Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 65 de 90

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Par Perfeito

Alice

— Então…

 

Bianca e Cassandra estavam olhando para ela, numa baita expectativa.

— É um menino! — Alice sorriu triunfantemente, deixando a porta do escritório se fechar atrás de si. — Um menino lindo, forte e perfeito!

Bianca e Cassandra gritaram numa comemoração ruidosa, enquanto Audrey assentiu com a cabeça, apertou os lábios e voltou para seu aquário.

— Excelente, Hilary! — elogiou Bianca. — Finalmente ela deu a Kevin um aliado naquela casa cheia de mulheres! Quantas filhas eles têm, mesmo?

— Duas! — Alice tirou o casaco. — E, segundo ela afirmou ontem à noite, não haverá uma terceira. Ela disse a Kevin que iria processá-lo se ele se aproximar dela novamente!

— Ela diz isso agora! — Cassandra riu.

Alice se soltou em sua cadeira, exausta, mas tentando se inspirar com as boas notícias.

— O que é isto? — perguntou, segurando o bilhete de Max.

As garotas deram de ombros e se afastaram. Ela abriu o bilhete.

* * *

 

Alice fechou os olhos e levou o bilhete ao peito. Sentiu lágrimas formigarem sob suas pálpebras. Ela não estava errada. Não estava perdendo o juízo, afinal. Tinha acertado em correr aquele risco. Tinha feito um par: um par brilhante. Havia ajudado duas pessoas a encontrar o amor. De repente, sentiu-se relaxar de alívio.

— Ei, olá? — chamou uma voz no escritório.

Alice abriu os olhos. Uma jovem — linda por sinal — estava parada na porta.

— Mesa Para Dois, certo? — perguntou ela para a sala toda.

Pelo canto dos olhos, Alice viu Audrey se agitar em seu escritório de vidro. Podia ver por quê: a mulher certamente chamava a atenção. Tinha uma beleza clássica, como um quadro pré-rafaelita e, ao mesmo tempo, era totalmente moderna, usando um trenchcoat e tênis cintilantes. Tinha uma leve camada de sardas fora de época na pele inglesa perfeita e uma cabeleira avermelhada e indomada. Todas as garotas do escritório se empertigaram na cadeira. Se ela era uma cliente nova, todas iriam querê-la em seus cadastros.

Audrey se moveu primeiro, rápida como uma flecha.

— Sim, sim, nós somos a Mesa Para Dois. Por favor, por aqui, querida. Entre e sente-se no meu escritório. Suponho que esteja aqui para encontrar o amor? Sou a dona da agência; encantada em conhecê-la. Você gostaria de uma xícara de chá? Cassandra… a chaleira!

Mas a jovem não moveu um músculo. Em vez disso, olhou para Audrey de cima a baixo.

— Você… — começou ela, a voz repleta de desdém — … só pode ser a Audrey.

Audrey parou, no meio de seu gesto.

— Hã, sim. Sou, sim.

Ela pareceu desconcertada. O escritório inteiro estava olhando, em estado de perplexidade.

A mulher assentiu levemente com a cabeça, como se confirmasse algo para si mesma.

— Faz sentido — disse ela, breve. — Não, você não.

Houve uma inalação coletiva. Ninguém falava com Audrey daquele jeito. As bochechas de Audrey se avermelharam como se tivessem sido estapeadas.

Mas a jovem estava varrendo o escritório com o olhar, inspecionando as demais mulheres.

— Quero a Alice — declarou ela em voz alta. — Dizem pela cidade que ela é a melhor.

De repente, todos os sons possíveis pareciam ter sido sugados do escritório. As sobrancelhas de Cassandra se elevaram até a raiz dos cabelos, e a boca de Bianca se paralisou num “O” mudo. Audrey ficou parada, silenciosa como um túmulo. Lentamente, hesitando, Alice empurrou sua cadeira para trás e se levantou.

— Sou Alice — disse ela baixinho, apertando o cardigã instintivamente em volta do corpo, em busca de proteção. Mas o rosto da jovem, de repente, se abriu num sorriso delicioso.

— Perfeito! Posso ter uma conversinha com você?

Por um instante, Alice ficou perplexa demais para se mover. Quem era aquela mulher e por que havia dispensado Audrey daquele jeito? E, o mais importante: como tivera a coragem? Mas, então, Bianca tossiu discretamente e Alice entrou em ação. Ela ignorou o peso do olhar ferido de Audrey e conduziu a jovem para a sala de entrevistas, fechando cuidadosamente a porta.

A jovem olhou ao redor da sala.

— Então, esta é a sala dos corações partidos, hein? — Ela sorriu e apontou para a caixa de lenços que ficava na mesinha entre as duas cadeiras de vime.

— Algumas pessoas têm dificuldade para falar sobre quem desejam conhecer, principalmente se já vêm procurando há muito… — explicou Alice em piloto automático, antes de se deter. A mulher a estava examinando com atenção.

— Sim — confirmou a jovem, claramente satisfeita com algo que vira. — Você é exatamente como ele descreveu. — E se sentou.

Alice sentiu que enrubescia. Como quem a descrevera? E por que essa mulher tinha pedido especificamente por ela?

— Perdão — disse ela, ao sentar-se na cadeira vazia. — Estou confusa. Você está interessada em contratar a Mesa Para Dois?

— Deus do céu, não! — A mulher riu. — Não estou aqui para que me arranjem um relacionamento… estou aqui para arranjar um relacionamento para você!

— Como é que é? — Alice quase engasgou.

A mulher suspirou.

— Homens… Eles podem ser tolos às vezes, não é? São ótimos para as coisas complicadas, como pregar quadros e consertar tomadas. Mas quando se trata das coisas simples… como conversar… são uns inúteis! Todos esses anos de evolução e ainda não conseguem abrir a boca e fazer com que as palavras certas saiam de lá.

O cérebro de Alice zunia sem parar. Do que ela estava falando?

— Particularmente meu pai — continuou a jovem.

— Seu pai?

— Sim, você o conhece. Olhos azuis, cabelo levemente grisalho; sujeito gentil. Bem bonito, imagino, se analisar com cuidado.

— John… — A palavra escapou da boca de Alice como um sussurro. Ela poderia realmente estar se referindo a John? Aquela era… aquela era a filha de John? Ela parecia ter a idade certa, e certamente era bonita o bastante para ser dele. — Emily? — perguntou.

— A própria! — Emily sorriu. Ela se retorceu para a frente na cadeira, a voz se suavizando. — Olha, Alice, me desculpe por despencar aqui no seu trabalho, mas eu tinha que fazer alguma coisa. Meu pai teria um ataque se soubesse que estou aqui, mas eu tenho 23 anos; ele não pode mais me colocar de castigo! E você sabe melhor do que ninguém que o amor, às vezes, precisa de uma mãozinha. O negócio é o seguinte: eu amo o meu pai e quero que ele seja feliz… e ele acha que você é a mulher certa para isso. É frustrante demais ficar sentada e assistir enquanto ele estraga tudo. Ele não tem culpa, só está um pouco… sem prática.

— Sem prática?

— Com as mulheres.

A despeito de si mesma, Alice não pôde evitar um sorriso amarelo.

— Tenho certeza de que isso não é exatamente verdade.

— Pois é… olha, com relação às mulheres… eu sei sobre a outra noite e o que ele contou a você…

Alice se ruborizou e baixou os olhos para o colo.

— Parece que ele fez a maior confusão — declarou Emily secamente. — Mas é o que ele não te contou que é importante. Eu não te culpo se você quiser sair correndo na direção contrária. Pai do céu, eu faria isso! Ficaria imaginando todo tipo de coisa e a maioria delas nojenta. Mas acredite em mim: meu pai não é o que você está pensando.

— Mas ele é… — começou Alice e, então, rapidamente se calou. O que deveria dizer? Não queria ser rude com relação ao trabalho dele na frente da própria filha.

— … um acompanhante; sim, eu sei — decidiu Emily por ela. — E eu sei que, se eu fosse você, estaria pensando que “acompanhante” é só um termo educado para “gigolô”.

Mais uma vez, Alice se flagrou enrubescendo. Era como se Emily espiasse dentro da cabeça dela e lesse seus pensamentos. John estivera certo: ela era mesmo inteligente que só ela.

— Bem, estou deduzindo que essa seja outra coisa sobre a qual ele não foi muito claro — continuou Emily. — Acredite em mim, se meu pai fosse um gigolô, ele teria ficado desempregado em uma semana. Não acho que abstinência faça parte dos requisitos desse emprego.

— Abstinência? — Alice se esqueceu momentaneamente de sua falta de jeito e encarou Emily, em total confusão.

— Olha, eu sei que sou só uma estranha que invadiu seu trabalho, mas posso te pedir um favor enorme? — Emily olhava para ela com sinceridade. — Se ele tentar explicar, você escuta? Por favor? E, depois, se você ainda quiser sair correndo, tudo bem. Mas… independentemente da solidariedade feminina e tudo mais, eu não te pediria para dar uma chance a ele se não achasse que ele é um cara bom. Existe um monte de homens safados lá fora, mas eu prometo a você que meu pai não é um deles.

Alice lutava consigo mesma. Estava naturalmente programada para fazer os outros felizes, e sempre preferia dizer “sim” em vez de “não”. E Deus sabia que seu coração queria dizer sim a Emily. Mas ela se deteve. Lembrou-se de sua resolução do fim de semana. Tinha que parar de ouvir seu coração; o coração só lhe causava problemas. Precisava se lembrar do cérebro.

— Eu quero acreditar em você, de verdade — disse ela, sem jeito. — Mas ele é seu pai; você está fadada a dizer coisas boas sobre ele. E eu preciso me proteger. Não posso deixar que me façam de boba novamente.

— Escute, Alice — Emily olhava para ela com gentileza —, eu sei que você não quer se machucar… mais — corrigiu-se. — Mas pergunte-se o seguinte: lá no fundo, no seu íntimo, você sabe que meu pai jamais iria querer fazer ninguém de bobo, não sabe? E, principalmente, não iria querer fazer você de boba.

Alice se retorceu. Não podia olhar para Emily. Em vez disso, tentou se concentrar na dor aguda e profunda dos últimos dias, a decepção que esmagava seu peito, que fazia com que fosse tão difícil respirar e o gosto horrível que invadia sua boca sempre que pensava no trabalho de John.

Emily se levantou para partir.

— Ele está completamente doido por você, sabia? — disse ela, baixinho. E, então, fechou a porta gentilmente e desapareceu.