mudar de ideia? Quero levar a Bianca.

Agora conseguira sua atenção. Ele olhou para ela de forma penetrante.

— Mas a Bianca já foi ao baile. Várias vezes, se me lembro bem. E, além disso, Alice já foi convidada.

— Mas eu não tinha me dado conta do significado da minha escolha.

Ernie olhou fixamente para ela. Audrey tentou parecer injustiçada.

— Eu não tinha percebido o tamanho da aprovação profissional que implicava ser convidada como “aprendiz de casamenteira”.

— Mas Sheryl deixou isso muito claro.

— Não o bastante — retrucou Audrey enfaticamente, contente em ter a chance inesperada de culpar Sheryl. — E levar Alice daria a impressão errada às minhas garotas.

— Mas você não pode convidá-la e depois mudar de ideia!

— Ah, não se preocupe com isso!

— Pense em como seria desmoralizante para a garota!

— Não acho que seria tão rui…

Ernie parecia furioso.

— Não, Audrey! Não vou permitir isso. Alice é um talento genuíno. E, falando sério… não pensei que você fosse capaz de ser tão cruel.

Ele se virou, deixando Audrey se sentindo aborrecida. Não era justo. Por que tudo que suas garotas faziam ou diziam, de alguma forma, refletia prejudicialmente sobre ela?

Ernie tinha voltado a conversar baixinho com Sheryl e os outros membros da Associação ainda estavam babando em cima de Matteus. Só Audrey e Nigel estavam de fora do grupo. Sem mover sua linha de visão um só milímetro — contato visual poderia ser interpretado como um convite à conversa —, Audrey marchou de volta à sua cadeira, apanhou seus pertences e foi fumegando até a porta. Deixou a tagarelice da reunião para trás e saiu pisando duro até o ponto de ônibus.